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Foto: André Coelho/Getty Images

A construção da candidatura de Sergio Moro 2022 já está na praça. Será a estreia do lavajatismo na política partidária tendo uma candidatura própria. Moro tem dado entrevistas dizendo não pensar em candidatura, mas falando como um candidato à presidência.

Há algumas semanas na GloboNews, ele criticou os escândalos de corrupção do PT, acusou Bolsonaro de negar a pandemia e apostou na estratégia de dizer que Lula e Bolsonaro são dois lados de uma mesma moeda. A entrevista deixou claro que o ex-juiz tem uma estratégia eleitoral definida. Moro é tão candidato que elogiou outros possíveis candidatos como João Doria, Huck e Mandetta. “São políticos de centro-direita, né? Eu tenho mais afinidade com essa visão”, deixando claro em qual parte do espectro político vai disputar o eleitorado. Nesta mesma semana, ele também chegou a trocar afagos públicos com o partido Novo.

Em outro momento da entrevista, falou com certo orgulho sobre a mais famosa audiência da Lava Jato com Lula, e a tratou como uma luta de boxe: “no ringue com Lula”. Em qual outro lugar do mundo um ex-juiz que se orgulha por ter tratado um réu como adversário é considerado a maior reserva moral do país? Um juiz que corrompe as leis ou, como confessou a lavajatista Monique Chequer no escurinho do Telegram, um juiz que “viola sempre o sistema acusatório e é tolerado por seus resultados”.

Se a grande mídia no Brasil fosse realmente séria, Sérgio Moro e a Lava Jato estariam hoje desmoralizados diante da opinião pública. As reportagens da Vaza Jato comprovaram, de maneira inequívoca, que a força-tarefa atuou sistematicamente à margem da lei em conluio com o juiz, com o objetivo de condenar políticos escolhidos a dedo e poupar outros. Mas, inacreditavelmente, isso não foi suficiente para manchar a imagem dos lavajatistas. A blindagem da grande mídia é tão poderosa, que fez com que mantivessem a aura de salvadores da pátria mesmo depois de a Vaza Jato tê-los deixados nus em praça pública.

Em parceria com o Intercept, a Agência Pública publicou uma reportagem em que revela diversas ilegalidades cometidas numa parceria secreta entre a força-tarefa e o FBI. Essa bomba não recebeu um segundo sequer de destaque no Jornal Nacional, o jornal de maior audiência do país. A notícia até que apareceu voando em alguns veículos, mas com pouco destaque, ficando escondida nos rodapés dos jornais e dos grandes portais. Não se viu também nenhum colunistão gastando tinta com ela.

Essa é a maneira típica com que as grandes empresas de mídia, principalmente a Rede Globo, sempre trataram a Lava Jato: mostrando as flores e minimizando os podres. Não haveria a mínima possibilidade de uma candidatura lavajatista nascer se esse jornalismo atuasse com a mesma determinação com que fiscalizou os governos petistas e o de Bolsonaro.

A forma como Sergio Moro se desligou do bolsonarismo lembrou os seus tempos de juiz, quando tomava ações fazendo cálculos políticos e usando a mídia a seu favor. Depois de passar quase um ano e meio passando pano para recebimento ilegal de dinheiro por parte de aliados, minimizando o laranjal do seu grupo político e usando cargo de ministro da Justiça para atuar como advogado do presidente e sua família, Moro resolveu sair do governo quando viu que o barco estava furado. Além de ter tolerado todos esses graves desvios éticos da sua turma, não se opôs às ameaças permanentes do bolsonarismo à democracia – pelo contrário, sempre as minimizou.

Enquanto a esquerda se agride, Moro está sendo apresentado pela imprensa como uma opção de centro-direita moderada.

Depois dessa passação de pano, resolveu se indignar com uma tentativa de Bolsonaro em interferir na Polícia Federal, como se já não tivesse aceitado coisa pior. O ex-juiz saiu do governo atirando na mesma politicagem que protegeu durante um ano e meio. E, claro, fez isso de forma midiática por meio daquela já tradicional tabelinha com a Globo: vazou prints de conversas com Bolsonaro para o Jornal Nacional exibir com exclusividade. Ali se deu o início para a corrida presidencial de 2022. Se levarmos em conta todo os aspectos levantados neste parágrafo, o mais correto seria dizer que Moro é um traidor do bolsonarismo, e não alguém que não se deixou corromper por ele. Moro sempre foi um soldado fiel do bolsonarismo. Só precisava de uma grande ação midiática para se desvencilhar dele e poder virar uma opção de oposição para 2022. Conseguiu.

Enquanto a esquerda se agride, Moro está sendo apresentado pela imprensa como uma opção de centro-direita moderada, como um homem de bem que acreditou no Bolsonaro como a maioria dos brasileiros, mas não se corrompeu quando entrou na política. Esse é um apelo que nenhum outro candidato tem. Moro tem potencial para pegar os votos de centro, que também são disputados pela esquerda e que costumam decidir uma eleição no Brasil.

A proteção da grande mídia é tão eficiente que Sergio Moro consegue se vender como alguém com perfil técnico, imune à politicagem barata. “Sempre me vi mais como um ministro de perfil técnico dentro do governo, assim como o ministro Paulo Guedes”, disse na entrevista para a GloboNews.

Moro atua politicamente desde os tribunais e praticou a má política quando virou político. Tecnicamente falando, ele foi um mau juiz e um mau ministro. Politicamente falando, fez sucesso nos dois cargos.

Além do apelo midiático,Somado a ele, temos outro fator que torna a sua candidatura ainda mais favorita: a desarticulação da esquerda, que caminha para iniciar o primeiro turno dividida entre duas ou três chapas, correndo risco de perder muitos votos de centro para Moro, que vai conseguir vender a imagem de técnico, de moderado, e continuará surfando o resto da onda anti-política do bolsonarismo.

Lula e o PT já deixaram claro que não abrirão mão da cabeça de chapa no primeiro turno. Ciro Gomes e o PDT também não. Todos admitem publicamente serem a favor da criação de uma frente ampla contra a extrema direita, mas, na prática, a rejeitam. Petistas defendem que o PT é muito grande e tem muito voto para ser vice de uma chapa. Já os pedetistas acreditam que o antipetismo, uma força política ainda bastante forte, impedirá qualquer candidatura capitaneada pelo PT. Ambos têm suas razões, mas os pedetistas têm o resultado da última eleição a seu favor: a hegemonia do PT não vence mais o antipetismo nas urnas.

Para piorar, essa dificuldade em construir uma unidade tem o fato dos dois grupos estarem regularmente se atacando de forma agressiva publicamente, seja entre as militâncias, seja entre seus líderes. É um rancor mútuo que impede uma ação pragmática, justamente em um momento em que o pragmatismo se faz mais necessário. O primeiro colocado nas pesquisas hoje é Jair Bolsonaro. O segundo é Sergio Moro.

Apesar de Moro declarar se identificar com a centro-direita, ele ainda é um legítimo representante de um projeto extremista de direita.

Diante da tragédia que estamos vivendo com um governo que cultiva valores fascistas e das dificuldades em derrubá-lo, não dá para dizer que seja cedo demais para se pensar em eleição. A extrema direita, seja ela representada por Bolsonaro ou Sergio Moro, não pode continuar no poder. A destruição do estado precisa ser interrompida e não há chance melhor de fazer isso senão com uma frente ampla que a derrote nas urnas. Uma frente ampla composta por todos aqueles que rejeitem fortemente monstros autoritários como Moro e Bolsonaro.

Mas não parece que é esse o caminho que vamos tomar. O PT acreditou que poderia vencer o antipetismo no segundo turno, quando tudo indicava que seria difícil. Esse antipetismo ainda não arrefeceu, mas parece que o partido manterá a estratégia. Hoje ninguém consegue imaginar a esquerda fora de um segundo turno, mas o risco existe.

Apesar de Moro declarar se identificar com a centro-direita, ele ainda é um legítimo representante de um projeto extremista de direita. Dentro do espectro político, o lavajatismo está à esquerda do bolsonarismo, mas ainda no campo da extrema direita. Moro está muito mais próximo do bolsonarismo do que dos tucanos, por exemplo. E se Bolsonaro terá a máquina pública a seu favor, Sergio Moro terá a Globo e boa parte da imprensa fazendo sua assessoria.

No futuro, os livros de história deverão ensinar que o lavajatismo foi uma corrente política que nasceu a partir de um grupo de procuradores e juízes que decidiu usar o sistema de justiça para atingir objetivos políticos. Como disse Gilmar Mendes, a “Lava Jato é pai e mãe do bolsonarismo”. O projeto de destruição da democracia não seria possível sem as ações da força-tarefa.

Com a benevolência da grande mídia e com o bate-cabeça interno no campo de esquerda, o lavajatismo estreiará na política partidária com grandes chances de conquistar o cargo mais importante da República. E não tem como isso ser bom para a democracia. Sergio Moro é um ex-juiz que sente orgulho por ter tratado o tribunal como ringue, e seus réus, como oponentes. Imagina do que será capaz na presidência da República.