Sarah Winter, ex ativista e ex feminista,participa de um ato a favor do candidato a presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em 29 de setembro de 2018, na praia de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro.

Sarah Winter, ex ativista e ex feminista, participa de um ato a favor do candidato a presidente, Jair Bolsonaro, em 29 de setembro de 2018, na praia de Copacabana, zona sul do Rio.

Foto: Marcelo Fonseca/Folhapress

Bolsonaro sempre usou os altos índices de violência do país para justificar o liberou geral no porte de armas. Mas, na reunião ministerial revelada pelo STF, confessou aos ministros haver outros motivos. O presidente deixou claro que pretende armar a população para que ela não seja “escravizada por uma ditadura”. Agora está claro que há um objetivo político declarado por trás dos decretos sobre armas. Não é uma mera questão de segurança pública, mas de armar a população para enfrentamento político. Bolsonaro quer uma guerra civil.

Essa busca é uma obsessão antiga. Em 1999, ainda deputado federal, Bolsonaro disse que o país só mudaria se “partíssemos para uma guerra civil. Matando uns 30 mil, começando com FHC (o então presidente)”.  E completou com a mesma sensibilidade com que trata os mortos pela pandemia de coronavírus:“Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra, morrem inocentes”. A confissão dessa semana do presidente, portanto, não chega a ser uma grande novidade. Armar a população para iniciar uma guerra civil e matar adversários políticos está presente no repertório de Bolsonaro há décadas.

Enquanto confessava mais esse crime de responsabilidade, um grupo de militantes bolsonaristas se organizava para montar um acampamento nos arredores da Esplanada dos Ministérios. Chamado de 300 Pelo Brasil, o movimento tem o objetivo de estimular a desobediência civil e apoiar o governo Bolsonaro. Eles estão se armando e se preparando para a guerra civil projetada pelo presidente. A líder do grupo é Sara Winter, ou Sarah Winter, codinome que ela teria adotado para homenagear uma espiã nazista britânica. Winter é uma ex-feminista do Femen que acabou se transformando em uma ultrarreacionária católica obcecada pelo combate ao aborto. Até pouco tempo atrás, ela tinha um cargo no governo Bolsonaro. Foi secretária de Damares no ministério de Direitos Humanos – saiu para se dedicar à causa anti-aborto.

A militante bolsonarista tem ligações com o movimento neonazista há tempos. Além do codinome associado a Hitler, Winter tem uma cruz de ferro nazista tatuada no peito e foi uma assídua frequentadora de shows de bandas de rock neonazistas.

Nesta semana, Winter teve seus computadores apreendidos pela Polícia Federal, que cumpriu um mandado expedido pelo ministro Alexandre de Moraes, fruto de uma investigação conduzida pelo STF sobre fake news. Ela é conhecida também por ser uma contumaz disseminadora de mentiras na internet.

Após a abordagem da PF, gravou um vídeo ameaçando o ministro. Disse que se morasse em São Paulo já teria dado “socos nesse filho da puta desse arrombado” e prometeu que seu grupo irá iniciar uma perseguição contra a vida pessoal dele: “A gente vai infernizar a tua vida. A gente vai descobrir os lugares que você frequenta. A gente vai descobrir as empregadas domésticas que trabalham pro senhor. A gente vai descobrir tudo da sua vida. Até o senhor pedir pra sair. Hoje, o senhor tomou a pior decisão da vida do senhor”. É esse espírito que norteia as ações do 300 Pelo Brasil.

Recentemente, deu entrevistas dizendo que alguns integrantes do movimento estão armados. Trata-se de um grupo paramilitar ainda pequeno, mas com discurso inflamado, belicoso e decidido a levar o país ao caos. O nome 300 Pelo Brasil é uma referência ao filme 300, que retrata a vitória do exército espartano, na qual 300 soldados lutaram contra o exército persa e seus 30 mil soldados.

O filme foi criticado pela estética fascista: enquanto soldados espartanos são musculosos e hipermasculinizados, os persas são retratados como invasores selvagens e afeminados. Movimentos de extrema direita europeus usam o filme como referência na sua luta contra imigrantes e refugiados. No ano passado, um grupo de 300 neonazistas saiu às ruas na Alemanha para protestar contra a presença de imigrantes no país. O número 300 virou uma marca do neonazismo na Europa.

O lema do 300 Pelo Brasil é “vamos ucranizar o Brasil”, repetido inclusive por políticos bolsonaristas com mandato. Mas o que isso significa exatamente? Bom, trata-se de uma gíria criada por bolsonaristas simpatizantes das milícias que se formaram nos protestos sangrentos na Ucrânia em 2014. Por pressão de Putin, o governo ucraniano decidiu não assinar o acordo de integração com a União Europeia, revoltando parte da população. Grupos neonazistas armados foram os grandes protagonistas nos confrontos contra o governo. Os protestos culminaram com uma invasão ao palácio do governo e a deposição do presidente.

Após o golpe, a formação do novo governo contou com muitos políticos de extrema direita. Eles acreditam que russos e judeus são um entrave para a prosperidade da Ucrânia. Essas milícias neonazistas acabaram sendo incorporadas pelo exército com a chegada do novo governo. Desde então, o país segue em guerra civil e atolado em uma profunda crise política e econômica. Os movimentos neonazistas nunca estiveram tão fortes e hoje integram o estado ucraniano.

Na manifestação contra Doria na Avenida Paulista no domingo, 24 de maio, a militância bolsonarista levou a bandeira do Right Sector, um dos grupos neonazistas que protagonizaram os conflitos na Ucrânia.

Não é uma coincidência. Uma reportagem do Financial Times de 2017 contou como militantes da extrema direita brasileira receberam treinamento dos neonazistas ucranianos. Sarah Winter, inclusive, adora repetir que foi “treinada na Ucrânia”.

Associar o bolsonarismo ao neonazismo não é uma forçação de barra, longe disso. Grupos neonazistas brasileiros já saíram às ruas para defender Bolsonaro quando ele ainda era deputado. O presidente da República sempre foi o político preferido dos neonazistas brasileiros. Não é uma questão de opinião. São os fatos.

O projeto de destruição da democracia, que até aqui tem sido bem-sucedido, parece ter chegado ao seu estágio final.

Eduardo Bolsonaro declarou nesta semana que, apesar dos aliados “moderados” quererem evitar uma ruptura, ela será inevitável. Preocupado com o cerco do STF aos bolsonaristas investigados por disseminar fake news e com a possibilidade do papai não terminar o mandato, o deputado demonstra apoio àqueles que pretendem jogar o Brasil numa guerra civil para “ucranizá-lo”.

O bolsonarista Roberto Jefferson também tem falado em guerra civil caso tentem derrubar Bolsonaro. Ele, que já apareceu em foto com fuzil na mão dizendo estar se preparando para “combater o comunismo”, já jogou todas as cartas na mesa: “Bolsonaro só sai no tiro. (…) Essencialmente, quem faz a base do Bolsonaro? Policial civil, policial militar, bombeiro, policial rodoviário, policial federal, militar na ativa, militar reformado. É uma base forte e disposta à luta. É uma base de leões. Se tiver que ir para luta, vai. Se tiver que defender o chefe, esse grupo vai. Eles vão para a rua e vão defender. E nós também.”

Jefferson faz questão de lembrar que o bolsonarismo tem uma base de apoio armada. Apesar do ex-mensaleiro ser um notório falastrão, não há por que duvidar dessas ameaças. Lembremos de como o bolsonarismo apoiou em peso o motim de policiais militares no Ceará. Amotinados, policiais se transformaram em milicianos e tentaram assassinar um senador da República. Não houve uma só nota de repúdio do presidente. Se Bolsonaro sofrer um processo de impeachment, tudo indica que essa base de apoio será convocada a ucranizar o Brasil e atingir a tão desejada ruptura.

Na quinta, Bolsonaro apareceu em sua live semanal bebendo um copo de leite, um gesto que foi repetido por Allan dos Santos e Damares. A associação com os supremacistas brancos da extrema direita americana, que usam o mesmo gesto para “exaltar a raça”, é inevitável. Ontem à noite, o grupo de Winter marchou até o STF com tochas na mão e uma faixa com o número 300.  A estética do protesto remete aos cavaleiros da Ku Klux Klan e aos neonazistas de Charlottesville. Liderados por Sarah, poucos homens, no máximo uns 30, gritavam:  “viemos cobrar! O STF não vai nos calar! ”

A ruptura democrática do projeto bolsonarista está escrita na cartilha de Steve Bannon, que faz a cabeça da extrema direita internacional. O projeto de destruição da democracia, que até aqui tem sido bem-sucedido, parece ter chegado ao seu estágio final. Toda vez que o estado de direito atrapalha esse projeto, como é o caso desse inquérito das fake news, o bolsonarismo intensifa a radicalização. Além de rebeldes armados acamparem em Brasília instigando a tal ucranização do Brasil, temos o general Augusto Heleno fazendo ameaças de golpe, Bolsonaro aparelhando a PF e consolidando a formação de um estado policial para perseguir adversários políticos, Olavo de Carvalho declarando que Alexandre de Moraes merece a pena de morte. O bolsonarismo está subindo o tom e não vai esperar ver seus integrantes serem presos para agir. O objetivo é o caos. Que ninguém se diga surpreso quando ele chegar.