Donald Trump concorreu à presidência em 2016 em uma campanha conservadora, muitas vezes improvisada e baseada em ódio, ganância, xenofobia, misoginia e racismo. Está claro que ele viu o fato de um homem negro ter chegado à presidência como uma abominação e avaliou corretamente que havia muitos racistas nos EUA que viam os oito anos que os Obama viveram na Casa Branca como um crime contra a América “real” e branca. Trump já tinha uma marca, percebeu desde cedo o poder de ser um intruso nas eleições presidenciais dos EUA e se concentrou em algumas questões econômicas importantes, incluindo o comércio, que repercutiram bem entre os insatisfeitos com aquilo que o sistema bipartidário normalmente tinha a oferecer. E ele se concentrou no ódio.

Chamar Trump de fascista não é incorreto, mas também pode dar a ele crédito demais. Ele tem sido em grande parte um autoritário incompetente, ainda que suas principais políticas tenham causado grande sofrimento e morte. O que vimos ao longo de sua carreira e seus três anos e meio no poder é que Trump se preocupa principalmente em ganhar dinheiro para si mesmo, sua família e seus companheiros. Literalmente, tudo o que esse homem faz é uma falcatrua.

Sua política externa tem sido militarmente agressiva e imprudente, mas, além de sua retórica muitas vezes insana e suas ameaças públicas para aniquilar vários países, não representou uma mudança radical em relação à de seus antecessores. Ele age como um palhaço instável no cenário internacional e destrói laços com aliados tradicionais dos EUA, governos e organismos internacionais em todo o mundo. Trump abraça abertamente autoritários vis e zomba de líderes e instituições democráticas. Tudo isso é, certamente, perigoso e perturbador, embora algumas coisas sejam desproporcionalmente ofensivas para as elites do establishment da política externa. O antecessor de Trump iniciou sua própria parcela de guerras, fez algumas mudanças de regime, intensificou uma guerra já existente, reduziu o tamanho de outra e aumentou consideravelmente o uso de drones armados e os chamados assassinatos direcionados. Mas Barack Obama entregou essas políticas com uma justificativa astuta, embora às vezes absurda, envolta na ideia de inventar uma maneira “mais inteligente” de empreender a guerra. Os progressistas aceitaram tudo. As políticas de Obama mataram muitas pessoas inocentes.

Nas poucas vezes em que Trump sinalizou sua abertura para adotar uma abordagem menos militarista de crises já existentes, como a guerra no Afeganistão ou o conflito com a Coreia do Norte, ele foi ridicularizado pelos principais democratas e especialistas liberais. Em termos das atividades militares de Trump, ele se mostrou menos assassino que George W. Bush e mais criminoso de guerra que Jimmy Carter. Até agora. Isso certamente pode mudar em um segundo mandato.

Talvez a ameaça mais grave representada pelo narcisista instável que ocupa a Casa Branca seja a do uso de uma arma nuclear para iniciar um ataque. Nunca foi um exagero imaginar um cenário nuclear apocalíptico que começa com um tuíte de um líder estrangeiro que Trump odeia. O fato de podermos imaginar isso não é pouca coisa.

O manejo monumentalmente incompetente de Trump diante da pandemia de coronavírus reafirma alguns dos maiores perigos representados por sua presidência. Ele destacou até que ponto Trump é motivado não por qualquer senso de dever ou preocupação com seus concidadãos, mas pelo dinheiro e sua popularidade em um círculo relativamente pequeno de corporações, apresentadores de televisão e interesses especiais. O fato de Trump usar a plataforma diária do que deveriam ser coletivas sobre saúde pública dadas por profissionais para pontificar ignorantemente, balbuciar incoerentemente, ou para “ganhar pontos políticos“, ressalta o quão pouco ele realmente se importa com o povo dos EUA e nossas vidas. Em vez disso, ele é obcecado pelo mercado de ações como uma extensão imaginada de seu próprio ego. É sinal de um indivíduo profundamente doente que efetivamente condicionaria ajuda financeira a quão bons os governadores são para ele. Trump incentiva protestos contra governadores democratas durante uma pandemia com dezenas de pessoas se recusando a usar equipamentos de proteção, enquanto seu governo insiste em fazer testes de coronavírus nos visitantes da Casa Branca antes que eles se reúnam com o presidente ou o vice-presidente. Tudo isso custa vidas, tão certo quanto qualquer operação militar.

Manifestantes se reúnem em frente ao prédio do Capitólio do estado do Colorado para protestar contra as ordens de ficar em casa por conta do coronavírus durante o comício “ReOpen Colorado” em Denver, Colorado, em 19 de abril de 2020.

Foto: Jason Connolly/AFP via Getty Images

Talvez a dimensão mais devastadora do tempo de Trump no cargo, em termos de política, é como o establishment republicano explorou brilhantemente Trump como um cavalo de Troia para sua agenda extrema. É improvável que qualquer um dos candidatos preferidos do Partido Republicano poderia ter derrotado Hillary Clinton em 2016. Trump arrastou o Partido Republicano aos gritos e pontapés de volta ao poder executivo. Para eles, ele era um messias que eles repreenderam e desprezaram quando apareceu, mas agora se prostram diante dele a cada minuto de cada dia.

O verdadeiro terror dos últimos três anos e meio se resume a isso: a consolidação do poder por algumas das figuras e interesses mais vis no partido republicano.

O público ainda não sabe a história completa de como Mike Pence acabou na cédula de votação como companheiro de chapa de Trump, mas, quando ele foi anunciado, ficou claro que os republicanos profissionais e o lobby evangélico extremista tinham um dos seus lá dentro. Com Mitch McConnell dirigindo o Senado e Pence como babá do presidente, Trump poderia se concentrar em latir para as multidões entre passeios de golfe e reclamações no Twitter, enquanto os assassinos políticos em Washington tiravam o pó para trazer de volta todas as iniciativas de extrema direita que criaram há décadas e que eles trabalham dia e noite para percorrer metodicamente. Trump teve seus momentos marcantes, mas grande parte de sua plataforma foi terceirizada para formuladores de políticas mais elaborados e sofisticados.

Trump notoriamente não é fã de ler instruções detalhadas, mas dê a ele pequenas porções de temas políticos super simplificados para apimentar seus discursos, e ele será seu vistoso apresentador da QVC promovendo o produto ruim para sua base. O bônus é que nada tem que ser realmente verdade, só precisa ser aceitável para as pessoas certas e ser exposto ou documentado de forma verdadeira por jornalistas que ele pode descartar como fake news.

Em termos mais gerais, o verdadeiro terror dos últimos três anos e meio se resume a isso: a consolidação do poder por algumas das figuras e interesses mais vis no Partido Republicano. Isso inclui as dezenas de juízes federais nomeados para a bancada, a formação da Suprema Corte, o impulso radical à desregulamentação e o cancelamento dos compromissos mais mínimos que os EUA assumiram para tentar enfrentar as mudanças climáticas. O que os republicanos conseguiram realizar em nível político no tempo em que Trump está no cargo é profundo e aterrorizante.

À vista de todos, Trump presidiu a separação de famílias e o aprisionamento de crianças imigrantes em jaulas, capacitando os agentes do ICE a agirem como tropas de assalto. Ele interveio para proteger criminosos de guerra da responsabilização, ameaçou matar as famílias de suspeitos de terrorismo, tentou banir – e de certa forma conseguiu proibir – que muçulmanos entrassem no país. Sua ameaça de encher a prisão de Guantánamo ainda se aproxima, especialmente na época da pandemia de coronavírus. É tão difícil imaginar que isso se torne um buraco negro cheio de doenças para os migrantes que buscam refúgio?

As políticas econômicas de Trump enriqueceram empresas e grupos de interesses além do que poderiam imaginar, ao mesmo tempo em que afastaram os já inadequados programas sociais do país. Ainda não temos noção de até que ponto Trump e sua família estão se beneficiando financeiramente de sua presidência. Ele fala sobre as mulheres de maneira repugnante, inclusive tentando humilhar publicamente aquelas que ele é acusado de estuprar e agredir. E a realidade doentia é que um número significativo de pessoas nos EUA claramente gosta dessas coisas, mesmo que não as admitam abertamente, embora um número perturbador se sinta encorajado a admirá-las publicamente. Trump fez uma oferta pública inicial de “ações” de ignorância e ódio como fonte de orgulho, e muitas pessoas as compraram com entusiasmo.

A ascensão de Trump ao poder é, de várias maneiras, o produto lógico dos EUA como um estado fracassado. Trump fala em voz alta aquilo que não costuma ser dito sobre o sistema.

A presidência de Donald Trump não é uma aberração da história dos EUA em si. Sua ascensão ao poder e as políticas que ele implementou são, de várias maneiras, o produto lógico dos EUA como um estado fracassado, política e funcionalmente. Trump fala em voz alta aquilo que não costuma ser dito sobre o sistema, mas sua agenda está firmemente enraizada na sangrenta história desta república. E sua ascensão foi possível pelo fracassado sistema bipartidário e pelo domínio exercido pelas grandes corporações sobre a política eleitoral dos EUA. Além disso, não vamos fingir que os democratas do Congresso não viabilizaram as vontades de Trump ao votar regularmente em seus orçamentos militares obscuros e em amplos poderes de vigilância enquanto o chamavam simultaneamente de presidente mais perigoso da história.

O que aconteceria se Trump vencesse as eleições em novembro? Em termos práticos, seria um pesadelo. Trump sairia delas mais encorajado do que nunca. Quaisquer mínimas moderações existentes neste momento seriam completamente eliminadas. Ele quase certamente estaria em posição de substituir a juíza da Suprema Corte, Ruth Bader Ginsburg, por outro extremista atroz. A capacidade de encher ainda mais o tribunal com seus aliados terá um impacto multigeracional em uma série de questões; entre elas estão direitos de voto, liberdades civis, poder corporativo, direitos dos trabalhadores, direitos civis, direitos reprodutivos das mulheres, direitos LGBTQ, poder executivo e o clima. Ninguém deve minimizar os perigos da permanência de Trump no cargo. E seu reinado atingirá os mais vulneráveis da pior maneira, assim como o coronavírus, e os terrores irão reverberar por muitos anos. Trump incentiva e encoraja racistas e fanáticos e abraça a ideologia e a ação da extrema direita. Mais quatro anos disso serão mortais.

É ao contemplar tudo o que foi exposto acima que o surgimento de Joe Biden como a escolha presumida do Partido Democrata para derrotar Trump se torna uma resposta profundamente perturbadora e arriscada às ameaças que enfrentamos. É fácil subestimar a chance de Biden vencer em novembro. Biden é um candidato terrível em muitos aspectos, mas é possível que “eu não sou Trump”, combinado com Biden tendo sido vice-presidente de Obama, exerça apelo sobre uma população suficiente para ganhar não apenas o voto popular (algo virtualmente certo), mas também o Colégio Eleitoral – especialmente se o partido mantiver Biden escondido até a reta final, como parece ser a estratégia. Ainda assim, essa parece ser uma aposta perigosa dado o que está em jogo.

Há também outro fator que não deve ser ignorado: os republicanos são mestres na repressão e privação do direito ao voto. Isso, combinado com a crença central de Trump de que a corrupção não é corrupta se é ele quem a pratica, faz pairar uma nuvem sinistra sobre a integridade da eleição antes mesmo que ela ocorra. E sabemos que a pandemia causará efeitos duradouros o suficiente sobre a vida normal para que haja inúmeras oportunidades para irregularidades.

Biden tem um histórico abominável de políticas públicas em uma enorme gama de questões. Ele tem uma propensão a mentir – sobre seu papel no movimento dos direitos civis e sobre ser preso na África do Sul da época do apartheid. Ele continua mentindo e enganando sobre seu apoio à guerra no Iraque, a decisão de política externa mais importante da era pós-Vietnã. Ele foi acusado por oito mulheres de má conduta, incluindo uma alegação de agressão sexual muito grave de sua ex-funcionária no Senado, Tara Reade. A saúde cognitiva e a acuidade mental de Biden são, no mínimo, questionáveis, principalmente quando se compara seu desempenho atual com vídeos de apenas alguns anos atrás. Ele costuma divagar sem argumentos, esquece para qual cargo está concorrendo e precisa confiar em teleprompters e anotações para passar por entrevistas e discursos sem dizer algo embaraçoso. Em várias interações com eleitores, Biden cutucou e tocou o peito deles de maneira agressiva; ele disse a um ativista pelos direitos dos imigrantes que “vote em Trump”; chamou eleitores de apelidos infantis; e ameaçou um sindicalista em Detroit, dizendo ao homem que parasse de se opor a Biden com o dedo em riste a menos que ele quisesse “resolver as coisas lá fora”. Não vamos nem mencionar a história de seu confronto com “Corn Pop” na piscina. O temperamento de Trump é assustador, mas Biden não é exatamente um cabeça fria que exala competência ou confiança.

A ala democrata pode minimizar todos os ataques de Trump envolvendo Hunter Biden-Burisma-Ucrânia-China, mas isso será um problema nas eleições gerais. Em muitas das principais questões que os democratas poderiam atacar Trump, Biden ficará praticamente incapacitado por seus próprios esqueletos. O que a senadora Elizabeth Warren fez com Mike Bloomberg em um debate de fevereiro seria impossível para Biden fazer com Trump. “Você tem mais acusações de agressão sexual do que eu, Donald” não é uma boa frase. “Seus filhos lucraram mais com a presidência do que meu filho com minha vice-presidência” também não é uma boa provocação. E não pense nem por um momento que Trump não vá bater no voto de Biden em favor da Guerra do Iraque e suas políticas comerciais. A primária democrata não é a eleição geral.

É sempre importante lembrar que Biden foi escolhido em 2008 para tornar Obama menos ameaçador para os moderados – por isso não podemos sequer imaginar um retorno ao estilo de neoliberalismo de Obama.

Não faz sentido analisar e listar todos os aspectos terríveis da carreira de Biden, seu histórico político, seu vigor mental ou seus fracassos substanciais em tornar-se visível ou consistentemente convincente desde que garantiu a presumível indicação. Tudo isso será exibido nos próximos seis meses. O Partido Democrata e os eleitores nas cerca de 50% das primárias já realizadas comprometeram nosso destino à candidatura de Biden. Obama e outros líderes do partido, grandes organizações de notícias e muito dinheiro destinado a atacar o senador Bernie Sanders também tiveram um papel importante na fabricação dessa realidade. Sanders encerrando sua campanha e prometendo apoiar Biden deixa as pessoas com dois candidatos viáveis na votação. Salvo uma crise de saúde ou a morte de um desses homens que já têm certa idade, os únicos dois candidatos com apoio público suficiente para ganhar a presidência serão Donald Trump e Joe Biden.

O que temos com Trump é tão claro quanto assustador. O que temos com Biden, em sua forma atual, é menos aparente. Biden terá uma equipe de tecnocratas competentes (para o bem e para o mal) e, com toda a certeza, um vice-presidente incrivelmente influente e um chefe de gabinete não eleito no comando de tudo. A administração de Biden também incluirá nomeações destinadas a agradar os progressistas e provavelmente outras nomeações do Gabinete que reconheçam a crescente influência de ideias progressistas. Sem dúvida, também será repleta de um número desproporcional de representantes do aparato democrata corporativista e militarmente agressivo. Será um governo que faz a oferta de Wall Street, acredita em inflados orçamentos de guerra e dará uma cara mais amigável aos piores excessos do império. É sempre importante lembrar que Biden foi escolhido em 2008 para tornar Obama menos ameaçador para os moderados – por isso não podemos sequer imaginar um retorno ao estilo de neoliberalismo de Obama. Mas haverá áreas da política em que algumas vitórias serão possíveis para uma esquerda bem organizada e militante disposta a aceitar Biden. Essa dinâmica não seria a pior coisa do mundo e seria melhor para mais pessoas do que um segundo mandato de Trump em praticamente todos os aspectos tangíveis.

Biden não é bom em muitas questões que motivam os jovens eleitores. Seu plano de assistência médica mantém intacto o sistema com fins lucrativos, resultando em milhões de americanos sem nenhum tipo de seguro. Sua política para enfrentar as dívidas massivas de estudantes universitários e consumidores é anêmica. O plano climático de Biden é pouco inspirador e em geral tímido quando comparado com a gravidade da crise que o planeta enfrenta, embora essa seja uma área na qual ele possa ser suscetível à pressão de ativistas. Algumas de suas posições na política externa são absolutamente perturbadoras, se não explicitamente de direita. O último anúncio da campanha de Biden é um ataque à China e um esforço para superar a retórica xenofóbica de Trump. O longo histórico de Biden indica que ele poderia se mostrar mais inclinado a autorizar intervenções militares do que Trump, que já tem sido bastante beligerante, mas sem levar adiante a maioria de suas ameaças. É quase certo que Biden começará e continuará guerras, imporá sanções econômicas mortais e apoiará ou adotará esforços de mudanças de regime.

Há justificativas abundantes para se opor à presidência de Biden. E as pessoas com princípios têm razão em alertar de forma voraz sobre o histórico de Biden, suas políticas e parte de sua conduta pessoal. Ao mesmo tempo, não é honesto sugerir que não haveria diferença entre um governo de Biden e Trump.

A política de imigração do governo Obama-Biden agora foi ofuscada por Trump, mas por si só funcionou como uma máquina cruel de deportação em massa que também separava famílias. Durante a campanha, Biden respondeu à pressão extraordinária dos ativistas e, eventualmente, começou a se distanciar cuidadosamente do título de “deportador-em-chefe”, como Obama foi rotulado por ativistas dos direitos dos imigrantes. Quando pressionado sobre as deportações em massa sob Obama, Biden reconheceu que deportar pessoas sem antecedentes criminais era um “grande erro”. Em debate do Partido Democrata, perguntaram a Biden se ele retomaria o tórrido ritmo de deportações de Obama. “Certamente não”, disse ele, acrescentando que era vice-presidente, não presidente, recebendo uma repreensão de Julián Castro, que observou com precisão que Biden se contentava em banhar-se com o brilho de seu ex-chefe Obama enquanto tentava evitar a responsabilidade de suas políticas impopulares. Ao mesmo tempo, a campanha de Biden fez uma série de promessas que ele poderia implementar como presidente que potencialmente protegeria milhões de pessoas vulneráveis. Na imigração, a alternativa é mais quatro anos do conselheiro de Trump, Stephen Miller, um louco extremista que não deveria ser permitido a menos de 30 metros de um processo de tomada de decisão com tamanhas consequências.

Na verdade, não estamos sendo solicitados a votar em Biden como candidato, porque o Biden que vemos é uma casca do que foi um dia. Estamos sendo convidados a votar em uma sequência do programa de Obama.

Biden prometeu suspender imediatamente a proibição de viagens de muçulmanos, bem como outras políticas racistas de imigração e asilo que Trump adotou. Também é importante notar que, no final do governo Obama, sob pressão de ativistas do Black Lives Matter, Obama colocou uma dúzia de forças policiais municipais sob decretos de consentimento do Departamento de Justiça em resposta a assassinatos policiais e outros abusos. Trump não pode ser pressionado pelo BLM, mas Biden pode.

Biden tem um histórico preocupante no Irã, incluindo seu apoio a sanções mortais, mas ele disse enfaticamente que voltaria a entrar no acordo nuclear do Irã, o que também não é pouca coisa. Da mesma forma, Biden foi politicamente forçado a denunciar a genocida guerra saudita contra o Iêmen, apesar de ter sido iniciada sob o governo Obama-Biden. Ele também teve que aceitar publicamente que ver o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman como um assassino desagradável agora é amplamente aceito por muitos democratas, incluindo figuras centristas. Surpreendentemente, Biden prometeu transformar a Arábia Saudita em “um pária”. Essa é uma afirmação incrível, dado o longo caso de amor dos dois partidos com os déspotas do reino, e que levanta todo tipo de perguntas sobre o que isso significaria se Biden fosse eleito.

O ex-vice-presidente dos Estados Unidos e candidato à presidência pelo Partido Democrata, Joe Biden, chega para falar sobre o COVID-19 em um evento de imprensa em Wilmington, Delaware, em 12 de março de 2020.

O ex-vice-presidente dos Estados Unidos e candidato à presidência pelo Partido Democrata, Joe Biden, chega para falar sobre o COVID-19 em um evento de imprensa em Wilmington, Delaware, em 12 de março de 2020.

Foto: Saul Loeb/AFP via Getty Images

Entre os curingas de um governo Biden, estará a questão de saber se ele tem a resistência mental real para governar, ou se ele estará frequentemente desorientado e será raramente visto ou ouvido. Deixando de lado os protestos de pessoas que fingem não ver exatamente o que todo mundo faz quando Biden fala em público, não estamos sendo solicitados a votar em Biden como candidato, porque o Biden que vemos é uma casca do que foi um dia. Estamos sendo convidados a votar em uma sequência do programa de Obama, em um elenco de personagens familiares e algumas novidades interessantes que se encarregariam do poder executivo, sem a estrela popular do programa original entre o elenco visível. O fato de os democratas terem forçado um candidato que muitas pessoas não acreditam ser totalmente funcional e contará com a força da “equipe” reunida em torno dele é uma declaração bastante sombria sobre o estado da democracia nos EUA. Se Biden é o melhor que os democratas têm a oferecer diante de Trump, o sistema está podre.

Então, o que as pessoas que querem se livrar de Trump mas não suportam Biden devem fazer? Em primeiro lugar, ninguém deveria ter vergonha de deixar sua consciência determinar seu voto ou sua decisão de não votar (sendo totalmente aberto: eu sempre voto). Nosso sistema é dominado por influências corporativas, muito dinheiro, e as regras distorcidas de um duopólio, e luta ativamente para prevenir que uma terceira opção receba verbas federais semelhantes, participe de debates ou entre nas cédulas de votação. Não há voto obrigatório nos EUA, cerca de 40% dos americanos não é filiado a nenhum dos grandes partidos, e as pessoas têm o direito de demonstrar sua insatisfação com o sistema como um todo ao não votar. Em um cenário em que dezenas de milhões de cidadãos americanos decidem não votar, é uma desgraça apontar o dedo para o minúsculo número de eleitores que vota pelo Partido Verde. Há centenas de milhares de eleitores que têm por princípio que quebrar o domínio bipartidário sobre a democracia dos EUA é o único caminho de promover uma mudança significativa no sistema. Votos para Jill Stein ou Howie Hawkins não estão sendo retirados dos democratas corporativos. Esses votos pertencem às pessoas que os depositam nas urnas e elas têm o direito de votar em quem elas escolherem, e os candidatos que elas apoiam têm o direito de concorrer.

Também é uma decisão compreensível e baseada em um princípio moral dizer “eu acredito que Tara Reade foi sexualmente abusada por Joe Biden, e não vou votar em um estuprador”. É uma posição compreensível e com um princípio moral dizer “não vou votar por alguém que tenha apoiado a guerra contra o Iraque”. O voto de nenhuma dessas pessoas pertence a Biden ou a Hillary Clinton ou ao Partido Democrata ou às turbas do Twitter — e não são votos para Trump.

Em um cenário em que dezenas de milhões de cidadãos americanos decidem não votar, é uma desgraça apontar o dedo para o minúsculo número de eleitores que vota pelo Partido Verde.

No fim das contas, porém, dada a abominação do sistema bipartidário americano, eleitores progressistas são forçados a tomar uma decisão não apenas moral, mas também estratégica, para os seus votos. Reconhecer que Biden é um candidato horrível e ser honesto a esse respeito, mas votar nele ainda assim na tentativa de prevenir que Trump avance ainda mais em seus objetivos, é uma posição estrategicamente sensata. Isso é o que a maioria dos apoiadores de Sanders vai acabar fazendo, como já fizeram em 2016. É uma posição que certamente tem mais chances de melhorar o país e o mundo do que proclamar o voto em Biden de forma entusiasmada enquanto se ignora tudo o que há de errado a respeito dele e de seu passado. Eleitores nos swing states, onde votar por um candidato que não seja Biden ou nem comparecer para votar pode acabar ajudando a pesar a balança a favor de Trump, têm uma escolha moral e estratégica mais significativa do que as daqueles que vivem em Nova York ou na Califórnia, estados historicamente democratas. Em 2004, o candidato do Partido Verde pediu aos seus apoiadores que votassem com a consciência nos swing states, mesmo se achassem que precisavam votar em John Kerry tapando o nariz para evitar uma reeleição de Bush.

Se você acredita que progressistas ou esquerdistas deveriam estar “curvando-se” a Biden e prometendo neste mesmo instante que votarão nele em seis meses e que nunca vão mencionar um fato inconveniente sobre ele ou expressar raiva sobre as escassas opções nas eleições, então por favor mostre a eles todo o seu trabalho lutando pelo Medicare para Todos, para acabar com o estado carcerário, por uma ação séria e radical em relação à mudança climática. Mostre seu trabalho fazendo oposição aos aspectos mais perigosos do governo Obama-Biden, incluindo as questões de guerra, imigração e, sim, saúde.

Muitos dos movimentos sociais e políticos que apoiaram Bernie Sanders eram povoados por pessoas que estavam na mira do governo Trump. Foi uma coalizão incrivelmente diversa de apoiadores que atraiu milhões de eleitores para as primárias em 2016 e em 2020. Sua espinha dorsal foram os eleitores jovens, incluindo jovens afro-americanos, latinos, estudantes, imigrantes e independentes. Esses grupos e muitos dos apoiadores de Sanders passaram quase quatro anos lutando contra Trump sem parar. Antes disso, muitos deles se organizaram contra as políticas preocupantes de Obama. Isso deveria ser elogiado, não desprezado. Você quer chamar essas pessoas de eleitores de Trump porque elas estão muito perturbadas pelo candidato corporativista que vocês escolheram para enfrentar Trump? Mostre-lhes o seu trabalho em questões com as quais eles se importam, explique quais são as políticas de Biden para esses temas e apresente os argumentos mais convincentes que você conseguir para convencê-los a votar nele. Melhor ainda, explique como você está lutando para fazer a plataforma de Biden pelo menos fingir minimamente que quer os votos deles.

No geral, Bernie Sanders organizou o desafio mais significativo ao establishment centrista e centro-direitista do Partido Democrata desde que Jesse Jackson se lançou duas vezes como pré-candidato à presidência nos anos 1980. Ao contrário das campanhas independentes de Ralph Nader, Sanders tentou provocar grandes mudanças dentro da própria estrutura do Partido Democrata. Ele lutou contra um ambiente de mídia corporativa extremamente hostil e algumas campanhas vis para sujar sua imagem, onde ele foi comparado ao coronavírus, seus apoiadores foram chamados de camisas-marrons, e suas vitórias nas primárias foram descritas como equivalentes à invasão da França pelo nazismo em alguns canais de TV. Apesar do coro poderoso de mentiras e associações a uma “ameaça vermelha”, Sanders ainda assim ficou muito próximo de alcançar uma vitória.

Biden foi geralmente o líder na corrida e sempre o favorito, mesmo tendo ficado perto de acabar derrotado por Sanders no início. O establishment defendeu ferozmente seu território em um esforço que culminou com a diplomacia secreta de Obama no último minuto antes da Super Terça, pressionando outros candidatos e o partido a se unir em torno de Biden. No fim, os eleitores do partido, no momento crucial das primárias, colocaram seu peso em um nome que eles conheciam e que foi vice-presidente de um governo em que eles confiavam. Esses eleitores tampouco devem ser coletivamente criticados. Muitos deles não são meras engrenagens do partido, mas pessoas verdadeiramente assustadas pelo que mais quatro anos de Trump significariam para sua sobrevivência, especialmente eleitores afro-americanos mais velhos.

As forças tradicionais, moderadas e de direita dentro do Partido Democrata se uniram e venceram a batalha nas primárias. Bernie Sanders pode ter desistido cedo demais, mas pouco adianta ficar debatendo isso agora ou gastar energia atacando Sanders.

Muitas pessoas à esquerda que se opõem a Biden mas também veem Trump como o perigo mais grave vão acabar votando contra Trump, dando seu voto a Biden. Mas isso não significa que quem discorde dessa estratégia apoie Trump.

A guerra pelo futuro do Partido Democrata está se intensificando. Existe a possibilidade de uma fratura ou pelo menos da emergência de bancadas mais claramente definidas dentro do partido. Haverá discussões sérias sobre formar um novo partido que não seja o Partido Verde, mas possivelmente um broto da estrutura “Não Eu, Nós” surgida na campanha de Sanders e da crescente popularidade de grupos como o Justice Democrats, o Sunrise Movement, os abolicionistas prisionais, os grupos de direitos dos imigrantes, e os Socialistas Democratas da América. Seria ótimo para os EUA que um partido socialista democrático crescesse, com campanhas políticas sérias. Já vimos os primeiros esforços nesse sentido com alguns resultados bons e outros nem tanto. Alexandria Ocasio-Cortez entende a necessidade de estabelecer parcerias estratégicas com democratas do establishment para alcançar mudanças políticas significativas e fortalecer áreas em comum. Mas serão necessários muitos políticos que pensam parecido para essa estratégia ter sucesso. Essa primária balançou por completo o establishment democrata, e isso é algo bom, sobre o qual se deve construir.

Mas nada disso vai acontecer antes de novembro.

Alguns apoiadores de Sanders que estão profundamente preocupados pela candidatura de Biden já disseram que ele pode ter seus votos, mas não suas almas. Para muitas pessoas, essa será a racionalização de sua estratégia. Para outras, será uma questão de moralidade individual ou coletiva diante dos horrores de Trump. Eleitores à esquerda em swing states têm um fardo moral maior do que o resto de nós, e muitos vão decidir votar contra Trump ao dar seu apoio a Biden.

Também há oponentes muito francos de Biden que estão cansados e vão, simplesmente, se recusar a votar nele. Eles reconhecem que o oposto de Trump não é Biden. Eles querem uma sociedade onde o acesso a tratamento de saúde gratuito é um direito e onde guerras são terminadas, onde todos têm moradia e um trabalho que paga salários decentes, onde você não acumula uma montanha de dívidas para ir à universidade, e que trata os imigrantes e trabalhadores com dignidade e defende o direito absoluto de escolha de uma mulher. Eles querem que o sistema de justiça racista seja desmantelado e que o ICE seja abolido. Eles acreditam que estamos em uma emergência climática e que Biden é parte do problema. Os democratas mais convencionais dizem-lhes que eles também querem isso e que eleger Biden é um passo nessa direção, ou que o presidente Biden será mais suscetível a pressões progressistas. Mas aqueles eleitores rejeitam este argumento. Eles não acreditam que forçar uma escolha entre dois candidatos ruins é certo, mesmo se um deles é decididamente pior. Eleger Biden pode resolver alguns problemas, mas também poderia resultar no fortalecimento da extrema direita nos EUA e poderia produzir uma ameaça pior que Trump em 2024. Um governo Biden, acreditam, vai indubitavelmente se tornar um gigante amigo das grandes empresas que trava guerras militares e econômicas e, para eles, votar de forma afirmativa para isso é ir longe demais. Muitas dessas pessoas consideram o Partido Democrata responsável pela vitória de Trump por conta da péssima campanha que fizeram em 2016, então tentar convencê-los a comprar a mesma estratégia novamente é uma batalha perdida. Eles estão cansados de ser tratados com desdém pelos democratas, de receber poucas e parcas concessões, e ainda assim serem pressionados a acompanhar o partido. Como uma questão estratégica, nesta conjuntura, eles consideram apoiar Biden como equivalente a dizer aos democratas que continuem a achar que estarão sempre lá para votar pelo partido.

Se os democratas querem tentar conquistá-los, deveriam usar os próximos seis meses para mostrar que levam a sério as preocupações que esses eleitores têm a respeito do ocorrido em 2016 e descrever o que faz essa campanha ser diferente. Muitas pessoas à esquerda que opõem Biden mas também veem Trump como o perigo mais grave vão acabar votando contra Trump, dando seu voto a Biden. Mas isso não significa que quem discorde dessa estratégia apoie Trump. Para eles, ouvir que “ele não é Trump” não justifica a aposta em Biden. A obrigação de convencer cada eleitor habilitado dos EUA e conquistar seus votos é da campanha de Biden e de seus apoiadores. Nenhum voto deveria ser visto como garantido.

Tradução: Maíra Santos