“Nós estamos declarando hoje por encerrado o covid em Manaus”, afirmou o médico Luís Alberto Nicolau em um vídeo no Instagram em 4 de julho. Ele é presidente do Grupo Samel, maior rede de hospitais privados do Amazonas, que administrou o hospital de campanha do estado na capital, fechado em 24 de junho. Um dia depois, foi a vez do governador Wilson Lima, do PSC, comemorar as zero mortes por covid-19 na capital em um vídeo no Facebook.

Ambos tomaram como base os boletins divulgados diariamente pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas, a FVS, vinculada à Secretaria de Saúde do estado, que mostravam que nenhuma morte havia sido confirmada em Manaus nestas datas.

Os números eram animadores, mas falsos.

O Intercept teve acesso a uma gravação em que a própria diretora-presidente da FVS, Rosemary Pinto, admite erro nos gráficos com o número de mortes apresentados no boletim epidemiológico divulgado pela instituição, durante encontro convocado pelo Ministério Público do Amazonas após denúncias de pesquisadores e epidemiologistas. O erro havia sido apontado pelo professor do departamento de matemática da Universidade Federal do Amazonas Alexander Steinmetz em uma reunião no dia 11 de setembro.

Do dia 1º para o dia 2 de setembro, um dos gráficos divulgados pela fundação registrava 164 novas mortes por covid-19 enquanto outro gráfico, no mesmo boletim, informava apenas 4 mortes. Havia ainda um terceiro gráfico disponível no site da FVS informando seis novas mortes no estado nas mesmas 24 horas. “Nós temos um erro aí, precisamos rever”, admitiu Pinto ao ser confrontada com as planilhas, prometendo uma retificação, mas a correção jamais foi realizada. Seis dias após a reunião, o gráfico foi apenas removido do boletim.

O problema é que, sem uma base de dados confiável, não há como estimar a real situação da pandemia na capital. “São muitos erros que ajudam a pintar uma imagem artificialmente positiva da pandemia e me fazem questionar todas as outras análises da FVS”, me disse Steinmetz em entrevista por telefone.

Um levantamento exclusivo feito para o Intercept pelo epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, tomando como base o Sivep-Gripe, mostra que a FVS deixou de registrar ao menos 373 mortes por covid-19 entre o início da epidemia na capital e 22 de agosto – um total de 24% a menos que o total de mortes pela doença divulgado pelo estado. Isso ocorreu também nas datas em que o governador Lima e o médico Nicolau comemoraram zero mortes pela doença. Nos dias 24 de junho e 4 de julho, foram registrados, respectivamente, sete e três óbitos em Manaus, segundo o levantamento.

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*Os dados consideram casos apenas até agosto para evitar distorções provocadas pela demora na tabulação dos resultados dos testes de covid-19 mais recentes.

Dados: Jesem Orellana | Gráfico: Amanda Jungles/The Intercept Brasil

Os dados do sistema também mostram que a diferença entre o número de mortes divulgadas pela FVS e as registradas no Sivep-Gripe aumentou mais a partir de junho – depois que foi anunciado pelo governo do Amazonas o plano de retomada das atividades. Do dia 1º de junho, quando o comércio e as igrejas puderam reabrir, até o dia 10 de agosto, com a volta das aulas de ensino médio em escolas públicas, o boletim epidemiológico mostra 254 mortes por covid-19 na capital. Já o Sivep-Gripe revela um número 56% maior, de 397 óbitos.

Somente no dia 1º de outubro a FVS anunciou uma atualização nos no boletim epidemiológico, com a inclusão de 143 óbitos ocorridos em abril e maio. Até então, essas mortes estavam classificadas como Síndrome Respiratória Grave de causa não especificada.

Jeitinho nos dados

Após o matemático apontar o erro nos boletins, a FVS mudou os gráficos – para pior. A partir de 13 de setembro, alguns óbitos simplesmente desapareceram do boletim diário, enquanto em outros gráficos do mesmo boletim eles aumentaram inexplicavelmente. A soma dos óbitos por dia, só em Manaus, agora é muito maior do que o total de mortes informadas em todo o estado, por exemplo. “Se um aluno meu fizesse esse trabalho, eu mandaria refazer. São erros óbvios e estranhos”, diz Steinmetz.

Além de embaralhar dados, reduzir a quantidade de testes parece ser uma estratégia amplamente utilizada pelo governo do estado para esconder o aumento de casos da covid-19. Gráficos do boletim epidemiológico da FVS mostram que os exames de RT-PCR – padrão ouro de diagnóstico –, foram substituídos gradativamente pelos menos confiáveis testes rápidos a partir de maio. Naquele mês, foram realizados 11.243 exames de RT-PCR. Já em agosto, esse número caiu quase 300%, para 3.832, embora o estado diga que tem capacidade para fazer mil testes por dia.

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O governador Wilson Lima ignora a segunda onda e ponto de decretar a retomada das aulas presenciais no ensino fundamental.

Foto: Divulgação/Secom

Em vez da imunidade de rebanho, tão defendida por Bolsonaro e seus apoiadores, afirma o epidemiologista Orellana, o que está acontecendo em Manaus é uma segunda onda de contágio, provocada pelo retomada precoce das atividades – deliberada a partir de dados falsos. “Há tendência de aumento dos casos de SRAG em Manaus a partir do início de agosto, há dados de adoecimento, de mortalidade e de internações que ratificam a segunda onda. Não temos dúvidas de que ela já começou”.

O governador Lima e as autoridades sanitárias da FVS se negam a reconhecer a segunda onda de contágio.

Em agosto, o cientista Lucas Ferrante, doutorando em biologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Inpa, também alertou sobre esse risco. Ele publicou na Nature Medicine – uma das revistas científicas mais importantes do mundo – um texto intitulado “Políticas do Brasil condenam a Amazônia a uma segunda onda de COVID-19“. Para ele, “o governo do estado foi negligente quando determinou a abertura do comércio, a volta às aulas, a abertura de bares, de templos e igrejas de maneira precoce e, aliado a isso, reduziu a quantidade de testes”.

Questionada sobre os erros no boletim epidemiológico, a diferença de 24% no números de mortes registradas pelo Sivep-Gripe e a redução dos testes, a FVS limitou-se a dizer que “alerta para o aumento de 12% no número de casos de Covid-19 na comparação entre as últimas duas semanas em Manaus”, mas que há “estabilidade de número de casos” no estado.

Em tese, quem mais ganharia com a narrativa do fim da covid-19 em Manaus capitaneada pelo grupo Samel é o deputado estadual e candidato a prefeito Luís Ricardo Nicolau, do PSD. Irmão do médico Luís Alberto Nicolau, que coordenou o hospital de campanha da capital, o deputado chegou a pedir afastamento da Assembleia Legislativa do estado no início da pandemia para se “dedicar integralmente ao combate ao coronavírus” na função de diretor do grupo Samel. A dedicação do político, no entanto, não parece ter surtido efeito. Na pesquisa mais recente ele aparece com apenas 5% das intenções de voto.

Líder da corrida pela prefeitura, o ex-governador Amazonino Mendes, do Podemos, não achou necessário sequer incluir os efeitos do coronavírus na cidade em seu plano de governo. Apesar disso, foi um dos primeiros a criticar o governador Lima pela “falta de união” com o prefeito de Manaus, Arthur Vírgílio, do PSDB, na condução da pandemia. O tucano, que ficou 31 dias internado em estado grave por conta da covid-19, defendeu na semana passada um novo lockdown para conter o vírus. Ele propôs a medida ao governador Lima, que já descartou a possibilidade. No site da FVS, o maior destaque até o dia 15 de setembro era para notícias que mostram a quantidade de recuperados, em uma estratégia semelhante ao “placar da vida“, usado pelo governo Bolsonaro para ocultar as milhares de mortes causadas pela covid-19 no Brasil.

Nesta quarta, o estado retoma as aulas presenciais no ensino fundamental. “Não é o retorno do ano letivo que está promovendo esse aumento da covid”, disse em entrevista coletiva o governador, sem citar dados que atestem essa afirmação – nem mesmo os números contestáveis da FVS.