O presidente Donald Trump se reúne com o governador do Colorado, Jared Polis, e com o governador da Dakota do Norte, Doug Burgum, em 13 de maio, em Washington, D.C.

O presidente Donald Trump se reúne com o governador do Colorado, Jared Polis, e com o governador da Dakota do Norte, Doug Burgum, em 13 de maio, em Washington, D.C.

Foto: Imagens de Doug Mills-Pool/Getty Images

Eu tenho uma pergunta para os esquerdistas americanos: vocês finalmente veem a diferença entre os democratas e Donald Trump?

Eu tenho uma pergunta para os direitistas americanos: vocês finalmente veem que é Trump quem vai pegar suas armas?

Eu tenho uma pergunta para os evangélicos americanos: vocês finalmente veem que Trump é quem fechará suas igrejas?

Eu tenho uma pergunta para os membros republicanos do Congresso: vocês finalmente veem que também estarão nos campos de prisioneiros?

Ditaduras são construídas sobre a negação. Ditadores assumem o poder gradualmente; cada novo passo que corrói as liberdades civis e o estado de direito pode ser justificado e explicado. Às vezes, um candidato a ditador é ridicularizado como um palhaço político que não deve ser levado a sério. Enquanto isso acontece, ninguém consegue acreditar que está a caminho da servidão.

Autocratas geralmente gozam de amplo apoio público para suas medidas repressivas. Inicialmente, eles visam os “outros”, enquanto a maioria aplaude. O público não reconhece a ameaça até que seja tarde demais. Os partidários que mais aplaudiram são frequentemente pegos em expurgos ideológicos e se tornam algumas das primeiras vítimas do regime.

Depois de quase quatro anos no cargo, é impossível não perceber o que Trump realmente é. Ele é um psicopata que deseja poderes ditatoriais. Ele descartou do governo todos que poderiam atrapalhar seu caminho. Agora, ele está cercado por entusiastas vestindo coturnos, como o procurador-geral William Barr e o secretário de Estado, Mike Pompeo.

O general Mark Milley, um bajulador que afirma ser oficial militar americano, caminhou pelas ruas de Washington, D.C. na noite da primeira segunda-feira de junho com Trump e Barr, enquanto militares dos EUA eram usados ilegalmente para atacar manifestantes e afastá-los para que Trump pudesse posar para uma foto segurando uma Bíblia em frente à Igreja Episcopal St. John’s, naquele momento coberta de grafite. Os homens tinham a aparência de conspiradores decididos a tomar o governo no meio da noite.

Naquela mesma noite, helicópteros militares voavam baixo sobre Washington, logo acima das cabeças dos manifestantes que protestavam contra o assassinato de George Floyd, em 25 de maio, pela polícia de Minneapolis. O barulho e as explosões aéreas vindas dos helicópteros foram usados para dispersar multidões (a prefeita de Washington, Muriel Bowser, disse que o Pentágono pediu tropas a Maryland e Virgínia sem o conhecimento do governo local). Foi um dos episódios mais vergonhosos que envolveram o uso das forças armadas americanas na capital do país desde 1932, quando, em um episódio infame, o Exército usou tanques e gás lacrimogêneo para atacar manifestantes conhecidos como o “Exército do Bônus”, veteranos da Primeira Guerra Mundial acampados para exigir um bônus há muito prometido.

Trump abriu seu jogo na noite de 1º de junho. Um homem conspirador e sem convicções morais, ele pensou que possuir uma Bíblia seria suficiente para reunir sua base evangélica branca.

Ele não disse nada aos fotógrafos enquanto estava de pé, com a Bíblia na mão, em frente à igreja, mas era fácil adivinhar o que ele estava pensando. Ele provavelmente estava pensando que os evangélicos são burros, idiotas que sempre caem em seus truques baratos. Não é difícil perceber que Trump menospreza os evangélicos, ofende-os pela facilidade de manipulá-los e se volta contra eles assim que não mais os necessita.

Um homem conspirador e sem convicções morais, Trump pensou que possuir uma Bíblia seria suficiente para reunir sua base evangélica branca.

A bispa episcopal de Washington, Mariann Edgar Budde, prontamente entendeu as reais intenções de Trump após sua sessão de fotos em frente à St. John’s. “O presidente acabou de usar a Bíblia, nosso texto sagrado da tradição judaico-cristã, e uma das igrejas da minha diocese, sem permissão, como pano de fundo para uma mensagem contrária aos ensinamentos de Jesus”, disse ela.

No dia seguinte, Trump apareceu para fotos no Santuário Nacional São João Paulo II, em Washington, aumentando seu jogo de exploração da iconografia religiosa. Desta vez, ele mantinha seu foco em católicos conservadores, ao invés de evangélicos, mas o ato foi o mesmo. O arcebispo católico de Washington atacou rapidamente a visita de Trump ao santuário, assim como Budde havia atacado sua foto em frente à St. John’s no dia anterior.

Enquanto isso, no Roseiral da Casa Branca, ainda no dia 1º, o presidente prometeu proteger os “direitos da Segunda Emenda”. Mais uma vez, Trump provou que acha que seus apoiadores são idiotas que podem ser explorados com frases simples e codificadas. Ativistas dos direitos às armas que elogiam entusiasticamente a possibilidade de dar amplos poderes a Trump podem, em breve, ter tropas batendo em suas portas enquanto helicópteros sobrevoam. Quando isso acontecer, eles poderão sentir, tarde demais, uma inesperada semelhança com os manifestantes que agora menosprezam.

Trump revelou suas intenções autoritárias em uma teleconferência com os governadores estaduais, na qual os repreendeu por serem fracos diante dos protestos, exigindo que eles “dominassem” os manifestantes, ameaçando enviar tropas para seus estados se não atendessem às suas demandas. Trump também conversou naquele dia por telefone com o presidente russo Vladimir Putin; talvez ele estivesse recebendo dicas sobre como esmagar os dissidentes.

TRUMP ESTÁ ACELERANDO no caminho em direção a uma ditadura porque o que resta do Partido Republicano está ansioso para que ele assuma cada vez mais poder. Trata-se, neste momento, de um partido identitário branco, cheio de velhos brancos que temem as tendências demográficas do aumento da diversidade. Eles não gostam da América como ela é agora e querem que Trump destrua as regras e leis que protegem as minorias, os pobres e os menos favorecidos.

No início do mês, o deputado Matt Gaetz, republicano da Flórida e seguidor de Trump, ofereceu uma típica resposta republicana aos protestos quando pediu que todas as ferramentas letais da guerra global contra o terror fossem trazidas para casa e se voltassem contra manifestantes americanos. “Agora que vemos os Antifa claramente como terroristas, podemos caçá-los como fazemos com aqueles no Oriente Médio?” Gaetz tuitou. O Twitter restringiu o acesso ao tuíte de Gaetz, rotulando-o como glorificação da violência.
Ao defender o fim do estado de direito, republicanos como Gaetz vão acabar vendo sua sobrevivência depender dos caprichos de Trump. É aí que as piadas sobre drones e Guantánamo não parecerão tão engraçadas para eles.

Finalmente, para os esquerdistas americanos que não veem diferença entre os democratas e Trump – e que podem até preferir Trump porque ele está destruindo o status quo centrista, criando assim uma abertura para a esquerda – é hora de enfrentar os duros fatos da história.
Veja o caso de Ernst Thälmann.

Thälmann foi líder do Partido Comunista Alemão no final dos anos 1920 e início dos anos 1930 e via o Partido Social Democrata Alemão de centro-esquerda, em vez de Adolf Hitler e o Partido Nazista, como seu principal inimigo político. Thälmann fez tudo o que pôde para minar os social-democratas, que ele chamou de “social fascistas”, a fim de destruir o status quo liberal na República de Weimar e estabelecer as condições para uma revolução comunista. A profunda divisão política entre a centro-esquerda e a esquerda na Alemanha no início dos anos 30 ajudou a possibilitar a ascensão de Hitler.

Depois que Hitler chegou ao poder, Thälmann foi detido e preso. Mais tarde, ele foi transferido para o campo de concentração de Buchenwald, onde foi morto pela SS por ordem de Hitler.

Tradução: Maíra Santos