Military medics salute to the Huoshenshan Hospital in Wuhan, central China's Hubei Province, April 15, 2020. With the approval of Xi Jinping, chairman of the Central Military Commission, military medics who were dispatched to Hubei Province to assist with the treatment of COVID-19 patients have left the provincial capital city of Wuhan after completing their mission.

Médicos militares deixam hospital em Wuhan, em 15 de abril, após concluir sua missão no combate ao covid-19 na capital da província.

Foto:Xinhua/Fei Maohua via Getty Images

A pandemia covid-19 pode ser um divisor de águas na história da diplomacia chinesa e, quem sabe, do próprio sistema mundial no século 21. A China abandonou a postura de evitar conflito direto e agora parte para o contra-ataque, rebatendo aos insultos dos Estados Unidos — e também do Brasil — com palavras duras dando um novo tom às relações diplomáticas.

Acompanhando os principais jornais chineses e os tuítes de membros do governo diariamente, fica visível que o discurso oficial mudou drasticamente. A tolerância acabou, e não sabemos ao certo as consequências dessa atitude. Diante da desastrosa postura de Trump e o número crescente de morte de norte-americanos com o novo coronavírus, a pergunta que fica é: onde o Reino do Meio quer chegar?

Em tempos de lógica fascista, animada pela política da criação do inimigo comum, a China virou o grande espantalho que a extrema direita procurava para justificar sua incompetência e o negacionismo científico. Só que, nesse caso, a habitual ignorância dos extremistas está causando a morte de centenas de milhares de pessoas em questão de semanas: os Estados Unidos já superaram a casa das 70 mil mortes; o Brasil, das 11 mil.

O governo chinês, ao seu modo, seguiu a ciência e tomou medidas enérgicas para contornar a pandemia. Na disputa com os EUA, hoje, é ele quem toma à frente no discurso pró-ciência e acusa os EUA de negacionistas.

As teorias da conspiração e os ataques racistas em relação à China constituem um fenômeno no mundo atual. Eles aparecem no discurso de Donald Trump, que comumente fala em “vírus chinês”, expressão condenada pela OMS. A versão tupiniquim do insulto é “comunavírus”, que supostamente teria sido usada pelo chanceler Ernesto Araújo. Já o filho do presidente Eduardo Bolsonaro nunca teve pudor de culpar a China como disseminadora da pandemia. O embaixador Yang Wanming respondeu de forma enérgica no Twitter, repudiando as declarações e exigindo um pedido de desculpas — que não veio e nem nunca virá. Para Janaína Câmara da Silveira, jornalista da agência chinesa de notícias Xinhua e mestra em economia da China, a resposta do embaixador chinês está longe de ser um fato isolado, mas responde a uma diretriz adotada em vários países.

É difícil entender a lógica de jogar pedra contra o maior parceiro comercial do Brasil, que poderia auxiliar de forma muito mais eficiente no combate à anunciada tragédia brasileira. O mundo subterrâneo bolsonarista prefere viver de espalhar vídeos e memes racistas no WhatsApp, pois acredita estar lutando contra a ameaça comunista. Acreditam que tudo seria um plano da China para exportar suprimentos, como máscaras e luvas e, de quebra, dominar o Ocidente. O governo brasileiro juntou suas fantasias fascistas com a postura subserviente aos EUA e optou por seguir a linha negacionista e ignorante de seu grande líder, Trump.

Desde março, os Estados Unidos decidiram começar a cancelar ou limitar o visto de jornalistas chineses, alegando que eles não faziam jornalismo, mas propaganda. Os chineses dizem que se trata de uma “expulsão” e que a liberdade de expressão norte-americana é uma hipocrisia. Um jornalista chinês relata que foi para os EUA em busca de liberdade de expressão e encontrou o oposto. Os chineses responderam à altura, restringindo o visto de dezenas jornalistas norte-americanos, incluindo correspondentes de jornais como Washington Post e New York Times.

O jornal Global Times, o GT, grande plataforma da visão chinesa para o mundo, apesar de afirmar que a guerra entre os dois países dificilmente irá acontecer, não deixa dúvidas que a guerra discursiva já começou. O jornal adotou uma estética própria, usando desenhos que remetem o confronto e a queda de braços entre as bandeiras norte-americanas. A China é o mar; os Estados Unidos, fogo.

Imagens usadas pelo jornal Global Times usam as bandeiras para fazer alusão à disputa.Ilustrações: Global Times

Os meios de comunicação chineses adotaram o estilo “sangue nos olhos”, feito por meio de uma forte adjetivação textual. Nas últimas semanas, pipocaram expressões como hipócritas, negacionistas, arrogantes, ridículos, incompetentes, sinofóbicos, populistas, anti-intelectualistas, etc. Estamos diante de uma novidade: a adoção pela diplomacia chinesa de uma linguagem muito mais emocional e de confronto em detrimento da polidez e do autocontrole usual chinês.

Mas é no Twitter que a guerra discursiva ganha corpo. A China envolve pelo menos 115 contas de diplomatas, embaixadas e consulados naquilo que chamam de estilo “guerreiros de lobos”, com referência a um filme patriota chinês lançado em 2015, no qual a operação especial do exército chinês e a polícia lutam contra contrabandistas químicos. O editor-chefe, Chen Weihua, do China Daily, tuíta diariamente provocações e questionamentos duros contra as atitudes econômicas e sanitária das autoridades norte-americanas. Na liderança dessa nova forma de diplomacia tuiteira está Zhao Lijian, representante das relações estrangeiras, que possui mais de 600 mil seguidores.

A agência chinesa de notícias, Xinhua, lançou um vídeo intitulado “Era uma vez um vírus”, disparado por diversas embaixadas chinesas que despertou a atenção do mundo todo. Nele, um boneco ao estilo Lego do exército de terracota de Xian discutia com um boneco da Estátua da Liberdade, rebatendo ataques e apontando a incongruência e o desdém norte-americanos.

O governo brasileiro juntou suas fantasias fascistas com a postura subserviente aos EUA e optou por seguir a linha negacionista e ignorante de seu grande líder, Trump.

No centro das narrativas está o repúdio dos chineses da narrativa de Trump de chamar a covid-19 de vírus chinês, de serem culpados de negligência no início da pandemia e estarem agora sendo responsabilizados por mortes. A diplomacia de mídias sociais rebate acusação por acusação feita pelos EUA.

E vão além. Os chineses agora questionam a própria origem do vírus, alegando que se o surto teria chegado à China pelo exército norte-americano. Uma notícia da Reuters que uma mulher na Califórnia foi infectada nos estágios iniciais sem ter viajado para fora do país foi bastante usada pelas agências chinesas para questionar a origem do vírus. A própria OMS questiona a data de início do surgimento do vírus — o que é um prato cheio para a China.

Eles também alegam que a guerra nuclear é improvável, mas mandam recados: “nós não somos o Iraque”. O editor-chefe do Global Times declarou que a China precisa se munir de armas nucleares contra os EUA. O próprio jornal comemorou que a postagem recebeu 300 mil curtidas na rede social chinesa Sina Weibo. Paralelamente aos ataques, tentam mostrar também sua face benevolente de ajuda humanitária tanto por parte do governo quanto por parte de seus empresários, como o bilionário Jack Ma, dono da Alibaba, que envia suprimentos para mais de 150 países.

Apesar da ofensiva, o sentimento anti-china está crescendo e é maior desde o massacre da Praça da Paz Celestial em 1989, segundo um relatório interno do governo. A China reage. Mas, como alertaram alguns especialistas e diplomatas com quem conversei nos últimos dias — e que pediram anonimato —, o tom da diplomacia de rede social e da comunicação oficial ainda soa um pouco amador, com linguagem e estilo juvenil ou mesmo “treteiro”, que gera muitos likes e engajamento, mas pode aumentar ainda mais a tensão entre os países e desviar a atenção daquilo que é essencial: o combate à epidemia.

A China tem sido vítima de xenofobia, racismo e postura intransigente e ignorante dos EUA e de seus vassalos. Penso que a decisão de rebater os insultos e disputar narrativas é correta. A estratégia narrativa, porém, ainda pode ganhar mais sobriedade.

É cedo para avaliar as reais intenções chinesas com a política do contra-ataque. O que ficou claro é que a postura de conciliadora, de apanhar sem revidar, acabou. Onde a China quer e pode chegar com a mudança de discurso é uma das grandes questões em aberto da política internacional do século 21.