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Foto: Bloomberg/Getty Images

Milícia é uma palavra conhecida no Rio de Janeiro há muito tempo, mas se popularizou no país após a morte da vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, em 2018. No Brasil, a maioria sabe ao menos um nome de miliciano de cor.

Os milicianos são e representam hoje muito mais do que o cara que puxa o gatilho. A “ideologia miliciana” disseminou no Brasil a ideia de que paz e segurança vêm por meio da bala.

José Cláudio Alves, que pesquisa milícias no Rio há mais de duas décadas, me disse que o conceito de milícia é insuficiente para abarcar tudo o que elas representam. Para ele, as milícias “são grupos de extermínio que estão hoje vivendo uma fase denominada miliciana, a partir da expansão dos seus negócios”. O assassinato por aluguel ou encomenda é o mais conhecido deles, mas há ainda o controle territorial conquistado a partir desses homicídios, a prestação de segurança para o comércio e, mais recentemente, o fato de eles se elegerem – e terem formado muitas, mas muitas alianças com quem tem um mandato pela frente.

O exemplo mais popular dessas amizades “despretensiosas” são os elos da família Bolsonaro com o Escritório do Crime, nome dado a milícia suspeita da morte de Marielle. Milicianos foram empregados pelos Bolsonaro, homenageados por eles, emprestaram dinheiro à primeira-dama, pescaram juntos. Mas não tem nada a ver com a família, tá okey?

‘Essa será ‘a eleição mais miliciana da história’

Outro pesquisador com quem conversei, André Rodrigues acredita haver o que ele chama de “ideologia miliciana“, uma espécie de “crença de que o uso ilegal da força e do poder de matar é o principal instrumento de produção da ordem e da segurança”. E alerta: essa será a “eleição mais miliciana da história”.

A “ideologia miliciana” não só estimula como fundamenta atentados contra políticos e autoridades locais. “Os grupos ‘vendem’ a ideia de que o poder de matar é o principal instrumento de produção de ordem e de segurança. E usam esse poder não só para eliminar seus concorrentes e construir currais eleitorais contemporâneos, mas também para se credenciarem como políticos que militam pela ordem e pela segurança”, explicou Rodrigues.

Os resultados disso a gente enxerga na prática. Só na última semana, três pré-candidatos e um ex-vereador foram mortos no país, e outras três pessoas com vida política sofreram agressões. No total, mortos e agredidos Brasil afora já somam mais de uma centena neste ano.

Desde janeiro, Pablo Nunes, doutor em Ciência Política e coordenador adjunto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, CESeC, mapeia assassinatos, agressões e atentados contra pessoas ligadas à política em todo o país, a partir de notícias que saem na imprensa. Na listagem entram aqueles que estejam cumprindo mandato, que já cumpriram ou que anunciaram concorrer ao pleito este ano.

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Nunes decidiu contabilizar os casos devido ao “clima violento e agressivo na política do país desde a posse de Bolsonaro e de alguns governadores”. De acordo com ele, “esse clima poderia propiciar um aumento de respostas violentas em disputas políticas”.

Nordeste na liderança

Dos 112 políticos vítimas desses atentados, homicídios ou tentativas e agressões mapeados neste ano, 15 ocorreram em Pernambuco. Para Nunes, o que chama atenção em casos registrados em estados do Nordeste, que concentram 41 das ocorrências, é a crueldade, o uso de arma branca e “histórias longas”, que atravessam por gerações.

É o caso da morte Abson Mattos, pré-candidato a vereador na cidade de Itambé, na Zona da Mata pernambucana. Em 2016, quando disputou uma vaga na Câmara, Abson sofreu um atentado e foi baleado de raspão na cabeça. Este ano ele não teve a mesma sorte e foi o 47º político morto no país.

Abson era primo do advogado e ex-vereador Manoel Mattos, morto por um grupo de extermínio há 11 anos, em Pitimbu, na Paraíba. Eleito em 2000, Mattos, conhecido por seu trabalho contra grupos de extermínio no Nordeste, foi o vereador com a maior votação de Itambé.

A execução de Mattos foi o segundo caso a ser federalizado no país. A investigação da morte do vereador, que era também membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB-PE, saiu da esfera estadual e passou para a federal – uma medida prevista desde 2004 para crimes com grave violação aos direitos humanos. O único pedido de federalização feito antes foi o caso do assassinato da missionária e defensora de direitos humanos Dorothy Stang, morta em fevereiro de 2005, no Pará.

Abson testemunhou a morte do primo. Os dois foram mortos em cidades que fazem divisa entre Paraíba e Pernambuco. Duas pessoas foram condenadas pela morte de Manoel Mattos – entre eles, o sargento reformado da PM da Paraíba Flávio Inácio Pereira. O caso de Mattos se assemelha ao da também defensora de direitos humanos Marielle Franco, morta em 2018 no Rio. O assassinato da vereadora carioca e de seu motorista, porém, segue em aberto.

Mas não é tão simples.

O major da reserva da PMERJ Luiz Alexandre, mestre em Ciências Jurídicas e Sociais, se sente incomodado com a prática de adotar termos novos “para ter repercussão”. Para ele, o “termo [ideologia miliciana] acaba caindo num vazio existencial, e a verdadeira e perigosa milícia acaba sendo colocada como mais uma das muitas realidades apontadas”. Alexandre toma por base pesquisas sobre as relações entre agentes políticos e violência que desenvolve no Laboratório de Pesquisa de Segurança Pública e Defesa do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e da Escola Superior de Guerra. Mas uma coisa é certa: mortes de políticos não são novidade. É praticamente uma tradição brasileira. O brasileiro não tem medo da morte.

A “ideologia miliciana” – ou seja lá o nome que daremos a isso em um futuro breve – não é privilégio do Rio de Janeiro e está mais fortalecida que nunca. O que assistimos acontecer de forma cristalina com a morte de Marielle não é novidade. É palanque e rende voto – há muito tempo.