Abe Bonowitz estava no Facebook no começo do mês quando percebeu que alguém tinha curtido várias fotos de sua página. Eram todas fotos antigas de um amigo, Jerry Givens, também ativista contra a pena de morte. “Tive a ideia de conferir a página dele”, disse Bonowitz. E foi assim que descobriu que Givens tinha morrido. Ele teve covid-19.

Givens tinha 67 anos e fazia parte da diretoria do grupo abolicionista Death Penalty Action, Ação Contra a Pena de Morte, de que Bonowitz foi cofundador em 2017. Ele era o aliado mais improvável. Em sua vida pregressa, a serviço do Departamento de Administração Penitenciária da Virgínia, Givens fora o principal carrasco estadual. Entre 1982 e 1999, ele realizou um total de 62 execuções: 25 na cadeira elétrica, e 37 com injeção letal. Ao longo de boa parte desse período, a Virgínia só perdia para o Texas em número de execução de condenados – “dias infelizes”, segundo Michael Stone, diretor-executivo do grupo Virginians for Alternatives to the Death Penalty, o Moradores da Virgínia pelas Alternativas à Pena de Morte, ou VADP na sigla em inglês.

Givens perdeu o emprego e o anonimato depois de ser preso por lavagem de dinheiro em 1999. Depois de uma temporada em um presídio federal, começou a achar cada vez mais difícil se afastar do que havia feito. As execuções haviam se infiltrado em seus pensamentos, e estavam impactando outros aspectos de sua vida. Quando Givens procurou ajuda para resolver uma questão jurídica, alguns anos depois de ser libertado, foi apresentado a Jon Sheldon, um advogado de defesa em casos de pena capital que era presidente do grupo VADP. A conversa entre eles chegou aos anos de serviço público de Givens. Sheldon imediatamente percebeu a relevância daquela história.

O que ele antes considerava um trabalho que procurava realizar da forma mais profissional e humana possível havia se tornado uma prática que ele não conseguia mais defender.

“Jerry era muito cauteloso”, recorda Sheldon. Naquele momento, “ele tinha sentimentos conflitantes sobre seu papel na Administração Penitenciária.” Ele pediu para se encontrar com Sheldon em algum lugar discreto, e sugeriu uma parada de caminhoneiros na rodovia I-95, logo ao norte de Richmond. Lá, Givens falou enquanto Sheldon ouvia. “Eu lembro de pensar ‘cara, esse sujeito tem TEPT [transtorno de estresse pós-traumático]”, conta ele. Mas Givens também lhe pareceu cuidadoso e gentil. Por fim, Sheldon convenceu Givens a compartilhar sua história.

Ao longo do tempo, as opiniões de Givens sobre a pena de morte evoluíram. O que ele antes considerava um trabalho que procurava realizar da forma mais profissional e humana possível havia se tornado uma prática que ele não conseguia mais defender. Ele se tornou uma figura pública, que dava entrevistas a jornalistas e depoimentos em audiências públicas. “Eu não me lembro de jamais tê-lo visto recusar um pedido para dar uma palestra ou entrevista”, disse Stone. “Ele ia falar de bom grado até com alunos de Ensino Médio que precisassem fazer um trabalho sobre pena de morte.”
“Era uma espécie de missão”, contou Bonowitz. “Ele sentia que tinha um propósito, e talvez uma obrigação, de consertar o que pudesse em um sistema de que ele havia sido parte, mas que entendia que estava errado.”

Givens tinha especial credibilidade entre aqueles que apoiavam as execuções em nome da lei e da ordem. Em 2012, quando ativistas californianos estavam promovendo a inclusão da Proposição 34 como plebiscito para abolir a pena de morte, Bonowitz levou Givens para um tour de palestras que atravessou o Vale Central, uma parte conservadora do estado. Ron McAndrew, ex-carcereiro da rede penitenciária estadual da Flórida, se uniu a eles; ele e Givens ficaram próximos durante a viagem. “Cada vez que o Abe chegava a 8 ou 10 milhas acima do limite de velocidade, Jerry me cutucava com a perna”, recorda-se McAndrew.

Para McAndrew, Givens era uma alma afim. “Conversamos sobre as execuções em que estivemos envolvidos. E sobre como haviam nos afetado pessoalmente.” McAndrew só conseguira compartilhar sua história em público depois de anos de pesadelos e excesso de álcool. Era um alívio “admitir para um grupo grande de pessoas que eu tinha sido traumatizado pelo trabalho. E que muitos amigos meus tinham sido traumatizados.” Ele conta que, juntos, haviam formado um “clubinho secreto”, e que se falavam ao telefone, “meio que ajudando um ao outro, como os alcoólatras, se poderia dizer”.

Na Califórnia, contando suas histórias em sequência, McAndrew viu o impacto que Givens causava quando falava. “Você olhava para o público e sabia que tinham sido fisgados por ele”, conta. Ele descobriu que tinham estilos diferentes, e formas diferentes de lidar com o problema. Para McAndrew, a saída foi uma combinação entre religião e anos de terapia por insistência de sua esposa. Já Givens “fortalecia sua determinação pela fé”.

Confinado internamente

É difícil saber com certeza como Givens contraiu o coronavírus. Os primeiros relatos ligavam sua doença a um avivamento realizado em março na Igreja Batista de Cedar Street em Richmond, onde Givens cantava no coral. Uma semana depois do evento, o departamento de saúde local notificou a igreja de que um dos participantes tinha apresentado teste positivo para covid-19.

A sobrinha de Givens, Valerie Travers, conta que ele começou a se sentir mal no meio de março, e foi diagnosticado com pneumonia. Ele recebeu uma prescrição de antibiótico, mas piorou. Alguns dias depois de dar entrada no hospital, seu exame de covid-19 deu positivo. Em pouco tempo, ele foi para um respirador.

Como muitos outros que sucumbiram ao vírus, antes de morrer Givens parecia estar melhorando. Todos os dias sua família recebia um telefonema de manhã e outro à noite, e as notícias indicavam melhora. Em 13 de abril, Travers conta que sua mãe desligou o telefone e elas “agradeceram a Deus porque ele estava indo bem e tendo um bom progresso”. Poucas horas depois, porém, o telefone tocou de novo. “E eu ouvi minha mãe gritando e chorando.”

Na página de Givens no Facebook, transformada em memorial, as pessoas em luto que escrevem no livro de visitas o descrevem como uma figura paterna, consultor e mentor, que se importava profundamente com os jovens. “Ele sempre estava disponível para conversar conosco quando precisávamos, e se certificar de que estávamos na direção certa”, conta Travers. Givens presenciou muita violência no bairro onde cresceu; perdeu seu pai para as drogas, e então sua mãe precisou cuidar sozinha dele e de seus irmãos. Na infância, primeiro queria ser policial, depois jogador profissional de futebol americano. Mas em vez disso, em 1974 conseguiu um emprego no Departamento de Administração Penitenciária da Virgínia.

Jerry Givens com Abe Bonowitz, no centro, à esquerda, diante da Suprema Corte dos EUA em 2011, no evento anual de Jejum e Vigília pela Abolição da Pena de Morte.

Jerry Givens com Abe Bonowitz, no centro, à esquerda, diante da Suprema Corte dos EUA em 2011, no evento anual de Jejum e Vigília pela Abolição da Pena de Morte.

Foto: Scott Langley

Num breve livro de memórias publicado em 2012, Givens se recorda de como seu chefe o abordou para integrar a equipe de execuções. “Nós nos reunimos em uma sala no porão do Pavilhão A, um lugar que chamamos Porão Leste ou Câmaras de Execução”, escreveu. O espaço não era usado desde o começo dos anos 60. Quando o estado se preparou para retomar as execuções em 1982, Givens precisou mudar a forma como via a si mesmo: de alguém que se dispunha a salvar as vidas dos homens em seu turno de vigia, para alguém que poderia matá-los. “Eu soube naquele momento que precisaria incorporar o modo de pensar de um carrasco”, escreveu.

Ele nunca contou a sua família o que fazia. Travers se recorda de como os uniformes dele estavam sempre limpos e passados quando ele ia trabalhar. “Achávamos que ele era só um guarda”, conta. “Acho que todos pensávamos assim.” Evelyn, irmã de Givens, contou à Richmond Magazine, uma revista local, como a família descobriu o passado dele, ao ler uma notícia sobre sua prisão. “Aquilo doeu em mim porque sou contra a pena de morte”, disse ela. “Toda a minha família é contra. Tentei apagar isso da minha cabeça. Tentei não pensar a respeito, mas às vezes acontecia, e eu pensava, ‘ah, ele matou 62 pessoas'”.

“Acho que ele se arrependia”, prosseguiu. “Acho que isso despertava algum sentimento nele. Eu tentava imaginar também como o estado mental dele poderia ser afetado por manter algo tão grande confinado internamente. Ele precisava de Deus na vida para dar suporte mental, físico, emocional, porque isso certamente é desgastante. As famílias dos que foram executados aparecem na TV, e você pensa ‘ah, fui eu que contribuí para isso. Fui eu que pratiquei essa execução’. Você se volta para Deus e pergunta, ‘Deus, me perdoa?’ E se Deus pode perdoar você, então você precisa se perdoar.”

Trauma e Perdão

Nem todos conseguiam perdoar Jerry Givens. Dentro do movimento abolicionista – e entre as famílias dos homens que ele matou – havia muitas pessoas que simplesmente não conseguiam superar o que ele tinha feito. Ainda assim, sua vida também oferecia um testemunho forte daquilo que os abolicionistas defendem: que todas as pessoas estão acima dos seus piores atos; que todas as pessoas têm capacidade de mudar.

“Mesmo que as pessoas se revoltem com o que ele fez”, diz Bonowitz, “a verdade das palavras que saem da boca dele é inegável”. Givens talvez tenha sido incomparável, de muitas formas, mas inúmeros outros também carregam traumas por terem acompanhado execuções de perto. “Acho importante entender que a pena capital produz muitos danos colaterais”, explica Stone, incluindo jurados, juízes, advogados e famílias de ambos os lados dos casos. “E muitas pessoas ficam traumatizadas por essa experiência.”

Em um de seus últimos eventos públicos no ano passado, Givens levou esse alerta a uma igreja em Terre Haute, no estado de Indiana, onde o governo Trump planejava reiniciar as execuções federais depois de 16 anos. Bonowitz tinha organizado uma série de eventos na cidade e arredores, que incluíam a exibição de um documentário sobre Givens chamado “In the Executioner’s Shadow” (“À Sombra do Carrasco”, sem lançamento no Brasil). O filme conta a história de Earl Washington Jr., que ficou a poucos dias de ser executado na cadeira elétrica, mas depois foi inocentado. Givens ficou muito abalado por ter chegado tão perto de matar Washington Jr. Ele questionava se algum dos homens que matara também era inocente.

“As pessoas acham que você pode fazer uma coisa dessas, depois ir para casa e esquecer o assunto. Não. Isso não sai mais de você.”

Depois, Givens respondeu a perguntas. Ele estava usando um paletó escuro, óculos, e um relógio de ouro. Um homem perguntou qual o impacto do trabalho dele sobre seus próprios filhos. “Nunca discuti o trabalho com meus filhos”, respondeu Givens. Se tivesse, “eles teriam precisado passar pelo que eu passei”.

Givens depois se juntou aos outros ativistas em uma lanchonete Denny’s nas proximidades. Sentado na ponta da mesa, ele compartilhou suas preocupações em relação ao perigo das execuções malfeitas, como a de Clayton Lockett, em Oklahoma. Os estados estavam fazendo “roleta russa” com a injeção letal, segundo ele. Quaisquer pessoas que o governo federal fosse contratar para realizar as execuções em Terre Haute certamente seriam inexperientes.

Givens estava perturbado com a mudança de eletrocução para injeção letal na Virgínia. A eletrocução era rápida, e, segundo ele, só era preciso apertar um botão. Mas como explicou aos cineastas, a injeção letal o colocava “na ponta de cada seringa. Eu empurro o veneno pelo tubo até o corpo. Então eu estou mais ligado a essa pessoa.” Um dos reagentes que ele usava era um paralisante, que imobilizava o condenado. Hoje se sabe que o coquetel de três drogas nem sempre era eficaz para anestesiar uma pessoa, levando a uma morte silenciosamente tortuosa. Durante o jantar, Givens afirmou que nunca tinha visto sinais de sofrimento. Mas que não dava para ter certeza.

A conversa se voltou para a forma como os diversos estados lidavam com as execuções. Em alguns estados, as execuções acontecem longe do corredor da morte, conduzidas por funcionários que não conhecem as pessoas que estão prestes a matar. A intenção é que seja um pouco mais fácil para os agentes penitenciários. Mas Givens discordou. Não fazia diferença quem fosse. “Matar é matar.”
“As pessoas acham que você pode fazer uma coisa dessas, depois ir para casa e esquecer o assunto”, continuou. “Não. Isso não sai mais de você.” Perguntei a ele se ainda mantinha contato com os homens que trabalharam com ele naquela prisão. Ele disse que sim. Mas que nunca revelaria seus nomes. “Eu jurei manter segredo”, disse ele. “E venho cumprindo”.

Não há promessa de amanhã

Givens foi enterrado no Cemitério Oakwood, em Richmond, em 18 de abril. “Ele estava usando um belo terno preto com gravata e um lenço combinando. E os óculos”, disse Travers. Só foi permitido que dez pessoas participassem do funeral, mas houve coro e uma eulogia do pastor da Igreja Batista de Cedar Streeet. Uma apresentação de slides mostrava fotos de férias em família, juntamente com seu trabalho contra a pena de morte.

Em seguida, a família soltou balões em homenagem a ele, nas cores vinho e dourado do seu time favorito de futebol americano, os Washington Redskins. Depois foram para casa em carros separados. Um dia haverá confraternizações em sua homenagem, espera Sanders, onde servirão suas comidas favoritas – “provavelmente camarão, couve, salada de batata, pãezinhos caseiros. Alguns bolos caseiros do cunhado dele.” Mas por ora, precisam viver o luto separados.

Em uma das últimas vezes em que conversou com a família antes de morrer, Givens pediu que eles não se preocupassem, porque “ele estava pronto caso o pior fosse acontecer”, disse Travers. Em seu livro, intitulado “Another Day Is Not Promised” (“Não há promessa de amanhã”, sem tradução no Brasil), escreveu que tirar as vidas de tantos homens lhe havia ensinado a “apreciar minha própria vida dada por Deus”. Isso, porém, não torna sua morte menos dolorosa para aqueles que o conheciam. Givens ainda tinha muito para viver. Ele ainda dava palestras, ainda escrevia cartas contra as execuções. Queria ver mais estados abolirem a pena de morte, especialmente a Virgínia. E queria continuar a lutar ao lado de Bonowitz contra as planejadas execuções federais. Travers está convidando as pessoas a fazerem doações para a Death Penalty Action em nome dele.

Givens tinha planos mais simples, também. Ir almoçar em Richmond com Sheldon, o homem que o levou para dentro do movimento. Ir pescar na Flórida com McAndrew, que o convidara para ficar em sua casa. Passar tempo com a esposa e os familiares amados, incluindo sua sobrinha. Ele costumava jantar com ela e sua mãe quase todo domingo, conta Travers. Eles jogavam espadas, um jogo de cartas. “Ele era meu parceiro de baralho”, lamentou ela. “Não sei o que vou fazer agora.”

Tradução: Deborah Leão