A corpse of a COVID-19 coronavirus victim is moved by medical staff in protective suits into a refrigerated area of the Joao Lucio Hospital in Manaus, Amazonas state, Brazil on April 21, 2020.

Um corpo embalado é removido do hospital João Lucio, em Manaus, Amazonas, em 21 de abril. O estado é um dos mais atingidos.

Foto: Michael Dantas/AFP via Getty Images

“Não consigo dormir direito. Eu sonho que estou fazendo pacote de paciente”, desabafa Fabiana*, técnica de enfermagem do Hospital 28 de Agosto, um dos mais superlotados de Manaus, capital do Amazonas. O “empacotamento” dos mortos costumava ser feito com sacos plásticos, mas o material acabou. Agora, ela e os colegas enrolam os corpos nos próprios lençóis, e com pressa. É preciso liberar o leito de UTI, antes que se perca mais alguém na sala rosa, agora chamada de sala da morte.

Na tarde chuvosa em que Fabiana conversou comigo, em 6 de maio, duas técnicas de enfermagem haviam morrido em Manaus por causa do coronavírus. Entre médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, já são 27 mortos em Manaus até 12 de maio, segundo a presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Estabelecimento de Serviço de Saúde do Amazonas (Sindipriv), Graciete Mouzinho.

Apesar de serem os que mais se expõem à covid-19 – são eles que dão banho, medem os sinais vitais e cobrem os mortos –, os técnicos são os últimos da fila na hora de ganhar os equipamentos de proteção individual, os EPIs, segundo Fabiana. “A gente dá banho em um paciente, pendura o capote todo contaminado, vai almoçar e quando volta veste o mesmo capote”, conta.

Segundo a técnica, os funcionários que reclamaram das condições de trabalho foram perseguidos pela direção do hospital e transferidos para outras unidades de saúde de Manaus. Por isso, ela prefere não se identificar, e vai se virando como pode.

A técnica de enfermagem tem tirado dinheiro do parco salário, de R$ 1,5 mil, para comprar máscaras de proteção. O governo do Amazonas não paga sequer insalubridade à categoria que coloca a vida em risco todos os dias. A situação não é muito melhor para os médicos e enfermeiros do Amazonas, que trabalham com os salários atrasados, como informam o Sindipriv e o Sindicato Médico do Amazonas. Manaus é o retrato mais real do colapso do sistema de saúde diante do coronavírus – e Fabiana é uma testemunha do colapso dos hospitais na capital do Amazonas.

Dois dias após conversar comigo, Fabiana mandou a foto de mais uma colega de trabalho que morreu por causa do coronavírus. No domingo, ela perdeu um tio de 63 anos para a covid-19. Ele morava no Rio, e ela não pôde se despedir.

A Secretaria Estadual da Saúde do Amazonas, responsável pelo Hospital 28 de Agosto, afirma que paga os salários dos servidores estaduais em dia e que os técnicos de enfermagem não recebem auxílio-alimentação por terem direito a se alimentar no trabalho. Em relação aos repasses aos demais profissionais de saúde, o governo diz que tem se empenhado para regularizar o pagamento das empresas médicas e de enfermagem. A assessoria de imprensa do governo de Wilson Lima, do PSC, nega que os técnicos estejam trabalhando 12h com os mesmos EPIs e que haja perseguição aos trabalhadores que reclamam à direção. Confira a íntegra da resposta aqui.

O relato abaixo foi editado com fins de clareza.

Nós, os técnicos de enfermagem, temos muito mais contato com os pacientes do que os médicos ou os enfermeiros. A gente que chega perto do paciente para fazer medicação, sentir os sinais vitais, dar banho. O certo seria trocarmos a roupa cada vez que a gente fosse mexer em um paciente com coronavírus. Mas lá no Hospital 28 de Agosto eles só nos dão um kit de EPI por dia. São 12h com a mesma paramentação. A gente dá banho no paciente com covid, tira o capote para comer, volta e coloca o mesmo capote. Os médicos e enfermeiros têm prioridade, eles podem trocar os EPIs durante o dia. Mas nós somos esquecidos.

Por isso que muitos técnicos estão se contaminando dentro do hospital. No meu último plantão, faltaram sete colegas, todos doentes. Eu mesma acho que eu já me contaminei. Há duas semanas, eu estava com muita febre, dor de cabeça, coriza, dor no corpo. Mas o médico do hospital não queria me dar atestado. A ordem da direção é não dar atestado para nenhum técnico, porque senão vão ficar sem gente para trabalhar. Então, eu consegui um atestado em outra unidade de saúde e fiquei só um dia sem ir trabalhar. Tem muitos colegas que confirmaram que estão com covid-19 e estão assintomáticos, e estão trabalhando assim mesmo. A gente não tem como deixar estes pacientes sem assistência, mas estamos sobrecarregados.

Temos 40 leitos e estão todos cheios. Só libera leito quando tem óbito. E daí nem dá tempo de limpar e já coloca outro paciente. São só pacientes super graves. Não tem mais paciente consciente – a maioria está entubada. Eles exigem mais cuidado, porque é muita bomba de infusão. Tem paciente com dez bombas de infusão, que é um aparelho que usamos para medir a quantidade de medicação que entra na veia do doente e serve também para alimentação. Casos gravíssimos mesmo. Estão acontecendo muitos óbitos, muitos mesmo.

Só ontem, no meu plantão, foram quatro mortes na UTI. Se eu fizer um óbito, pelo protocolo eu tenho que jogar a máscara que eu estou usando fora e colocar outra, mas no hospital a direção não está deixando fazendo isso. A máscara N95 é dada para usarmos por um mês. A gente assina até um termo compromisso (o hospital fica com o documento e não repassa a cópia aos funcionários). Se a máscara rasgar ou molhar, a responsabilidade é nossa, e a gente que tem que conseguir outra por conta própria. Então eu compro meus EPIs. Eu já comprei máscaras, já comprei um macacão impermeável. A gente está gastando do nosso bolso.

A sala rosa, lá no hospital, se transformou em sala da morte. Lá naquela sala, quem entra raramente sai vivo. É para onde vão as pessoas que chegam passando mal. Como não tem leito de UTI e elas acabam morrendo lá embaixo mesmo. É muita morte mesmo. Antes tinha só uma sala rosa, hoje são três. Alguns que chegam na sala rosa não tem o covid, mas acabam se contaminando. É uma bagunça total.

Já perdi as contas de quantos corpos eu já empacotei. Antigamente dava para contar, agora não dá, não.

Eu estava conversando com uma colega que fica na sala rosa e ela disse que fez cinco pacotes, só de pacientes dela. Cinco pacotes! Isso é uma coisa inédita, nunca antes aconteceu algo parecido a isso. Eu nunca vi uma coisa dessas. Na UTI, era muito raro ter um óbito, agora são três, quatro por dia. Teve um dia que foram seis. Vai morrendo um atrás do outro, sabe?

Quando um paciente morre, a gente tira os acessos e embrulha ele num saco plástico, que é o saco de óbito. A gente faz um pacote. Esse saco acabou no hospital, a gente está embrulhando com lençol agora, e aí os maqueiros levam para o contêiner frigorífico lá embaixo. Já perdi as contas de quantos corpos eu já empacotei. Antigamente dava para contar, agora não dá não.

Eu não consigo dormir direito. Sonho que estou fazendo pacote de paciente. Parece que vai acontecer com alguém da família da gente. Eu tenho muito medo. Tem colega que está alugando quarto para dormir porque tem medo de infectar os filhos e a mulher. Um colega meu infectou a esposa, e ela faleceu. E tem pessoas que ainda falam que é fake news. A gente convida para irem lá e passar um plantão conosco para eles verem como está a situação.

*O nome foi trocado para preservar a identidade da fonte. 

Atualização, 12/5, 18h26: O texto foi atualizado para colocar a resposta enviada da Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas, responsável pelo Hospital 28 de Agosto.