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Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil

Em 2016, a campanha de Trump enviou notícias falsas e desinformativas a 3,5 milhões de eleitores negros com o intuito de fazê-los desistir de votar. Os anúncios foram direcionados com base em informações de 198 milhões de americanos divididos em oito categorias – uma delas, chamada “dissuasão”, era formada por eleitores negros que provavelmente votariam em Hillary Clinton ou não votariam em ninguém.

Uma investigação feita pelo Channel 4 mostrou que os posts negativos usados pela campanha digital de Trump incluíam um vídeo no qual Hillary chamava crianças e jovens negros de “super predadores“. Os comentários foram feitos por ela em 1996 e direcionados a perfis de pessoas negras no Facebook 20 anos depois. No vídeo, Hillary aparece dizendo que é preciso “ter um esforço organizado contra as gangues” e afirma que certas crianças não têm consciência ou empatia, justificando o que ela dizia ser uma propensão ao crime. Ela não citava raça, mas é amplamente considerado uma fala racista nas entrelinhas. Em 2016, ela foi cobrada por militantes do Black Lives Matter e se desculpou. O vídeo foi reeditado pela campanha de Trump para parecer que ela se referia a todas as crianças e jovens negros e causou um estrago enorme. Em vários estados, o número de votantes, de fato, caiu.

Para quem não se lembra, as eleições de 2016 foram marcadas pela interferência da Cambridge Analytica, a empresa britânica, hoje extinta, que foi condenada por extrair e usar dados de usuários do Facebook. A campanha digital de Trump gastou mais de R$ 200 milhões em anúncios só na empresa de Mark Zuckerberg, que segue afirmando que as coisas mudaram. Mas as eleições brasileiras de 2018 mostraram que nem tanto.

A tecnologia potencializou algo que ocorre há décadas por outros meios, com o mesmo intuito de impedir pessoas de votar. Negros, latinos, asiático-americanos e nascidos nos anos 1980 – que, em tese, têm ideias mais progressistas – representam quase 60% do eleitorado americano. Na conjuntura atual, movimentos da extrema direita não conseguiriam ganhar eleições se esse contingente votasse em massa — e por isso eles dedicam tanta energia em dificultar e impossibilitar o voto de milhões de americanos.

Em livro lançado recentemente por Michael Cohen, ex-advogado de Donald Trump, o presidente americano teria dito certa vez: “Eu nunca vou conseguir o voto hispânico. Como os negros, eles são burros demais para votar em Trump. Eles não são o meu povo”. (Em 2019, Cohen foi preso por evasão fiscal, violações de regras de financiamento de campanha e compra de silêncio de mulheres que tiveram caso com o ex-patrão). A ideia das campanhas de extrema direita como a de Trump é silenciar estas pessoas e o que elas representam. Mas como isso funciona na prática? Colocando uma série impressionante de empecilhos.

Veja um exemplo. Em 2016, Crystal Mason, uma mulher negra da Texas, foi sentenciada a cinco anos de prisão por ter votado ilegalmente, sem entender que não tinha o direito de votar. Falar em “voto ilegal” soa estranho para nós, mas não para quem vive nos EUA .

Os mecanismos para limitar o direito ao voto impacta massivamente cidadãos americanos negros, que são cerca de 13% da população dos EUA. Uma pesquisa feita em 2016 mostrou que um em cada 13 afroamericanos perdeu o direito ao voto por terem algum tipo de condenação na justiça. Entre cidadãos brancos, a proporção é um a cada 56.

E isso vale para qualquer condenação. Quando tentou votar, Crystal Mason estava cumprido prisão em regime aberto por manobras fiscais que se enquadrariam perfeitamente no jeitinho brasileiro: ela e o marido apresentaram declarações de imposto de renda para os anos fiscais de 2005-2008, fazendo uma gambiarra entre dependentes e empresas para ter uma restituição maior.

Crystal foi presa, ao passo que outro fraudador de imposto de renda, Trump, foi eleito presidente do país. Houve ainda uma mulher branca que intencionalmente votou duas vezes em Trump no estado de Iowa. Ela foi condenada, mas não foi para a prisão. Isso exemplifica bem a estatística sobre a raça das pessoas encarceradas nos EUA. Apesar de serem pouco mais de 10% da população, os afroamericanos são 38,5% da população prisional e 19% dos mais pobres.

Não à toa o rosto de Crystal virou a face da campanha contra as restrições ao voto nos EUA. Aqui, pessoas condenadas à prisão perdem a liberdade. Lá, perdem liberdade e direitos civis. Além de perder o direito ao voto, pessoas condenadas também não podem morar em programas habitacionais públicos, viajar a certos lugares, obter alguns tipos de emprego e manter a guarda de filhos. Se você sai da prisão e não pode voltar para casa, ter emprego ou acessar serviços públicos, onde você vai parar? Por isso esse sistema é chamado de “novo Jim Crow“, como ficou conhecido o conjunto de leis do apartheid americano.

Como o voto não é obrigatório, há menos esforços para vencer as dificuldades para votar; e, por parte dos governos, em não facilitar o acesso ao voto universal.

Crystal Mason foi impedida de votar e virou o rosto da campanha contra as restrições ao voto nos EUA.

Foto: Reprodução/Crystal Mason

É um sistema complexo, no qual nem sempre vence quem tem mais votos, e que confunde muita gente, especialmente aqueles com baixa escolaridade. Para piorar, se você muda de estado, o modo como você vota também pode ser diferente. Cada unidade federativa tem seu próprio sistema, que varia de voto pelo correio a uso da urna eletrônica. E mais: a eleição é indireta. Você não vota em Trump ou Biden. Você vota em um delegado que vai votar em um dos candidatos à presidência este ano. Cada estado tem um peso na votação. Às vezes, sequer vale a pena votar, porque o lugar onde você mora pode ser inexpressivo. É por isso que, em 2016, Trump foi eleito apesar de perder o voto popular por 2,8 milhões de votos.

É preciso querer muito votar.

Dentre as barreiras mais comuns para quem quer exercer seu direito está faltar ao trabalho em um dia de semana para ir votar. Nos EUA, o voto é sempre ocorre na primeira terça-feira de novembro. Mas se você faltar ao trabalho, seu pagamento do dia é cortado. Não há abono. Esta lei é de 1845, pré-abolição e industrialização e não leva os trabalhadores em consideração. Isso piora se você é um cidadão negro ou pertence a alguma minoria – e precisa muito do seu emprego e de dinheiro.

Veja mais alguns empecilhos:
  • Para uma pessoa que já cumpriu pena ter seu direito ao voto restabelecido, ela precisa recorrer à justiça. Não é automático.
  • Quem quer votar, tem que se registrar. E para se registrar, é preciso ter um tipo específico de identidade.
  • O documento de identidade específico para o voto não é gratuito e exige que sejam tirados outros documentos antes, como certidões de casamento. Esses documentos só são emitidos em órgãos específicos, que não estão acessíveis porque ficam longe de grandes centros. Em certas áreas, esses escritórios ficam abertos apenas dois dias por semana. Há alguns que só abrem quatro dias por ano.
  • Pessoas negras e latinas esperam em filas mais tempo para votar, pois os bairros onde há menor concentração de eleitores brancos recebem menos investimentos em infraestrutura e também porque houve redução do número de locais de votação. A cidade de Milwaukee já teve 180 pontos de votação. Hoje tem cinco, para acomodar 600 mil eleitores.
  • Toda eleição você precisa se registrar novamente para votar. Eleitores são constantemente mudados de zona eleitoral ou removidos das listas de local e autorização de votação sem nenhuma explicação – e muitos só descobrem isso em cima da hora.
  • Você se registra, recebe a cédula de votação pelo correio e vai ao local de votação depositá-la ou pode responder pelo correio mesmo. Eleitores negros têm maior chance de ter sua cédula rejeitada se ela for devolvida pelo correio do que se for depositada nos locais de votação. Cerca de 40% dos votos depositados pelo correio e que foram rejeitados eram de pessoas que se identificavam como negras, indígenas e asiáticas nas cédulas.

O Partido Republicano também puxa tapetes. Eles instalaram dezenas de urnas falsas na Califórnia, enganando eleitores. Foram pegos e disseram que vão continuar fazendo isso.

E há quem ainda chame os EUA de “a maior democracia do mundo”.