FILE - In this March 7, 2020, file photo President Donald Trump is seated before a dinner with Brazilian President Jair Bolsonaro, left, at Mar-a-Lago in Palm Beach, Fla. Bolsonaro’s communications director, Fábio Wajngarten, tested positive just days after traveling with Bolsonaro to a meeting with Trump and senior aides in Florida. (AP Photo/Alex Brandon, File)

O Presidente Donald Trump com Presidente Jair Bolsonaro em Mar-a-Lago, Palm Beach, no dia 7 de março de 2020.

Foto: Alex Brandon/AP Photo

O Presidente Jair Bolsonaro está cada vez mais imerso em escândalos envolvendo seus familiares e seus aliados mais próximos. Somente na última semana, diversas operações foram desencadeadas contra apoiadores, sua família e mesmo contra o próprio presidente.

Grandes ações de busca e apreensão, ordenadas pelo STF, foram deflagradas contra casas de blogueiros e youtubers apoiadores ferrenhos do presidente acusados de atividades antidemocráticas e disseminação de fake news; a ativista conhecida pelo pseudônimo Sara Winter, uma das bolsonoristas mais fanáticas foi presasigilos bancários de uma dúzia de parlamentares governistas foram levantados; e, no maior revés para a família, Fabrício Queiroz, que foi por mais de uma década assessor principal e motorista de Flávio Bolsonaro — e que estava foragido há mais de um ano, procurado por participação no esquema de rachadinha no gabinete do então deputado e por ligações com as milícias — foi finalmente encontrado (em uma casa do advogado da família Bolsonaro) e preso – na casa foram encontrados, sobre a lareirabonecos de Tony Montana, personagem principal do filme “Scarface”, e um pôster do AI-5.

Em meio a tudo isso, o ministro da Educação ultradireitista Abraham Weintraub foi demitido – ou “se demitiu” – na quinta-feira, após ser flagrado, no agora célebre vídeo da reunião ministerial, gritando que os ministros do STF deveriam ser presos, e ter participado em seguida, e sem máscara, de uma manifestação explicitamente antidemocrática contra o STF. Mesmo em um governo cujos ministros se atropelam em problemas de corrupção e toda sorte de humilhações — Bolsonaro está em seu terceiro ministro da Saúde em quatro meses, no meio de uma pandemia, e seu quinto secretário de Cultura (um deles foi demitido depois de repetir ipsis litteris partes de discursos de Josef Goebbels, ministro da propaganda nazista) — ainda assim Weintraub se sobressaiu como um retumbante fracasso e fonte abundante de constrangimento para o governo, tendo  se tornado um herói para as facções mais estridentes do movimento bolsonarista graças a suas bravatas pedindo prisão para os juízes do STF e sua histeria anticomunista.

Especulações de que Weintraub seria o próximo alvo das autoridades investigativas do país surgiram na semana passada e ganharam força quando ele anunciou repentinamenteem seu Twitter, na noite de sexta-feira: “Estou saindo do Brasil o mais rápido possível (poucos dias). NÃO QUERO BRIGAR! Quero ficar quieto, me deixem em paz, porém, não me provoquem!”

Em sua cerimônia de exoneração, ciceroneada pelo próprio Bolsonaro na quinta-feira, o presidente sugeriu que apontaria Weintraub para um importante cargo no Banco Mundial, um dos poucos cargos de importância que não dependem da aprovação do Senado. Mas logo uma forte oposição começou a aparecer no interior do próprio banco, e uma longa e detalhada carta, assinada por vários especialistas brasileiros, foi enviada aos embaixadores dos sete países de cuja aprovação a nomeação depende, listando os escândalos e constrangimentos de Weintraub e “recomendando fortemente” que sua indicação não seja aceita, alertando ainda para os “danos irreparáveis que ele poderia causar à posição de seus países no Banco Mundial”.

Embora Weintraub tenha alardeado ontem à noite que estava “saindo do Brasil o mais rápido possível” – o que seria em “poucos dias” – as notícias mostraram que, na verdade, ele correu para o aeroporto depois de postar seu tweet e parece ter voado para os EUA num vôo noturno. Às 9h07 da manhã, seu irmão Arthur anunciou no Twitter: “Obrigado a todos pelas orações e apoio. Meu irmão está nos EUA”. Mais tarde as notícias mostraram que o ex-ministro da Educação chegou em Miami.

Mas há uma questão intrigante nisso tudo. Como Weintraub conseguiu entrar nos Estados Unidos se uma Ordem Executiva, expedida pelo presidente Donald Trump em 24 de maio, barra a entrada de qualquer cidadão, brasileiro ou não, que tenha estado no Brasil nos 14 dias anteriores à chegada nos EUA? A “proclamação de suspensão de entrada a imigrantes e não-imigrantes de certas pessoas que representam risco de transmissão do novo coronavírus”, como é chamada a portaria, assevera:

A entrada nos Estados Unidos, como imigrantes ou não-imigrantes, de qualquer estrangeiro que esteve fisicamente presente na República Federativa do Brasil durante o período de 14 dias precedentes à entrada ou tentativa de entrada nos Estados Unidos está suspensa…

Como Weintraub entrou nos Estados Unidos com uma proibição dessas?

Brazil's Minister of Education, Abraham Weintraub, leaves the Federal Police headquarters building after testifying in an investigation which he answers for alleged crime of racism, in Brasilia, on June 04, 2020. On his way out, the minister was carried in his arms by supporters waiting for him in front of the venue and gave a brief speech on freedom of expression. The inquiry was opened in last April, after the minister posted a message on Twitter in which he makes fun on the accent of some Chinese when they speaking Portuguese. Photo: DIDA SAMPAIO/ESTADAO CONTEUDO (Agencia Estado via AP Images)

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, deixa o edifício da Polícia Federal em Brasília, depois de depor em investigação na qual responde por suposto crime de racismo, em 4 de junho de 2020.

Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

A resposta parece ser que Bolsonaro conspirou com Weintraub para dar ao ex-ministro o status necessário para contornar a proibição de viagem: Weintraub parece ter viajado com um passaporte diplomático, embora seu “pedido de demissão” do governo brasileiro tenha sido anunciado na quinta-feira. Uma vez que Weintraub não ocupa qualquer cargo oficial no governo, e dado que sua indicação para o Banco Mundial é, no melhor dos casos, apenas um rumor não confirmado, ele não está qualificado para entrar nos Estados Unidos sob nenhuma das exceções do decreto de Trump, que isenta da proibição “funcionários de um governo estrangeiro ou seus familiares imediatos”.

Embora a demissão de Weintraub tenha sido anunciada na quinta-feira, Bolsonaro esperou até esta manhã – assim que se anunciou que Weintraub se encontrava a salvo em território norte americano – para publicar oficialmente a exoneração. O atraso artificial e deliberado da comunicação oficial da exoneração permitiu que Weintraub mantivesse o status de ministro para entrar nos Estados Unidos, já que está isenta da proibição qualquer pessoa que seja parte de um governo.

Então, um dos aliados mais próximos de Bolsonaro está agora a salvo nos Estados Unidos, ao que tudo indica fora do alcance dos investigadores brasileiros que apuram suas atividades suspeitas. E Bolsonaro, para contrabandear seu aliado aos Estados Unidos, onde ele está a salvo da justiça brasileira, manipulou uma ordem de saúde pública do presidente Donald Trump, planejada para proteger os norte americanos da cruel e interminável crise do coronavírus no Brasil.