Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, durante seu discurso televisionado no dia 4 de maio. Maduro falou sobre o equipamento militar que ele diz ter sido apreendido durante a incursão de mercenários na Venezuela.

Presidente venezuelano, Nicolás Maduro, durante seu discurso televisionado no dia 4 de maio. Maduro falou sobre o equipamento militar que ele diz ter sido apreendido durante a incursão de mercenários na Venezuela.

Foto: Ministério de Comunicação da Venezuela via AP

Imagine a seguinte cena: Dois ex-soldados das forças especiais venezuelanas são capturados ao tentar desembarcar em uma praia nos Estados Unidos. Eles confessam, diante das câmeras, que fazem parte de uma trama para capturar e sequestrar o presidente americano.

No mesmo dia, na Venezuela, outro ex-soldado das forças especiais ligado ao guarda-costas de longa data do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, publica um vídeo anunciando que os dois homens trabalhavam para sua empresa de segurança privada, em uma missão para remover o presidente Donald Trump e derrubar o governo em Washington.

Dois dias depois, o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, que é também o ex-chefe da temida agência de inteligência venezuelana, faz uma coletiva de imprensa na qual escolhe negar apenas o envolvimento “direto” na operação. “Se estivéssemos envolvidos, teria sido diferente”, acrescentou, com um sorriso.

Como você acha que as pessoas reagiriam nos Estados Unidos? Entre as elites políticas e midiáticas? Nos círculos de segurança nacional? A imprensa dos EUA não publicaria inúmeras matérias denunciando e condenando o Maduro? Os noticiários televisivos não cobririam o assunto exaustivamente? Alguém duvidaria que os militares dos EUA estivessem se preparando para atacar alvos em toda a Venezuela como forma de retaliação?

Porém, é exatamente isso que testemunhamos na semana passada – só que no sentido contrário, e sem qualquer demonstração de espanto ou indignação nos Estados Unidos.

Ministro de Comunicação da Venezuela, Jorge Rodríguez, mostra um vídeo do americano Airan Berry, ex-soldado das forças especiais dos EUA ligado à empresa de segurança privada Silvercorp USA, sediada na Flórida. A declaração do ministro foi televisionada no dia 7 de maio, desde Caracas.

Ministro de Comunicação da Venezuela, Jorge Rodríguez, mostra um vídeo do americano Airan Berry, ex-soldado das forças especiais dos EUA ligado à empresa de segurança privada Silvercorp USA, sediada na Flórida. A declaração do ministro foi televisionada no dia 7 de maio, desde Caracas.

Foto: Ministério de Comunicação da Venezuela via AP

No dia 3 de maio, foi a Venezuela que capturou dois ex-soldados das forças especiais dos EUA, Luke Denman e Airan Berry, depois do que as autoridades descreveram como um “desembarque mal feito na praia de Chuao”. Foi divulgado um vídeo de Denman dizendo a seus interrogadores que ele tinha a tarefa de capturar o presidente venezuelano. Enquanto isso, Jordan Goudreau, ex-integrante das Forças Especiais do Exército americano e chefe da empresa de segurança privada Silvercorp USA, apareceu em um vídeo ao lado de um ex-militar venezuelano fardado. Na gravação, Goudreau confirmou que Denman e Berry estavam trabalhando para ele. Desde então, a imprensa revelou que Goudreau teve reuniões com Keith Schiller, ex-guarda-costas de Trump, assinou um contrato multimilionário com a oposição venezuelana, apoiada pelos EUA, e também disse ter entrado em contato com o escritório do vice-presidente Mike Pence.

Na quarta-feira passada (6), o secretário de Estado americano Mike Pompeo, ex-diretor da CIA, deu uma coletiva em que usou palavras cautelosas para negar a participação do governo Trump: “Não havia envolvimento direto do governo dos EUA nisso”. O secretário também se gabou aos repórteres sobre como “teria sido diferente” se os Estados Unidos estivessem por trás disso (dica a Pompeo: procure no Google “Baía dos Porcos”).

Quem sabe? Talvez Washington não estivesse envolvida dessa vez. Talvez Trump esteja correto ao dizer que esse fiasco em particular, que parece o enredo de um filme ruim de Hollywood, “não tem nada a ver com o nosso governo”.

Mas vale lembrar: trata-se de um governo de mentirosos, cascateiros e vigaristas. Desonestidade é a marca registrada da Casa Branca na gestão de Trump. Suas negações, portanto, são bastante inúteis.

Além disso, há uma história recente a considerar: a demonização e o estrangulamento da Venezuela têm sido um projeto bipartidário em Washington desde a ascensão de Hugo Chávez e a “maré rosa” socialista no final dos anos 1990. Em 2002, o governo Bush incentivou e auxiliou um golpe (fracassado) contra Chávez (lembrei ainda o caso de Otto Reich – ex-oficial de Bush acusado de se reunir previamente com os conspiradores–, que havia sido avisado pela CIA de uma tentativa de golpe cinco dias antes da ocorrência!).

Em 2015, o governo Obama tomou a decisão absurda de declarar formalmente a Venezuela uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional dos EUA. Na época, os Estados Unidos tinham uma população 11 vezes maior, eram 600 vezes mais ricos em termos de produto interno bruto (PIB) e dispunham de um orçamento militar 1,8 mil vezes o tamanho do venezuelano.

Em 2019, o governo Trump chamou Maduro de “ilegítimo” e reconheceu o líder da oposição Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela. Até o momento, Washington indiciou Maduro por acusações de narcoterrorismo; recusou-se a suspender sanções engessantes contra Caracas apesar da pandemia da covid-19; e colocou navios de guerra perto da Venezuela, no que foi descrito como “uma das maiores operações militares dos EUA na região desde a invasão do Panamá, em 1989, para remover o general Manuel Noriega do poder”.

Mudar os regimes alheios é a política explícita do governo do EUA.

Vamos deixar claro: o regime em Caracas é brutal, autocrático e corrupto. Mais de quatro milhões de venezuelanos fugiram do país nos últimos anos; e os reais índices de aprovação do presidente giram em torno de 10%.

Mas qualquer um que afirme que a oposição americana a Maduro se baseia em uma preocupação pela democracia ou pelos direitos humanos na Venezuela é desonesto ou iludido. Os Estados Unidos têm uma longa tradição de apoio a ditadores em todo o mundo – e especialmente na América Latina. Pense no general Efraín Ríos Montt, na Guatemala. Ou o general Augusto Pinochet, no Chile. Ou o general Jorge Rafael Videla na Argentina. A lista não tem fim.

Não, a verdadeira razão pela qual os Estados Unidos estão obcecados em derrubar o governo em Caracas é, evidentemente, porque a Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo – porém, com líderes contrários aos Estados Unidos e ao capitalismo. De fato, Trump e seus companheiros têm o costume de dizer em voz alta o que pretendem fazer. Como revelou o ex-diretor do FBI Andrew McCabe no livro “The Threat” [“A Ameaça”, sem edição em português], Trump perguntou – em uma reunião com autoridades de inteligência em 2017 – por que os EUA não estavam em guerra com a Venezuela, apontando que “eles têm todo esse petróleo e estão bem no nosso quintal”.

Em janeiro de 2019, John Bolton, o então conselheiro de segurança nacional de Trump, disse à Fox Business: “Fará uma grande diferença econômica para os Estados Unidos se pudermos fazer com que as empresas de petróleo americanas realmente invistam e produzam no potencial petrolífero da Venezuela”.

Não sabemos se Trump e cia. estiveram envolvidos na operação de Goudreau contra Maduro. O que sabemos, porém, é que eles continuam tentando esfomear e intimidar a Venezuela até a rendição. Se o governo Trump desse a mínima para o povo desse país, atenderia a pedidos de todos, desde o Papa Francisco e o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos a um grupo de congressistas democratas, para suspender sanções e ajudar Caracas a combater a propagação do novo coronavírus.

Mas não vai — porque não se importa.

Tradução: Juan Ortiz