BRASILIA, BRAZIL - AUGUST 19: Jair Bolsonaro, President of Brazil (L) and Paulo Guedes Minister of Economy of Brazil (R) look on during a ceremony to sanction the provisional measure that facilitates access to bank credit at the Planalto Palace on August 19, 2020 in Brasilia, Brazil. The bill creates a credit program for individual microentrepreneurs, micro, small and medium-sized companies. The program's objective is, through guarantees, to facilitate the obtaining of loans by companies to mitigate the economic impacts of the Covid-19 pandemic. (Photo by Andre Borges/Getty Images)

Foto: André Borges/Getty Images

Mesmo com todas as omissões e ações genocidas durante a pandemia, Bolsonaro conseguiu recuperar parte da popularidade que tinha quando foi eleito. Entre vários motivos, um deles parece se destacar: o pagamento do auxílio emergencial. Durante as discussões sobre o valor do auxílio, o governo não admitia que o valor passasse dos R$ 200. O acordo que chegou nos R$ 600 só aconteceu depois que o governo percebeu que sua proposta seria derrotada no Congresso.

Bolsonaro e Paulo Guedes brigaram para dar o menos dinheiro possível para os mais pobres, mas foi vencido por um esforço coletivo de partidos e organizações sociais. Bolsonaro, claro, faturou politicamente em cima do auxílio do jeito que lhe é peculiar: mentindo. Divulgou-o como se fosse resultado de uma vontade direta do seu governo.

Quando era deputado, Bolsonaro defendia extinção do Bolsa Família. Segundo ele, os beneficiários do programa eram “pobres coitados, ignorantes” e “eleitores de cabresto do PT”. Hoje ele disfarça esse mesmo pensamento com um discursinho de pai dos pobres. Bolsonaro quis aumentar o Renda Brasil, que é o Bolsa Família repaginado para fins eleitorais de R$ 190 para R$ 300 e aumentar o número de beneficiados. Paulo Guedes apresentou um plano que contemplava os pedidos do presidente, mas, sem dinheiro no cofre, teria que cortar outros benefícios sociais, como a Farmácia Popular, o abono salarial e o seguro-defeso.

Bolsonaro rejeitou a proposta, se colocou como defensor dos pobres e fritou Paulo Guedes em público: “A proposta, como a equipe econômica apareceu para mim, não será enviada ao parlamento. Não posso tirar de pobres para dar para paupérrimos”. O posto Ipiranga já não tem mais o mesmo prestígio e agora está sendo feito de escada eleitoral de maneira humilhante. Depois que Moro rompeu com Bolsonaro, acreditava-se que sua popularidade despencaria, o que não aconteceu. Isso encorajou o presidente a enfrentar Guedes. O seu papel de fiador junto aos mercados já não parece mais tão necessário para Bolsonaro. Pelo contrário, a ortodoxia neoliberal de Guedes pode atrapalhar seus planos para 2022.

O mercado, esse ente anônimo venerado por Paulo Guedes e sua turma, reagiu muito mal. Claro, eles não gostam que o governo aumente despesas, ainda mais se for para ajudar gente pobre. A bolsa caiu e o dólar subiu após o anúncio da rejeição ao plano de Guedes. Se o ministro perdeu o prestígio dentro do governo é sinal de que os interesses do mercado perderam também.

O tal mercado segue cumprindo o papel de sequestrador do governo. Quando sentem que os rumos tomados pelo governo não serão lucrativos, colocam a faca no pescoço do refém. Há também uma gritaria vinda do mercado para garantir a manutenção do teto de gastos. As disputas internas no governo federal por recursos orçamentários o deixaram preocupado.

Manchetes com as ameacinhas de sempre pipocaram na mídia: “Investidores ouvidos pela XP Investimentos veem dólar a R$ 6,50 e Ibovespa a 80.000 pontos caso âncora fiscal seja extinta”. O teto de gastos limita as despesas do governo e, consequentemente, prejudica aqueles que mais dependem dele. Na prática, nós temos milionários usando seu poder na mídia e no Ministério da Economia para impedir que o estado gaste dinheiro com os mais pobres. É essa a lógica cruel do mercado financeiro e dos liberaloides que dão suporte ao bolsonarismo.

Não é uma novidade. Os mercados fazem política em defesa dos seus interesses financeiros a todo momento. Nos últimos anos, quantas ameaças e chantagens pela imprensa o mercado já não fez quando um candidato à presidência pelo PT despontava como favorito? E quantas vezes o PT, para tentar garantir a eleição, correu para sinalizar que não iria desagradá-lo? É a lógica do terrorismo fiscal: buscam contaminar o debate sobre gastos públicos com ameaças para criar um clima de medo e convencer a opinião pública a defender a sua agenda econômica.

Mas quem são as pessoas que compõem esse tal mercado? A sensação é a de que ele representa um grande número de pessoas importantes para a economia do país. Seria um grupo ideologicamente neutro, puramente técnico, que só quer o bem do país. Mas a realidade é que são um clubinho de milionários com ideologia ultraliberal, que enfia a faca no pescoço do governo para proteger seus interesses privados.

‘Se o Posto Ipiranga foi fundamental para a sua eleição, agora poderá ser um empecilho para a reeleição’.

O fato é que o mercado, principalmente o mercado cambial, é comandado por pouquíssimas pessoas. São bancos, instituições financeiras e homens milionários como Paulo Guedes que dão as cartas desse jogo. Durante a reforma trabalhista, por exemplo, o clubinho pressionou a opinião pública a todo momento com ameaças. Após a sua aprovação, o dólar despencou, sinalizando a satisfação do mercado. A promessa era a de que a reforma geraria 6 milhões de empregos, mas o que se viu foi a degradação do trabalho e a manutenção dos níveis alarmantes de desemprego.

Além de banqueiro, Paulo Guedes foi também um day trader. O day trade é uma modalidade de negociação em que se costuma ganhar ou perder muito dinheiro com compra e venda de ações no mesmo dia, sendo a sorte e a especulação fatores decisivos. Os traders buscam o lucro fácil, rápido e muitas vezes nem sabem o que estão negociando. É um cassino eletrônico que produz adrenalina e, em consequência, cria o vício. São como abutres atrás de carniça e estão pouco se lixando para o resto da sociedade. Lembre-se que é esse tipo de pessoa que está por trás manchetes ameaçadoras vindas do mercado.

Segundo ex-sócios ouvidos pela revista Piauí em 2018, Guedes era obcecado por essa jogatina e já chegou a perder R$ 20 milhões. Era um dos noias desse cassino financeiro. Esse é o perfil do homem que comanda a economia nacional no governo fascistoide de Jair Bolsonaro.

Enquanto Bolsonaro agora se apresenta como um homem preocupado com os mais necessitados, Guedes, esse ex-frequentador da cracolândia do mercado financeiro, faz o papel do gestor responsável preocupado que precisa nos impor remédios amargos. Parece até que agem sob a dinâmica do bom policial-mau policial, mas não é isso. Há, de fato, um conflito entre eles. Bolsonaro acena para os eleitores mirando 2022. Guedes acena para o mercado financeiro, o seu habitat. Com pouca grana em caixa, essa contradição entre os interesses eleitoreiros de Bolsonaro e os interesses de Guedes em afagar os mercados não resistirá por muito tempo.

O ultraliberalismo de Guedes virou um empecilho para o populismo eleitoral de Bolsonaro. Se o Posto Ipiranga foi fundamental para a sua eleição, agora poderá ser um empecilho para a reeleição. Guedes parece resiliente e disposto a continuar aceitando a humilhação. Vamos ver até quando.