Uma mulher segura um cartaz com os dizeres "PPE" [EPI] diante do Hospital St. Thomas, em 7 de abril, em Londres.

Uma mulher segura um cartaz com os dizeres “PPE” [EPI] diante do Hospital St. Thomas, em 7 de abril, em Londres.

Foto: Justin Setterfield/Getty Images

“O NHS salvou minha vida, sem discussão”, disse Boris Johnson há alguns dias, agradecendo ao prestigiado National Health Service, o serviço de saúde pública do Reino Unido, pelo sucesso do seu tratamento contra a covid-19, que durou sete dias, no começo de abril. “É difícil encontrar palavras para descrever minha dívida”, disse o primeiro-ministro, citando nominalmente diversos enfermeiros, e agradecendo a dois em particular por permanecerem junto ao seu leito por 48 horas, quando “as coisas poderiam ter ido para qualquer lado”.

O discurso de Johnson, pelo qual ele talvez esperasse receber elogios, serviu para lembrar que o NHS é um sucesso apesar do primeiro-ministro. Quando os primeiros casos de covid-19 foram confirmados no Reino Unido no fim de janeiro, o Partido Conservador de Johnson alegou que estava preparado para qualquer eventualidade.

Mas essa afirmativa se revelou mentirosa. O fracasso do governo no fornecimento de equipamentos de proteção em volume suficiente, que até agora contribuiu para as mortes de pelo menos 150 profissionais de saúde no país, poderia ter sido evitado. Além disso, duas investigações distintas revelaram tentativas do alto escalão para encobrir esses fatos.

Há alguns dias, o Panorama da BBC mostrou que, no estoque de pandemia do governo britânico, faltavam equipamentos essenciais como aventais, óculos de proteção, swabs (cotonetes esterilizados) e sacos mortuários. O governo, obviamente, estava ciente desse déficit. Ainda assim, mesmo depois de a pandemia chegar ao país, as lideranças do Reino Unido recusaram diversas oportunidades de compra de EPIs [equipamentos de proteção individual] em grande volume. Quando a falta de material se tornou óbvia para o público, o governo tentou ocultar o problema inflando os números, contando um par de luvas como dois EPIs, por exemplo.

Outra investigação, conduzida pelo Sunday Times, um jornal de propriedade de Rupert Murdoch, com viés indiscutivelmente de direita, e que costumava bajular Johnson chamando-o de “estrela do rock”, mostrou como o primeiro-ministro foi leviano no enfrentamento da pandemia. Johnson faltou a cinco reuniões de emergência de alto escalão para discutir o coronavírus, segundo relatou o jornal. Johnsn insistia, à maneira do presidente dos EUA, Donald Trump, que os relatórios informativos fossem os mais curtos possíveis. Ele foi passar o feriado em uma casa de campo, se recusava a trabalhar nos fins de semana, e compareceu a um baile beneficente.

Depois de seu discurso de agradecimento, Johnson se recolheu à luxuosa mansão de Chequers, uma propriedade de 600 hectares do século 16, usada pelos primeiros-ministros britânicos, onde foi fotografado passeando pelo campo com sua noiva grávida e seu cachorrinho da raça Jack Russell Terrier (o bebê do casal nasceu no dia 29 de abril). O mundo estava nas garras de uma crise sem precedentes, e o Reino Unido estava sem liderança.

Os profissionais do NSH que cuidaram de Johnson, por sua vez, retornaram imediatamente ao trabalho, e todos os dias surgem relatos de profissionais de saúde da linha de frente, como eles, que são forçados a combater o vírus altamente contagioso vestindo sacos de lixo e aventais de plástico. Eles estão pedindo às escolas para doarem óculos de laboratório. Estão adaptando snorkels de mergulho como máscaras respiradoras. Quando a UNISON, o maior sindicato de servidores públicos do Reino Unido, abriu um disque-denúncia para falta de EPIs, foi inundado por ligações de profissionais de saúde contando que precisavam comprar o próprio equipamento.

Um dos profissionais de saúde que morreram até agora, Abdul Mabud Chowdhury, urologista clínico em Londres, havia escrito um post no Facebook pedindo a Johnson que protegesse ele e seus colegas. “Espero que tenhamos o direito a esse mínimo apoio”, escreveu em 18 de março, cinco dias antes de ser hospitalizado.

Johnson é responsável por sua morte, e pelas mortes de todos os outros profissionais de saúde do país.

Os primeiros sinais de que Johnson não estava à altura da responsabilidade apareceram logo no começo da pandemia. Ao mesmo tempo em que repetia que o governo era “comandado pela ciência”, o recém-eleito primeiro-ministro parecia defender uma duvidosa estratégia de “imunidade de rebanho”, na esperança de que a exposição à doença promovesse a imunidade entre a população britânica. Um resultado que, para felicidade de Johnson, não exigiria nenhuma ação de seu governo. Nas reuniões do comitê científico que luta para informar sobre as ações do governo baseadas em ciência, apenas seu assessor-chefe compareceu. E o assessor em questão teria participado ativamente das reuniões, comprometendo a neutralidade do processo, e despertando a desconfiança na população de que as decisões pudessem estar sendo tomadas com objetivos políticos em vez de científicos.

Ao mesmo tempo em que falava sobre ciência, Johnson agia como um homem convicto de possuir poderes mágicos  e, por extensão também o país que ele lidera  para escapar de uma doença que deixou de joelhos boa parte do mundo, incluindo países vizinhos como França, Espanha e Itália.

Em fevereiro, o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças tinha avisado que, para lidar com os casos mais graves de covid-19, os profissionais de saúde precisariam de aproximadamente 20 conjuntos de EPI por paciente, por dia. O governo Johnson teve pelo menos três oportunidades de participar do esquema da UE para comprar EPIs em grandes volumes. Mas decidiu não aderir. Não só isso, mas autoridades britânicas enviaram mais de 200 mil unidades de EPIs para a China, depois mentiram sobre a decisão de não participar do esquema de compra da UE, alegando “não terem visto os e-mails”, embora tivessem participado de reuniões sobre o assunto. Numa entrevista para a TV, Johnson disse que uma das estratégias para enfrentar o novo coronavírus poderia ser “levar um reto no queixo”.

No começo de março, Johnson e sua noiva compareceram a uma partida de rúgbi. Na sequência, ele se encontrou com pacientes de hospital, alguns dos quais, segundo ele, poderiam ter covid-19. Johnson se gabou de ter apertado suas mãos.

O primeiro-ministro Boris Johnson parabeniza o capitão da seleção inglesa Owen Farrell pela Tríplice Coroa durante a partida entre Inglaterra e País de Gales no torneio Guinness Six Nations 2020, em 7 de março, no Twickenham Stadium, em Londres.

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson parabeniza o capitão da seleção inglesa Owen Farrell pela Tríplice Coroa durante a partida entre Inglaterra e País de Gales no torneio Guinness Six Nations 2020, em 7 de março, no Twickenham Stadium, em Londres.

Foto: Charlotte Wilson/Offside via Getty Images

Em março, a Coreia do Sul, Taiwan, e mesmo pequenos estados indianos como Kerala já haviam mostrado como sociedades democráticas, trabalhando com afinco, tinham condições de aplicar um programa aprovado pela Organização Mundial de Saúde e realizar rastreamento de contatos, testes e isolamento como forma de conter o coronavírus. Alguns especialistas diziam que, dado o prazo que pode ser necessário para desenvolver uma vacina  até cinco anos, talvez –, um programa assim seria a única forma realista de seguir adiante. Jacinda Arden, da Nova Zelândia, e Angela Merkel, da Alemanha, também empregaram esses instrumentos sem demora; ao agir com rapidez, salvaram vidas.

As ações bem-sucedidas desses países foram apresentadas a Johnson de bandeja. O Reino Unido teve uma boa vantagem de tempo em relação a vários países  segundo um especialista, talvez chegando a nove semanas, considerando o período entre a confirmação da transmissão do coronavírus entre humanos na China e o primeiro caso conhecido de transmissão local no Reino Unido, em 29 de fevereiro. Porém, preocupado com a saída do Reino Unido da União Europeia em 31 de janeiro, Johnson ignorou todos os avisos e desperdiçou todas as oportunidades de proteger seu país. Nascido e criado na crença da própria excepcionalidade, ele se colocou em perigo, juntamente com milhões de britânicos, muitos dos quais se contaminaram com seu pensamento mágico.

Em 16 de março, organizadores do Festival de Cheltenham, um evento de quatro dias de corridas de cavalos, mencionaram a presença de Johnson na partida de rúgbi no começo do mês como justificativa para manter seu evento, observando que “a orientação do governo é para que os negócios do país continuem funcionando normalmente”. As corridas atraíram aproximadamente 250 mil pessoas ao longo dos quatro dias, muitas das quais posteriormente deram positivo nos testes para coronavírus. Os hospitais de Gloucestershire, o condado onde se localiza Cheltenham, agora estão entre os mais atingidos do país.

O governo também deixou as fronteiras abertas, permitindo a chegada de voos da Itália, da China e dos EUA sem qualquer tipo de quarentena até meados de abril, muito depois que todos os países já tivessem determinado a quarentena dos recém-chegados. No turno de Johnson, o Reino Unido se tornou um impressionante exemplo do que não fazer.

O número crescente de mortes no país, pelo qual Johnson é pessoalmente responsável, torna impossível acreditar em qualquer coisa que ele diga daqui em diante. Acreditar nele pode equivaler a colocar em risco a própria vida e as dos entes queridos. Na ausência de uma liderança confiável, as pessoas estão sendo obrigadas a tomar decisões críticas por conta própria. Essa luta diária está acontecendo em meio a outra calamidade  uma economia que já estava seriamente comprometida em decorrência do Brexit agora está desmoronando com a pandemia.

A economia do Reino Unido vai encolher 6,8% em decorrência da epidemia do coronavírus, e vai levar três anos para se recuperar. A despeito disso, o principal negociador do Brexit no Reino Unido deixou claro que não vai pedir extensão do prazo de 31 de dezembro para atingir um acordo comercial com a UE. Se nenhum acordo for obtido, o país será obrigado a utilizar os termos da Organização Mundial de Comércio, segundo os quais estará responsável por tarifas e controles de fronteira que causarão ainda mais desgaste econômico.

O Reino Unido não tem como arcar com isso. Apenas três semanas depois do começo do lockdown em âmbito nacional, em 23 de março, mais de 1,5 milhão de britânicos enfrentavam insegurança alimentar, de acordo com um estudo; esse número inclui 53% dos funcionários do NHS. A pesquisa também diz que 830 mil crianças poderiam ficar sem a merenda escolar gratuita de que dependiam, porque o governo deixou de cumprir outra promessa  alimentar as crianças necessitadas durante o lockdown.

Milhares de enfermeiras participam de um protesto do Royal College of Nursing [Escola Real de Enfermagem] na Parliament Square para protestar contra o congelamento salarial e exigir que o governo retire a limitação de 1% para os aumentos de salário das enfermeiras, em 6 de setembro de 2017, em Londres.

Milhares de enfermeiras participam de um protesto do Royal College of Nursing [Escola Real de Enfermagem] na Parliament Square para protestar contra o congelamento salarial e exigir que o governo retire a limitação de 1% para os aumentos de salário das enfermeiras, em 6 de setembro de 2017, em Londres.

Foto: Wiktor Szymanowicz/Barcroft Media via Getty Images

A atual crise vem sendo produzida há uma década. Johnson e seus colegas do “Tory”, como o Partido Conservador é apelidado, passaram anos sucateando o NHS, sob o pretexto de implementar medidas de austeridade para reduzir salários e benefícios, sendo que, na realidade, aparentemente estavam tentando forçar o país a usar um sistema de saúde privada no modelo dos EUA.

Em 2011, cinco membros do parlamento do Partido Conservador, três dos quais são agora ministros do governo Johnson, publicaram um panfleto defendendo a privatização. De acordo com uma investigação do jornal Guardian, empresas privadas receberam contratos no valor de 15 bilhões de libras (aproximadamente R$ 100 bilhões), um salto de 89% desde 2015. Nos anos seguintes, a antecessora de Johnson, Theresa May, removeu as bolsas de enfermagem, que auxiliavam as enfermeiras com os custos de moradia e estudo, e rejeitou aumentos salariais, votando pela manutenção dos salários das enfermeiras abaixo dos índices de inflação. Johnson, como praticamente todos os membros do Partido Conservador, votou a favor de May e comemorou depois que o resultado da votação foi anunciado. May explicou sua decisão de frente para uma enfermeira, dizendo, no seu tom tipicamente frio: “não há uma árvore mágica de dinheiro para sacudir“.

Em 2016, o plebiscito do Brexit conduzido pelos conservadores contaminou de tal forma a atmosfera do Reino Unido contra os cidadãos da União Europeia que mais de 11 mil imigrantes a serviço do NHS, incluindo 4.763 enfermeiras, retornaram a seus países de origem. “É o Serviço Nacional de Saúde, não o Serviço Internacional de Saúde”, desdenhou à época, no Twitter, Matt Hancock, ministro da Saúde do governo Johnson. O resultado da visão limitada de Hancock foi revelado no mês passado, quando ele se viu obrigado a implorar a profissionais de saúde aposentados, incluindo alguns já com 70 ou 80 anos, especialmente vulneráveis ao vírus, que retornassem ao trabalho para reforçar os contingentes de pessoal (Hancock contraiu o coronavírus em março). Um dos hospitais de emergência que ele ajudou a estruturar para lidar com a covid-19 permanece em grande parte vazio por falta de pessoal de enfermagem.

Johnson, por sua vez, não mediu esforços para elogiar os dois enfermeiros imigrantes que cuidaram dele durante a doença, uma da Nova Zelândia, e o outro, de Portugal. Um novo sistema com o objetivo de incrementar o contingente de pessoal de saúde durante a crise permite que médicos estrangeiros, alguns vivendo no Reino Unido como refugiados, possam ingressar no NHS. Porém, apenas como pessoal de apoio, não como médicos, mesmo sendo plenamente qualificados em seus países de origem.

Ao longo de todo esse período, os conservadores foram consistentemente reduzindo os estoques nacionais de equipamentos médicos, reduzindo seu valor total em quase 40% em três anos, e privatizando sua gestão. A última simulação de pandemia, em 2016, já previa que o serviço de saúde entraria em colapso, segundo a investigação do jornal Sunday Times. Nos anos que se seguiram, relata o jornal, “os preparativos para um Brexit sem acordo sugaram todo o sangue do planejamento contra pandemias”.

O número de mortes no Reino Unido chegou a 32.140 até 10 de maio, segundo o governo (os números oficiais agora levam em conta as mortes em residências particulares e asilos, não apenas as mortes em hospitais). Uma análise de dados da Secretaria Nacional de Estatística, feita pelo Financial Times, mostrou que os números iniciais não incluíam esses valores adicionais, e que até a metade de abril, segundo o jornal, o verdadeiro número de mortes já estaria perto de 41 mil.

É tentador acreditar que o encontro de Johnson com o coronavírus possa tê-lo tornado mais humilde, ou que as investigações possam ter causado vergonha suficiente para que ele faça seu trabalho. Alguns funcionários do NHS, porém, não ficaram impressionados com suas manifestações de gratidão.

“Esse momento de emoção ajuda o governo a mascarar as deficiências”, disse à BBC um profissional de saúde. “Ser chamados de heróis só serve para normalizar nossas mortes.”

No dia 27 de abril, depois de três semanas afastado, Johnson voltou ao trabalho. Em uma coletiva de imprensa defronte ao número 10 de Downing Street, ele se autoelogiou e mencionou “verdadeiros sinais de que estamos passando pelo pico”. Os números dão outra impressão, e só houve uma breve menção a EPI.

À medida que o número de mortes no Reino Unido ameaça ser o pior da Europa, só há uma escolha real. Boris Johnson precisa se desculpar, renunciar, e permitir que um líder de verdade assuma o controle.

Tradução: Deborah Leão