Lily Sage Weinrieb se prepara para transportar um caixão após um velório em 5 de maio de 2020, na cidade de Nova York.

Lily Sage Weinrieb se prepara para transportar um caixão após um velório em 5 de maio de 2020, na cidade de Nova York.

Foto: Misha Friedman/Getty Images

É oficial: Donald Trump agora tem o sangue de 100 mil pessoas em suas pequenas mãos.

Na quarta-feira, a contagem de vítimas do coronavírus nos Estados Unidos ultrapassou a marca de 100 mil, segundo dados da Universidade Johns Hopkins.

Cem. Mil. Pessoas.

É difícil compreender a enormidade, o puro horror desse número de seis dígitos. Para contextualizar, são mais pessoas do que “já morreram em um único ano de Aids, overdose de drogas, violência com armas de fogo ou acidentes de carro nos EUA”. São mais americanos mortos do que “em sete décadas nas guerras da Coreia, do Vietnã, do Golfo, do Afeganistão e do Iraque”. É 33 vezes o número de pessoas que morreram no 11 de setembro.

A seguir, a marca da Primeira Guerra Mundial. Em questão de dias, o número de mortes pelo coronavírus vai ultrapassar o número de mortes militares dos EUA (116.516) da Grande Guerra. Essas vidas foram perdidas ao longo de mais de 19 meses — em comparação com menos de quatro meses agora.

Não precisava ser assim — porque a grande maioria dessas mortes podia ser evitada.

Não acredita em mim? Nos Estados Unidos, o primeiro caso confirmado de covid-19 foi em 20 de janeiro. Três dias depois, o Vietnã confirmou seu primeiro caso de covid-19. Hoje, o número de mortos nos Estados Unidos já superou 100 mil. Já o número de mortos no Vietnã?

Zero.

E o que dizer da Coreia do Sul, que confirmou seu primeiro caso exatamente no mesmo dia que os Estados Unidos?

Menos de 300 mortes até agora.

Segundo os epidemiologistas Britta L. Jewell e Nicholas P. Jewell, “estima-se que 90% das mortes acumuladas nos Estados Unidos por covid-19 (…) poderiam ter sido evitadas se as políticas de distanciamento social entrassem em vigor duas semanas antes, em 2 de março, quando havia apenas 11 mortes em todo o país”.

Noventa. Por. Cento.

Mesmo que essas políticas fossem colocadas em vigor apenas uma semana mais cedo, dizem, o resultado seria “uma redução de aproximadamente 60% nas mortes”.

Pense nisso: dezenas de milhares de americanos estariam vivos hoje se Trump agisse mais cedo.

Mas ele não agiu. Ele estava jogando golfe e realizando comícios de campanha, enquanto denunciava os democratas por “politizar” o coronavírus, que dizia ser a “nova farsa”. Trump estava comparando a covid-19 com a gripe sazonal e alegava que ela desapareceria “milagrosamente”, enquanto se opunha aos testes em americanos doentes em um navio de cruzeiro porque gostava dos números “como eles estão”. Ele estava elogiando o governo chinês pela forma como lidou com o coronavírus, enquanto silenciava uma funcionária do Centro de Contole e Prevenção de Doenças que estava tentando alertar a todos do problema (ninguém ouviu falar dela desde então).

O New York Times, o Washington Post, a Associated Press e o Guardian, entre muitos outros, publicaram textos que oferecem mergulhos profundos na resposta ruim de Trump à pandemia. “Vidas foram colocadas em perigo e acredito que vidas foram perdidas”, disse ao Congresso o especialista em vacinas e delator Rick Bright, neste mês. Mesmo o médico Anthony Fauci, o principal especialista em doenças infecciosas do país, admitiu em uma entrevista de abril a Jake Tapper, da CNN, que havia “muita reação” dentro do governo às medidas de isolamento social e lockdown no início da crise: “quero dizer, obviamente, você poderia dizer logicamente que, se tivesse um processo em andamento e iniciasse a mitigação mais cedo, poderia ter salvado vidas.”

E agora? Vamos registrar solenemente essa nova marca e depois… seguir em frente?

Nós normalizamos uma variedade de excessos, abusos e crimes de Trump nos últimos três anos e meio. Agora vamos normalizar, também, as mortes em massa?

Como os americanos que “perderam a cabeça quando 3 mil pessoas foram mortas no 11 de setembro”, para citar a jornalista Julia Ioffe, e iniciaram várias guerras, ataques com drones e programas de tortura em resposta, ficaram resignados diante de 100 mil mortes em sua própria casa? E o que aconteceu com o choque e a indignação que vimos no início desta crise? Estamos sofrendo da fadiga da pandemia?

Talvez o racismo esteja por trás da nossa aparente indiferença. As mortes por covid-19 aconteceram, na maioria, desproporcionalmente entre negros e pardos. “Quando você começa a ver de onde vêm os casos e a demografia — não estou preocupado”, disse um transeunte que foi entrevistado pelo Washington Post enquanto passeava por um rico subúrbio branco da Geórgia. Entendeu? A demografia. “Infelizmente, a população americana é (…) muito diversa”, disse à CNN o Secretário de Saúde e Serviços Humanos, Alex Azar, enquanto tentava defender o recorde de mortes nos EUA. Entendeu? Muito diversa.

Além disso, há a espessa neblina da desinformação. Culpe a China! Culpe a Organização Mundial da Saúde! Culpe Barack Obama! Como argumentou o crítico de mídia Jay Rosen, professor de jornalismo na Universidade de Nova York, o plano de Trump “é não ter plano, deixar as mortes diárias entre mil e três mil se tornarem uma coisa normal, e então criar uma enorme confusão sobre quem é responsável … ao ‘inundar a zona com merda’, a frase de Steve Bannon para definir a sobrecarga do sistema com desinformação, distração e negação”.

E, é claro, existe a bem documentada “tendência humana a se afastar do sofrimento em massa”, a maneira pela qual nossos níveis de simpatia diminuem à medida que o número de mortes aumentam. “Uma morte é uma tragédia”, diz o velho ditado atribuído a Joseph Stalin, “um milhão de mortes é uma estatística”.

Na verdade, Stalin nunca disse isso. Trump, porém, se esforçou para minimizar e não dar importância ao crescente número de mortos nos EUA. Quando eram 86.607 mortes, ele declarou: “é uma porcentagem muito, muito pequena. Eu digo isso o tempo todo — é uma porcentagem minúscula”.

Cem mil homens, mulheres e crianças não podem ser reduzidos a uma “porcentagem minúscula”. Tampouco deveríamos esquecer seus nomes, seus rostos, seus legados. Philip Kahn, 100 anos, um veterano da Segunda Guerra Mundial. Margit Buchhalter Feldman, 90, uma sobrevivente do Holocausto. Jorge Ortiz-Garay, 49, um padre católico. Dez-Ann Romain, 36, uma diretora de escola. Skylar Herbert, 5, uma aluna do jardim de infância. E eu poderia seguir falando mais e mais e mais.

Ainda assim, Trump não parece dar a mínima. Tendo criticado Obama por jogar golfe durante o surto de Ebola em 2014, que matou apenas duas pessoas nos EUA, Trump passou o fim de semana passado de volta em seu próprio campo de golfe, quando as mortes da covid-19 se aproximavam da marca de 100 mil. Não houve remorso, arrependimento, e poucas condolências às famílias dos mortos. De forma desavergonhada, o comandante-chefe da nação preferiu dar uma volta olímpica enquanto os corpos literalmente se empilhavam.

Isso é sociopatia com esteroides. Portanto, não sejamos cúmplices nessa loucura maligna, nessa normalização em câmera lenta de mortes em massa. Fique frustrado. Fique bravo. Manifeste-se.

Como Catherine Lutz e Anne Lutz Fernandez apontaram em um ensaio recente para o Instituto Watson de Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade Brown, “o problema de normalizar mortes” é que “permite mais mortes” e “facilita que os horrores das mortes pelo vírus percam espaço no noticiário, retirando recursos da saúde e permitindo que futuros políticos tratem a próxima pandemia de maneira ainda mais despreocupada”.

Nas últimas semanas, a estratégia de normalização de Trump envolveu mudar o tamanho do gol de maneira deliberada e dissimulada, até que acertasse: ele previu “50 a 60” mil mortes; depois, “60 mil a 70 mil”; depois, “75, 80 a 100 mil pessoas”.

Mas, enquanto nos lembramos e nos enlutamos pelas 100 mil vítimas de covid-19 aqui nos Estados Unidos, não poso e não vou esquecer a pior previsão de todas, a maior mentira de Trump, em 26 de fevereiro: “quando você tem 15 pessoas doentes, e os 15 daqui a alguns dias serão reduzidos a zero, é um bom trabalho que fizemos”.

Trump mentiu. Cem mil pessoas morreram.

Tradução: Maurício Brum