Manifestantes durante protesto contra morte de George Floyd em Nova York, nos Estados Unidos, em 31 de maio.

Manifestantes durante protesto contra morte de George Floyd em Nova York, nos Estados Unidos, em 31 de maio.

Foto: Brazil Photo Press/Folhapress

Na cobertura dos protestos que tomaram as ruas de várias cidades norte-americanas após o assassinato de George Floyd por um policial branco, ouvi uma jornalista pronunciar esta frase ao vivo narrando a cena de um policial branco detendo um homem negro com truculência:

“A gente supõe que tenha sido alguém, talvez, até querendo bater carteira”.

Dita ao vivo no Jornal da GloboNews de sábado à noite, 30 de maio, a frase fez meu sangue ferver. Eu tremi. Tremi porque é normalizado que uma jornalista branca, loira, de olhos claros, se sinta à vontade para, mesmo diante da falta de informações, conjecturar que um homem negro em meio a um protesto antirracista só podia estar roubando alguém.

As imagens mostradas eram do protesto em Nova York contra a morte de Floyd em Minneapolis, Estados Unidos. Quatro policiais foram demitidos após o homicídio filmado. Derek Chauvin, que ajoelhou sobre o pescoço de Floyd e o asfixiou até a morte, foi preso.

A jornalista Leila Sterenberg narrou a cena, dizendo não ter mais informações sobre o assunto. Mesmo assim, sem saber o que de fato houve, fez comentários racistas na descrição dos fatos: “A gente não sabe por que motivo, se ele estava tentando roubar alguém. A gente não tem os detalhes”. A dedução me enojou.

Em um vídeo gravado em Seattle e mostrado em um telejornal norte-americano, a abordagem se repetiu. Na cena, era possível ver uma pessoa branca saindo de uma loja depredada com as mãos cheias de sacolas. A repórter comentou: “Eu espero que essa pessoa não esteja roubando e que seja uma funcionária.” O que há de diferente entre as abordagens e a deduções da repórter americana e de Sterenberg? A raça.

“Coisa de preto”, agora na CNN

Na CNN, emissora criada para se contrapor a líder no segmento, a GloboNews, acabou seguindo o mesmo caminho da rival. Escalou o jornalista William Waack para comentar os protestos antirracistas nos EUA. O âncora, demitido da Globo em 2017 após ser flagrado fazendo uma piada racista, foi contratado pela CNN. Por óbvio, a internet não perdoou. Para coroar o momento, a legenda da cobertura era: “morte de negro”.

A cobertura da nova emissora é discrepante em relação a da sua matriz norte-americana. O texto inicial no site da CNN Brasil sobre a prisão de um jornalista negro que cobria os protestos em Minneapolis pela CNN americana não mencionou o detalhe da raça, apontado pelos repórteres no local. Josh Campbell, o jornalista branco que fazia cobertura com Omar Jimenez, que foi detido, explicou ao vivo que “o que aconteceu com Omar é claramente diferente”. Josh foi liberado na mesma abordagem na qual Omar foi preso, sob a alegação da polícia de que ele não respeitou ordens de sair do local. A diferença entre eles? A raça.

Horas depois o texto – sem assinatura– foi atualizado, e as menções raciais, incluídas.

Na mesma CNN Brasil, o jornalista Leandro Narloch, autor do “Guia politicamente incorreto da América Latina”, que baseou a série do History Channel de mesmo nome, também foi chamado para debater os protestos. Em 2017, os jornalistas Lira Neto e Laurentino Gomes e a historiadora Lilia Schwarcz reclamaram de falta de ‘transparência’ na produção da série e solicitaram retirada de suas participações da produção que se propôs a revisar a história do Brasil. No livro, Narloch afirma, por exemplo, que Zumbi dos Palmares possuía escravos e que os portugueses ensinaram os índios a preservar as florestas.

Como dar certo? A pergunta é retórica.

Caminho longo, mas inicialmente pavimentado

“Se fosse branco, George Floyd não iria morrer (…) muitas pessoas querem nos matar”, disse o jornalista Thiago Oliveira no jornal Hora 1, da Rede Globo, na semana passada. Ele, que é negro, ainda explicou que matar é um conceito amplo. “Com vocabulário, com escolhas, de uma maneira silenciosa”, explicou ele, que finalizou ser “isso o que dói mais. Aquilo que vimos nos EUA, dói demais e acontece aqui no Brasil”.

As pessoas falam daquilo que vivem pessoalmente ou em seu círculo mais próximo. E isso revela a distância social e racial entre quem vive o racismo e quem o noticia.

Anos atrás nasceu, na GloboSat, o Coletivo Diáspora, um grupo de profissionais negros que discute raça, cobertura jornalística e tudo o que permeia o trabalho de profissionais negros no Grupo Globo. Hoje, eles já são quase 200 pessoas e atuam em outras empresas do grupo. Mas apenas ter mais negros numa empresa não muda o status quo. Se eles não tiverem poder de decisão ou um cargo de gerência, com o mesmo salário, respeito e espaço dado a profissionais brancos, nada muda. Não podem fazer apenas figuração para fotos do setor de marketing.

Na década de 60, o Congresso americano constituiu uma Comissão Consultiva Nacional sobre Distúrbios Civis. Em meio a luta pelos direitos para pessoas negras, o governo queria investigar as causas dos protestos e “prover recomendações para o futuro”. Um dos capítulos do relatório final era sobre imprensa, e as diretrizes para cobertura de assuntos relacionados à raça no país. A comissão era presidida pelo governador de Illinois, Otto Kerner Jr., que à época, disse que “a imprensa há muito se deleita com um mundo branco, olhando para fora dele, se é que existe, com olhos de homens brancos e uma perspectiva branca”. O trabalho norteou mudanças na imprensa por lá, inclusive influenciou as concessões de licença para empresas – mas ainda vemos que não é o suficiente. Caso tenha curiosidade sobre o assunto – e espero que você tenha –, o relatório está na íntegra neste link.

Por aqui, o Estatuto da Igualdade Racial, lançado meio século depois, em 2010, prevê em seu capítulo sobre os meios de comunicação que “na produção de filmes e programas destinados à veiculação pelas emissoras de televisão e em salas cinematográficas deverá ser adotada a prática de conferir oportunidades de emprego para atores, figurantes e técnicos negros, sendo vedada toda e qualquer discriminação de natureza política, ideológica, étnica ou artística”. Isso pode nos ajudar a reduzir a discrepância de visões nas abordagens jornalísticas – e o racismo.

Mas quero frisar aqui os 50 anos de diferença entre uma publicação e outra. A imprensa dos EUA está meio século na nossa frente nessas recomendações e olhe onde eles estão. Apesar dos avanços, estão muito mal. Onde estaremos daqui a 50 anos? Espero que melhores.

Mas confesso que estou em um momento especialmente pessimista.