O SOL IA ALTO quando os manifestantes ocuparam a Grand Army Plaza. Em tempos normais, é fácil esquecer que a porta de entrada para o maior parque do Brooklyn já foi um campo de batalha na luta pela independência dos EUA, ou que seu icônico Arco dos Soldados e Marinheiros é um monumento àqueles que deram a vida na guerra pelo fim da escravidão. Mas, diante de uma pandemia global que já ceifou mais de cem mil vidas de norte-americanos em questão de meses, de mais de 40 milhões de desempregados, e de protestos contra a violência policial se alastrando pelos EUA, os últimos dias têm sido distantes do normal. Quando os manifestantes assumiram seus postos no domingo, o papel histórico da praça se tornou excepcionalmente presente.

Kenyatta Reid, moradora do Brooklyn, estava entre as pessoas reunidas ao pé do arco. Ela e seu marido foram protestar com seus três filhos, de 11, 8 e 2 anos de idade. Era o segundo dia em que a família estava nas ruas, unindo-se à onda nacional de manifestações que se seguiram à morte de George Floyd pelo policial Derek Chauvin, de Minneapolis. Na noite anterior, perto da Ponte do Brooklyn, Reid e sua família tinham assistido a policiais municipais em trajes antitumulto espancarem manifestantes e usarem spray de pimenta contra eles. “Foi muito assustador para as crianças”, contou Reid. Ainda assim, seus filhos acordaram no dia seguinte pedindo para irem de novo – fizeram até seus próprios cartazes. “Eu sou o próximo?”, dizia o de seu filho.

Na condição de mãe afro-americana criando três filhos nos Estados Unidos em 2020, Reid diz que as circunstâncias que desencadearam os protestos são assunto de conversas diárias, um processo de “ensinar a eles que são merecedores, e que o problema são as outras pessoas, não eles”. Ao perguntar se continuariam a participar, Reid não hesitou. “Isso é a vida deles”, disse ela. “É necessário.”

A centenas de quilômetros dali, em Cincinnati, a reação aos protestos estava tomando uma forma diferente. Enquanto os manifestantes se reuniam no Brooklyn, um grupo da polícia do condado de Hamilton, trajando fardamento tático e coletes à prova de bala, muitos portando rifles, hasteou uma bandeira pró-polícia diante de seu escritório. Muito comum em algumas partes do país, nela o vermelho de uma bandeira norte-americana tradicional é substituído pelo preto. A bandeira incorpora ainda uma faixa azul simbolizando a “fina linha azul” que alguns policiais consideram representar: a fortemente armada barreira de segurança que protege uma população indefesa das forças do mal.

O xerife Jim Neil declarou posteriormente que a substituição da bandeira tinha sido apenas temporária, depois que uma foto da cerimônia informal viralizou. A bandeira norte-americana do escritório tinha sido tomada por vândalos, disse o xerife no Twitter, e a atual tinha o objetivo de homenagear um policial que havia sido atingido no capacete por uma bala na noite anterior. “A bandeira foi removida e iremos substituí-la pela Bandeira Americana pela manhã”, escreveu Neil.

Embora pareça menos importante em comparação com os atos de violência física e as ondas de indignação vistas pelo país, o episódio de Cincinnati foi significativo. A bandeira da “fina linha azul” é um símbolo conhecido de um movimento social, cultural e político que está inevitavelmente associado ao atual tumulto no país. A bandeira é peça central em um mundo de propaganda e filosofia policial construída em torno da ideia de que a polícia é uma tribo de guerreiros pronta para o combate, difamada e insultada por uma nação que não consegue apreciar sua excepcional importância. A linha azul é um lembrete de que boa parte da comunidade policial se considera um grupo à parte do restante da sociedade: e como o país pôde testemunhar nos últimos dias, em uma sequência de vídeos chocantes, essa população fortemente armada, com o poder de privar os cidadãos da vida e da liberdade, não lida bem com quem desafia sua autoridade.

O país está agora testemunhando o que anos de condicionamento, treinamento e cultura de militarização ensejaram: um movimento de protesto de âmbito nacional se opondo a um motim policial de âmbito nacional.

“Estamos falando aqui de uma visão de mundo em que a polícia é a única força capaz de manter a sociedade unida”, foi o que me explicou Alex Vitale, professor de sociologia no Brooklyn College e autor de “The End of Policing” [O Fim da Polícia, sem tradução no Brasil]. Essa visão por sua vez ativa a ideia de que “sem a constante ameaça de intervenção coercitiva violenta, a sociedade vai degringolar em uma guerra de todos contra todos”, diz. Por essa lente, “soluções autoritárias não são apenas necessárias, são quase preferíveis”.

Na esteira do assassinato de Floyd, com protestos em todos os estados da federação e forças de segurança de todos os níveis convocadas para reagir, o país está agora testemunhando o que anos de condicionamento, treinamento e cultura de militarização ensejaram: um movimento de protesto de âmbito nacional se opondo a um motim policial de âmbito nacional.

Na cidade de Nova York, onde mais de 2500 pessoas foram presas na semana passada, as autoridades locais impuseram um toque de recolher para as 8 da noite, que o Departamento de Polícia de Nova York, NYPD, vem usando como pretexto para prender indivíduos sem qualquer outra justificativa. Num padrão crescente, que os advogados de direitos civis já documentaram em diversos distritos da cidade, vários desses indivíduos foram levados para delegacias onde agentes de inteligência do NYPD e do FBI os interrogaram sobre seus posicionamentos políticos, inclusive sua opinião sobre o fascismo. A notícia dos interrogatórios apareceu poucos dias depois que o Procurador-Geral William Barr publicou uma declaração considerando o movimento antifascista sem lideranças, conhecido como antifa, como uma organização terrorista interna, e anunciou que as 56 Forças-Tarefa Conjuntas contra o Terrorismo do governo tinham sido acionadas numa busca em todo o país pelos “organizadores e instigadores criminais”.

Em Washington, D.C., unidades táticas fortemente armadas assumiram posições na capital do país, sem uso de insígnias oficiais. Supostos grupos compostos principalmente de homens brancos portando armas de uso militar também estavam pelas ruas, e a polícia local foi vista posando para fotos com justiceiros carregando tacos de beisebol. Grupos de extrema direita e de poderio branco aproveitaram o tumulto para impulsionar o país para uma guerra racial há muito desejada: em Las Vegas, três extremistas de direita, com experiência militar, participantes do chamado “movimento boogaloo”, um grupo pró-armas que defende a guerra contra o governo, foram detidos sob acusação de terrorismo por estarem tramando ataques em Nevada.

Michael German, pesquisador no Centro Brennan de Justiça e ex-agente do FBI especializado em investigações de terrorismo doméstico, disse que as ações do governo na última semana refletem os problemas entranhados de longa data nas forças policiais do país. De uma perspectiva jurídica e logística, a declaração de Barr sobre os antifa é “inócua”, entende German: “é uma forma de sinalizar para os apoiadores de Trump, dentro e fora das forças de segurança, que esse é o inimigo”.

Vezes seguidas, a resposta das forças de segurança norte-americanas à divergência vem seguindo um padrão, explicou German, em que a polícia reprime os movimentos voltados para justiça racial, social e ambiental, mas dá passe livre para nacionalistas brancos violentos, que espancam pessoas pelas ruas. “Já vemos que existe essa dinâmica em que os policiais veem as pessoas que protestam contra a violência policial como inimigas, contra quem eles podem usar ainda mais violência”, diz. “Especialmente durante os protestos, não é que a polícia simplesmente queira prender alguém que está causando problemas”, explica German. “Eles querem aplicar punição.”

Linhas Azuis Miram em Vidas Negras

Embora a ideia da “fina linha azul” já esteja por aí há décadas, sua evolução em termos de marketing e propaganda começou com um esforço para angariar recursos para as famílias de policiais mortos em serviço. A bandeira propriamente dita foi criada seis anos atrás, quando os EUA foram tomados por manifestações contra a violência policial, que deram origem ao movimento Vidas Negras Importam. À medida que essas demandas por justiça ganharam tração, um movimento contrário, Vidas Azuis Importam, surgiu sob o manto da bandeira recém-criada. Em um artigo para a revista Harper’s, o autor Jeff Sharlet detalha como um estudante universitário de 19 anos, chamado Andrew Jacob, teve a ideia da bandeira. “O preto acima representa os cidadãos”, explica Jacob, fundador da empresa Thin Blue Line USA [Fina Linha Azul EUA]. “O preto abaixo representa os criminosos.”

A criação da bandeira coincidiu com a morte, em dezembro de 2014, de dois policiais do NYPD, Wenjian Liu e Rafael Ramos, no Brooklyn. As mortes dos policiais desencadearam uma rebelião entre os policiais da cidade de Nova York contra o prefeito Bill de Blasio. Foi um ponto de inflexão para o prefeito recém-eleito, que tinha se valido, em sua campanha eleitoral, da demanda popular por mais responsabilização policial. Enquanto de Blasio se tornou um símbolo de fracasso absoluto aos olhos dos defensores da responsabilização do NYPD, o poderoso sindicato do órgão continuou diariamente a atacar e repreender em público o prefeito, nos anos que se seguiram aos assassinatos, e recentemente expuseram informações particulares de sua filha quando ela foi presa em um protesto em Manhattan.

Uma bandeira com a fina linha azul, usada para homenagear os mortos em serviço e a coragem dos policiais, estendida sobre o calçadão, próxima aos pés dos policiais que mantêm manifestantes e opositores separados durante uma manifestação "America First" [América Primeiro] em 20 de agosto de 2017, em Laguna Beach, na Califórnia.

Uma bandeira com a fina linha azul, usada para homenagear os mortos em serviço e a coragem dos policiais, estendida sobre o calçadão, próxima aos pés dos policiais que mantêm manifestantes e opositores separados durante uma manifestação “America First” [América Primeiro] em 20 de agosto de 2017, em Laguna Beach, na Califórnia.

Foto: David McNew/Getty Images

O surgimento da bandeira, em 2014, foi apenas mais um elemento em um ecossistema mais amplo de propaganda policial. Como as armas, veículos e treinamentos que passam dos militares para as polícias de todo o país, o movimento Vidas Azuis Importam abraça imagens e ideologia derivadas das guerras dos EUA no exterior.

No mesmo mês em que os policiais do Brooklyn foram mortos a tiros, o filme de Clint Eastwood “Sniper Americano” chegou aos cinemas. O filme, que rapidamente se tornou a maior bilheteria de um filme de guerra de todos os tempos, conta a história de Chris Kyle, do regimento SEAL da Marinha norte-americana, que, além de ter se tornado um herói para muitos, já se vangloriou por ter realizado dezenas de execuções extrajudiciais pelas ruas de Nova Orleans, na esteira do furacão Katrina. Embora Kyle já fosse bastante conhecido depois da publicação de sua autobiografia best-seller, o sucesso hollywoodiano catapultou o sniper ao estrelato entre os conservadores.

Nos campos de batalha do Iraque, o cartão de visitas do pelotão de Kyle era a imagem de uma caveira usada pelo personagem de quadrinhos conhecido como Justiceiro. Na série da Marvel, Frank Castle, o Justiceiro, é um fuzileiro naval veterano da Guerra do Vietnã, que mata pessoas em uma guerra autodeclarada contra o crime. Em seu livro, Kyle, que foi morto a tiros por outro veterano em 2013, descreve o amor de sua unidade pelo personagem e sua simbólica caveira. “Pintávamos com tinta spray nossos Hummers, nossos coletes à prova de bala, nossos capacetes e nossas armas”, escreveu. “Pintávamos com spray todos os prédios e muros que conseguíamos. Queríamos que as pessoas soubessem: estamos aqui e queremos ferrar vocês. Era nossa versão da guerra psicológica. Você consegue nos ver? Somos as pessoas que estão acabando com vocês. Tenham medo de nós. Porque vamos matar você, filho da puta. Você é mau. Nós somos piores. Nós somos mauzões.

O movimento Vidas Azuis Importam abraça imagens e ideologia derivadas das guerras dos EUA no exterior.

Policiais de todo o país desenvolveram uma paixão equivalente pela caveira do Justiceiro, estampando o símbolo do assassino em camisetas, viaturas e outros equipamentos. Em Milwaukee, uma gangue de policiais adotou “os Justiceiros” como nome e tatuou o símbolo do personagem na pele. Os artistas e roteiristas por trás dos quadrinhos do Justiceiro vêm resistindo à sua incorporação pelas forças de segurança, o que consideram um equívoco na leitura do personagem. Gerry Conway, um de seus cocriadores, comparou o uso do símbolo pelas forças policiais a colocar uma bandeira confederada em um prédio público. “Ele é um criminoso”, disse Conway. “Se um agente da lei, que representa o sistema de justiça, coloca em sua viatura o símbolo de um criminoso, ou troca medalhas em homenagem a um criminoso, ele ou ela está dando uma declaração muito equivocada sobre sua compreensão da lei.”

A visão violenta e militarista da polícia refletida na popularidade do Justiceiro também está presente no treinamento recebido pelos policiais. Em “Sniper Americano”, a estrela do filme, Bradley Cooper, faz um discurso para seus filhos à mesa de jantar, explicando que existem três tipos de pessoas no mundo: ovelhas, lobos, e cães pastores. Os lobos querem caçar as ovelhas, que dependem dos cães pastores – um grupo pequeno, mas fundamental – para se protegerem. A lição é tirada diretamente dos ensinamentos do tenente Dave Grossman, ex-professor de psicologia na academia de West Point que se declara especialista em mortes e dá cursos para departamentos de polícia e órgãos federais de segurança em todo o país. O primeiro livro de Grossman, “On Killing” [“Sobre Matar”, sem tradução no Brasil] chegou a ser leitura obrigatória para cadetes do FBI.

Em suas aulas, Grossman às vezes conta aos presentes que já ouviu relatos de policiais que teriam experimentado o melhor sexo de suas vidas depois de matar alguém pela primeira vez, e diz que, com o treinamento adequado, tirar uma vida humana “não é nada de mais“. Em 2014, Jeronimo Yanez, um policial de Minnesota, participou de uma aula do curso “Guerreiro à Prova de Bala” de Grossman, ministrada por um de seus parceiros de negócios. Dois anos depois, Yanez parou o carro conduzido por Philando Castile, um pai de 32 anos, negro. Castile informou ao policial que se encontrava de posse de uma arma de fogo registrada. Yanez ficou cada vez mais agitado e disparou cinco tiros contra ele. Castile morreu no banco do motorista, com sua namorada e sua filha de 4 anos dentro do veículo. Yanez foi liberado de todas as acusações no julgamento que se seguiu.

Na sequência do assassinato, que desencadeou ondas de protestos, o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, proibiu os cursos de “policiais guerreiros”. O tenente Bob Kroll, presidente da Federação de Policiais de Minneapolis, se insurgiu contra a decisão, dizendo que os treinamentos de Grossman eram “excelentes“.

Em uma entrevista no começo do ano, poucos meses antes que Floyd fosse morto na mesma cidade, Kroll disse que já estivera envolvido em três tiroteios e que “nenhum deles me incomodou“. Um perfil feito em 2015 pelo jornal Minneapolis Star Tribune destacou a participação de Kroll em uma gangue de policiais motociclistas que incluía supremacistas brancos (o ex-agente da SWAT negou essa classificação), sua condição de acusado em um processo de discriminação racial conduzido por cinco policiais negros, as quase vinte reclamações contra ele na corregedoria (“todas encerradas sem punição, exceto três”), e sua suspensão em decorrência de uma reclamação de uso excessivo de força.

Só no último ano, múltiplas investigações de diversas organizações de imprensa descobriram policiais e outros agentes de segurança compartilhando conteúdo escancaradamente racista e violento em grupos privados nas mídias sociais. Em meio ao racismo que se desenrola nesses espaços, há profundas notas de indignação expressando o sentimento de que, na verdade, é a polícia que está sob ataque. É possível vincular esse sentimento, em parte, a uma teoria que foi difundida nos últimos anos do governo Obama, conhecida como “efeito Ferguson”, que defendia que, na sequência dos protestos contra a violência policial, as forças de segurança estariam deixando de lado a guerra contra o crime, colocando em risco a segurança pública.

O proponente de mais alto escalão dessa teoria furada era o diretor do FBI no governo Obama, James Comey. Dirigindo-se a um grupo de estudantes de Direito em 2015, Comey descreveu um “vento gelado que sopra pelas forças de segurança“, alegando que os desdobramentos do controle sobre a violência policial estariam mudando a forma como os policiais atuavam, o que teria levado a um salto nos homicídios. A alegação foi amplamente criticada, em parte porque carecia de comprovação, e em parte porque era a extensão de uma longa história racista de “combate ao crime por impulso“.

Ironicamente, considerando o espaço que Comey viria a ocupar nas mentes de muitos progressistas norte-americanos poucos anos depois, o discurso de “guerra contra a polícia” do ex-diretor do FBI complementava a visão de mundo do homem que, à época, estava começando uma bem-sucedida campanha pela Casa Branca.

O Terror Trumpista

Um mês depois de tomar posse, Donald Trump assinou três decretos altamente simbólicos em relação às forças de segurança domésticas. Embora o impacto de políticas públicas que a Casa Branca pode causar nas questões policiais locais seja mínimo, o recado no contexto da guerra cultural não é. Para os policiais nas ruas ou para os agentes de imigração na fronteira, o recado do presidente foi o mesmo: os liberais politicamente corretos contiveram vocês por muito tempo, mas agora não mais.

“Desde o começo, Trump acenou com sua lealdade às partes mais reacionárias desse movimento”, explicou Vitale, o professor do Brooklyn College. Na Convenção Nacional do Partido Republicano de 2016, Trump recebeu o apoio entusiasmado de David Clarke, ex-xerife do Condado de Milwaukee, em Wisconsin. “Vidas azuis importam na América!” Gritou Clarke da tribuna. Clarke chamou o movimento Vidas Negras Importam de organização terrorista, e o comparou à Ku Klux Klan. Seu mandato como xerife foi eivado de controvérsias, em particular envolvendo a morte de pessoas em sua cadeia e o uso de algemas em mulheres grávidas. Uma vez na Casa Branca, Trump rapidamente usou seus poderes de presidente para perdoar Joe Arapaio, xerife no Arizona, por sua condenação por desacato criminoso ao juízo. Arapaio, que pelas conclusões do Departamento de Justiça comandava o maior esquema de discriminação racial na história dos EUA, costumava se referir às suas notórias prisões externas como um “campo de concentração”.

O presidente Donald Trump aperta a mão do chefe do Sindicato de Policiais de Minneapolis, tenente Bob Kroll, no palanque durante um comício de campanha no Target Center em 10 de outubro de 2019, em Minneapolis.

O presidente Donald Trump aperta a mão do chefe do Sindicato de Policiais de Minneapolis, tenente Bob Kroll, no palanque durante um comício de campanha no Target Center em 10 de outubro de 2019, em Minneapolis.

Foto: Stephen Maturen/Getty Images

“É o tipo de pessoa que Trump abraça porque decidiu que a solução para todos os problemas sociais é a criminalização, e que a forma de tornar a América grande de novo é por meio do autoritarismo”, diz Vitale. Não demorou muito para que produtos com tema Trump-Justiceiro começassem a aparecer online, com o conhecido cabelo do presidente postado sobre a ameaçadora caveira do Justiceiro. O apoio a Trump da ala politizada de extrema direita das forças de segurança norte-americanas foi mostrado novamente em outubro, quando o presidente foi recebido em um comício em Minneapolis por Kroll, o líder do sindicato dos policiais, desafiando a declaração da prefeitura de que o presidente não era bem-vindo. Kroll usava uma camisa vermelha estampada com as palavras “Policiais por Trump” (disponível por 20 dólares no site do sindicato).  Dirigindo-se aos “patriotas” na multidão, Kroll disse que as camisas eram um recado contra a hipocrisia.

“O governo Obama foi desprezível em algemar e oprimir a polícia”, declarou ele. “A primeira coisa que o presidente Trump fez ao tomar posse foi reverter isso, ele se livrou do regime Holder-Loretta Lynch [procuradores-gerais do governo Obama] e decidiu deixar os policiais fazerem seu trabalho – colocou as algemas nos criminosos em vez de nós.”

Não há lacuna entre o policiamento do estilo Justiceiro e a visão de Trump de como as forças de segurança dos EUA deveriam operar, defende Vitale. “São a mesma coisa”, disse ele. “É uma espécie de protofascismo. Talvez semana que vem descubramos que é um fascismo completo.” As contradições da sociedade americana, trazidas à tona pela devastação da pandemia do coronavírus, seguida dos protestos, levaram o país a um ponto de ruptura. “Historicamente, quando isso acontece, há uma ruptura e não é bonito”, explica Vitale. “Normalmente envolve guerra. É como esse tipo de contradição fundamental é resolvido.” Os dias da reforma policial, a expressão da moda no período Obama, acabaram, entende ele. “Isso está encerrado”, diz. “Há uma guerra em relação ao futuro do país, que agora está literalmente acontecendo enquanto as pessoas lutam contra os policiais nas ruas. E eu penso que a pergunta é: que cara poderia ter uma vitória do nosso lado?”

Para os policiais nas ruas ou para os agentes de imigração na fronteira, o recado do presidente foi o mesmo: os liberais politicamente corretos contiveram vocês por muito tempo, mas agora não mais.

“Isso não é mais uma questão de polícia”, teme ele. “Isso diz respeito às queixas de toda uma geração sobre os rumos do país, o fracasso de ambos os partidos políticos, a crise econômica, a crise ambiental.” Pelas ruas do Brooklyn, aos conhecidos gritos de “sem justiça, sem paz” se juntou uma demanda cada vez mais popular: reduzir as despesas com a polícia. Deixar a fera policial à míngua é exatamente a solução que Vitale vem defendendo nos últimos três anos. “Isso não surgiu do nada – nós temos atuado”, diz ele. “Não é uma pauta revolucionária, eu sei, mas é preciso construir um movimento que obtenha vitórias e que, nesse processo, vá reduzindo a capacidade repressora do estado.”

Por ora, os protestos continuam, a despeito das tentativas de refreá-los com normas de toque de recolher e repressão policial cada vez mais intensa sobre os cidadãos que exercem seus direitos constitucionais de reunião e liberdade de expressão. Quin Johnson fazia parte dos milhares de manifestantes que voltaram às ruas do Brooklyn na última semana. Ela levava um pequeno cartaz com pouco mais de uma dúzia de nomes: homens e rapazes negros espancados ou mortos pela polícia ou por grupos racistas, desde 1931. “É muito emocionante”, disse ela, enquanto a multidão se movia em sentido oeste. “Hoje foi o primeiro dia em que eu chorei.”

Manifestantes queimam bandeiras da Fina Linha Azul diante do Departamento de Polícia de Sacramento, em 2 de março de 2019. À direita, uma mulher usa uma camiseta com o símbolo de um personagem da Marvel Comics, o Justiceiro. Foto: Mason Trinca/Getty Images

Johnson descreveu o traumático ciclo que permeia a vida dos norte-americanos, em especial dos afro-americanos, em que pessoas são mortas pela polícia sem que haja consequências. “Estou apenas indignada”, disse ela. “Você se lembra de cada uma das vezes, e isso vai só crescendo.” A escala dos protestos não a surpreende, acrescentou, “todas as comunidades vêm sendo afetadas por isso”, nem o fato de que estão continuando. “Eles continuam porque você volta para casa, vê as notícias, e vê o que a polícia está fazendo com o povo”, explicou. “É exatamente por essa razão que as pessoas estão protestando.”

O momento atual é um ponto de fervura, disse Johnson – não é possível saber que rumo as coisas vão tomar. “Tem potencial para ser diferente”, diz ela. “Espero que seja diferente.” Mas caso a mudança não venha, “vou ficar satisfeita de ver a porra toda pegar fogo.”

Tradução: Deborah Leão