Bolsonaro Government Transition Committee

Foto: Mateus Bonomi/AGIF via AP

“Eu não confio nas pesquisas da Fiocruz”, falou o então ministro da Cidadania Osmar Terra, indignado com o resultado de um estudo encomendado pelo governo. Durante três anos, a Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, desenvolveu uma grande pesquisa sobre o uso de drogas no Brasil, que custou R$ 7 milhões ao governo. Mas Osmar Terra decidiu engavetá-la e impedir a sua divulgação pela Fiocruz — tempos depois, o Intercept publicaria o que Terra tentou censurar.

A pesquisa indicou que não há epidemia de drogas no Brasil. O resultado não agradou os bolsonaristas, e Osmar Terra passou a contestá-la de maneira formidável:

“É óbvio para a população que tem uma epidemia de drogas nas ruas. Eu andei nas ruas de Copacabana, e estavam vazias. Se isso não é uma epidemia de violência que tem a ver com as drogas, eu não entendo mais nada. Temos que nos basear em evidências.”

Ou seja, uma pesquisa feita por uma instituição séria, que envolveu 500 pesquisadores e reuniu 16 mil entrevistas, foi refutada pelas impressões de um tiozão de churrasco depois de um rolê em Copacabana. Ele viu as ruas vazias do bairro carioca e concluiu haver uma epidemia de drogas no país inteiro. Sabe aqueles idiotas que dizem não acreditar em pesquisas porque nunca foram entrevistado por elas? Pois então, agora eles viram ministros.

Essa figura chucra e obscura virou uma das referências sobre coronavírus no debate público. Provavelmente de olho na cadeira desocupada por Nelson Teich, Terra está todos os dias nas TVs e rádios falando sobre a pandemia. Apesar de contrariar o consenso científico e errar de forma rude em todas as suas previsões, Osmar Terra tem sido o porta-voz do negacionismo científico na mídia nacional. Não são poucas as barbaridades que ele tem ajudado a disseminar.

Todas as suas projeções são otimistas, bem ao gosto do bolsonarismo, e contrariam as projeções de especialistas em epidemiologia. Há pouco mais de um mês, por exemplo, Osmar Terra afirmou de forma categórica que o número de infecções não estava “caindo, mas desabando de maneira surpreendente”.

O ex-ministro afirmou ainda que devíamos celebrar: “É momento da gente comemorar, até porque é um momento muito importante de a gente reconhecer que não tem esse negócio de a epidemia (o pico) ser no final de maio, que vai subir a curva. Não tem nada disso. Está caindo, vai cair em todo o Brasil. Podem escrever isso e me cobrem”.

Talvez baseado nas primeiras projeções dos cientistas da Easynvest, Terra chegou a decretar que a epidemia em São Paulo tinha atingido o pico no final de março. Estamos em meados de maio e ainda não o atingimos.

Ele também disse que a H1N1 foi “muito mais letal do que coronavírus”, o que também é mentira. A OMS aponta que o coronavírus é só dez vezes mais mortal. “Casos de morte do coronavírus nos EUA não vai chegar a 5 mil”, disse Terra há quase dois meses, em uma das inúmeras lives das quais tem participado. Hoje, os EUA contabilizam quase 90 mil mortes.

“Ano passado morreram 750 pessoas de H1N1. Provavelmente o coronavírus pode matar um pouco mais ou até igual a isso. Não há motivo para parar o país”. Menos de dois meses depois, o Brasil já contabiliza 15 mil mortos.

A quarentena, aplicada em todos os países do mundo, é uma tremenda bobagem para Osmar Terra: “Não há um doente a menos, uma morte a menos porque estão fazendo aquela quarentena radical”.

Mas o ex-ministro não faz questão nenhuma de apresentar estudos que sustentem suas opiniões exóticas. Não, ele prefere seguir com aquela arrogância própria do ignorante que é capaz de contestar a ciência após um passeio por Copacabana: “Conheço isso aí. Não estou falando de livro que eu li, estou falando de experiência vivida”, falou em tom de deboche sobre das medidas de isolamento social.

Osmar Terra tem refutado também o virologista Átila Iamarino, chamando-o de “este senhor que tentou assustar a população”, ao comentar um tuíte da Jovem Pan, a casa não oficial da extrema direita no Brasil, que, por sua vez, chamou o virologista de “uma espécie de Greta Thunberg do vírus para os esquerdistas”.

Um levantamento da agência Aos Fatos mostra que Osmar Terra é, com folga, o congressista brasileiro que mais publicou mentiras sobre a covid-19 no Twitter. Em tempos de pandemia, ele conseguiu desbancar grandes disseminadores de mentiras como os seus colegas bolsonaristas Eduardo Bolsonaro e Bia Kicis, que ficaram em segundo e terceiro lugar.

Mesmo com essa marca espantosa no ranking da mentira, Osmar Terra virou figurinha carimbada em programas de rádio e TV. Equivocou-se quem achou que ele deixaria de ser uma referência no debate público sobre pandemia. É claro que é um dever do jornalismo expor e esculachar o discurso de charlatões, ainda mais em tempos que a desinformação mata. Em entrevista à Rádio Gaúcha, o jornalista Daniel Scola contestou todos os falsos argumentos de Terra, dificultando o proselitismo do ex-ministro. Deu uma aula de jornalismo e o desmascarou ponto a ponto. Mas não tem sido esse o padrão jornalístico visto nas aparições de Terra na mídia.

Em nome de ouvir o contraditório, o jornalismo está servindo de escada ao obscurantismo.

A imprensa brasileira tem feito bom papel ao promover as recomendações da OMS, compensando a omissão genocida do governo federal. Por outro lado, em nome da exposição da pluralidade de ideias, o jornalismo brasileiro transformou os misticismos de Osmar Terra em uma opinião com credibilidade o suficiente para debater em pé de igualdade com gente séria. Assim, valida-se o anticientificismo como algo aceitável e abre-se uma porta para que mentiras perigosas se espalhem. Em nome de ouvir o contraditório — como se terraplanismos fossem matéria de opinião —, o jornalismo está servindo de escada ao obscurantismo.

Em uma semana, Terra apareceu como um debatedor que defende o fim do quarentena em três canais de TV. Na CNN, debateu com o tucano Geraldo Alckmin. Na Band, debateu com o petista Alexandre Padilha. Na Globo News, com Mandetta, do Democratas, e o petista Humberto Costa. Todos os debatedores são médicos. Enquanto os petistas, o tucano e o pefelista defenderam a ciência e a recomendações da OMS, o médico bolsonarista propagou mentiras. Talvez há alguém que ache que o simples fato de Terra ser médico o gabarita para o debate, mesmo que suas análises se baseiem mais em suas crenças do que na medicina. Em tempos de genocídio, não me parece exagerado lembrar que Josef Mengele também era um médico que se baseava mais em crenças do que na ciência.

Aparecer em debates para defender uma ideia estapafúrdia e anticientífica é uma tática muito usada por lobistas no mundo todo. O documentário “O mercado da dúvida”, baseado em livro homônimo, mostra a eficácia da principal tática dos negacionistas: a promoção de diversionismo em debates públicos que não existem dentro da comunidade científica. Há dois anos, em um texto sobre lobby dos agrotóxicos, escrevi esse parágrafo sobre o documentário que ajuda a entender os objetivos dos negacionistas que buscam o debate público:

“Disseminar a dúvida na sociedade em relação às pesquisas que associavam o cigarro ao câncer fazia parte da estratégia adotada pela indústria do tabaco nos EUA que, durante décadas, confundiu a população por meio de intensas campanhas na mídia. Lobistas contratados por essa indústria se aproveitavam da polarização ideológica na sociedade americana para fabricar teorias conspiratórias, culpando não a ciência pela demonização do cigarro, mas as ideologias de esquerda que pretendiam sabotar o capitalismo. O modus operandi foi bem-sucedido e se repetiu em outros temas importantes como o aquecimento global.”

Osmar Terra atua hoje como um lobista informal do bolsonarismo na defesa do fim do isolamento social. Ele não se importa de ser desmascarado por um debatedor sério, porque o seu objetivo no debate é plantar a dúvida. Quando a imprensa promove esse tipo de debate, ela não está dando espaço para o contraditório, mas para que as pessoas acreditem que não existe um consenso científico em favor das medidas de isolamento. Minutos após os debates, vídeos editados com os melhores momentos de Osmar Terra “lacrando” debatedores já estavam circulando no WhatsApp dos brasileiros.

Quem não tem compromisso com a verdade dos fatos já entra com grande vantagem em um debate. Gente séria faz análises criteriosas, balizadas pela ciência. Já o diversionista fica à vontade para impor sua retórica e tratar os fatos no modo freestyle. É plenamente possível vencer um debate sem ter razão, como bem disse Schopenhauer.

O jornalismo dá brecha para o triunfo da desinformação quando chama negacionistas para participar de debates. Quando coloca um defensor da ciência para debater com um bolsonarista, o bolsonarismo já venceu. Assim, ao levar a mentira com status de opinião para a TV, o mau jornalismo contribui para que ela se dissemine. E sabemos exatamente o que isso significa em tempos de pandemia. O lobby do genocídio precisa acabar.