Um homem iemenita observa uma pichação de protesto contra os ataques de drones pelos EUA, em 19 de setembro de 2018 em Sana'a, Iêmen.

Um homem iemenita observa uma pichação de protesto contra os ataques de drones pelos EUA, em 19 de setembro de 2018 em Sana’a, Iêmen.

Foto: Mohammed Hamoud/Getty Images

Se é possível encontrar um lado bom na presidência de Donald Trump, é o surgimento de um impulso nacional por algum tipo de reflexão do sistema liberal sobre si mesmo. Essa necessidade se manifestou na campanha de Joe Biden, que tem buscado se posicionar como uma renovação moral depois da degradação dos anos Trump. Prometendo um retorno ao estilo mais familiar de política externa dos EUA, a plataforma de Biden defende que, sob sua liderança, os Estados Unidos poderão “retomar sua duradoura posição como liderança moral e econômica do mundo”.

Não é para defender Trump que se pode dizer que um simples “retorno à normalidade” não interessa a ninguém. Um dos grandes legados do sistema de governo que Biden representa são as guerras pós-11 de setembro que mataram centenas de milhares de pessoas no Oriente Médio, destruíram sociedades inteiras, e causaram grandes traumas para a minoria de americanos que sacrificaram em combate suas vidas, os integrantes de suas famílias, ou seu bem-estar físico e mental.

O próprio Biden desempenhou seu papel nessa história sombria. Em seu mandato como senador, Biden votou a favor da desastrosa invasão ao Iraque em 2003. Posteriormente, sugeriu um plano de divisão do país ao longo de fronteiras sectárias, o que muitos alertaram que precipitaria o país ainda mais no caos. Para piorar as coisas, ele frequentemente tergiversa sobre suas decisões, em vez de enfrentá-las honestamente quando questionado.

Não se ganha muito revirando eternamente as feridas do passado. Porém, para que a liderança moral que Biden pretende ter na política externa seja levada a sério, existe uma dívida mínima que ele, como as outras lideranças políticas americanas responsáveis pelas guerras pós-11 de setembro, precisa quitar com aqueles que pagaram o preço dessas fantasias destrutivas: um pedido de desculpas.

Os líderes dos EUA são notoriamente avessos aos pedidos de desculpas, que para eles degradam uma nação poderosa, em vez de enobrecê-la. “Nunca pedirei desculpas em nome dos Estados Unidos, não importa quais sejam os fatos”, declarou o ex-presidente George H.W. Bush em um discurso em 1988, perante um grupo de lideranças do Partido Republicano. Bush pai persistiu nessa política, mesmo tendo coadunado com ultrajes morais graves durante seu mandato. Ações assim podem não ter atingido a autoimagem inocente dos EUA, mas certamente não passaram despercebidas no exterior.

O que normalmente se alega é que, até mesmo por trás de suas piores políticas externas, os Estados Unidos teriam boas intenções. Mas os resultados também interessam. Depois de toda morte e destruição causadas pela invasão dos EUA em 2003, o Iraque hoje é um lugar ainda pior para se viver do que na época de Saddam Hussein: um caótico Estado mafioso onde as pessoas comuns vivem com medo dos pequenos tiranos que ocuparam o lugar de um grande tirano. No Afeganistão, depois de duas décadas de guerra, os Estados Unidos estão se preparando para celebrar a paz com o Talibã – algo que poderia ter poupado os afegãos de muito sofrimento se tivesse sido feito, em termos bem mais favoráveis, já em 2002. Poucas vezes na história tanto trabalho foi desperdiçado para tornar a vida das pessoas pior do que antes, incluindo a dos americanos.

As elites governantes nos EUA lidaram com esses fracassos retumbantes ignorando-os de forma geral, ou negando-os diretamente. O insulto causado ao público americano pela recusa em admitir honestamente a realidade que estava diante de todos, de que as guerras que começaram com grandes promessas haviam terminado em calamidades, ajudou a abrir o caminho para o governo Trump. Mesmo de forma desonesta, Trump conseguiu denunciar algo que estava inequivocamente óbvio para os americanos médios, mas que as lideranças políticas se recusavam a reconhecer.

Isso não é uma defesa de Trump, que deu continuidade às piores tradições do mesmo establishment de elite que ele costumava atacar – ele inclusive perdoou um criminoso de guerra. Porém, retornar exatamente ao mesmo status quo que tornou sua ascensão possível não faz o menor sentido. Foi necessário um caldo tóxico de egoísmo, ganância, decadência e sectarismo para levar alguém como ele à Casa Branca. Mas também foi preciso matar e desumanizar pessoas inocentes em todo o mundo.

Um jovem afegão ferido recebe tratamento em um hospital depois de uma suspeita de ataque aéreo de drones dos EUA no distrito de Achin, província de Nangarhar, em 28 de setembro de 2016.

Foto: Noorullah Shirzada/AFP via Getty Images

Números conservadores, calculados pelo Projeto Custos da Guerra da Brown University, estimam que as guerras americanas no Iraque, Afeganistão, Síria, Iêmen e Paquistão tenham matado mais de 800 mil pessoas. Nunca saberemos o verdadeiro custo em números de vidas destruídas por ferimentos, luto pelos entes queridos, ou destruição de casas e meios de vida. Milhares de soldados e fornecedores bélicos dos EUA foram mortos ou sofreram danos físicos e mentais que seguirão com eles pelo resto da vida. Intoxicados que estamos pelo turbilhão de crises, tanto domésticas quanto globais, pouco se falou dessas tragédias – o impacto das guerras não foi sequer mencionado na Convenção Nacional do Partido Democrata. Mas, no fim das contas, uma catástrofe dessa magnitude não pode ser deixada de lado.

Não há valor monetário que possa contrabalançar a destruição de vidas na escala que a guerra global contra o terrorismo causou. Qualquer discussão sobre reparação financeira às vítimas da guerra dificilmente vai ganhar força, em especial porque os Estados Unidos não conseguem se debruçar sobre isso com seriedade por injustiças históricas ainda mais próximas. As Forças Armadas dos EUA às vezes fazem ínfimas contribuições em dinheiro às famílias dos civis mortos por militares, mas a despeito das recentes reformas, seguem deixando de contabilizar todos os civis que foram mortos ou feridos. Isso, assim como o suporte insuficiente que é dado aos próprios veteranos militares em condições difíceis, pode aprofundar a dor que as pessoas já sofreram.

Um pedido de desculpas, porém, pode dar a elas algo de valor que o dinheiro não alcança. Simplesmente reconhecer a extensão do dano causado e assumir a responsabilidade por ele já daria alguma medida de justiça restaurativa a muitas vítimas inocentes. A ideia é popular e já foi sugerida também em outros contextos. Em um discurso proferido na sociedade de debates Oxford Union em 2015, o político indiano Shashi Tharoor expôs os inacreditáveis danos que o colonialismo britânico causou à Índia. Em vez de exigir uma restituição financeira incalculável, Tharoor concluiu pleiteando simplesmente um pedido de desculpas que reconhecesse esse passado terrível, bem como o pagamento de 1 libra por ano ao governo indiano como reconhecimento simbólico.

‘Caso seu discurso de liderança moral seja sério, Biden pode começar assumindo a responsabilidade por eventos que aconteceram sob seu olhar’.

O tal pedido de desculpas britânico nunca aconteceu. Mas os Estados Unidos agiriam corretamente se aplicassem o conselho de Tharoor às vítimas de suas próprias empreitadas imperialistas, incluindo aquelas em que o atual candidato Democrata desempenhou algum papel. Se Biden se dispusesse a oferecer um pedido de desculpas nacional por duas décadas de guerras fracassadas e mal conduzidas – dirigido às vítimas estrangeiras dessas guerras, bem como aos americanos que suportaram diretamente seus custos – isso poderia ajudar a reconstruir a reputação dos EUA no mundo. Também ajudaria a reconstruir a confiança dos americanos em seus próprios líderes eleitos, que passaram muitos e amargos anos desastrosamente deixando de cumprir suas promessas e se recusando a assumir responsabilidade por seus fracassos.

A história recente dos EUA oferece vários exemplos de lideranças que pediram desculpas por danos causados no passado, bem como por crimes de omissão que ocorreram sob sua tutela. Há muitas outras feridas não reconhecidas na história americana que continuam a latejar, mas caso seu discurso de liderança moral seja sério, Biden pode começar assumido a responsabilidade por eventos que aconteceram sob seu olhar. Um pedido de desculpas pelas guerras pós-11 de setembro não é louco, nem inimaginável, e não implicaria assumir a culpa por todos os problemas do Oriente Médio. Transmitiria força e autoconfiança legítimas, no lugar do simulacro vazio personificado no atual residente da Casa Branca.
Em 1965, em meio à guerra dos EUA no Vietnã, o acadêmico e ativista contra a guerra Eqbal Ahmad refletiu sobre as visões contrastantes da invasão americana que percebia internamente e no exterior. “Eu sei o que os asiáticos pensam sobre as ações dos EUA”, escreveu Ahmad. “Eles as chamam de neocolonialismo; alguns consideram que seja imperialismo. Sei que isso está errado porque os americanos são naturalmente simpáticos à luta dos povos pela liberdade e pela justiça, e gostariam de ajudar se pudessem.”

Mais de meio século depois, ainda acredito que isso seja verdade. O mundo se beneficiaria de um país que de fato colocasse em prática o discurso que tem sobre si mesmo. Mas isso só pode acontecer com uma recapitulação honesta do passado, porque sem ela não é possível haver conclusão. A forma de reconstruir a postura moral de uma grande nação marcada por uma ferida moral não é pela autoflagelação infinita, nem pela negação arrogante. Ela só pode vir da humildade e da decência em expressar o que se fez de errado – e de um pedido de desculpas às pessoas que foram prejudicadas.

Tradução: Deborah Leão