Eu não consigo mais dormir. Acordo no meio da noite de sonhos alucinantes e não volto a pegar no sono. Obviamente, não estou sozinha com essa condição. A insônia e uma espécie de cansaço narcoléptico que eu sinto à tarde tomam conta do país. Na verdade, do globo inteiro. Ontem à noite, eu estava trancada em uma igreja e puxando as ripas de madeira podre e mofada que cobriam as janelas para escapar. Eu ficava caindo no chão da igreja e vendo corpos contra a parede dos fundos.

No início do verão, ao passar pelo zumbido dos caminhões do necrotério estacionados em frente ao hospital de nosso bairro, lembrei de minhas frequentes peregrinações à morgue de Sarajevo enquanto as pessoas procuravam por familiares desaparecidos durante a guerra, há mais de um quarto de século. Não consigo acreditar que foi há tanto tempo assim. Vendo o que está acontecendo nos EUA, imagens da guerra da Bósnia e dos anos de meu passado vivendo em meio às guerras civis de outras pessoas se infiltraram em minha vida diária e insone. Quais foram os incidentes que aceleraram o processo? Quais foram os sinais? Quando a raiva e o medo se transformaram em violência? Como o medo derrotou a esperança? Havia alguma medida que pudesse ser codificada? Acho que ainda não chegamos lá. Na verdade, não consigo acreditar que algum dia chegaremos lá. Mas eles também não conseguiam.

A morte de George Floyd, o vídeo de sua lenta sufocação, seus apelos para respirar, seu chamado por sua mãe enquanto estava morrendo sob os joelhos do policial Derek Chauvin, desencadearam uma revolta contra um movimento entrincheirado e muito mais organizado do poder branco, que se estende por toda a história dos EUA. Durante um dos protestos do Black Lives Matter no Brooklyn, em Nova York, eu estava no meio de uma multidão usando uma máscara e ouvia um pregador episcopal negro dar um sermão sobre raiva pacífica. No dia seguinte, eu estava fora do Barclays Center pouco antes do anoitecer com uma multidão de manifestantes quando outro grupo chegou, tendo marchado por quilômetros vindo de Bay Ridge. Eles pararam e uma mulher disse que fariam a oração islâmica noturna, e que qualquer pessoa poderia participar ou ouvir. Eles formaram filas. Um jovem cantou o chamado à oração. O resto da multidão — pretos, brancos, pardos — ficaram de joelhos de frente para eles. Era possível sentir a surpresa em meio à multidão original que não esperava a chegada do Centro Islâmico de Bay Ridge. Como reagir? O tempo passou e a ansiedade se dissipou enquanto os ajoelhados observavam e ouviam e alguns erguiam o punho. Os muçulmanos de Bay Ridge diziam: sim, sabemos bem como o sistema exerce o poder, varre os bairros, esmaga as minorias. E já juntamos forças antes.

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Manifestantes se reuniram no Barclays Center no Brooklyn, em Nova York, para protestar contra a morte de George Floyd por um policial de Minneapolis, em 29 de maio de 2020.

Foto: Joel Sheakoski/Barcroft Media/Getty Images

Naquela noite, os manifestantes permaneceram na rua após o toque de recolher; a polícia os perseguiu, muitos foram espancados e presos. Grupos se formaram para tirar as pessoas da prisão. Você sabe o resto: aliados distribuindo garrafas de água, toque de recolher, cânticos com os nomes dos homens e mulheres negros mortos pela polícia, violência policial, confrontos. E então, logo atrás das demandas por justiça, os extremistas entraram voando. Nas ruas de Portland, no Oregan, os corpulentos defensores do poder branco, armados até os dentes e contrários ao uso de máscaras, e os caras do Departamento de Segurança Interna usando equipamento de choque, intensificaram a crise, com vans sem identificação levando os manifestantes para longe, com os Boogaloo Bois, os Boojahadeen, os Proud Boys e os antifa. No início de junho, helicópteros zumbiam constantemente na minha vizinhança no Brooklyn e, à noite, começavam os fogos de artifício. Por toda a cidade. No início, foi emocionante, comemorativo. Percebi que Max, nosso vira-lata de seis anos, que noite ou dia nunca se cansava do ar livre, agora corria até a mesa de jantar e se encolhia, com o rabo caído, ao anoitecer. Se eu tentasse sair com ele após o pôr-do-sol, ele ficaria parado no mesmo lugar. Max não estava sozinho. Houve uma epidemia de cães traumatizados. Os caninos sentem um terremoto chegando — por que não uma guerra?

O medo de Max começou com o fogos de artifício. E os fogos desencadearam mais medos, teorias da conspiração sobre planos do governo para levar as pessoas à loucura via insônia, para agitar a ansiedade em comunidades negras e pardas, para enviar esquadrões de fogos de artifício da polícia para os bairros em busca de “arruaceiros” — código para manifestantes. Era possível encontrar toda e qualquer teoria, até mesmo que os fogos eram prelúdio para a guerra. Isolamento, desespero, insônia, perda de empregos, doenças, toque de recolher, violência policial, saques — tudo isso gera teorias da conspiração. É a tração dessas teorias da conspiração que precisa ser medida.

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Uma pessoa grava com um telefone uma queima de fogos de artifício em um parque vazio no Brooklyn, Nova York, em 24 de junho de 2020.

Foto: Stephanie Keith/Getty Images

Eu vivia em Sarajevo durante a guerra, acima da igreja católica na velha cidade chamada Bascarsija — “grande bazar”, em turco — com Vera, seu marido Drago e o cachorro traumatizado deles, Blacky. Toda vez que o telefone tocava, o que não era frequente já que os telefones costumavam ficar desligados durante a guerra, Blacky pirava. Se você ousasse se aventurar e pegar o fone, ele agarraria seu tornozelo com os dentes e puxaria. Todos os dias, ao entardecer, um arquipélago de cães em estado de choque latia em agonia pela cidade.

Vera, uma poeta e editora de jornal na casa dos 50 anos, estava convencida que a guerra nunca viria à Bósnia. Mesmo em 1991, o ano antes do início da guerra, com o exército iugoslavo bombardeando cidades na costa dalmácia da Croácia, com o exército iugoslavo cercando a cidade de Vukovar, no leste croata, os moradores de Sarajevo não acreditavam que a guerra chegaria a sua bela cidade aninhada nas montanhas. Guerra na Bósnia? Nem pensar, dizia Vera. Era um país muito misturado: muçulmanos, cristãos ortodoxos, católicos, judeus, todos vivendo juntos e casados uns com os outros. Vera era croata. O ex-marido dela era meio croata e meio judeu. Drago, um economista aposentado e diretor de banco, era sérvio. No andar de cima do edifício de Vera vivia um bósnio que era parte judeu e parte croata e sua esposa bósnia e muçulmana, com o filho que era uma mistura de ambos. Todo o prédio era assim.

Drago disse a Vera que ela era ingênua. “A guerra na Bósnia”, dizia ele, “será mais longa e mais sangrenta do que em qualquer outro lugar”. Os dois raramente concordavam quanto a qualquer coisa.

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Soldados passam por prédios bombardeados crivados de buracos de balas após uma batalha de três meses entre as forças armadas croatas e o exército iugoslavo, em Vukovar, em 1991.

Foto: Antoine Gyori/Sygma/Getty Images

Vera havia sido um bebê em um abrigo antibombas durante a Segunda Guerra. Drago havia se juntado aos partisans que enfrentaram os nazistas e seus aliados croatas. Ele terminou em um campo de concentração na Áustria e quase morreu de fome. Sua irmã casualmente viu o corpo dele ser jogado em uma pilha de cadáveres e o salvou.

Drago sempre esperou o pior. E então, no início de 1992, com a guerra ocorrendo do outro lado da fronteira, Drago dirigiu para o norte, para a fazenda da sua família, na região onde um dia ele fora prefeito. Os sérvios já haviam declarado zonas autônomas e estavam se preparando para um estado independente. Drago ouviu que Ratko Mladic — o carismático comandante militar sérvio da Bósnia que se tornaria notório por liderar o massacre de 8 mil homens e meninos em Srebrenica — estava recrutando soldados para seu exército separatista. Drago pediu aos reservistas que conhecia que resistissem a Mladic e ficassem em casa, até que um amigo o aconselhou que ficasse quieto e fosse embora, para que não fosse jogado na prisão ou morto. No caminho para casa, ele viu soldados irregulares com barbas e cabelo longo usando emblemas com espadas cruzadas, um crânio, uma águia. Os Chetniks estavam de volta, reencarnações das velhas guerrilhas nacionalistas que fizeram aliança com os nazistas na Segunda Guerra para realizar seu sonho de uma Grande Sérvia. Radovan Karadzic, o líder político sérvio-bósnio, era um grande admirador dos Chetniks. Em sua honra, ele jurou que os muçulmanos da Bósnia queimariam no inferno se o país declarasse independência.

Ultimamente, eu vim para o lado de Drago. As imagens de homens barbudos e protuberantes, com munições no peito, rifles automáticos e uma mistura de símbolos do poder branco — suásticas, bandeiras confederadas, forcas, emblemas de uma flecha atravessando um crânio e as palavras “morte” e “vitória” — exatamente como uma cabala de Chetniks. Eles se mobilizam como o vento graças aos seus amigos virtuais. Eles mandam uma mensagem: “algum patriota disposto a pegar em armas para defender sua cidade?” — Kenosha, no Minnesota. Eles ameaçam linchar e decapitar o governador do Michigan. Drago morreu recentemente, mas posso ouvi-lo me dizendo: “não seja uma burra”. É assim que ele me chamava. Muito. Normalmente, por não perceber os sinais de problema, por não estar vigilante.

Offensive contre Gorazde
War of Bosnia-Herzegovina. Serbian trench in the f

À esquerda/em cima: Ratko Mladic, o comandante militar sérvio da Bósnia, e seus soldados durante a guerra na Bósnia, em 16 de abril de 1994. À direita/embaixo: trincheira sérvia no front de Osijek, na Croácia, em março de 1992.Foto: Vlastimir Nesic/Gamma-Rapho/Getty Images; Francoise De Mulder/Roger Viollet/Getty Images

Em Sarajevo, sussurros varreram escolas, hospitais, redações, escritórios. Os amigos e colegas sérvios repentinamente partiram para Belgrado para visitar a família, ou foram para o campo, ou estavam em tratamento médico, ou simplesmente desapareciam. Ainda assim, poucos acreditavam que a guerra chegaria a Sarajevo. Entre 29 de fevereiro e 1º de março de 1992, a Bósnia realizou um referendo sobre a independência em relação à Iugoslávia. Um “sim” quase unânime prevaleceu. Só que as áreas da Bósnia controlada pelos sérvios boicotaram o voto. Na verdade, elas já haviam declarado uma constituição separada.

Em 1º de março, uma festa de casamento sérvia estava indo em direção à velha igreja ortodoxa em Bascarsija. O tiroteio espalhou os convidados. O pai do noivo foi baleado e morto. O padre ortodoxo foi baleado. Os moradores de Sarajevo ficaram enojados, mas não surpresos, quando vieram os boatos de que o assassino seria um bandido local, apelidado de Celo, ou “careca”.

Imediatamente, líderes sérvios na Bósnia declararam: viram? Nós tínhamos razão. A Bósnia independente significa morte para os sérvios.
Subiram as barricadas comandadas por paramilitares sérvios. Estudantes removendo as barricadas foram mortes. E subiram as barricadas comandadas por Celo e outros criminosos. Rapidamente, o governo bósnio formou seu próprio exército desacreditado.

War of Bosnia-Herzegovina. Demonstration in Saraje

Pessoas protestam em Sarajevo, em april de 1992.

Foto: Francoise De Mulder/Roger Viollet/Getty Images

Em abril, a população de Sarajevo ainda acreditava que a paz era possível. Porque eles queriam paz. Porque eles sentiam paz. Eles não podiam conceber que alguém poderia querer guerra. Centenas começaram a marchar em Dobrinja, um subúrbio criado para as Olimpíadas de Inverno de 1984. Centenas se tornaram milhares e dezenas de milhares gritando: podemos viver juntos. Eles brandiam fotografias do falecido Josip Broz Tito, nostálgicos por seu governo autocrático na época em que todos eram iugoslavos. Eles balançavam cartazes por sexo, drogas e rock and roll. Essa era Sarajevo. Cidade divertida. Comediantes. Músicos. Hipsters do café. A guerra era para aqueles caipiras rurais. Os protestos continuaram no dia seguinte. Cerca de 100 mil pessoas clamando pela paz em Sarajevo. Em seguida, os tiros soaram novamente. As balas atingiram dezenas de manifestantes. Catorze foram mortos. A polícia descobriu que atiradores sérvios estavam disparando do Holiday Inn, o mesmo hotel que acabaria abrigando a mídia internacional por três anos e meio de cerco.

Naquele dia, 6 de abril, a Bósnia conquistou o reconhecimento internacional da sua independência. E o cerco começou.

O cerco de Sarajevo, o mais longo na história moderna da Europa, foi brutal e perverso e ainda assim tão íntimo. Sua própria intimidade tornava tão impensável que amigos e vizinhos pudessem se voltar uns contra os outros. Como poderiam? Como poderíamos? Um escritor e boxeador bósnio-croata que eu conhecia e que ficou para defender a cidade me disse que seu melhor amigo estava do outro lado, com o exército sérvio da Bósnia. Durante o dia, eles atiravam um no outro. De noite, conversavam no telefone e choravam. Ismet Ceric, o responsável pelo setor de psiquiatria do principal hospital de Sarajevo, foi o chefe de Karadzic por 20 anos. Ele me disse que no mesmo dia que Karadzic ordenou o bombardeio de Sarajevo a partir das montanhas, o político telefonou para a mãe de Ceric em Sarajevo. “Ele ligou para desejar um feliz Bajram”, contou Ceric, referindo-se ao festival muçulmano que vem após o Ramadã. Ceric então perguntou: você consegue acreditar nisso? Sim, infelizmente eu conseguia. Karadzic era tão obcecado por Ceric que seguiu seu antigo chefe pela cidade nos três anos seguintes, com morteiros e granadas. É difícil dizer se Karadzic queria matá-lo, provocá-lo, ou se Ceric pensava que poderia haver um Karadzic por trás de cada tiro que passava perto do alvo.

Quando Karadzic disse aos sérvios que evacuassem a cidade, muitos se recusaram, porque não tinham para onde ir, alguns porque se recusavam a ser refugiados, outros porque acreditavam na defesa da antiga Sarajevo, mesmo quando o exército bósnio se tornava cada vez mais muçulmano. Por mais que você tentasse manter sua identidade como mãe, médico, ator, jornalista, policial, não era assim que os outros o identificavam. Ao toque de uma virada linguística, você era reduzido a sérvio, croata, muçulmano, judeu.

O que transforma rixas em guerra civil? Uma agenda bem planejada, líderes carismáticos e medo. E talvez um último ingrediente que reúne todos os três: a redução da história e todas as suas complexidades a uma narrativa de destino coletivo — o nosso contra o deles, nós contra eles.

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Esquerda/acima: O bombardeio de Sarajevo. Direita/abaixo: Um homem bósnio corre pelas ruas de Sarajevo onde civis eram atingidos por franco-atiradores, em 1992.Foto: Francoise De Mulder/Roger Viollet/Getty Images; David Turnley/Corbis/VCG/Getty Images

Neste verão, alguns nova-iorquinos fugiram da cidade para as áreas residenciais, para o campo, para a Nova Inglaterra ou a Califórnia. O jornal New York Post encorajou os medos distópicos com manchetes como “Onda de crimes em Nova York atinge novo ápice”. As pessoas perderam suas casas, outras muitas, cada vez mais, vivem nas ruas. Vitrines e restaurantes estão vazios. Cadeiras e mesas viradas se tornaram imagens fossilizadas nas janelas. Minha dentista em Manhattan me disse que seus colegas querem comprar armas. O que você disse a eles, perguntei a ela. Que eles deveriam comprá-las, ela respondeu. O marido dela sobreviveu à guerra no Kosovo, ele diz que seria tolice não ter armas.

Um fotógrafo de guerra e um amigo me disseram que eu deveria ter uma bolsa de emergência com itens de sobrevivência sempre pronta. Ele acha que nós, pessoas da cidade, somos idiotas por não termos armas. Uma autora e amiga minha em Charlottesville, na Virgínia, me disse que o sentimento em comunidades de baixa renda é que a turba está vindo e só suas armas poderão protegê-los. Ela disse que o verão de 2017 em Charlottesville foi o nosso Forte Sumter, a primeira geração de um vírus que está se transformando. Quando um grupo da Ku Klux Klan apareceu na manifestação, a polícia estava de costas para eles. Quem eles tinham em sua frente? Os cidadãos que vieram protestar contra esses avatares do poder branco violento. Eles cantavam: os policiais e a Klan andam de mãos dadas. E quando a KKK saiu, os policiais lançaram gás lacrimogêneo contra os manifestantes anti-KKK como se dissessem: sim, andamos. Isso foi dois anos antes da morte de George Floyd deflagrar exigências para cortar recursos da polícia. Afinal, quem eles estão defendendo? A KKK? Os Proud Boys? Os manifestantes? Os espectadores? O seu próprio poder?

Documentos do FBI divulgados recentemente provam que extremistas de direita estão se infiltrando e recrutando dentro da polícia. Daryl Johnson, um agente encarregado de investigar terrorismo doméstico no Departamento de Segurança Interna há onze anos, foi expulso por suas descobertas inconvenientes de que o terrorismo extremista de direita é muito mais perigoso para a pátria do que terroristas islâmicos. A história recente em Las Vegas, El Paso, Gilroy e Charleston apenas prova seu argumento, um ponto de vista que ele agora apresenta em livros, artigos, entrevistas, para qualquer um que queira ouvir. Centenas de milhares de extremistas do poder branco bem armados são agora plenamente conhecidos. Seus atos violentos são consagrados nas redes sociais e anunciados pelo presidente. Eles têm novos líderes carismáticos. Eles têm objetivos claros. Eles têm uma narrativa de queixas históricas e um destino compartilhado: o poder branco. Eles têm as bíblias dos supremacistas brancos. Suas teorias conspiratórias estão aderindo a siglas como TEOTWAKI: The End of the World As We Know It (O fim do mundo como o conhecemos). Todos eles poderiam ser chamados de filhos dos Diários Turner.

Os EUA não partilham um contexto político ou história com a Bósnia. Mas aí há a natureza humana, como recorremos à negação para sobreviver, o tribalismo sob ameaça e como é difícil deixar de lado o pior em nós mesmos.

Moradores de Erie e Union City, na Pensilvânia, dizem a um repórter do New York Times que pessoas de ambos os “lados” estão preparadas para agir com violência caso o candidato oposto vença. Apoiadores de Biden e Trump vivem ao lado uns dos outros. Alguns são da mesma família. Todos eles se conhecem. E todos estão dizendo: esqueça os tribunais. A desordem está prestes a atingir as ruas. Porque todos estão armados. Apoiadores de Trump dizem que uma vitória de Biden seria um golpe marxista-socialista — a retórica da extrema direita agora está nas massas. Apoiadoras de Biden, como Mary Jo Campbell, dizem morrer de medo. Após Trump ser eleito, ela e suas amigas começaram um grupo chamado “The Drinking Girls” em que pudessem se encontrar, beber, planejar, conversar. Durante a pandemia, minhas amigas, e eu tenho certeza de que milhares de outras, recorreram a reuniões para beber no Zoom por razões parecidas.

Eu fico olhando para os retratos de Campbell e outras pessoas de Erie feitos pela fotógrafa Libby March. Os rostos — exaustos, marcados pela ansiedade, endurecidos. Eles me lembram os homens e mulheres na região central da Bósnia, onde a guerra chegou primeiro e onde todo mundo mantinha um AK-47 ou uma espingarda na porta. É impossível imaginar vizinhos e amigos uns contra os outros. Até que não é mais.

Eu estou tentando não ser teimosa, mas ser uma Cassandra não traz absolutamente nada de bom. E é irritante. Uma amiga minha que saiu do Irã quando tinha 9 anos de idade chocou-se com minhas comparações com Sarajevo. “Quando alguém compara países completamente diferentes que não partilham nenhuma história, eu paro de escutar. Aquilo nunca vai acontecer aqui.” Eu concordo, em parte. Os Estados Unidos não partilham um contexto político ou história com a Bósnia. Mas aí há a natureza humana, como recorremos à negação para sobreviver, o tribalismo quando estamos sob ameaça e como é difícil deixar de lado o pior em nós mesmos.

Os dois lados passaram a representar muito mais do que são capazes de suportar e agora se enfrentam como as forças da luz e das trevas sobre Gondor. Só que cada lado pensa que o outro é que é a escuridão. Pessoas que deveriam se unir por classe econômica são divididas pela cor da pele. A ideia de que um lado é elitista e o outro pertence à classe trabalhadora é uma falácia. Basta olhar para o elitismo do atual presidente. Ou para a miríade de classes trabalhadoras que compõem o Partido Democrata, dito elitista. Ainda assim, quando encontramos estranhos, sabemos quase instintivamente quem é um apoiador de Trump e quem apoia Biden. Quem é o outro. Quem é odiável, deplorável, dispensável. A linguagem da outridade escapa facilmente da boca neste momento tenso. Estamos no meio de uma reorganização inexorável. A história se move não como uma flecha, mas como um bumerangue, escreveu Ralph Ellison. E ninguém sabe para onde ela vai. O que se sabe é que nenhum de nós pode escapar da história.

Nova-iorquinos em um fim de semana quente no Parque Prospect, no Brooklyn, em 2 de maio de 2020.

Foto: Andrew Lichtenstein/Corbis/Getty Images

Eu poderia ficar por aqui. Exceto que prefiro finais de comédia, não tragédia.

O parque do meu bairro no Brooklyn ganhou vida como nunca antes: é uma academia ao ar livre, uma pista de dança ao ar livre, as pessoas trazem seus tapetes de ginástica e um telefone para seus treinamentos online de alta intensidade ou uma aula de ioga. As pessoas estão fazendo kickboxing, pulando corda, suando sob o monumento aos mártires do navio-prisão britânico. Eu assisto a equipes de filmagem formadas por uma mulher só, gravando seus amigos para um vídeo do TikTok. A vida noturna também se mudou para o parque: piqueniques, pequenas festas, um casal enrolado em um cobertor porque não há outro lugar para ir. Cada forma, cor e tamanho se misturam no parque. Recentemente, notei que o zumbido e a ameaça de um gerador e refletores policiais sumiram. Embora estivessem lá ostensivamente para oferecer segurança, o barulho e o brilho perseguiam, criando uma atmosfera ameaçadora de um filme distópico sobre vigilância, anomia e o fim do mundo. Sua ausência trouxe calma, alívio e festa. E foi substituído por sessões noturnas de bateria.

Eu amei a coluna de Jerry Seinfeld sobre como nova-iorquinos de verdade aguentam firme, refutando e satirizando um colega nova-iorquino e dono de um clube de comédia reclamando no LinkedIn que a cidade está morta, seus amigos fugiram e ele está se mudando para Miami. Imagine estar em uma guerra real com esse cara, escreveu Seinfeld.

No dia após ler a coluna, eu estava conversando com uma amiga que escreveu um dos livros definitivos sobre as guerras na Iugoslávia.

“Temos que ficar”, eu disse.

“É claro que vamos ficar”, ela disse. “Para onde nós iríamos?”

E então ela disse: “vamos ser como as pessoas de Sarajevo”.

Mesmo que Joe Biden vença, as divisões que estão dilacerando este país não irão embora. Mas isso não significa que seguiremos o caminho dos Bálcãs e nos encontraremos no cerco de Sarajevo. Esse é o cenário de pesadelo. Há milhões de pessoas, a maioria na realidade, que deseja encontrar uma maneira de superar as divisões e enfrentar a mudança drástica que a história está exigindo.

Em um sonho recente, entro em uma festa em Sarajevo. Pretendo surpreender Vera. Não nos vemos há duas décadas. Ela está no sofá. Parece zangada. Por que você não me disse que estava vindo, ou isso é apenas uma coincidência porque você queria ir a uma festa? Não, não, não, digo, atordoada com sua raiva. Eu nem conheço essas pessoas, digo a ela. Ela me abraça com tanta força. Nós duas estamos chorando, em frente a uma lareira. A sala se transforma em pedra. O teto recua, com altura de catedral. Está tão escuro. Pego minha filha pela mão para mostrar-lhe o quarto sem janelas onde eu dormia, mas ela está me puxando para longe, quer ir conversar com as crianças lá fora. Ela diz algo sobre um novo amigo, Methody. Do lado de fora do prédio de Vera, vejo um velho curvado com longos cabelos grisalhos e uma bengala. É o Sr. Methody, o filósofo-pai da multidão. Todos olham para ele, mas ele continua se manifestando em diferentes lugares. Ele sussurra para mim: a estrutura das coisas é difícil. Estes não são tempos normais. Os átomos e estruturas. Não é um momento de causa e efeito normal. Então ele desaparece.

Este artigo teve o apoio da organização jornalística sem fins lucrativos Economic Hardship Reporting Project.

Tradução: Maíra Santos