In this Nov. 27, 2019 photo, Bolivia's former President Evo Morales pumps his fist after a press conference at the journalists club in Mexico City. Morales went into exile in Mexico after he was prodded by police and the military, forcing him to resigned on Nov. 10, after he claimed victory in an election that international observers invited in by the government said was marred by numerous irregularities. (AP Photo/Marco Ugarte)

Nesta foto, de novembro de 2017, o ex-presidente da Bolívia ergue o punho depois de uma coletiva de imprensa no Clube dos Jornalistas na Cidade do México.

Foto: Marco Ugarte/AP Photo

Em novembro de 2019 o então presidente da Bolívia pela terceira vez consecutiva, Evo Morales, foi obrigado por militares e forças policiais a fugir para o México depois de, no mês anterior, ser declarado vencedor, pela quarta vez, das eleições presidenciais. A vitória não era uma surpresa. Conforme reportado pela Associated Press em 2014, seu governo era um sucesso nos quesitos mais importantes, e ele era “amplamente popular por uma administração econômica pragmática, que distribui as riquezas do gás natural e dos minérios entre as massas bolivianas”.

Embora a popularidade de Morales tivesse diminuído timidamente desde sua expressiva vitória em 2014, ele ainda era o político mais popular do país. Na noite da eleição, em 20 de outubro de 2019, a autoridade eleitoral da Bolívia atestou que a vantagem de Morales sobre o segundo colocado excedia os 10% requeridos pela lei boliviana para evitar um segundo turno, dando a ele um quarto mandato. Mas as acusações de fraude surgiram rapidamente entre seus oponentes de direita, levando à sua expulsão do país em 11 de novembro.

Depois de sua fuga, o primeiro presidente da Bolívia oriundo das populações indígenas do país foi substituído por Janine Áñez, uma senadora branca, de direita, cristã e pouco conhecida, vinda da região do país onde se concentra a elite minoritária de ascendência europeia. Seu novo governo não-eleito rapidamente massacrou dezenas de manifestantes indígenas e garantiu imunidade aos militares responsáveis. Sete meses depois, Áñez previsivelmente continua a governar a Bolívia como “presidente interina” apesar de nunca ter concorrido à Presidência, e muito menos ter sido eleita para tal.

Bolivia's interim President Jeanine Anez addresses the nation at the presidential palace in La Paz, Bolivia, Wednesday, Jan. 22, 2020. The message marked the anniversary of the naming of Bolivia as the "Plurinational State of Bolivia," by former President Evo Morales. (AP Photo/Juan Karita)

Presidente “interina” da Bolívia Janine Añes se dirige ao país do palácio presidencial em La Paz, Bolivia – quarta-feira, 22 de janeiro de 2020. (AP Photo/Juan Karita)

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O instrumento central utilizado tanto pela direita boliviana quanto por seus aliados do governo dos Estados Unidos para justificar a invalidação da vitória de Morales por mais de dez pontos percentuais foram duas auditorias realizadas pelo organismo regional Organização dos Estados Americanos – um relatório preliminar publicado no dia 10 de novembro, um dia antes de Morales ser obrigado a deixar o país; e o relatório final, publicado no mês seguinte – que atestavam fraude eleitoral deliberada e generalizada.

“Dadas as irregularidades observadas, é impossível garantir a integridade dos dados e atestar a precisão dos resultados”, anunciou a OEA em 10 de novembro, enquanto o país mergulhava em instabilidade por conta da eleição. No dia seguinte, sob ameaças das Forças Armadas contra ele e sua família, Morales embarcou em um avião para o México, onde recebeu asilo. O relatório final da OEA, publicado em dezembro, afirmou que “a equipe de auditores detectou manipulação intencional” dos resultados com base em “evidências incontestáveis de um processo eleitoral marcado por graves irregularidades”.

Mas no último domingo o New York Times publicou um artigo em que sugere de maneira contundente que foi na verdade a auditoria da OEA, e não a eleição boliviana, que estava “marcada por irregularidades”, sendo “impossível garantir a integridade dos dados e certificar a precisão” das afirmações contidas no relatório publicado pela OEA. O jornal resumiu a situação: “Um exame atento dos dados eleitorais sugere que a análise inicial da OEA que levantou dúvidas sobre fraude eleitoral – e contribuiu para a deposição de um presidente – foi falha”.

New York Times, 7 de junho de 2020: “Uma eleição disputada. Acusações de fraude. E agora, dúvidas. – Um exame mais cuidadoso dos dados das eleições bolivianas  sugere que a análise inicial da OEA, que suscitou perguntas acerca de fraude eleitoral – e ajudou a derrubar o presidente – foi falha.”

Para questionar a integridade dos relatórios da OEA, o New York Times se baseia em um novo estudo independente, realizado por três pesquisadores de universidades norte-americanas que – segundo o jornal – examinaram “dados obtidos pelo The New York Times junto às autoridades eleitorais bolivianas”. O estudo, completa o jornal, “descobriu que a própria análise estatística da Organização dos Estados Americanos era falha”.

O estudo demonstra que a principal “irregularidade” citada pela OEA “era na realidade o produto de umq erro dos analistas”. Explica ainda que, com relação aos “padrões que os observadores consideraram ‘inexplicáveis’”, a análise dos novos dados demonstra “ser possível explicá-los sem atestar fraude”.

Embora o novo estudo se concentre apenas nos dados da OEA e não tenha a pretensão de declarar a eleição boliviana isenta de fraude – praticamente nenhuma eleição, incluindo as norte-americanas, é inteiramente livre de irregularidades – o New York Times explica que “os autores do novo estudo afirmaram ser incapazes de replicar as conclusões da OEA usando suas prováveis técnicas” e que “a diferença é significativa” na avaliação da validade geral dos argumentos da OEA.

“Em suma”, conclui o novo relatório, “oferecemos uma interpretação diferente da evidência quantitativa que levou a OEA e outros pesquisadores a questionar a integridade da eleição boliviana”. Especificamente, “descobrindo ser possível explicar os padrões quantitativos utilizados para ajudar a indiciar Evo Morales sem concluir ter havido fraude”. A principal conclusão dos pesquisadores: “não podemos reproduzir os resultados da OEA”.

É virtualmente impossível exagerar a importância das acusações da OEA no processo de expulsão de Morales de seu próprio país e na transferência sem mandato democrático de do poder na Bolívia, um país rico em lítio, para a direita branca, cristã e subserviente aos Estados Unidos. Embora críticos também tenham acusado Morales de postular inadequadamente um quarto mandato a despeito dos limites constitucionais, a Supremo Tribunal Eleitoral da Bolivia, devidamente constituída, invalidou estes limites (de maneira parecida com a que o então prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, induziu a prefeitura a anular o limite de mandatos para que ele pudesse concorrer a um terceiro mandato), levando os agitadores externos anti-Morales, como a OEA e autoridades dos EUA, a apelar para acusações de fraude eleitoral.

No dia em que o relatório preliminar da OEA foi publicado, o Secretário de Estado Mike Pompeo o citou tanto no Twitter quando no site oficial do Departamento de Estado, demandando novas eleições:

Total apoio às conclusões da OEA recomendando novas eleições na Bolívia para garantir um processo verdadeiramente democrático e representativo da vontade popular. A credibilidade do sistema eleitoral precisa ser restaurada.

Em janeiro deste ano Pompeo visitou o escritório da OEA em Washington e elogiou a organização pelo papel desempenhado pela sua auditoria na expulsão de Morales do país – um acontecimento que Pompeo exaltou ao invocar a longa tradição orwelliana dos EUA de retratar golpes militares pró-Estados Unidos como “pró-democracia”:

Mais recentemente, a OEA cumpriu a solicitação do antigo governo boliviano para conduzir uma auditoria dos controversos resultados da eleição. A investigação realizada encontrou provas de fraude massiva e sistêmica. Ela ajudou a encerrar a violência que eclodiu com a disputa eleitoral. Ajudou o congresso Boliviano a estabelecer unanimemente uma data e condições para uma nova eleição. E ela honrou – o que é mais importante – honrou a corajosa demanda do povo boliviano por uma eleição livre e justa, e por democracia.

Os órgãos de mídia dos Estados Unidos e comentaristas políticos estrangeiros reproduziram diligentemente a narrativa do Departamento de Estado, como de costume, ao descrever o violento golpe militar como um avanço da liberdade e da democracia para o povo boliviano (o mesmo povo boliviano que acabava de votar em Morales para que fosse seu presidente). Como afirmado em um editorial do Washington Post esrito por dois pesquisadores do MIT, em fevereiro: “A mídia tratou, em larga medida, as alegações de fraude [pela OEA] como fato”.

Dois dias antes de Morales ser forçado a sair da Bolívia, o professor Yascha Mounk, da Universidade Johns Hopkins, que também cobre política externa para a revista The Atlantic, elogiou os líderes do golpe por “defender corajosamente a democracia contra um aspirante a ditador,” e depois, no dia seguinte, citou o relatório preliminar da OEA como prova de que a eleição havia sido fraudulenta:

O povo boliviano está se levantando bravamente contra um aspirante a ditador, e o mundo quase não está prestando atenção.

Excelente notícia: Monitores eleitorais da OEA encontraram clara manipulação dos resultados eleitorais, demandando novas eleições.

Parece que Evo Morales aceitou a contragosto.

‘El pueblo unido’…

Não, a renúncia de Evo Morales não é um golpe. É uma das poucas vitórias da democracia nos últimos anos.

Ditadores de esquerda, como o Venezuelano Maduro, e populistas de extrema-direita, como Viktor Orbán na Hungria, devem estar com medo.

No dia 11 de novembro, dia seguinte à fuga forçada de Morales, Mounk escreveu no Atlantic que Morales recebeu o que merecia, alegando, entre outras coisas, que ele fraudou a eleição: “A forte evidência circunstancial de adulteração de votos logrou inspirar aquilo que anos de ataques mais sutis às instituições democráticas falharam em realizar: milhões de bolivianos saíram às ruas para demandar eleições justas”. Sobre uma coisa Mounk estava certo: o relatório da OEA foi decisivo. “Quando uma missão independente de observação da Organização dos Estados Americanos publicou sua auditoria da eleição ontem, o jogo finalmente terminou”, escreveu ele.

(Mounk, sabendo que nunca haveria consequências por agir como marionete da política externa dos EUA, não disse nenhuma palavra sobre o novo estudo rechaçando as conclusões da OEA).

Michael McFaul, ex-embaixador no governo Obama e atual professor da Universidade de Stanford, também citou o relatório da OEA em sua celebração da fuga de Morales como algo “excelente” para a liberdade e a democracia, para em seguida deletar seu tuíte quando recebeu críticas, reconhecendo que carecia da informação necessária para formar uma opinião:

A editora-chefe do jornal ostensivamente progressista Mother Jones, Clara Jeffery, nunca havia demonstrado qualquer interesse ou conhecimento sobre a Bolívia, mas de alguma maneira decidiu que era capaz de, com credibilidade, se alinhar ao Departamento de Estado, afirmando que foi o presidente Morales – e não os artífices do golpe – que havia“repetidamente atacado o processo democrático”:

Não é preciso dizer que a infalivelmente favorável a golpes pró-ocidente revista The Economist também estava entre os que lideravam o ecoar do Departamento de Estado dos EUA e celebravam o golpe como uma vitória da democracia. “As forças armadas soltaram sua voz pela democracia e pela constituição contra uma tentativa de ditadura”, a revista anunciou durante a semana em que Morales foi forçado ao exílio. The Economista também postou mais de uma dúzia de tuítes durante a semana alegando que Morales era quem representava uma ameaça à democracia boliviana em virtude da constatação de fraude pela OEA:

Mas, como de costume, os dois órgãos mais influentes na disseminação e ratificação de falsos argumentos anti-democráticos do governo norte-americano foram o Washington Post e – embora tenha esquecido de mencioná-lo em seu artigo publicado ontem sobre as controvérsias nas conclusões da OEA – o próprio New York Times. O Post, no artigo publicado no dia seguinte à fuga forçada de Morales, ratificou a acusação de fraude eleitoral em sua manchete: “Morales renuncia em meio a crescentes protestos e contundente relatório eleitoral”. O artigo anunciava as conclusões do que chamavam de “organização multilateral”, notando que a OEA havia descoberto que a vitória de Morales “estava marcada por profundas irregularidades”.

Um editorial do Post do mesmo dia proclamava em sua manchete: “Bolivia está em risco de cair em anarquia. A culpa é de Evo Morales”.

The Washington Post, 11 de novembro de 2020: “Bolivia está em risco de cair em anarquia. A culpa é de Evo Morales.”

O editorial decretou: “há poucas dúvidas de quem é em, última análise, o responsável pelo caos: o presidente Evo Morales, que renunciou recentemente”. Como pode a vítima de um golpe – que havia acabado de ser eleito presidente – ter a culpa pelo caos resultante? Porque, explicaram os editores do Post, “uma auditoria divulgada pela Organização dos Estados Americanos relatou irregularidades massivas na contagem de votos e exigiu novas eleições”.

O New York Times, de maneira similar, apresentou repetidamente o relatório da OEA como prova de que a vitória de Morales era ilegítima e que o golpe era, portanto, democrático. “Uma auditoria internacional independente das eleições bolivianas concluiu que autoridades do ex-presidente Evo Morales recorreram a mentiras, manipulação e falsificação para garantir sua vitória”, afirmava o artigo, sem uma sílaba de qualquer ceticismo ou contestação crítica até o penúltimo parágrafo, em que dizia que “alguns economistas e estatísticos nos Estados Unidos” apontaram falhas na análise de dados da OEA.

Mas o editorial do jornal não fez qualquer ressalva, declarando que a vitória de Morales era resultado de uma “eleição manchada”, observando que “as suspeitas preliminares de fraude pela Organização dos Estados Americanos ajudaram a estimular os protestos e forneceram cobertura para que os militares ‘sugerissem’ que o Sr. Morales deixe o cargo”. O editorial do Times citava então o relatório da OEA – que o jornal ontem questionava – afirmando que ele “reforçava  as suspeitas” ao provar que “uma série de operações maliciosas tinham o objetivo de alterar a vontade expressa nas urnas em 20 de outubro”.

Em suma, quando se tratava do golpe na Bolivia em 2019, a mídia dos EUA desempenhou o antigo papel que realiza sempre que os EUA querem retratar um golpe militar contra um governo que não lhe agrada: adotou cega e obedientemente o ponto de vista do Departamento de Estado e passou a agitar acriticamente sua bandeira.

Como documentado em seu grande livro sobre as táticas de Guerra Fria utilizadas pela CIA, a Agência Central de Inteligência dos EUA, “The Jakarta Method”, o jornalista Vicent Bevins – que recentemente entrevistei em meu programa SYSTEM UPDATE – relata como, durante a Guerra Fria, a mídia dos EUA serviu como um braço chave de propaganda do governo dos EUA ao retratar a derrubada de regimes opositores como importantes avanços para a democracia. Como exemplo, Bevins descreve como a CIA atuou no New York Times para suprimir as reportagens sobre a selvageria dos golpistas apoiados pela agência na Guatemala e, ao invés disso, glorificá-los como “rebeldes” que estavam lutando nobremente pela democracia.

Trecho do livro de Vincent Bevins, “The Jakarta Method,” [“O Método Jakarta”, em tradução livre], detalhando a relação de subserviência do New York Times aos interesses de política externa dos EUA.

Exatamente a mesma fórmula foi usada pelo New York Times e por grande parte da mídia dos EUA quando uma tentativa de golpe apoiada pelos Estados Unidos na Venezuela falhou, em 2002, ao tentar depor o presidente democraticamente eleito Hugo Chávez. Em um parágrafo extraordinário, o Times celebrou os líderes golpistas em Caracas, apoiados pelos EUA, como guardiões e salvadores da democracia, enquanto o presidente eleito era, de alguma maneira, o ditador.

“Com a renúncia do presidente Hugo Chávez, ontem, a democracia venezuelana não está mais sob a ameaça de um possível ditador. Chávez, um terrível demagogo, deixou o poder depois que os militares intervieram e entregaram o poder ao respeitado empresário Pedro Carmona”.

O Times também lamentou os perigos para a democracia boliviana em 2014 por conta da vitória esmagadora de Morales nas urnas. Para o Times e a maioria da mídia norte-americana, a democracia está sob risco quando um candidato reprovado pelos Estados Unidos vence; por outro lado, a democracia só pode ser salva quando tais líderes eleitos são derrubados e substituídos à força por fantoches apoiados pelos EUA.

Os editores do New York Times, embora admitissem em 2014 que “é fácil ver por que tantos bolivianos gostariam que Morales, o primeiro presidente do país de origem indígena, permaneça no comando”, – justamente porque, “durante seu mandato, a economia do país, um dos menos desenvolvidos do hemisfério, cresceu a um ritmo saudável, o nível de desigualdade diminuiu e o número de pessoas vivendo na pobreza caiu significativamente” – insistiam que Morales deveria ser considerado um inimigo da democracia porque “o padrão de prolongados mandatos no poder é prejudicial para a região”. Claramente o New York Times jamais sugeriria que o “prolongado mandato no poder” de Angela Merkel como chanceler da Alemanha (15 anos e contando) ou que os 4 mandatos – e contando – de Benjamin Netanyahu no poder como primeiro ministro de Israel representem ameaças semelhantes à democracia. Essa é uma “preocupação” reservada pela mídia dos EUA exclusivamente aos líderes latino-americanos reprovados pelo Departamento de Estado dos EUA.

No final do editorial de 2014 sobre a Bolívia e a América Latina, o Times revelou, sem querer, o real motivo pelo qual reprovava estes líderes eleitos. A preocupação pela democracia é o pretexto. O motivo real para quererem esses líderes fora do poder foi revelado neste trecho: “Essa dinâmica regional foi terrível para a influência de Washington na região”.

Como demonstrado pela cobertura do golpe na Bolívia no ano passado, pouca coisa mudou desde a Guerra Fria quando se trata da lealdade da mídia ao Departamento de Estado e à CIA. Como o governo dos EUA prefere os golpistas de direita ao esquerdista Morales, a mídia norte-americana deliberadamente inverteu toda a narrativa para descrever o líder eleito (Morales) como o tirano, e os violentos líderes do golpe militar como os guardiões da democracia. E venderam essa falsa narrativa apoiados exclusiva e profundamente no relatório da OEA que, como agora o próprio New York Times é obrigado a reconhecer, era, no melhor dos casos, profundamente falho.

O caráter dúbio do relatório da OEA não é, ao contrário do que as entrelinhas do novo artigo do New York Times sugerem, uma novidade recente. Isso estava claro, com fartas evidências, desde o início – evidências que a mídia chauvinista dos EUA achou oportuno não mencionar.

Logo depois de o relatório preliminar da OEA ser divulgado, o Center for Economic and Policy Research (CEPR), em 8 de novembro, lançou seu próprio relatório destacando inúmeras falhas no que chamou de “dúvidas sem fundamento expressas na contagem de votos pela missão da OEA”. Explicando que os argumentos da OEA sobre irregularidades eleitorais foram feitas “sem evidências”, o relatório detalhou que “nem a missão da OEA nem qualquer outra parte demonstrou que houve irregularidades generalizadas ou sistemáticas nas eleições de 20 outubro de 2019.”

Em março, o CEPR publicou uma análise ainda mais abrangente, um relatório de 82 páginas que concluía: “as atividades de observação da OEA nas eleições gerais da Bolívia em 2019 são o um perfeito exemplo de uma missão profundamente problemática, cuja conduta desonesta, tendenciosa e não-profissional causou sérios danos à democracia do país”. Adicionava ainda que “enquanto a narrativa de fraude que a OEA ajudou a promover contribuiu para a fuga de Evo Morales, o presidente democraticamente eleito do país”, o relatório da OEA “não fornece nenhuma evidência de que essas irregularidades tenham alterado o resultado da eleição, ou tenham sido parte de uma tentativa de fazê-lo”.

Em fevereiro – com Morales exilado na Argentina – o Washington Post publicou um editorial escrito por dois acadêmicos do MIT, o Massachussets Institute of Technology, prestigiada universidade nos EUA. Eles resumiram seu argumento da seguinte maneira:

A mídia tratou amplamente as alegações de fraude [da OEA] como fato. E muitos comentaristas justificaram o golpe como uma resposta à fraude eleitoral perpetrada pelo MAS-IPSP [, Movimento ao Socialismo – Instrumento Político para a Soberania dos Povos, partido de Evo Morales]. No entanto, como especialistas em integridade eleitoral, descobrimos que as evidências estatísticas não sustentam a alegação de fraude nas eleições de outubro na Bolívia.

Em suma, concluem os autores, depois de apresentarem detalhadamente suas descobertas: “não há qualquer evidência estatística de fraude que possamos encontrar – as tendências na contagem preliminar, a falta de qualquer grande salto em vantagem de Morales após a interrupção, e o tamanho da margem de Morales, tudo parece legítimo. Em resumo, a análise estatística da OEA e suas conclusões parecem profundamente falhas”.

O fato de a OEA ser uma ferramenta subserviente do Departamento de Estado é algo amplamente conhecido na América Latina. No entanto essa afirmação raramente aparece em declarações das mídias norte-americanas, que – como fizeram aqui – tratam a organização como um tipo de árbitro neutro e com autoridade para resolver disputas políticas.

Logo depois que Morales deixou a Bolívia e recebeu asilo no México, eu fui à Cidade do México para entrevistá-lo. Eu perguntei a ele sobre a OEA e essa foi sua resposta:

Desde o início havia motivos para duvidar seriamente, senão rejeitar completamente, as acusações da OEA de irregularidades e fraude nas eleições. Como Jake Johnston, do CEPR, disse hoje em resposta ao artigo do New York Times:

Para aqueles que estiveram atentos às eleições de 2019, nunca houve qualquer dúvida de que as afirmações de fraude pela OEA eram falsas. Poucos dias após as eleições, um alto funcionário da OEA me confessou, privadamente, que não havia ocorrido uma mudança “inexplicável” na tendência, mas a organização continuou a repetir suas falsas afirmações por muitos meses, com muito pouca ou nenhuma autocrítica ou responsabilização.

No entanto, as razões para duvidar das acusações da OEA foram raramente ventiladas pela mídia dos EUA e seus comentaristas de política externa, muito menos investidas de alguma credibilidade. Ao contrário, como escreveram os acadêmicos do MIT no Washignton Post, “a mídia relatou amplamente as alegações de fraude como fatos”. Isso ocorre porque, quando se trata de mudar um governo estrangeiro que é reprovado pelos Estados Unidos, a mídia norte-americana se apoia no Departamento de Estado, deixa de denunciar e, ao invés disso, passa a fazer propaganda pró-governo.

Nesse caso, a Bolívia perdeu seu presidente mais bem-sucedido de sua história moderna e, consequentemente, está agora nas mãos de uma junta militar não eleita, aplaudida pelos EUA e sua mídia, se apoiando em um relatório da OEA que, mesmo o New York Times é agora forçado a reconhecer, é, no melhor dos casos, profundamente problemático. Assim, o governo dos EUA e sua mídia, uma vez mais, ajudaram a destruir uma próspera democracia latino-americana.

 

Correção 9 de junho, 18:00
Ao contrário do que afirmamos originalmente, foi o Supremo Tribunal Eleitoral da Bolívia, e não a Corte Superior Boliviana, que invalidou os limites constitucionais que permitiram que Morales demandasse um quarto mandato presidencial.