O iminente colapso no sistema de saúde de Pernambuco devido ao novo coronavírus levou o Conselho Regional de Medicina do estado, o Cremepe, a publicar uma recomendação orientando médicos a estabelecerem uma pontuação para os pacientes na hora de decidir quem terá prioridade nos já raros leitos de UTI e ventiladores.

Grosso modo, a prioridade será de pacientes que têm mais chance de viver. Pernambuco já tem a segunda maior taxa de letalidade pela doença do país, com 5,31 mortes a cada cada 100 mil habitantes, São Paulo (4,46) e Rio (4,27). Em primeiro lugar está o Amazonas, com taxa de 7,33.

Até 28 de abril, o estado tinha 5.724 casos confirmados do novo coronavírus – como em todo o país, a subnotificação é imensa – e 508 mortes em decorrência da doença. A taxa de ocupação de UTIs e leitos de enfermaria chegou a 97% e a 86%, respectivamente.

O Escore Unificado para Priorização, adaptado de um modelo já usado nas áreas de geriatria e oncologia, atribui de um a quatro pontos a partir do quadro clínico dos pacientes e das chances que eles têm de responder bem ao tratamento. Para isso, os médicos devem levar em conta três critérios:

– Chance de sobrevivência a curto prazo
– Chance de sobrevivência a longo prazo (quando houver comorbidades)
– Chance de sobrevivência a longo prazo com qualidade de vida

De acordo com as observações no documento publicado pelo conselho, se dois pacientes tiverem pontuação igual e só houver uma vaga disponível, a prioridade deverá ser de gestantes e pessoas mais jovens.

Fluxuograma adaptado pelo Cremepe para ajudar médicos a escolherem quem terá direito as vagas de UTI e respiradores.

Fonte: Conselho Regional de Medicina de Pernambuco

O conselho orienta ainda que todas as internações em UTI sejam avaliadas diariamente e reconsideradas de acordo com a resposta do paciente à terapia intensiva. Se apresentar piora clínica, o médico poderá indicar outras formas de tratamento paliativo, e assim liberar a vaga para outra pessoa.

De acordo com o boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria Estadual de Saúde na terça, 28, foram registradas 170 novas internações de pacientes que precisavam de UTI ou de respiradores. Foram contabilizadas 58 mortes num só dia, o maior número registrado em 24 horas no estado até agora. Atualmente, 889 pessoas com a covid-19 estão internadas no estado, 181 delas em UTI e 718 em enfermarias de hospitais públicos ou privados. Dos 185 municípios do estado, 112 já têm registros de casos graves da covid-19.

O infectologista Bruno Ishigami, que trabalha com pacientes com coronavírus no Hospital Universitário Oswaldo Cruz, no Recife, compara a situação atual a de um cenário de guerra. “Devemos priorizar quem está [em situação] menos grave, quem tem menos comorbidades e melhor prognóstico, ou seja, quem tem mais chance de viver”.

No sábado, o médico tentou transferir uma mulher da emergência para a enfermaria do hospital, mas não conseguiu. “Fui informado pela central de leitos de que já havia 89 pessoas na frente dela e 120 pacientes na fila de espera por uma vaga de UTI, mas esses dados não são divulgados oficialmente”, ele me disse.

UPAs sem leitos

Mas o problema começa antes disso, nas Unidades de Pronto Atendimento, as UPAs, que não foram estruturadas para atender tantos pacientes ao mesmo tempo, como me disse uma médica que pediu para não ser identificada. A UPA é a porta de entrada dos pacientes que precisam de atendimento de urgência e emergência. É lá que eles são estabilizados e encaminhados para os hospitais em que ficarão internados. Mas aí há um gargalo.

Na unidade em que a médica trabalha, no Recife, a sala de isolamento possui apenas oito leitos, mas já houve dias em que 20 pacientes se acumulavam à espera de atendimento. “Não tínhamos sequer fonte de oxigênio para todos eles”, ela me contou.

Nessa mesma UPA, a sala vermelha, destinada a pacientes mais graves, tem apenas cinco leitos e cinco respiradores, sendo um deles indicado apenas para transportar doentes de uma ala para outra. “Não sei como vai ser quando chegarmos ao pico da pandemia. Desde agora já não temos condição, de receber, estabilizar e transferir os pacientes”, afirmou.