Foi mais de um quilômetro cambaleando pela calçada disparando jatos de cores incomuns pela boca. Não muito diferente de Regan, a possuída do filme “O Exorcista”. No posto de saúde, fina-flor dos meus 18 anos, parecia tomado por algo tão sério que me passaram na frente. Enquanto pingava o soro na veia, a infernal mistura de batata e o que devia ser a terceira cerveja da minha vida ainda cozinhando no estômago como o caldeirão do próprio inferno, parei para pensar se, neste ponto, talvez minha família tivesse razão. Eu parecia ter tomado Satã por via oral.

A “batata do diabo” foi uma das dezenas de teorias da conspiração que ouvi tendo sido criado como crente. Dizia assim: um dia, um executivo da Procter & Gamble, megacorporação de cosméticos que então era dona da batata Pringles, foi entrevistado num talk show. Falou que o logo da P&G era um símbolo satânico e que ele e outros executivos eram, vejam só, satanistas. Portanto, a batata e todos os produtos da empresa eram “consagrados” ao diabo – o mascote bigodudo sendo o próprio diabo. Comer a batata do mal faria você se transformar no capeta.

Para tristeza dos metaleiros, que talvez quisessem pegar a bênção de Satã no supermercado, era tudo mentira. Só uma das dezenas que cresci ouvindo. Trazendo sem muito esforço algumas coisas que aprendi como a verdade quando criancinha, todas familiares ao público em geral:

  • Disco vinil tocado no reverso traz mensagem satânica. Não estamos falando de metal que já é satânico tocado do jeito certo. Mas de pop da FM mesmo. Na época, Michael Jackson, Madonna, Cindy Lauper e até música de criança como Balão Mágico e Xuxa entraram na lista. Ouvir a Xuxa faz você ser possuído. Porque Xuxa – e virtualmente qualquer pessoa de sucesso no mundo que não seja crente fundamentalista – só pode ter feito pacto com o Demônio e seu trabalho, como a bata, seria consagrado ao demônio. PS: Não se esqueçam de Xuxa, que hoje está na mira por causa de seu livro para as crianças com temática LGBTQ.
  • Cientistas soviéticos cavaram um buraco para o inferno e, ao ouvir as almas gritando, se converteram e fecharam o buraco.
  • John Lennon foi punido, estilo Velho Testamento, por ter dito que os Beatles eram mais populares que Jesus. Os Mamonas Assassinas teriam nos planos satirizar os evangélicos em seu próximo disco, o que explicaria sua morte em 1996.
  • Aliens existem, mas são manifestações demoníacas. Fantasmas também.
  • O Papa é o anticristo. Hoje o Papa Francisco é particularmente impopular por ser tolerante com ateus e gays – até católicos reacionários ousam dizer isso. Mas todo Papa recebe essa acusação. É uma velha tradição.
  • Há um culto satânico de abuso de criancinhas e comendo fetos abortados com pão integral (quando ouvia, era sempre integral – satanistas cuidam da saúde). Estão em praticamente toda cidade. Esses cultos são frequentados por figuras importantes do governo mundial (e outras bem mais locais, como em Guaratuba, Paraná). A Nova Era – no sentido religioso, o ecletismo hippie – representaria esse satanismo, criada por ele. Enya seria basicamente a pregação do anticristo e parte da grande aliança satanista, que incluiria espíritas, maçons, católicos e, notoriamente, membros de religiões afro-brasileiras.

Ser esse tipo de crente é, do berço à tumba, viver num mundo de fake news como consumidor e como produtor. No Brasil, grupos evangélicos fundamentalistas colaboraram com a campanha de acusar a esquerda de tentar legalizar a pedofilia. As fake news são, portanto, mais um elo na aliança de fundamentalistas evangélicos com o bolsonarismo.

Um estudo por psicólogos das universidades de Yale, Harvard e o MIT, publicado em março de 2019, testou 948 participantes em escalas de “fundamentalismo religioso”, “delusão” e “dogmatismo”. Todas as três variáveis revelaram correlação positiva com acreditar em fake news. E entre si. “Percebemos que pessoas que apresentam mais fundamentalismo religioso tendem a ser mais dogmáticas e com tendência à delusão”, me disse o líder do estudo Michael Bronstein, professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Yale, em uma entrevista. “A correlação entre fundamentalismo religioso e essas outras variáveis é moderadamente forte.”

“Uma consequência infeliz das notícias falsas”, continua Bronstein, “é que (elas) podem levar pessoas a tomar decisões importantes (como em quem votar numa eleição) em desinformação. A mera exposição das pessoas a fake news muda sua percepção de veracidade [ou seja, do que é real e o que é falso] e isso é um dos efeitos mais robustos da psicologia: o efeito da verdade ilusória”.

Efeito bem notado em quem vive em círculos de realidade paralela, como veremos adiante. Mas é preciso registar que Bronstein pede cautela com interpretações. “Nosso artigo não diz que ser um fundamentalista religioso faz alguém acreditar em fake news. O mais correto dizer que alguém que é um fundamentalista religioso tenderá a acreditar em notícias falsas mais firmemente que indivíduos menos fundamentalistas”.

Do púlpito para o Whatsapp

Uma perspectiva diferente é a do especialista em língua inglesa e história da religião da Universidade de Victoria (Canadá), Christopher Douglas. Ele é autor do ensaio “Religion and Fake News: Faith-based Alternative Information Ecosystems in the U.S. and Europe” (“Religião e Fake News: Ecossistemas Alternativos de Informação Baseados em Fé nos EUA e Europa”). Em seu trabalho, Douglas busca entender o fenômeno da extrema direita atual pelo viés do fundamentalismo religioso evangélico. Em uma conversa por e-mail, Douglas escreveu: “Eu digo que, por mais de um século, o evangelicalismo americano nutriu uma hostilidade à expertise científica e jornalística, e essa hostilidade se traduziu numa maior receptividade para desinformação, teorias da conspiração e notícias falsas”.

“A tradição teológica do evangelicalismo americano branco, com sua rejeição de coisas como evolução e entendimento acadêmico da Bíblia e seu cultivo de instituições ‘anti-expert’, pode ser uma explicação do maior grau de receptividade e circulação entre conservadores de desinformação e notícias falsas. Eles não apenas questionaram as ideias e conclusões do mundo secular e suas instituições de conhecimento especializado, mas, numa forma de resistência, eles adaptaram as instituições e tecnologias modernas para criar instituições de anti-conhecimento especializado”, escreveu Douglas. Isto é, os meios evangélicos de comunicação – programas de TV, filmes, livros, sites, canais do YouTube – constituem um ecossistema de notícias, verdades e fatos paralelos. São a única mídia onde a Arca de Noé é um fato histórico.

Tendo mais a concordar com Douglas do que Bronstein nessa questão de modelo para fake news. Comprovei na prática o que ele descreve. Não é possível ser evangélico fundamentalista acreditando no conhecimento que vem das universidades, do ensino público, da imprensa.

A começar pelo básico: o criacionismo, crença que para mim é o principal marcador de “ser evangélico de um ramo radical”. Ninguém que acredite que o mundo tenha 7 mil anos, com a humanidade criada do literal barro e uma costela, pode abrir o noticiário e entender tudo como verdade. Uma hora ou outra, vai topar com gente dizendo que um novo dinossauro viveu há 70 milhões de anos, que um ancestral humano foi encontrado, que a seleção natural faz com que bactérias criem resistência. Uma hora vai ter que concluir que os jornalistas que levam a sério os cientistas são mentirosos.

Quando eu tinha nove anos, a revista Superinteressante foi lançada no Brasil. Eu já tinha um microscópio em casa e gabaritaria biologia até o vestibular – menino pastor ou não, eu amava ciência. Meu pai achava que educação era importante – para ganhar dinheiro, claro, mas importante. Dava notas amassadas de cruzados do Sarney para eu ir até à banca. Isso durou três edições. Uma capa com um trem maglev, outra com Einstein, outra com um dinossauro. Foi quando ele me pegou folheando uma página interna mostrando a fila entre nossos ancestrais simiescos e a gente. “Ah, mas isso aí não pode!” Só fui comprar revista mostrando evolução de novo com o suor da minha testa.

‘Eles adaptaram as instituições e tecnologias modernas para criar instituições de anti-conhecimento especializado’.

“O evangelicalismo treinou cognitivamente seus membros para serem hostis à ciência e ao jornalismo profissional, e a procurar melhores respostas em seu próprio sistema alternativo de religião”, diz Douglas. “Acho que essa é a tradição – e você [como ex-crente] deve saber melhor que eu – que se tornou altamente influente no Brasil”.

Ô, se se tornou, professor Douglas! Crer numa Bíblia literal é também estar em conflito com cristãos de denominações tradicionais. Já no século 3, o teólogo Orígenes de Alexandria dizia que o Gênesis é uma alegoria e só um tolo acreditaria que Deus era um jardineiro e havia uma literal árvore da vida. Mesmo quando Jesus andava pelo mundo, seu contemporâneo Fílon de Alexandria (15 a.C.-45 d.C.), um filósofo platonista judeu, dizia que a Bíblia não era literal. Ainda que Orígenes não tenha dado a última palavra no assunto – há muitas críticas a uma interpretação totalmente alegórica da Bíblia inteira –, a maioria dos cristãos não fundamentalistas não acredita que tudo que a Bíblia disse sobre geologia, biologia, história, costumes, astrofísica deva ser entendido como verdade acima dos avanços do conhecimento.

A Bíblia é a “palavra de Deus infalível” para a imensa maioria dos cristãos, mas o que entendem por isso é diferente de afirmar que tudo o que está ali são fatos físicos e tudo que descobrirmos que parece contradizê-los só pode ser armação de Satã.

O fundamentalista precisa crer que a ciência evolutiva é uma enorme conspiração diabólica da qual fazem parte os cientistas, os católicos (ao menos os que levam a sério o que prega sua Igreja), os outros protestantes, a academia, toda a imprensa e os 59% dos brasileiros que acreditam em evolução, segundo dados do Censo de 2010.

Não acreditar em notícias reais e ter um ecossistema paralelo de notícias, que reflete uma realidade paralela, fazem parte de como o crente fundamentalista vive, do nascimento até a morte. Antigamente, havia somente os comentários do pastor no púlpito e até o banimento puro e simples da televisão. Hoje eles têm seus próprios meios.

“Acreditar em notícias falsas e acreditar que notícias reais são falsas são duas coisas que andam juntas”, afirma Douglas. “Os sistemas de propaganda conservadora nos Estados Unidos – Fox, [Rush] Limbaugh, Breitbart e agora OANN [One America News Network] – têm desprezado a ‘mídia esquerdista’ por anos. Há um senso de que a ‘mídia esquerdista’ se juntou com as ‘elites’ para derrubar a América cristã.” Ano passado, um estudo da Pew Research indicou que, nos EUA, os evangélicos brancos são os que mais acusam os jornalistas de criarem fake news.

A Satanás, as batatas

Como já fiz antes, peguei exemplos dos EUA para falar de fundamentalistas evangélicos do Brasil. Isso tem a ver com a batata satanista, mas é mais. Mas as bandeirinhas azul e vermelho nas manifestações bolsonaristas não são por nada.

O fundamentalismo praticado no Brasil, na forma pentecostal e outras, veio dos Estados Unidos, e seus membros mantêm uma profunda conexão com o país de origem. Até Destino Manifesto, a ideia de que os americanos são o segundo povo escolhido depois dos judeus, me foi ensinado quando criança.

‘Acreditar em notícias falsas e acreditar que notícias reais são falsas são duas coisas que andam juntas’.

A gente cresce ouvindo falar em reverendos Grahams e Swaggarts, em vídeos, livros, filmes importados. É uma religião enlatada – até a ideia de “neopentecostal” não é nossa, é outra importação. O Movimento Carismático, que veio com o televangelismo e a teologia da prosperidade, contaminou muitas denominações, pentecostais ou não. A parte diferente aqui no Brasil é que o alvo número 1 das acusações de satanismo eram e continuam a ser as religiões afro-brasileiras e o espiritismo, enquanto lá fora estavam mais preocupados com heavy metal e política progressista.

A batata do capeta é mais um exemplo de enlatado gospel. O executivo da Procter & Gamble não só teria admitido alegremente seu satanismo como não achava que isso faria a empresa perder dinheiro. Ele teria respondido ao apresentador: “Ninguém liga mais hoje em dia”. Isso teria sido dito nos EUA, um país onde os evangélicos somam 30%. Foi demais ouvir isso até para o ainda crente relutante que eu era. Nunca acreditei na batata de Satã.

Diferentemente de outras fake news evangélicas, essa teve sua origem identificada e rendeu um processo de US$ 19 milhões, pagos em 2007 pela Amway, empresa de produtos de limpeza e cosméticos, concorrente da P&G. Mas a Amway não é uma megacorporação como a P&G. É uma empresa de marketing multinível ao estilo Avon e Tuppeware. Seus vendedores indicam outros para ascender de nível na hierarquia e, com isso, ganharem comissões maiores, eventualmente chegando à riqueza. O boato, conforme o processo revelou, começou entre representantes da Amway.

A empresa é propriedade de evangélicos ultraconservadores, colabora com causas ultraconservadoras e direciona seu recrutamento entre evangélicos ultraconservadores. É acusada de misturar religião e negócios, conduzindo as coisas num esquema que lembra um culto evangélico-capitalista.

Bom, a notícia da batata chegou por uma tia minha, uma crente da Assembleia de Deus – Ministério Belém, a mesma de meu avô. Era uma assembleiana de classe média, que não se vestia de crente à moda de Marina Silva. Ela se importava com dinheiro, aparências, status. E era representante da Amway.