Quando o cineasta Diógenes Muniz começou a pesquisa para o documentário “Libelu – abaixo a ditadura”, Dilma Rousseff ainda não tinha caído. Lula não havia sido preso. Ainda que polarizados e imersos na crise política incendiada pela Lava Jato, ainda estávamos muito longe do cenário sombrio que viria a eleger Jair Bolsonaro. Enquanto mergulhava em entrevistas com ex-militantes de esquerda e arquivos sobre a resistência à ditadura, Muniz via o caminho contrário acontecer do lado de fora: a meteórica ascensão da extrema direita rapidamente começou a corroer as conquistas democráticas daquela geração que ele estava investigando.

A ideia de documentar a Libelu (como ficou conhecido o movimento trotskista Liberdade e Luta) começou, Muniz conta, por curiosidade. Muitos membros do movimento, surgido dentro da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, a ECA, se tornaram jornalistas e professores de jornalismo conhecidos, como Eugênio Bucci, José Arbex Jr e Laura Capriglione. Mas foi quando cruzou com a onda violenta de protestos estudantis de 1977 que ele, atravessado pela experiência de junho de 2013, resolveu pesquisar o assunto.

A Libelu era diferente das outras correntes de esquerda: mais artística, libertária e irreverente. Também era considerada menos séria – o próprio nome veio do tom pejorativo como membros de outras correntes de esquerda se referiam aos “libelus”. Mas o movimento venceu as eleições para o DCE, o Diretório Central de Estudantes da USP, se expandiu pelo interior de São Paulo e pelo país; chegou à capa da IstoÉ, revista relevante na época (que o simbolizou com dois bottons, um de Caetano e outro de Trótski); e foi citado pela poeta Ana Cristina César. Foi até tema de um poema de Paulo Leminski: “Me enterrem com os trotskistas/na cova comum dos idealistas/onde jazem aqueles/que o poder não corrompeu”.

No filme, a história da Libelu é narrada por vários ex-membros, entrecortada por preciosas imagens de arquivos. Uma delas é o curta-metragem “O Apito na Panela de Pressão”, registro dos próprios estudantes dos violentos protestos de 1977. E o outro é uma entrevista de Mino Carta na TV Tupi com dois estudantes da Libelu que o diretor conseguiu na Cinemateca Brasileira, pouco antes do órgão ser desmontado pelo governo Bolsonaro. No programa, em uma cena emblemática do documentário, Carta pergunta aos dois militantes: “vocês se consideram burgueses?”. Eles negam veementemente.

Quatro décadas depois, a resposta é muito mais clara. Quase todos brancos e de elite, eles reconhecem que estavam distantes dos movimentos de massa que aconteciam naquela época pelo Brasil. José Lenulino Moura Ribeiro, único militante negro da Libelu (e um dos únicos alunos negros da USP), conta como foi detido e espancado: estava em um ponto de ônibus na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, bairro nobre de São Paulo. E não foi abordado por ser militante e nem de esquerda – mas por ser negro.

As quatro décadas de distância também evidenciaram as conquistas e falhas da esquerda da época. Um dos membros mais eminentes da Libelu é Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda de Lula. Palocci havia sido um líder importante do movimento em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e é descrito pelos membros como “brilhante”. Muniz conta que foram dois anos para conseguir fazer com que Palocci, hoje condenado por corrupção e lavagem de dinheiro na Lava Jato, fosse entrevistado para o documentário.

“Relembrar um momento da vida em que você é jovem, idealista e está combatendo um regime autoritário o interessou”, diz o diretor. Palocci deu a entrevista em prisão domiciliar no seu apartamento na capital paulista. Em um relato surpreendentemente franco, ele assume que, ao chegar ao poder, precisou dançar conforme a música. “O que você teria feito de diferente?”, é perguntado. “Não teria feito caixa 2 em campanha”, ele responde.

Ao contrário do que escreveu Leminski, o poder poderia corrompê-los, sim – mas o idealismo permaneceu, ainda que em um resíduo melancólico de tudo que se descortinou depois. Palocci, assim como quase todos os outros ex-membros entrevistados, ainda se considera de esquerda. Alguns permanecem na militância partidária. Parte abandonou a Libelu simplesmente porque “começou a trabalhar” – muitos na Folha de S.Paulo, um jornal considerado liberal e burguês. Alguns fizeram uma transição que parece contraditória, como o filósofo Demétrio Magnoli e o jornalista Reinaldo Azevedo, que abandonaram completamente o marxismo e comandaram uma dura oposição ao governo do PT. Outros seguiram sendo “trotskistas psicológicos”. Parte parece ver o movimento hoje com uma certa ingenuidade. “Sério que ainda tem stalinista hoje? Trotskista?”, pergunta, em certo momento, a arquiteta e professora Anne Marie Sumner.

“Quando pergunto se eles acreditam na revolução ou se sentem que o sistema os engoliu após a experiência na militância, não espero que haja uma resposta certa”, diz o diretor do documentário. Segundo ele, o que mais fascinou a equipe – que fez questão de se mostrar trabalhando nas imagens para evidenciar o choque de gerações – foi como cada um formula a questão política para si mesmo. “São balanços da própria vida e da sua relação com aquele mundo que você gostaria de transformar. Mesmo os que seguem na militância 40 anos depois precisam passar por isso”, diz.

‘Minha geração foi atravessada por Junho de 2013, então descobrir uma onda de protestos ocorrida há quatro décadas chamou atenção’.

Enquanto o filme ia tomando forma, o regime de extrema direita de Bolsonaro também se consolidava – com direito a marchas pedindo a volta do AI-5. “Cada um segue sua própria elaboração. Há incredulidade, raiva, cansaço, mas também há quem defenda e trabalhe na construção de uma alternativa ao capitalismo”, diz o diretor. Para ele, um dos maiores méritos da Libelu foi ter conseguido retomar a palavra de ordem “abaixo a ditadura”, proferida pelo ex-líder Josimar Melo, hoje crítico gastronômico da Folha. “Eles souberam ler o momento e sintetizar em palavras”, diz Muniz.

Para o diretor, a experiência da Libelu também pode funcionar em outro aspecto. Embora o movimento estudantil fosse dividido em muitas tendências, com várias disputas internas e acirradas, eles tinham objetivos em comum – derrubar a ditadura, conseguir a anistia, construir entidades representativas. “Isso fazia com que discordassem internamente, mas marchassem juntos no que era objetivo comum”, diz o diretor. “Não me parece má ideia”.

“Libelu – abaixo a ditadura” estreia nesta quarta-feira, no festival É tudo verdade, e as sessões são online e gratuitas. Leia os principais trechos da entrevista:

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Encontro do Movimento Estudantil na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Foto: Arquivo/Jornal O Trabalho

A Libelu é um movimento que, embora tenha tido um papel importante na resistência à ditadura no final dos anos 1970, costuma ficar em segundo plano nas memórias do período. Muito se fala da luta armada de esquerda, por exemplo, mas pouco dessa resistência mais debochada e artística. Por que isso acontece?

Pegar em armas e lutar contra um regime de exceção é mesmo muito impressionante, sob todos aspectos. Nesse sentido, é natural que a geração da luta armada tenha recebido mais atenção por parte da narrativa histórica, digamos assim. Os jovens militantes da metade dos anos 1970 para frente precisam começar do zero, refundar suas entidades de representação estudantil e descobrir por conta própria como fazer uma passeata, um ato público. Fora isso, eles não só cresceram e passaram a adolescência sob a ditadura como tiveram contato com uma cultura de massas muito mais poderosa dos jovens dos anos 1960. É nesse entroncamento que nasce a Libelu.

O sujeito que não vê contradição em ser militante comunista de dia e ouvir rock em suas festas à noite (o que para outra parcela da esquerda ainda poderia ser visto como uma capitulação ao imperialismo). E que busca também na contracultura uma resposta ao nacionalismo tosco do regime. A aproximação de Trotsky com os surrealistas, décadas antes, e seus textos sobre arte (e por que ela não deve ser dirigida por uma casta política) inspiraram profundamente essas pessoas. É nesse caldeirão que surge, por exemplo, o lendário grupo de performances Viajou Sem Passaporte, impulsionado por militantes e simpatizantes da Libelu.

Foto: Reprodução

De onde surgiu a ideia de documentar esse movimento? E por que agora?

Trabalhando como jornalista, acabei cruzando com muita gente que havia integrado a Liberdade e Luta. Só fui transformar essa curiosidade difusa em pesquisa quando me deparei com a onda de passeatas de 1977, que levou o ministro da Educação do regime militar a fazer apelos em cadeia nacional para que os jovens não saíssem dos campi, para que os pais os segurassem em casa. Minha geração foi atravessada por Junho de 2013, então descobrir uma onda de protestos ocorrida há quatro décadas chamou atenção. São dois momentos bastante diferentes (inclusive no que os espera após as passeatas), mas tem também suas similaridades. Dá para identificar na origem de ambos uma extração predominante de classe média da USP, por exemplo. Também fiquei curioso que tão pouca gente tenha se ocupado em estudar um grupo radical e culturalmente inquieto que foi homenageado pelo Paulo Leminski num poema.

Vocês conseguiram registros importantes em vídeo de manifestações históricas, como a do viaduto do Chá e a do massacre na PUC. Como foi o processo de pesquisa e apuração para o documentário e a busca por essas imagens?

Eu dividi o trabalho de pesquisa e pré-entrevistas com a assistente de direção do longa, Bianka Vieira, que estudava na USP no início dos trabalhos. Ouvimos dezenas de ex-militantes (não só da Libelu, mas também da Refazendo e Caminhando), jornalistas que cobriram os eventos daqueles anos, pesquisadores que se debruçaram sobre a ditadura e o Movimento Estudantil e até familiares de ex-militantes. Contamos com acesso aos arquivos do Jornal o Trabalho e a trabalhos acadêmicos de mapeamento e documentação do movimento estudantil dos anos 1970, como os de Angélica Müller, Mirza Pellicciotta e Jordana de Souza Santos, que também foram um ponto de partida.

Sobre as imagens históricas, tem dois arquivos fílmicos que são a espinha dorsal do nosso projeto: o primeiro é o curta-metragem “O apito da panela de pressão”, feito de maneira independente pelos próprios estudantes no calor dos protestos de 1977. O outro é um programa do Mino Carta veiculado pela TV Tupi em 1979, no qual o jornalista convida dois jovens dirigentes para discutir o fenômeno político que a Libelu representava naquele fim de década. Esse arquivo nós encontramos na Cinemateca Brasileira, pouco antes do seu fechamento.

A Libelu surgiu em um contexto já de arrefecimento da ditadura. Em 79 veio a Anistia. Mas seus integrantes sentem que tiveram, sim, um papel importante na conquista da democracia. Quanto dá para atribuir isso ao movimento? Qual foi o peso político dos protestos organizados por eles em SP e da reorganização do movimento estudantil?

Essa ideia de que a ditadura arrefeceu na segunda metade dos anos 1970 é evidente só em retrospecto. Em 1976, acontece o Massacre da Lapa, com assassinato de três dirigentes do PCdoB. Em 1977, a invasão da PUC e o fechamento do Congresso Nacional pelo Geisel (via Pacote de Abril). O AI-5 só deixa de vigir em 1978.

Não por acaso, a maior parte do movimento estudantil daquela época preferia a palavra de ordem “Pelas liberdades democráticas”. O medo de que uma provocação por parte dos estudantes culminasse na repetição da violência política vivida em 1968 era real. Nesse sentido, o movimento estudantil daqueles anos (e a Libelu, sua mais vocal e rebelde expressão) é um batedor importante para o que vem a seguir, com as greves operárias, a refundação da UNE, etc.

O jornalista José Genulino, o único militante negro entrevistado – e um dos pouquíssimos alunos negros da USP na época.

Foto: Reprodução/documentário Libelu

O documentário mostra que, embora tivesse orientação trotskista, a Libelu era um movimento burguês, puxado por uma elite intelectual. A USP tinha pouquíssimos negros – o documentário só mostra um militante negro da Libelu, José Lenulino Moura Ribeiro. Com base na sua pesquisa e apuração para o documentário, como a questão racial e de classe se relaciona com a distância do movimento das massas?

Se você pensar na Liberdade e Luta stricto sensu (ou seja, a tendência estudantil universitária), de fato, são estudantes da escola responsável por formar quadros da elite do país. Ao menos na origem, é isso – porque depois a Liberdade e Luta se espalha e se confunde com a própria organização clandestina que era responsável por impulsioná-la. Esse é um caso atípico entre as tendências estudantis daquela época. A Libelu se torna um fenômeno tão comentado que mais tarde é comum encontrar gente que nunca passou pela tendência estudantil, mas que militava de maneira bastante aguda em sindicatos e se autoproclamava um “libelu”. Sem falar que essa organização clandestina que impulsionava a Liberdade e Luta, a OSI [Organização Socialista Internacionalista], fornece quadros políticos da maior importância na formação do Partido dos Trabalhadores, nossa maior e mais bem-sucedida experiência de partido de base operária da história da política brasileira.

A questão racial estava longe de ser uma pauta como é hoje. Há vários relatos no filme de gente que vai presa na atividade militante. O caso narrado no filme por José Genulino Moura Ribeiro é bastante emblemático. Ele não vai preso por ser militante. Ele é detido e espancado simplesmente por estar parado num ponto de ônibus à noite (e ser negro).

A raça era uma questão para eles? Como surgiu esse assunto no filme?

O assunto surgiu já na pesquisa. Sempre que perguntávamos sobre militantes negros na tendência estudantil, caíamos no José Genulino. Ele mesmo relata no filme que era um dos únicos não só dentro da Libelu, mas na própria Escola de Comunicações e Artes. Se você pensar que o sistema de cotas só veio a ser adotado pela USP em 2016, não tem como dizer que não era um ambiente restrito em termos de raça e classe social.
Há um documentário de curta-metragem muito potente realizado sobre esse tema, feito por Daniel Mello, o “USP 7%”. O título faz alusão à quantidade de pretos e pardos matriculados na universidade em 2012. Quer dizer, isso só vai começar a ser encarado de frente a partir de medidas de reparação histórica, como as cotas, que são recentíssimas.

De qualquer forma, acho que é justo dizer que não notei ilusão, entre aqueles que escutamos para o filme, a respeito das próprias limitações da experiência militante daquela época enquanto grupo social e racial.

A Libelu era um movimento considerado de “esquerda radical”. Mas, com o passar dos anos, seus membros foram tomando diferentes direções. Alguns abandonaram totalmente o marxismo, caso de Demétrio Magnoli e Reinaldo Azevedo; outros fizeram uma transição que parece contraditória, como Josimar Melo, que virou crítico gastronômico. Outros simplesmente “começaram a trabalhar” e deixaram o movimento – foram absorvidos pelo sistema ao qual se opunham. Como explicar essa aparente contradição?

O filme não se preocupa tanto em tabular o movimento de cada entrevistado dentro do espectro político (seria impossível, na verdade). Quando pergunto se eles acreditam na revolução ou se sentem que o sistema os engoliu após a experiência na militância, não espero que haja uma resposta certa.

O que mais fascinou a equipe do documentário durante os dias de gravação (e fizemos questão de nos mostrar trabalhando, porque há mesmo um choque de gerações acontecendo ali) é como cada um formula a questão política para si mesmo. É uma elaboração que todo mundo que se engajou politicamente na juventude acaba fazendo, alguns de maneira mais consciente do que outros. São balanços da própria vida e da sua relação com aquele mundo que você gostaria de transformar. Mesmo os que seguem na militância 40 anos depois precisam passar por isso, porque participar de um partido político numa democracia não é o mesmo que se aventurar numa militância clandestina quando você tem 20 anos de idade.

Palocci

Antonio Palocci em seu apartamento em São Paulo, onde recebeu a equipe de gravação do documentário.

Foto: Reprodução/documentário Libelu

Um membro eminente da Libelu é o ex-ministro Antonio Palocci, condenado à prisão domiciliar por corrupção e lavagem de dinheiro, em um desdobramento da operação Lava Jato. O depoimento dele parece passar a mensagem de que a corrupção é inevitável: se não houvessse caixa 2, talvez ele não ganhasse a eleição, ele fala em um momento. Como é hoje, 40 anos depois, a relação dos outros ex-membros da Libelu com ele, um dos poucos dirigentes que continuaram na política e que de fato chegou ao poder?

Hoje em dia, é difícil encontrar alguém que tope se aproximar do Palocci como figura pública, embora seus colegas da época da Libelu reconheçam que desde cedo ele era admirado, tido como um militante precoce e brilhante. Para mim, era importante ouvi-lo. Sua história, que se inicia na esquerda radical e vai parar nas mais altas esferas do poder, é sonora demais, conhecida demais para ignorarmos. O relato que ele dá ao filme, dizendo que se “não tivesse dançado conforme a música” (um eufemismo para se corromper) talvez fosse uma pessoa melhor hoje em dia, acho que é o tipo de coisa que você só fala quando o seu “eu” de 40 anos atrás está te observando.

Como foi gravar o depoimento dele?

Demorei dois anos até conseguir encontrá-lo pessoalmente. No início, tentava contato por meio dos advogados. Quando Palocci foi preso, mandei uma carta para ele na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba informando que estava fazendo esse filme sobre o grupo político que o lançou na experiência militante. Ele não dá entrevista já faz alguns anos, desde antes de ser preso. Relembrar um momento da vida em que você é jovem, idealista e está combatendo um regime autoritário no grupo mais descolado da época o interessou.

Queríamos que ele desse entrevista no mesmo espaço reservado aos outros, um amplo salão da FAU [a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP]. Como ele não topou, aceitamos gravar no seu apartamento em São Paulo, mas projetamos a entrevista no nosso “set” da USP.

Hoje, alguns dos membros parecem achar a Libelu, de certa forma, um pouco ingênua. Em um depoimento, a hoje professora Anne Marie Sumner pergunta: “sério que ainda tem stalinista hoje? Trotskista?” Como eles veeem a esquerda hoje?

Os relatos no filme mostram que quando você tem 20 e poucos anos, às vezes menos, vive sob uma ditadura espiritualmente caquética e, de repente, entra numa universidade em ebulição, são vários os motivos que te levam à militância política. Alguns passaram por GER [Grupo de Estudos Revolucionários], escolheram nomes de guerra e tornaram-se militantes organizados por mais de uma década. Outros se aproximaram muito por conta da abertura que a Liberdade e Luta representava na questão comportamental e da arte. O filme tenta abarcar ainda um aspecto que é importante na militância, que é o da sociabilidade. Mas, respondendo a sua pergunta, há de tudo entre os ex-libelus hoje em dia: dos que se surpreendem com existência de trotskistas organizados ainda hoje aos integrantes da Seção Brasileira da Quarta Internacional.

Que grupos você acredita que também vão se considerar ingênuos no futuro quando revisitarem os tempos de hoje?

Não sei responder essa.

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Cartaz do movimento para a eleição do DCE, desenhado por Cadão Volpato.

Foto: Cartaz Nem todos os gatos são pardos/Cadão

“Libelu” vai ser lançado em um momento em que a gente tem discutido longamente as esquerdas, em que tateamos uma saída para esse governo de extrema direita – e é inevítavel olhar para esse passado. O que você acha que tem em comum naquele cenário e hoje, com base em toda a pesquisa para o filme?

Quando comecei a pesquisa, a Dilma ainda não tinha sido deposta, nem o Lula preso, muito menos o Bolsonaro eleito. Conforme fomos tirando o documentário do chão, o noticiário político e o clima no país se aproximaram da temática do filme, sobretudo com essas marchas pedindo a volta do AI-5 e outras excrescências impulsionadas de dentro do Palácio do Planalto.

É curioso que um dos trunfos da Liberdade e Luta tenha sido retomar a palavra de ordem “abaixo a ditadura”. Eles souberam ler o momento e sintetizar em palavras. Esse é o tamanho da importância da linguagem na luta política. É comum ouvirmos hoje em dia termos como “desdemocratização”, “democracia iliberal”, “golpe gasoso”. Parece que ainda não descobrimos como chamar esse momento pelo qual estamos passamos.

Como os entrevistados veem o atual cenário político? Como é para eles encarar um governo Bolsonaro depois de toda a experiência de repressão e resistência à ditadura?

Todos que falam no filme são avessos à ditadura e ao Bolsonaro. Alguns viraram antipetistas, outros estão dentro do PT ou se colocam num campo progressista mais amplo. Mas cada um segue sua própria elaboração. Há incredulidade, raiva, cansaço, mas também há quem defenda e trabalhe na construção de uma alternativa ao capitalismo.

Parte dos ex-membros do movimento tem uma visão melancólica da luta da esquerda – acha que a geração deles falhou em garantir as conquistas democráticas. Parte acha que foi corresponsável pela queda da ditadura. Já você, assim como eu, é filho da democracia, nasceu e cresceu em um contexto em que as conquistas democráticas pareciam dadas, vivemos a era Lula. Como foi para você lidar com essas memórias contraditórias, já sabendo o que se desenrolaria depois de tudo aquilo?

Pois é, parece o caminho inverso falando assim. Nascemos na democracia, crescemos entre os anos FHC e Lula (“empregada doméstica indo para Disney, uma festa danada”, como diria Paulo Guedes) e agora temos na Presidência um delinquente de extrema direita que quer a volta da ditadura militar e cada vez mais vai encontrando sua acomodação junto ao sistema político.

Depois desses anos debruçado sobre a Libelu, tento olhar para alguns dispositivos que foram bastante funcionais na luta política daquela época. Por exemplo: o movimento estudantil era dividido em várias tendências e havia disputas e brigas internas tão ou mais acirradas do que as de hoje. Só que eles tinham um norte em comum: reconstruir suas entidades representativas, lutar pela anistia, derrubar a ditadura. Isso fazia com que discordassem internamente, mas marchassem juntos no que era objetivo comum. Não me parece má ideia.

Teve alguém que não quis dar entrevista?

Todo mundo que procuramos topou colaborar de alguma forma, mesmo na fase de pesquisa, cedendo seus recortes de revistas e jornais da época ou nos recebendo para tomar um café. Acho que essa é uma lembrança querida para todos eles. A Libelu tinha presença forte em Brasília, em Santa Catarina, em Minas. No fim das contas, escolhemos delimitar a narrativa do documentário no núcleo irradiador, de São Paulo. Numa conversa por telefone ontem à noite com um dos entrevistados que segue sendo militante da Seção Brasileira da Quarta Internacional, comentamos que talvez o mais justo fosse fazer uma série de seis episódios para abarcar toda a história da Liberdade e Luta com seus desdobramentos [risos].