Enquanto os incêndios aconteciam em Minneapolis na noite de sexta-feira e os manifestantes lamentavam o assassinato de George Floyd, voluntários do bairro encontraram três adolescentes brancos saqueando a Skol Liquors, uma loja de bebidas a poucos quarteirões da 3ª Delegacia, que havia sido destruída pelo fogo. Os voluntários trabalhavam para a American Indian Movement Patrol, um dos vários grupos comunitários que tentam manter a paz na cidade. Eles tinham permissão do prefeito Jacob Frey para proteger as terras indígenas, disse um organizador. Quando eles viram os saques, a AIM Patrol reuniu os adolescentes, colocou-os no chão com os braços abertos e depois postou suas fotos no Facebook, juntamente com um vídeo do encontro. Eles também telefonaram para os pais dos meninos – em Eau Claire, no estado do Wisconsin, a 90 minutos de carro de Minneapolis.

Quando as pessoas da região metropolitana de Minneapolis-Saint Paul acordaram para uma cidade devastada neste fim de semana, autoridades estaduais e locais insistiram na ideia de que o dano foi causado principalmente por pessoas de fora – uma noção que tem uma história longa e tensa nos movimentos de protesto globais. Embora os adolescentes de Wisconsin constituíssem um pequeno dado que sustentava essa alegação, faltavam outras evidências sólidas. E na noite de sábado, as autoridades foram forçadas a voltar atrás nessas afirmações, depois que os repórteres locais revisaram os registros de prisão e descobriram que a maioria das pessoas presas na sexta e no início do sábado no condado de Hennepin eram, de fato, residentes do estado de Minnesota.

Na coletiva de imprensa da manhã de sábado, o prefeito de Saint Paul, Melvin Carter, disse que todas as pessoas presas na sexta-feira em sua cidade vieram de fora do estado – uma declaração que concordava com as observações do prefeito Jacob Frey e do governador Tim Walz. O Minnesota Fusion Center, parte de uma rede de agências de compartilhamento de inteligência criadas por conta do 11 de setembro, que no passado monitorou os manifestantes do Black Lives Matter, Occupy e Standing Rock, alegou que 75 mil “agitadores” estavam a caminho do estado, de acordo com o jornal Star Tribune.

Depois que os repórteres vasculharam os registros de prisão, Carter retirou seu comentário, dizendo que havia recebido informações imprecisas da polícia. “Dizer que eles são forças externas não é desviar o foco e dizer que não temos um problema”, disse Walz na coletiva da manhã de domingo, depois que os repórteres perguntaram a ele sobre as informações erradas.

Mas é assim que tais afirmações são historicamente usadas. A noção de que a violência é praticada por pessoas de fora tem aparecido em todos os principais movimentos de protesto, desde o movimento dos direitos civis dos EUA. Ela foi utilizada em manifestações no Oriente Médio; em Ferguson, Missouri; na reserva Standing Rock nas Dakotas; e, mais recentemente, pelo governo chinês em Hong Kong. Para alguns críticos, culpar pessoas de fora é uma maneira de distrair as demandas legítimas dos manifestantes. Em um comício na capital do estado de Minnesota, no domingo, oradores apontaram que prédios em chamas poderiam ser substituídos. Era a justiça que eles queriam.

O que ficou claro em Minneapolis no último fim de semana, no entanto, foi que os protestos, embora centrados no assassinato de George Floyd, assumiram outras dimensões políticas. Em uma manifestação de milhares de pessoas na tarde de sábado, Derrick Stevens sugeriu que algumas das ações, slogans e cartazes sugeriam que pessoas com outras motivações estavam se envolvendo. “Há outras pessoas envolvidas neste protesto que têm sua própria agenda”, disse Stevens, que trabalha como gerente de produção da estação de rádio local The Current.

Frey e o comissário de segurança pública de Minnesota, John Harrington, culparam os supremacistas brancos. O presidente Donald Trump ofereceu um culpado diferente. “É a ANTIFA e a esquerda radical”, ele tuitou.

Nas ruas de Minneapolis, no entanto, uma raiva palpável ainda era dirigida à polícia. Um segundo vídeo do assassinato de Floyd havia surgido online, mostrando três policiais ajoelhados sobre Floyd enquanto ele respirava pela última vez – não apenas Derek Chauvin, o policial acusado de assassinato em terceiro grau. “Este é o resultado da polícia de Minneapolis assassinar aquele jovem”, disse Frank Paro, co-diretor da AIM, formada em 1968 em resposta à brutalidade policial. O bairro no sul de Minneapolis, onde Floyd foi morto, é o coração urbano da comunidade nativa de Minnesota. Paro disse ainda: “Esta terra é indígena. Esta é a nossa comunidade”.

Frank Paro, co-diretor do American Indian Movement, teme que mais violência policial possa reacender a ira em Minneapolis.

Frank Paro, co-diretor do American Indian Movement, teme que mais violência policial possa reacender a ira em Minneapolis.

Foto: Mara Hvistendahl

Paro, que está ajudando a coordenar os esforços da American Indian Movement Patrol, sentou-se em uma cadeira dobrável do lado de fora da Pow Wow Grounds, uma cafeteria na East Franklin Avenue de Minneapolis, enquanto voluntários mascarados passavam correndo carregando alimentos doados. Antes dos protestos, a área já havia sido atingida pela pandemia de coronavírus e pela crise econômica. Agora, ela perdeu todos os seus mercados para saques. Enquanto Paro explicava como a rede de patrulha funcionava, um homem fugia de um Dollar General do outro lado da rua carregando um saco de mercadorias saqueadas. A loja tinha coberto as janelas, mas aparentemente alguém esqueceu de trancar a porta. “Aquele cara acabou de abrir aquela porta!” Gritou Paro. Ele entrou em seu carro, que tinha uma placa colada na porta onde se lia “AIM PATROL”, e atravessou a rua, onde estacionou do lado de fora para afastar outros potenciais criminosos.

Outros apontaram que Trump havia intensificado as coisas incitando o ódio – depreciando os protestos como um todo e parecendo dar sinal verde para a violência contra os manifestantes. Charles Anderson, um manifestante local, levantou a disparidade entre o tratamento de Trump aos chamados protestos pela reabertura e as manifestações contra mortes causadas pela polícia. Os protestos que pedem a reabertura do país têm frequentemente apresentado homens brancos armados se reunindo fora de prédios públicos – incluindo o prédio da assembleia de Minnesota. “Ele disse que eles eram pessoas muito boas”, disse Anderson. “E então ele diz que somos marginais”.

Na sexta-feira, Trump tuitou: “Quando os saques começam, o tiroteio começa”, uma frase com uma história racista por trás. Anderson disse que a resposta foi parte da política do dog whistle para que os apoiadores racistas do presidente se mobilizassem. “Foi um apelo para que as pessoas viessem para Minnesota – é aqui que as coisas estão acontecendo”, disse Stevens. “É tipo ‘Vamos começar alguma merda'”.

Os voluntários Layne Knutson (esquerda) e Salah Ali (direita) varrem a água de um banco Wells Fargo incendiado em Minneapolis.

Os voluntários Layne Knutson (esquerda) e Salah Ali (direita) varrem a água de um banco Wells Fargo incendiado em Minneapolis.

Foto: Mara Hvistendahl

Durante todo o fim de semana, grupos locais continuaram a organizar manifestações pacíficas, incluindo uma que deu às pessoas imunocomprometidas a opção de participarem em seus carros. Do lado de fora da casa do promotor local, o procurador do condado de Hennepin, Michael Freeman, as pessoas dançaram ao som de “Fuck the Police” da N.W.A. e falaram sobre as questões subjacentes ao descontentamento, como a falta de moradia acessível e distritos escolares segregados. Em outros lugares da cidade, as pessoas transportavam esfregões e baldes e limpavam pichações nas paredes de empresas locais ou varriam água de empresas inundadas.

Com o passar do fim de semana, tropas da Patrulha Estadual e da Guarda Nacional entraram na cidade. A Guarda Nacional de Minnesota tuitou no sábado à noite que eles estavam “com quase 10.800” soldados na área. Nas noites de sexta e sábado houve relatos sobre a polícia jogando gás lacrimogêneo em jornalistas e médicos assim como em manifestantes. Um usuário do Twitter postou um vídeo de tropas da Guarda Nacional marchando em um bairro residencial e disparando projéteis contra moradores locais assistindo de suas próprias varandas. “Atira neles!” um policial grita no vídeo, antes que os moradores fujam para dentro de casa. Em um exemplo de uma onda de ataques contra a imprensa, uma fotógrafa autônoma foi baleada no olho pelo que ela acredita ser uma bala de borracha disparada pela polícia e é improvável que recupere sua visão.

Os moradores de Minneapolis assistiram enquanto os protestos crescentes contra a brutalidade policial eram, por sua vez, respondidos com brutalidade policial. Na área de LynLake, em Minneapolis, Alyssa Flandrick e Chris Jones disseram que assistiram pelas janelas de seu apartamento por volta da 1 da manhã de sexta-feira à noite, quando policiais tiraram um casal de dentro do carro, atiraram neles com balas de borracha, e então atiraram nos pneus do carro. “Essas pessoas nesses carros eram pessoas inocentes, dirigindo, tentando ir para casa ou o que quer que estivessem fazendo”, disse Flandrick. Um dia depois, o carro ainda bloqueava o centro da rua e outro morador direcionava o trânsito.

Pessoas no prédio também testemunharam saqueadores ateando fogo em lixeiras, juntando bicicletas e jogando-as em um caminhão e batendo um carro em um poste em seu quarteirão. No entanto, a demonstração de força da polícia foi o que mais os chateou. Jones estava cuidando de um ferimento causado por uma bala de borracha em uma manifestação que ele havia participado na noite anterior.

Alguns temem que o uso da força pela polícia crie um ciclo vicioso que pode levar a mais caos. “O que eu temo é que, se a polícia matar outra pessoa, isso só vai reacender a fúria das pessoas”, disse Paro, o organizador da AIM. A AIM Patrol cancelou as rondas no sábado à noite depois que tropas da Guarda Nacional tomaram as ruas de Minneapolis, de acordo com o site Indian Country Today.

Stevens, o gerente de produção da rádio local que viu as motivações dos manifestantes se ampliando, teme que o foco possa ser retirado das mortes de pessoas negras pelas mãos da polícia. “Eu realmente espero que não permitamos que o foco mude”, disse ele, “porque essa é a razão pela qual a raiva, frustração e dor foram colocadas para fora em primeiro lugar – porque vimos um homem morrer ao vivo.”

Tradução: Maíra Santos