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Grupo de funcionários do Hospital Geral de Fortaleza cantando para os pacientes em fevereiro.

Foto: Reprodução

Quando terminou o curso de medicina em Fortaleza em 2013, Roberta Lessa Ribeiro já estava preparada para perder pacientes ao longo da sua carreira. Todo médico, afinal, “tem seu próprio cemitério”.

Mas ela não estava pronta para perder tantos em tão pouco tempo. Desde 25 de março, quando começou a dar plantões extras no Hospital Geral de Fortaleza, o HGF, o maior da rede pública da capital do Ceará, a médica não sabe dizer ao certo quantas vítimas do novo coronavírus atendidas por ela morreram.

Conversei com Ribeiro em um dos seus raros dias de folga. Ela mora com os pais, um médico e uma enfermeira e, quando está de “visita” em casa, passa a maior parte do tempo em seu quarto, para não contaminá-los. Também se acostumou a “assustar” os vizinhos, que fogem no corredor do prédio, ao vê-la chegando do hospital.

Além da residência em neurologia, Ribeiro atende pacientes da covid-19 na emergência, na enfermaria e na UTI do hospital separadas especialmente para casos da doença. Em abril, teve uma semana em que trabalhou 84h. Os profissionais de saúde ainda precisam esticar ao máximo o tempo sem descansar, beber água ou mesmo ir ao banheiro para economizar no uso de equipamentos de proteção individual, os EPIs.

Mas para ela o problema não é o cansaço físico, mas o mental e o emocional. Os pacientes com coronavírus entram nos hospital sozinhos e assim permanecem durante todo o tratamento – isso quando têm alta. “Nós somos só o que eles têm, então acabamos assumindo essa função de ser apoio”, diz. “Ficar doente já é ruim, imagine adoecer sozinho de uma doença que causa tanto medo e insegurança”.

O relato foi editado para fins de clareza.

Comecei a atender pacientes infectados pelo coronavírus no dia 25 de março, quando foi organizada a unidade de covid-19 no Hospital Geral de Fortaleza, o HGF, mesmo hospital em que faço minha residência em neurologia. Fomos orientados a trabalhar nesse novo setor nos horários livres.

Desde então, minha rotina está uma confusão. Na semana passada trabalhei 84h. Começo às 19h, vou até 7h e já começo o plantão da residência, que vai até as 13h. Estou dormindo só à tarde, pouco tempo. Minha realidade agora está toda no hospital. Praticamente moro lá e visito minha casa.

O HGF esvaziou a emergência obstétrica, que é isolada da emergência geral, para atender aos pacientes com coronavírus. Comecei lá e depois passei a atender também na UTI, quando abriram novos leitos. Primeiro pegaram a sala de recuperação anestésica das cirurgias eletivas para aumentar as vagas de UTI. Depois, foram esvaziadas as enfermarias, passando pacientes que não tinham covid-19 para outros hospitais.

Hoje, o quinto andar inteiro do hospital está reservado. São quatro UTIs que somam 50 leitos, quase todos ocupados, fora a enfermaria e a emergência. Só temos vagas ainda porque colocaram novos leitos de UTI esta semana. Antes disso, muitos pacientes ficavam na enfermaria e eram entubados lá mesmo enquanto aguardavam uma vaga.

De cabeça, rapidamente, lembro que perdi cinco pacientes. Eu entendo a expressão que diz que todo médico tem seu cemitério. O meu está aumentando mais do que eu esperava em sete anos de carreira. Até então, na residência, houve perdas, mas não tantas, em tão pouco tempo. É algo assustador.

O primeiro paciente que perdi tinha 41 anos, sem comorbidades. Ele tinha ido ao hospital antes, mas estava super bem. Fez a coleta do material para o exame e voltou para casa. Dois dias depois chegou na emergência com insuficiência respiratória, com apenas 76% de oxigênio no sangue – o normal é acima de 93%. Ele teve que ir direto para o tubo. Ficou ainda duas semanas internado, mas evoluiu para pulmão de Sara, que é quando o órgão fica todo branco de secreção e líquidos, totalmente congesto.

As pessoas pensam que a doença só é ruim para quem é do grupo de risco, mas não é bem isso. Atendo muitos pacientes entre 30 e 50 anos sem comorbidades. E eles chegam bem desconfortáveis, com fome de ar, como se estivessem se afogando. É desesperador.

Vemos um padrão dos pacientes piorando muito depois de dez ou 12 dias dos primeiros sintomas. E a tendência é piorar muito rápido. Acontece de a pessoa chegar e já termos que entubar na emergência. Às vezes, o paciente está no oxigênio, bem, já perto de tirar, mas piora de uma hora para a outra e tem que ser entubado logo na enfermaria.

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Roberta usando os equipamentos de proteção individual, EPIs.

Foto: Cortesia de Roberta Lessa Ribeiro

Os pacientes de covid são muito difíceis de ventilar porque é como se estivessem com o pulmão duro – então, o ventilador tem mais dificuldade de agir. São pessoas difíceis de sedar, estão sempre com a frequência cardíaca e a pressão altas. É tudo muito complicado, e nós estamos aprendendo a lidar com isso agora.

É tudo muito estressante, mas não é só o cansaço físico, é o cansaço mental e emocional. A internação por covid-19 é muito solitária. O paciente chega na emergência sozinho, sobe para a enfermaria sozinho ou vai para a UTI e não recebe nenhuma visita. Nós somos só o que ele tem. Então, acabamos assumindo essa função de ser apoio. Não ter ninguém ali para apertar a mão deles, para estar do lado, é muito difícil. Ficar doente já é ruim, imagine adoecer sozinho de uma doença que causa tanto medo e insegurança sem ninguém ao lado. Não consigo relaxar quando não estou trabalhando. Só descanso quando capoto de sono e durmo.

Organizamos os horários entre os plantonistas e temos três ou quatro horas de descanso por noite. Assim, conseguimos ficar pelo menos algum tempo sem a paramentação. A melhor coisa do mundo é tirar aquilo. É muito desconfortável, é quente e machuca. É horrível. A máscara é o pior porque aperta e até corta o nariz.

Como está faltando equipamentos de proteção individual, os EPIs, fazemos contenção. A bata impermeável, por exemplo, só usamos em procedimentos como entubação ou para coleta de amostras para detectar a presença do vírus. Se for apenas uma consulta, usamos a bata normal.

Tem ainda os EPIs que são obrigatórios, como a máscara N95. Normalmente, ela tem validade de uma semana, mas, como usamos muito, deveria ser trocada a cada dois ou três dias. Não é isso que acontece. Só recebemos uma nova a cada 14 dias. Por isso, colocamos a máscara de procedimento por cima da N95 para não contaminá-la. Tem também o óculos ou o capacete, a luva normal, com a outra luva estéril por cima, e o sapato.

Enquanto estamos paramentados, não podemos comer, nem beber água e nem ir ao banheiro para não nos contaminarmos. Eu já fiquei oito horas na UTI sem fazer nenhuma dessas coisas. Somos orientados a permanecer o máximo de tempo que conseguirmos lá dentro, sem tirar a paramentação porque, se a gente sair, quando voltar, precisa usar outro EPI.

Depois do plantão, eu tomo banho no hospital para evitar contaminar outros setores por onde passo, quando estou saindo. No carro, calço o chinelo que deixei lá e guardo o sapato. Em casa, eu tiro toda a roupa logo na entrada, tomo outro banho e fico a maior parte do tempo isolada no quarto.

Vou tentando me livrar dessa forma, tomando os cuidados que posso tomar. Mesmo assim, não consigo me sentir segura de que não vou ser infectada. Meu problema nem é comigo, mas com meus pais, que moram na mesma casa. Meu pai é grupo de risco.

Quem está forçando uma volta ao trabalho é gente que não vai estar tão exposta quanto um trabalhador assalariado.

Mas os vizinhos fogem quando me veem. Semana passada, cheguei no meu prédio com o pijama cirúrgico, que uso apenas para me deslocar do hospital para casa. Não estava contaminado porque eu não estava com ele no trabalho. Assim que eu entrei, um morador correu para pegar o elevador antes de mim. Eu nunca vi alguém correr tão rápido. O pé quase batia na bunda. Foi até engraçado.

Meu pai é médico do SUS na área de pediatria. Minha mãe é enfermeira e trabalha com políticas públicas. Na época que meu pai fazia residência em pediatria, minha mãe diz que ele me botava no colo e ficava lendo livros de medicina. Então, eu cresci com essa ideia na cabeça e nunca pensei em outra coisa na vida, desde que me entendo por gente.

Sou apaixonada pelo SUS. Todo mundo já deveria saber o quanto um sistema de saúde pública é importante, mas, agora, o SUS demonstra que tem um valor inestimável.

Eu fico vendo o caos da saúde nos Estados Unidos, por exemplo. Lá, você pode até ser curado do coronavírus, mas vai sair com uma dívida enorme. Aqui, não. Pelo SUS, o paciente faz o exame, toma os remédios e fica internado. Tudo isso de graça. Isso é indispensável em um país como tanta desigualdade social, com uma população pobre que não teria condições de arcar com as despesas de uma internação prolongada como a que é necessária para a infecção por coronavírus.

Eu acho um absurdo que estejamos precisando defender que economia está acima das vidas humanas. Já vi médicos defenderem isso. Você fica pensando onde esse povo se formou? Cadê a vocação desse povo? Eles fizeram medicina por que se estão considerando o dinheiro mais importante que uma vida? Quem move a economia não são seres humanos? Gente morta não trabalha, pelo amor de deus!

Quem está forçando uma volta ao trabalho é gente que não vai estar tão exposta quanto um trabalhador assalariado. É desumano as pessoas quererem arriscar a vida dos outros. A gente vê que realmente o mundo está ao contrário e ninguém reparou, como cantam Nando Reis e Cássia Eller.

Mas acho que eu vou levar uma coisa boa dessa pandemia, que é o senso de união que os profissionais da saúde estão tendo entre eles. Antes, era cada um por si. Hoje, não. A gente vê o pessoal realmente unido pelo bem do paciente. Estou achando isso admirável.