Uma daquelas pessoas que ficam no cercadinho em frente ao Planalto puxando o saco do presidente disse para ele que a “educação no Brasil está definhando”. Bolsonaro respondeu como se não tivesse nada a ver com isso: “Está definhando? A educação está horrível no Brasil”.

Depois de três ministros caírem em um ano e meio de governo, “horrível” ainda é um termo fraco para definir o que tem sido a passagem do bolsonarismo no MEC. O balanço da gestão é trágico. É uma destruição sem precedentes em todas as áreas da educação, o que não deveria ser motivo de espanto, porque isso está perfeitamente alinhado ao projeto maior do bolsonarismo: o de destruição da democracia.

Bolsonaro prometeu que a educação seria uma prioridade do seu governo. Prometeu também que o único critério para preencher ministérios seria o técnico. O que vimos a seguir foi um estelionato eleitoral executado com requintes de crueldade.

O desprezo do bolsonarismo pelo MEC ficou evidente logo pela escolha de Ricardo Vélez Rodríguez, um sujeito sem experiência em gestão educacional, sem gabarito técnico para a função e comprometido apenas com os delírios do seu mestre Olavo de Carvalho. Entre as tantas bizarrices que marcaram sua passagem pela pasta, talvez a mais impressionante tenha sido a defesa de que a universidade não é um lugar para os mais pobres. Para ele, quem não pode pagar por uma universidade deveria se contentar com o ensino técnico profissionalizante.

Bolsonaro transformou o MEC em cabide de emprego para acomodar aliados. O ministério foi aparelhado em uma parte por militares; em outra, por olavistas. As duas correntes passaram meses numa disputa interna que paralisou a pasta e resultaram na queda de Vélez. As ações de Bolsonaro ajudaram a transformar o MEC em ringue de rinha de bolsominions.

Depois veio Abraham Weintraub, o pior ministro da Educação de todos os tempos. Sob qualquer ponto de vista, a gestão Weintraub foi desastrosa. Há de se estar muito chapado de cloroquina para enxergar algo positivo na sua passagem pelo MEC, que ficou marcada por guerras internas, ataques às instituições e bravatas anticomunistas alucinadas. A saída de Weintraub não poderia ser mais simbólica: fugiu do país com medo de ser preso.

Depois veio Decotelli, que mal sentou na cadeira e pediu demissão após a descoberta de fraudes no seu currículo. O desdém pelo MEC é tanto que o Planalto nem se deu ao trabalho de checar o currículo do novo ministro. Esse descaso é estratégico. É o projeto de sufocamento da democracia brasileira sendo instalado.

Depois de um capacho do guru da Virgínia, de um golpista fujão e de um fraudador de currículo, nós podemos apostar sem medo de errar que a escolha de Bolsonaro dará continuidade ao desastre do trio anterior. Até sábado, Renato Feder, atual secretário de Educação do Paraná, era o favorito para assumir a pasta, mas fontes ligadas ao presidente garantem que o presidente desistiu. Houve pressão dos evangélicos e dos aliados de Olavo Carvalho contra a sua nomeação. Os crentes e os lunáticos têm poder de veto na escolha do novo ministro da Educação. O motivo da rejeição seria a sua proximidade com os tucanos. Há duas semanas, Bolsonaro chegou a se reunir com Feder, mas o rejeitou quando descobriu que ele doou grana para a campanha de Doria.

Feder não é mais favorito, mas o fato de ter sido cogitado já é um indicativo de que o pior está por vir. Ele é só o homem que está arrasando com a educação no Paraná. Se o seu currículo estiver correto, Feder é um administrador formado pela FGV, com mestrado em economia na USP. Sua única experiência em gestão educacional foi no ano e meio que esteve à frente da secretaria de Educação do Paraná. Segundo o sindicato dos professores paranaeneses, Feder implantou na marra, sem consultar docentes, um sistema de ensino a distância durante a pandemia.

Os professores só ficaram cientes depois da transmissão de uma live protagonizada pelo secretário. Sim, ele achou prudente implantar um projeto complexo, que atinge 1 milhão de estudantes, através de uma live na internet. O resultado, claro, foi horroroso. Muitos alunos e professores não entenderam o projeto, o aplicativo recomendado pela secretaria não funcionou, mas as aulas começaram a ser transmitidas pela TV mesmo assim. As diferentes realidades dos alunos foram completamente ignoradas.

O Intercept revelou que Feder contratou sem licitação uma rede afiliada da TV Record para transmitir as vídeo-aulas para alunos durante a pandemia. O resultado foi para nenhum weintraub da vida botar defeito: alunos de 165 cidades ficaram sem aulas. Pelo jeito, pouca coisa vai mudar no MEC.

Mas, apesar da curta e desastrosa experiência no Paraná, o  administrador de empresas deve ter grandes ideias e projetos para educação do Brasil, não é mesmo? Bom, pelo livro que escreveu em 2007, nós podemos esperar nada menos que o pior.

Intitulado “Carregando o Elefante – Como transformar o Brasil no país mais rico do mundo”, o livro é uma espécie de autoajuda para neoliberais com ideias de como desidratar o estado brasileiro em nome de liberdade total ao mercado. Para o ensino, Feder propôs a privatização de todas as escolas e universidades. Com o fim das escolas gratuitas, os mais pobres seriam agraciados com um voucher do governo para usar na escola que couber dentro do orçamento. Uma frase do livro resume o que pensa Feder sobre educação pública: “Assim como é melhor que uma empresa privada frite hambúrgueres, ao invés do governo, o mesmo ocorre no caso da Educação”.

Como um bom ultraliberal que é, Feder não vê problema em equiparar uma lanchonete à uma sala de aula. Bolsonaro cogitou para o MEC alguém que defendeu em livre a extinção do MEC. A sua ideia seria transformá-lo em uma mera agência reguladora das escolas e universidades particulares. Se temos um ministro do Meio Ambiente que é contra o meio ambiente, uma ministra dos Direitos Humanos que é contra os direitos humanos, por que não um ministro do MEC que é contra a educação pública? A escolha de Feder seria coerente com o projeto que a extrema direita desenhou para o Brasil. Olavistas e evangélicos viajaram em vetá-lo.

Mas quais são as credenciais de Feder para ter conquistado essa condição de selecionável para cargos importantes de gestão pública educacional? Não há credenciais. A não ser que você considere que um empresário do ramo de bugigangas eletrônicas chinesas tenha gabarito para o cargo mais importante da área educacional. Feder é um dos donos da Multilaser, uma empresa que sempre manteve contratos com governos (tem até hoje com o governo Bolsonaro) e investiu grana em ações que visavam derrubar Dilma.

Na cerimônia de abertura da Copa do Mundo no Brasil, quando o mundo inteiro estava voltado ao Brasil, Feder e seu sócio patrocinaram uma operação para atacar Dilma. Eles compraram e distribuíram 20 mil cartazes contendo a estrela do PT e as frases “Fora incomPTtentes” ou “Fora corruPTos”.

Graças à lucrativa parceria com a China comunista, vejam que ironia, Feder fez fortuna na Multilaser. Ele virou sócio da empresa por ser amigo de infância de Alexandre Ostrowiecki, que a herdou de seu pai. Assim foi a trajetória profissional desse empreendedor. A amizade dos dois, aliás, é bastante produtiva. Além da Multilaser, eles estão juntos no comando do Ranking dos Políticos e na autoria do livro citado anteriormente.

O Ranking dos Políticos é o ranking mais picareta da internet. Escrevi sobre esse engodo em 2018. O ranking se apresenta como apartidário e independente, mas, na prática, atua como veículo de propaganda do partido Novo em defesa da sua agenda ultraliberal. Se você for um parlamentar corrupto de direita ficará muito melhor posicionado que um honesto de esquerda. É essa a ética que norteia a pontuação criada pelo novo ministro do MEC.

O Ranking dos Políticos tem sido usado para fazer propaganda política de Feder, como essa abaixo, que quase o santifica:

Esse foi o grande favorito para assumir o MEC. Agora resta esperar qual nome passará pelo crivo de evangélicos e olavistas, que têm grande influência na área da educação no bolsonarismo. Não precisa ser um gênio para cravar: vem coisa pior.

De tantas pastas desprezadas pelo projeto destrutivo do bolsonarismo, a Educação, que deveria ser prioritária, parece ser a maior vítima. A falta de grandes projetos para a área já estava escancarada na apresentação do programa de governo durante a campanha. Aquilo era um arremedo de sensos comuns misturados com obsessões ideológicas da extrema direita — como as escolas cívico-militares, a rejeição à educação sexual, a preocupação com ideologia dos professores e outros moralismos. Agora, com o MEC sob o comando de um empresário-coxinha, a tendência é piorar. Até porque o único projeto que se viu no MEC até agora foi o de destruição gradual do MEC.