Joe Biden, candidato democrata à presidência dos EUA, fala sobre a terceira plataforma do “Reconstruir Melhor”, seu plano de recuperação econômica para famílias trabalhadoras, em 21 de julho de 2020, em New Castle, Delaware.

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Ao evocar o New Deal de Franklin Roosevelt nas palavras de abertura de seu discurso na convenção democrata, Joe Biden ofereceu um lampejo de esperança de que, em termos gerais, ele compreendeu a escala da crise provocada pela covid-19. No entanto, antes mesmo de Biden falar, o chefe de sua equipe de transição, o ex-senador Ted Kaufman, cortou as esperanças, dizendo ao Wall Street Journal que, na verdade, Biden não queria dizer aquilo. “Quando entrarmos, a despensa vai estar vazia”, disse Kaufman. “Quando você vê o que Trump fez com o déficit … esqueça a covid-19, todos os déficits que ele construiu com os inacreditáveis cortes de impostos. Portanto, estaremos limitados”. Após uma acusação feita por David Sirota, a campanha de Biden chegou a um meio termo: haverá “estímulo” no curto prazo, e retração depois.

A garantia não é reconfortante. Como o relatório da Força-Tarefa da Unidade Biden-Sanders no qual a plataforma democrata se baseia, ele confirma que o pensamento econômico da Equipe Biden, mesmo entre seus elementos mais progressistas, é essencialmente o mesmo que está por trás da estratégia de Obama-Biden para a crise econômica anterior, de 2008 a 2009. Mas o que está por trás da situação atual é, em muitos aspectos, muito mais sério e mais difícil de ser enfrentado.

A crise de 2008 foi, em sua essência, financeira. Ela foi resultado de uma onda de fraudes financeiras, que gerou um simulacro de crescimento econômico por meio de empréstimos hipotecários que nunca seriam totalmente honrados – e que foram concebidos e direcionados exatamente para garantir que nunca pudessem ser totalmente honrados. Quando as fraudes foram expostas e o mercado imobiliário entrou em colapso, milhões perderam seus empregos; outros milhões perderam suas casas. Ainda assim, de maneira geral e ao longo do tempo, a crise foi receptiva à convencional solução “keynesiana”: uma grande injeção de dinheiro. Os debates que ainda seguem sobre o programa Obama-Biden em 2009 são apenas sobre se a injeção foi grande o suficiente e se uma injeção maior poderia ter evitado a reação política que atingiu o governo em 2010.

Surpreendentemente, embora a recuperação tenha sido lenta, e nem os números da força de trabalho, nem os indicadores de casa própria tenham retornado aos níveis anteriores à crise, os Estados Unidos foram capazes de sustentar uma expansão econômica após 2010. A posição do país foi ajudada por um aumento inesperado nas produções de gás natural de baixo custo e petróleo de alto custo. Nos primeiros três anos do mandato de Donald Trump, a expansão foi continuada por grandes cortes de impostos para os ricos e por um mercado de ações em alta – a “bolha de tudo”, como às vezes é chamada. Os empregos criados, é verdade, foram especialmente vagas com salários relativamente baixos. No entanto, eles foram criados. Os Estados Unidos voltaram ao pleno emprego, conforme a definição convencional, por volta de 2018. Esse fato – uma história de sucesso em câmera lenta – sem dúvida agora reforça a confiança das pessoas que definiram a política naquela época.

“A próxima recuperação não será impulsionada pelas exportações, pelos investimentos empresariais ou pelas compras de bens de consumo duráveis.”

A longa expansão dependeu muito do consumidor. Embora o consumo pessoal tenha sido a fonte do boom pré-crise e tenha caído drasticamente com a recessão, sua participação no produto interno bruto se recuperou após o início de 2015 e permaneceu bem acima dos níveis de qualquer época anterior do pós-guerra. O investimento total das empresas como proporção do PIB, por outro lado, nunca voltou aos níveis pré-crise, e atingiu o pico em 2015, quase 2 pontos percentuais abaixo do pico anterior em 2005, em parte porque a revolução digital reduziu o custo de maquinário e nas necessidades de instalações físicas do setor empresarial. Os gastos do governo aumentaram acentuadamente na recessão e permaneceram historicamente elevados, mas como proporção do PIB diminuíram continuamente, desde o início da expansão até 2020. Assim, os gastos do consumidor foram o principal fator de sustentação nos cinco anos finais, até a pandemia.

Existem três razões pelas quais a experiência da última expansão não se repetirá agora.

Primeiro, a pandemia obliterou o mercado global de muitos dos bens de capital avançados nos quais os Estados Unidos se destacam. Os aviões são um grande exemplo. A indústria da aviação civil depende da demanda mundial, não da demanda dos Estados Unidos, e a demanda mundial está morta enquanto houver mais aviões estacionados em terra do que voando. Em uma linha ligeiramente diferente, o mercado do petróleo dos Estados Unidos gira em torno do preço mundial. Ele está condenado enquanto o preço de venda for a metade do custo de extração de petróleo fraturado do solo no oeste do Texas. Construção de escritórios e shoppings: também morta e enterrada, pois uma parte substancial do trabalho administrativo se desloca para o home office, e das compras para os distribuidores online. A venda de automóveis diminuirá à medida que o deslocamento e as compras exigem menos quilômetros de viagem e, portanto, os carros duram mais. Em muitos outros setores, equipamentos digitais baratos substituirão instalações caras e mão de obra humana. No geral, a próxima recuperação não será impulsionada pelas exportações, pelo investimento empresarial ou pelas compras de bens de consumo duráveis. O estímulo keynesiano não pode fazer nada a respeito.

Quando chegamos ao consumidor, existe um problema ainda maior. É que a maior parcela do aumento de gastos na última recuperação – e o segredo do sucesso americano na criação de empregos – não foi na compra de bens, mas na produção e consumo de serviços. A economia dos Estados Unidos após a crise viu um grande crescimento de empregos em bares, restaurantes, cafés, hotéis, resorts, spas e cassinos, academias, aplicativos de carona, salas de massagem e tatuagem, cabeleireiros e manicure, butiques e supermercados de luxo , bem como em creches, educação, eventos culturais e procedimentos médicos eletivos – todo o leque de serviços com os quais uma sociedade rica tende a se esbaldar. Com efeito, a economia dos Estados Unidos tornou-se um carnaval gigantesco onde um lava e coça as costas do outro.

A pandemia eliminou muito disso. O contato pessoal direto, os espaços lotados e a variedade de ofertas são a essência de muitos serviços, e foram suprimidos, necessariamente, por motivos de saúde – e assim permanecerão. Há uma suposição, em muitos setores, de que se, e quando, a pandemia diminuir, eles simplesmente retornarão e as coisas começarão de onde pararam. Esta não é uma suposição segura, e nem mesmo razoável.

Na época em que a maior parte da margem de gastos era com bens produzidos nas fábricas americanas, a simples provisão de dinheiro servia como o interruptor que fazia as coisas funcionarem. Os clientes faziam pedidos, as empresas contratavam trabalhadores e o motor era ligado. Em uma economia na qual os gastos domésticos são predominantemente direcionados a serviços, os empregos não retornarão até que os clientes, coletivamente, estejam dispostos a comprar os serviços que eles próprios fornecem coletivamente. Mas eles não estarão dispostos até que tenham os empregos, que dependem da presença prévia dos clientes. Este é a clássica questão do ovo ou da galinha. É precisamente a dinâmica – o círculo virtuoso – da demanda que se auto-reforça que a pandemia obstruiu, e continuará a obstruir.

Pessoas passam por uma empresa fechada em um distrito comercial de Manhattan no dia 12 de agosto de 2020, em Nova York.

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Mesmo quando a ameaça do vírus diminuir – se diminuir – esses serviços não retornarão com facilidade por um motivo ainda mais básico. Eles geralmente não são essenciais. Eles são serviços complementares que cresceram com nossa riqueza, e a maioria dos americanos pode, em geral, viver sem eles. As famílias americanas de classe média e acima vivem em casas, o subproduto das políticas do pós-guerra de suburbanização e de casa própria. Se for necessário, as pessoas que moram em casas podem cozinhar, limpar e se divertir ali mesmo. Nos últimos anos, a economia cresceu persuadindo-os a sair de casa: sair, comprar comida, fazer exercícios e se divertir no mercado. A economia pode e vai recuar nos mesmos aspectos, pois as famílias com renda decidem gastar menos e poupar mais, enquanto as que não têm renda cortam tudo porque precisam. O recuo vai acontecer pelo menos até que as incertezas da pandemia comecem a diminuir. Mas as incertezas não vão diminuir enquanto as pessoas que fornecem todos esses serviços não experimentarem primeiro uma melhoria sustentada em suas perspectivas de empregos – e aí está, mais uma vez, o problema.

As empresas que fornecem os empregos não podem sobreviver a essas condições indefinidamente. Empresas de serviços geralmente operam com custos fixos, incluindo aluguel e juros, que exigem uma alta rotatividade de clientes. Os bares devem estar lotados, os restaurantes cheios e barulhentos nos finais de semana, os shows esgotados, ou os negócios por trás deles não podem ser sustentados. A combinação de restrições de sua capacidade pela saúde pública com o aumento no nível de poupança familiar e o baixo patrocínio motivado pela insegurança econômica é letal para suas perspectivas. Uma pesquisa do New York Times mostra uma queda em agosto de quase 25% nas visitas a empresas em comparação com 2019, embora a receita tenha sido mantida por programas assistenciais. Quanto tempo as empresas podem aguentar é uma incógnita. Mas muitos já desistiram e muitos mais seguirão o mesmo caminho. E assim que uma galeria comercial, shopping ou bairro começa a apagar as luzes, a praga pesa sobre os sobreviventes. Isso é algo que podemos ver ao nosso redor agora.

Terceiro, conforme a pandemia persiste e as pessoas não conseguem trabalhar, os atrasos no aluguel, hipotecas e contas de serviços públicos estão se acumulando. De acordo com uma pesquisa, cerca de um terço das famílias deixou de pagar o aluguel integral ou a hipoteca em julho – pelo quarto mês consecutivo. Os proprietários começaram novamente a pedir despejos – compreensivelmente de seu ponto de vista, mas desastrosamente para a economia como um todo. À medida que o medo de despejo ou execução hipotecária volta, as famílias vão economizar ainda mais e gastar ainda menos, na esperança de ter o suficiente na reserva para manter o oficial de justiça longe da porta, em caso de algum azar ou pelo desemprego prolongado.

A pandemia da covid-19 mudou nossa economia no longo prazo. As mudanças se devem à nossa tecnologia avançada, não ao nosso atraso; à nossa riqueza, não nossa pobreza; ao acesso que tivemos ao crédito e, portanto, aos nossos custos fixos em relação às receitas atuais; à nossas casas, subúrbios e carros; e ao fato de que tivemos, e ainda temos, uma sociedade rica. A decisão de milhões de americanos ansiosos, cada um agindo em seu próprio interesse – comer e se divertir em casa, economizar mais e gastar menos, proteger sua saúde e aguentar o máximo possível – cria um problema econômico que não pode ser amenizado apenas pelo dinheiro. Este não é os Estados Unidos do pós-guerra, do consumismo competitivo e demanda reprimida em que a magia de Maynard Keynes funcionou tão bem.

“Algo diferente deve ser feito, indo muito além do simples dinheiro. Ou então, será depressão até o fundo do poço.”

A intenção de todas as medidas tomadas em abril – a Lei CARES, com extensão do seguro-desemprego, proteção da folha de pagamento, empréstimos para pequenas empresas e pagamentos diretos aos contribuintes, e das ações do Federal Reserve – era ganhar tempo para o distanciamento social e outras medidas de controle para a covid-19. A suposição era que a economia iria se recuperar sozinha. Mesmo que as medidas de saúde pública não funcionassem, os fundos realmente ganharam tempo para as famílias americanas pagarem aluguel, hipotecas, contas de serviços públicos e (como se viu) para reservar algo para o verão e o outono. Elas evitaram que o país desmoronasse com a propagação da pandemia. Uma nova rodada de receita assistencial pode, obviamente, ganhar mais tempo e é, de fato, urgente neste momento. Mas, por si só, isso não colocará a economia no caminho da retomada do crescimento e do alto índice de empregos. Outra coisa deve ser feita, indo muito além do simples dinheiro. Ou então, será depressão até o fundo do poço.

Os contornos do que será essa outra coisa estão apenas começando a aparecer. Alguns dos elementos básicos são os seguintes:

1. Os setores produtores de bens de capital avançados para os mercados mundiais, energia para uso doméstico, armas, e o setor de construção devem ser mobilizados, como se fosse um esforço de guerra, para um novo conjunto de propósitos. Devem ter como objetivo a energia sustentável, a mitigação das mudanças climáticas, a saúde pública e a reconstrução da própria vida em torno de padrões de atividade seguros e sustentáveis. Infraestrutura renovada de todas as formas, novos sistemas de transporte, novos recursos, conservação natural e investimentos culturais fazem parte desse desafio. O Green New Deal agora é duplamente necessário, não apenas para transformar a matriz energética da economia, mas também para garantir que haja uma economia a ser transformada.

2. Para os muitos milhões que não conseguem encontrar empregos no setor privado, deve haver uma garantia de emprego para todos que procuram trabalhar, com um salário mínimo digno, no setor público. A pandemia cortou não apenas empregos em serviços, mas também empregos em escritórios e construção, de modo que quase 40 milhões de trabalhadores americanos foram desligados. Muitos não serão chamados de volta, mesmo que seus empregadores sobrevivam. No entanto, há trabalho suficiente para todos: no ensino, nos cuidados especiais, na saúde pública, nos parques e bibliotecas, na arte e na cultura, na manutenção de nossas comunidades, e no fornecimento de alimentos e habitação e outros serviços básicos para os necessitados. Se os empregos forem disponibilizados, as pessoas vão se candidatar para eles aos milhões.

3. Os prestadores de serviços devem se reestruturar para que possam se manter com volumes reduzidos. Eles devem obter empréstimos facilitados para reconfigurar seu layout físico para a proteção de clientes e trabalhadores. Mas eles também precisam de ajuda para cobrir seus custos. A propriedade pública-privada cooperativa e a municipalização parcial das empresas de serviço, com o governo local recebendo apoio do governo federal, é um caminho promissor. Na Alemanha, as pequenas empresas têm parte de seus custos cobertos pelos governos locais e, portanto, podem sobreviver, enquanto nos Estados Unidos eles estão falindo.

4. A capacidade de produção suficiente para atender aos requisitos básicos de saúde pública e subsistência deve ser reconstruída em solo doméstico, de modo que seja imune às interrupções no comércio associadas à pandemia ou outras ameaças às cadeias de abastecimento globais. Não podemos ser pegos de surpresa, como fomos neste ano, incapazes de fornecer equipamentos de proteção básicos aos profissionais de saúde e, na verdade, para toda a população. Para tanto, será necessária uma nova estrutura de financiamento, uma Health Finance Corporation nos moldes da Reconstruction Finance Corporation, que operou de 1932 a 1956.

5. A saúde pública deve ser reconstruída, acessível a todos, sem nenhum custo aos bolsos da população. Esta medida vai além da discussão convencional sobre as opções do público e sistemas únicos, e deve reconhecer que a covid-19 criou uma crise financeira para o setor de saúde dos Estados Unidos. Como tudo no país, a saúde é um negócio. E como a economia parou, reduzindo acidentes e outras doenças infecciosas, e como procedimentos eletivos foram adiados, os provedores estão atendendo menos pessoas, de modo que – como qualquer outra forma de negócio – muitos hospitais e clínicas não conseguem cobrir seus custos. A solução é fazer o setor da saúde cooperativo, para garantir que os serviços adequados estejam disponíveis para todos. Espanha e a Irlanda nacionalizaram todos os serviços de saúde durante a pandemia; Os Estados Unidos poderiam fazer o mesmo, ou encontrar uma solução menos drástica.

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Estudantes usam máscaras dentro da Biblioteca Thompson no primeiro dia de aulas da Ohio State University, em Columbus, Ohio, em 25 de agosto de 2020.

Foto: Ty Wright/Bloomberg via Getty Images

6. Enquanto durar a crise e além, locatários e detentores de hipotecas devem ser protegidos de despejos, execuções hipotecárias e interrupções de serviços públicos, de acordo com o bom comportamento supervisionado pelas autoridades locais, e deve haver uma razoável assistência para redução de dívidas impagáveis, juntamente com uma compensação para pequenos proprietários. A dívida estudantil e a dívida médica também são boas candidatas para receberem assistência.

7. Em última análise, uma vez que essas dívidas também são os ativos daqueles que emprestaram o dinheiro, a realidade é que uma economia bem-sucedida após a Covid-19 requer uma redistribuição da riqueza financeira. Se a pandemia for derrotada, e se uma ordem social viável emergir em consequência disso, os orçamentos das famílias americanas terão que ser refeitos de forma a suportar o fardo de dívidas administráveis, dada a menor atividade de mercado e os menores salários oferecidos. Isso significa que os bens dos ricos, assim como as dívidas dos sobrecarregados, terão que ser reavaliados. Deve haver uma redistribuição geral de credores para devedores, revertendo a tendência dos últimos 40 anos. A redistribuição, aliás, vai ocorrer. Isso pode ser feito por meio de uma década de depressão, como nos anos 1930, ou duas décadas de inflação, como nos anos 1960, ou pode ser feito por uma reestruturação sensata e pelo alívio das dívidas, como foi feito logo após a Segunda Guerra Mundial.

8. Finalmente, com uma redução generalizada de dívidas e ativos, o setor financeiro deve ser reestruturado, uma vez que esse setor detém muitos dos ativos que perderão valor. As consequências financeiras desta pandemia ainda não estão claras, e ainda é um tanto obscuro definir onde surgirão os pontos fracos do sistema financeiro. Mas é certo que esses pontos fracos existem e quando forem expostos, serão profundos. Os grandes bancos que não podem fazer isso podem ser assumidos e administrados como serviços públicos; isso pode ser feito de acordo com a lei atual. As funções de pagamentos, poupança e crédito necessários podem ser sustentadas pelo fornecimento de opções públicas, por meio de serviços bancários postais e um sistema público de pagamentos eletrônicos, administrado pelo Fed. Com o tempo, os bancos regionais e locais podem ser apoiados para construir uma nova economia no lugar da que Wall Street distorceu e, em última análise, ajudou a destruir.

“É uma ilusão pensar que os mercados vão nos devolver o bem-estar por conta própria.”

Nenhum espírito de radicalismo está por trás dessas ideias. Elas não são movidas por ideologia, nem por qualquer compromisso passado com qualquer agenda. Elas são resultados de questões lógicas e factuais vindas da compreensão da situação. A estrutura anterior da economia americana era altamente eficiente em alguns aspectos. Apoiava, embora de forma desigual, um alto padrão de vida para uma grande parte da população. Mas as circunstâncias mudaram de formas que não podem ser controladas ou revertidas, e que não evaporam por conta própria, aconteça o que acontecer com o vírus e a pandemia.

Portanto, é uma ilusão pensar que os mercados irão nos devolver o bem-estar por conta própria. É uma ilusão pensar que a simples injeção de dinheiro, por maior e mais generosa que seja, e por mais necessária no curto prazo, trará de volta a feliz combinação de emprego e renda que acabamos de perder. É uma ilusão achar que os métodos fáceis dos economistas do pós-guerra, cujas ideias dominaram o pensamento liberal e a resposta às crises econômicas por 70 anos, funcionarão em face do desafio da Covid-19. O caminho a seguir requer planejamento e ação em uma escala muito maior. Exige habilidades, imaginação, conhecimento local, compromisso e mobilização que se assemelham – mas na verdade superam – aqueles aplicados pelo New Deal.

A única boa notícia é que outras crises sem precedentes já aconteceram antes. Na maioria dos casos, o resultado foi um desastre. Mas houve alguns momentos na história dos Estados Unidos em que o país se reuniu para fazer o que fosse necessário, superando as adversidades, os poderes, as velhas ideias e os maus personagens que estavam no caminho. Isso aconteceu em 1861, em 1933 e em 1942. E aqui estamos nós novamente.
Biden estava certo ao invocar Roosevelt e o New Deal. Os Estados Unidos precisam que ele esteja falando a sério.

Tradução: Antenor Savoldi Jr.