BRASILIA, BRAZIL - JUNE 07: People attend an anti-racist protest condemning the government of President Jair Bolsonaro amidst the coronavirus (COVID-19) pandemic at the Esplanada dos Ministérios on June 07, 2020 in Brasilia, Brazil. The country has over 672,000 confirmed positive cases of Coronavirus and 35,930 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)

Protestos contra o racismo, fascismo e Bolsonaro eclodiram no país durante auge da pandemia.

Foto: Andressa Anholete/Getty Images

Quando comecei a escrever para o Intercept em agosto de 2018, recebi a missão de comentar as eleições presidenciais, o bolsonarismo e a conjuntura social e política. Diferentemente das análises mais convencionais sobre política, focadas em padrões eleitorais, minha contribuição como antropóloga era trazer um olhar com base no trabalho de campo que eu e minha colega e amiga Lúcia Scalco fazíamos há anos. Queria falar sobre um bolsonarismo popular que víamos emergir em uma periferia urbana do sul do país, mas também sobre ondas de resistência que eclodiram tanto na micropolítica do cotidiano periférico quanto nas grandes manifestações.

Por razões pessoais, estou deixando minha coluna fixa quinzenal. Continuarei colaborando com o Intercept, mas de forma esporádica. Neste texto, em retrospectiva num espaço limiar de até logo, gostaria de refletir sobre o que eu busquei — com sucesso ou não — pautar enquanto colunista nestes dois anos.

Escrevi como uma antropóloga engajada, como alguém que fazia suas análises respeitando o rigor metodológico da disciplina, calcado no trabalho de campo não apressado, a longo prazo e sistemático. Mas também entendia que havia uma urgência e uma responsabilidade acadêmica e cidadã em lançar dados da pesquisa no debate público, enquanto vivia a angústia de ser uma feminista que tentava virar votos de um homem autoritário que se elegia tendo as armas como um símbolo de campanha.

Gostaria de enfatizar aqui três princípios éticos e políticos que considero fundamentais para o debate público, que serviram como uma bússola de minhas singelas intervenções.

O primeiro princípio é o da nuance. É a disposição de ver o contraditório e a ambiguidade dos fenômenos da política brasileira.

Isso nada tem a ver com ficar em cima do muro em momentos que exigem firmeza — como no golpe de 2016 e na eleição de Bolsonaro, cuja escolha, sabemos, nunca foi muito difícil. Tampouco estou sugerindo que abracemos bolsominions. Desses radicais e fanáticos, que colocaram minha integridade física e mental em risco, eu quero não apenas distância, mas derrotá-los.

Meu ponto aqui é que, animados pela sanha dos algoritmos, nós estamos cada vez mais sendo engolidos por uma lógica, como diria Paulo Freire, amarga e revanchista, que apenas serve para confirmar nossas próprias escolhas, mas que pouco ajuda na disputa política – é urgente resgatar um espírito de  “vira voto” que nunca deveríamos ter abandonado. Continua válido o que disse Mano Brown, seu discurso histórico no comício de Haddad: “tem uma multidão que ainda precisa ser conquistada senão vamos cair do precipício”.

Já caímos, na verdade. A escolha hoje é continuar no buraco ou sair dele. Existe uma parcela gigante e complexa da sociedade brasileira que se manifesta politicamente de forma que pode parecer contraditória para muitos. Ao invés de disputar esse contraditório, em um profundo e trabalhoso processo de politização, setores tradicionais da esquerda às vezes preferem tachar de inimigos todo mundo que não é perfeitamente alinhado.

Foi com esse espírito que escrevi sobre as “revoltas ambíguas”, como os  rolezinhos, coletes amarelos, greve dos caminhoneiros ou mesmo sobre os jovens de periferia que sofriam violência policial, mas votavam em Bolsonaro.

Me filio a uma antiga linhagem de antropólogos e antropólogas que pensam as periferias urbanas de forma não dicotômica e não romântica, capaz de enxergar a articulação de manifestações contraditórias, como o autoritarismo, a criatividade, a solidariedade e a resistência cotidiana. Volta e meia, o clichê “pobre não sabe votar” reaparece por aí. Além de expressar um elitismo atroz, revela um descolamento crítico e crônico da esquerda tradicional com a base popular.

Ao longo das últimas décadas, grande parte da esquerda partidária e muitos de seus eleitores perderam a conexão face-a-face com “as pessoas comuns”. Tampouco vimos um esforço de fazer uma disputa das redes de forma contínua para além das eleições que avançasse na construção de um ecossistema amplo e diverso. As redes, para os setores mais tradicionais, ainda são vistas como um meio eleitoreiro e não como um instrumento de construção política permanente.

‘Me filio a uma antiga linhagem de antropólogos e antropólogas que pensam as periferias urbanas de forma não dicotômica e não romântica’.

O deslocamento da base popular provoca uma consequência muito negativa, que é a negação da realidade. Não foi somente a prisão de Lula, a facada e as fake news que elegeram Bolsonaro. Nem é exclusivamente o auxílio emergencial que está segurando a popularidade do presidente. Tudo isso é extremamente relevante, mas não explica tudo.

Quando olhamos para os grupos no longo prazo, entendemos que muitos eleitores — não aqueles bolsominions raivosos — mudam de opinião ao longo do tempo. Para o bem e para o mal. Mudam de opinião não porque lhes falta coerência política, mas por que são sujeitos reflexivos. A antropologia também ensina como o ódio ou o ressentimento é construído e sedimentado. Não é uma dimensão humana dada, essencialista e imutável. É nas brechas desses processos que qualquer projeto de esquerda precisa atuar.

O distanciamento da realidade e a negação da ambiguidade humana produzem a figura idealizada do bom ou do mau pobre. O bom pobre é aquele que não cedeu ao bolsonarismo e que, portanto, segue fiel ao Lula. O mau pobre é o fascista e burro que não sabe votar e que, portanto, merece arroz a preço de ouro. Mais desafiador e trabalhoso, contudo, é encarar que muitos sujeitos transitam, não apenas ao longo da vida, mas também conforme o contexto, entre posições aparentemente contraditórias.

Antes de prosseguir, um lembrete amigo: evidentemente, a crítica acerca do descolamento e negação da realidade não é generalizável a toda a esquerda nem a todos políticos, ativistas e movimentos. 

Tudo isso leva ao segundo princípio: observar o banal. As histórias de dor, angústias, sofrimento e demandas populares, que às vezes ficam fora do radar dos grandes debates, possuem apelo monumental. Figuras públicas como Eliane Brum, Débora Diniz e Preto Zezé há tempos insistem que falar do cotidiano é uma arma potente e necessária, mas que exige escuta generosa e desapressada.

Foi seguindo essa esteira que tentei falar de coisas corriqueiras como o preço do botijão de gás, os boletos, as dívidas, o sofrimento acadêmico e a importância de um tênis da Nike para um moleque de periferia. Também falei desse mundaréu de gente que sente dor de dente e, assim, conectei-me a milhões de leitores que, junto comigo, se emocionaram com as histórias individuais e familiares que deixaram marcas de dor e vergonha diante da impossibilidade de sorrir.

É importante lembrar que o preço do botijão, a dor de dente e o endividamento são mais do que histórias isoladas do cotidiano: são rastros que precisam ser urgentemente amarrados em uma diretriz maior de esquerda que tenha o combate às desigualdades e a política anti-austeridade no centro de um projeto político.

O terceiro e último princípio é o da esperança. Esse é um tema complicado. Afinal, como falar de esperança sem ser tola, sem negar o cenário trágico que nos engole?

‘Esperança, que nada tem a ver com otimismo e fantasia, é uma força que procura mudar a realidade’.

Aqui vale resgatar a obra de Paulo Freire para falar de esperança não como vã espera, mas como esperançar. Esperança, que nada tem a ver com otimismo e fantasia, é uma força que procura mudar a realidade porque não se entrega a um fatalismo e não acredita que a história acabou. O próprio Freire ressaltou, em diversas ocasiões, que um diagnóstico realista da conjuntura é um elemento fundamental da construção de uma política da esperança, que não é dissociada da indignação.

Autores como Ernst Bloch e Ana Cecília Dinerstein nos mostram que esperança é uma utopia concreta, não uma fantasia sobre algo que não existe. Por isso é fundamental enxergar rotas alternativas a partir do que já existe: na luta antirracista, na luta das mulheres e da juventude LGBT, no #elenão, no #viravoto, no movimento dos entregadores antifascistas, na organização da sociedade civil em torno da renda básica universal. É na luta coletiva que renovamos a nossa energia de vida e seguimos capazes de acreditar que é possível derrubar a atual política baseada na pulsão de morte.

Não me despeço com otimismo, mas com sentimentos ambivalentes. Apesar deste contexto de pandemia e desalento, há muita luta por todos os lados. Em diversas cidades, como São Paulo, campanhas municipais de esquerda prometem renovar a agenda social e o engajamento político. Por outro, sinto que muitos debates nas redes sociais têm sido inócuos, personalizados, endógenos e antropofágicos. Além disso, paira uma forma de anestesiamento sobre a população em geral. Não é possível julgar. Esses são tempos de dor e de perda e é humanamente compreensível sentir-se abatido.

Mas sigo acreditando que a esperança é uma escolha necessária, porque o contrário dela é assistir ao fim do mundo provocado pela extrema direita. Eles fazem parte de uma humanidade putrefata que precisa urgentemente voltar para os esgotos do mundo.

PS: Por ora, agradeço a cada elogio ou crítica que recebi de meus leitores. Registro minha gratidão à minha editora, interlocutora e amiga Sílvia Lisboa e ao Leandro Demori pelo sangue nos olhos que inspira toda uma equipe brilhante que me acolheu de forma profissional e afetuosa. Obrigada e até breve.