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Donald Trump sai após falar em um evento no Edifício do Escritório Executivo Eisenhower, em Washington, D.C., em 19 de dezembro de 2019.

Foto: Al Drago/Bloomberg/Getty Images

AGORA SABEMOS que Joe Biden será o próximo presidente dos Estados Unidos — a menos que algo verdadeiramente estranho aconteça. Parece importante incluir essa advertência, considerando como foram os últimos anos. Então, vamos lembrar que Biden pode morrer em função de um vício em suco de cenoura. Ele poderia dar um passeio no deserto do Arizona, atirar em um cacto de 18 metros de altura com sua arma, e então morrer quando o cacto danificado tombasse sobre ele. Ele pode ser esmagado por um pedaço de “gelo azul”, vindo do banheiro de um avião, caindo do céu enquanto ele faz o juramento de posse nos degraus do Capitólio.

Mas, não importa o que aconteça, a era Trump agora chegou ao fim ou, na pior das hipóteses, entrou em um hiato. Ao olhar para os últimos quatro anos, há uma coisa que pode ser dita com certeza: toda a América enfrentou um grande teste histórico e quase toda a América falhou completamente.

Trump falhou

Donald Trump fez as pessoas se perguntarem pela primeira vez na história: é possível que haja um fascista preguiçoso?

Antes de Trump, parecia óbvio que os fascistas estavam cheios de vigor, sempre disponíveis para uma grande manifestação iluminada por tochas à meia-noite. Trum claramente tem os instintos de um fascista: uma ânsia de poder, crueldade contra grupos de fora, e a romantização de um passado que nunca existiu. Mas ele também não consegue executar nenhum plano que exija mais de cinco segundos de esforço. Você é um fascista se deseja vagamente ser o Líder Supremo, mas isso parece ser muito trabalhoso, e sua principal prioridade é recuperar todas as horas do programa “Fox & Friends” que você tem gravadas?

Na verdade, a incompetência básica de vida de Trump é tão extrema que é incrível que ele tenha ido à falência apenas seis vezes. Como presidente, ele não conseguiu fazer as coisas mais simples em nome de seu interesse próprio imediato.

Por exemplo, o governo dos EUA tinha planos detalhados e muita expertise para lidar com o aparecimento de algo como o novo coronavírus. Tudo o que Trump tinha que fazer era nomear uma figura parecida com Colin Powell para supervisionar tudo, e então sair do caminho. Isso quase certamente teria levado à sua reeleição. Mas ele não conseguiu fazer isso, porque ele é apenas um pequeno protoplasma ligado a um ego do tamanho do universo. Era mais importante para ele estar em frente às câmeras todos os dias, meditando sobre como os principais cientistas dos EUA ficaram impressionados com sua compreensão intuitiva da microbiologia.

Trump também não conseguiu se organizar para promover outro pacote de resgate econômico. Era desesperadamente necessário, os democratas queriam, os republicanos poderiam ter sido intimidados a votar nele, e há poucas coisas mais populares em um ano eleitoral do que dar dinheiro às pessoas. Em vez disso, Trump passou seu tempo cada vez menor no escritório tuitando sobre Bill Maher, lindas lagostas do Maine, e a Patio Pizza em St. James, Long Island.

É verdade que o governo Trump conseguiu implementar políticas que arruinaram a vida de muitas, muitas pessoas. Mas isso ocorreu em questões que o próprio Trump apenas teve que assinar papéis colocados diante dele pelo pequeno número de seus subordinados que são minimamente competentes.

Dito isso, há uma área em que Trump não falhou. Todo mundo tem um mapa mental do mundo dentro de sua cabeça. Pessoas mentalmente saudáveis ajustam seu mapa interior quando percebem que ele não corresponde à realidade. Pessoas mentalmente doentes tentam forçar a realidade a mudar para combinar com o que está dentro delas. Trump, que está pululando de ódio e medo, tem se dedicado com sucesso a multiplicar a quantidade de ódio e medo no mundo fora de sua cabeça.

Os republicanos falharam

A parte mais assustadora da presidência de Trump não foi o próprio Trump, mas o apoio servil que outros políticos republicanos deram a cada ação sua. Agora sabemos com certeza que não há nada que um presidente republicano possa fazer de tão grotesco que o resto do partido não entre na linha para apoiá-lo.

O exemplo mais notável disso já foi amplamente esquecido: no início de seu mandato, Trump poderia ter facilmente, por acidente ou de forma intencional, iniciado uma guerra nuclear com a Coreia do Norte. Especialistas da época acreditavam que as chances de guerra com a Coreia do Norte estavam entre 20% e 50%, e o próprio Trump disse mais tarde a Bob Woodward que a guerra tinha sido “muito mais próxima do que qualquer um poderia imaginar”.

Donald Trump fez as pessoas se perguntarem pela primeira vez na história: é possível que haja um fascista preguiçoso?

Anteriormente, os EUA planejavam só responder a agressões da Coreia do Norte contra a Coreia do Sul ou o Japão. Conforme relatado no livro “The Bomb”, de Fred Kaplan, Trump exigiu que o Pentágono produzisse um plano de guerra de primeiro ataque que pudesse ser usado simplesmente se os EUA sentissem que as ações da Coreia do Norte eram ameaçadoras. Ele não começava com o uso de armas nucleares pelos EUA, mas é plausível que se intensificasse até esse ponto.

A retórica insanamente ameaçadora de Trump sobre “fogo e fúria como o mundo nunca viu” também aumentou a possibilidade de a Coreia do Norte acreditar que teria que atacar primeiro para evitar um ataque dos EUA. A situação teria sido especialmente perigosa se as autoridades americanas tivessem seguido a ordem de Trump no início de 2018, para evacuar as famílias dos militares americanos da Coreia do Sul. Felizmente, o então secretário de Defesa, James Mattis, foi capaz de dissuadir Trump disso.

No entanto, nada disso perturbou o Partido Republicano. O senador Jim Risch, de Idaho, mencionou casualmente em um evento na Alemanha que Trump estava disposto a iniciar “um dos piores eventos catastróficos da história de nossa civilização. … O fim disso vai ver vítimas em massa como o planeta nunca viu”. Isso fez com que os republicanos quisessem tirar essa opção das mãos de Trump e devolver o poder de fazer guerra ao Congresso, como dita a Constituição? Não.

Então, dado que os republicanos estavam felizes em deixar Donald Trump acabar com a civilização humana, podemos entender por que tudo o mais que Trump fez também lhes pareceu ok.

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Um boné de cerâmica com os dizeres “Make America Great Again” (“Torne a América Grande Novamente”) quebrado no chão da Black Lives Matter Plaza, em Washington, D.C., durante a eleição presidencial, em 3 de novembro de 2020.

Foto: Eric Lee/Bloomberg/Getty Images

Biden falhou

O slogan mais apropriado para a campanha de Biden até a metade do ano teria sido “Biden 2020: ele está por aqui em algum lugar”.

O ambiente da campanha de 2020 foi similar ao de 12 anos atrás. Antes da eleição de 2008, Wall Street implodiu em um pântano de siglas confusas. Com George W. Bush já com a cabeça fora da Casa Branca e e John McCain obviamente perdido, Barack Obama foi capaz de se tornar presidente na mente dos americanos antes que alguém votasse, simplesmente agindo como um adulto que entende o que está acontecendo.

Da mesma forma, com Trump abdicando totalmente de qualquer liderança no coronavírus, Biden poderia ter facilmente entrado no vácuo. As pessoas queriam informações básicas, atualizações e garantias de que havia autoridades em algum lugar que sabiam o que estavam fazendo. Mas, em vez de oferecer um contraste calmo e forte com Trump, Biden parecia vagar, sem fazer muita coisa.

Esse era um lugar em que Biden poderia ter feito a coisa certa, sem violar seus instintos centristas ou deixar os doadores milionários ansiosos. Mas ele nem tentou.

Os democratas falharam

Você consegue acreditar que Joe Biden perdeu a Flórida, mesmo quando os eleitores aprovaram por maioria uma medida eleitoral para aumentar o salário mínimo estadual para US$ 15 por hora? Você deveria, já que John Kerry perdeu a Flórida em 2004 por uma margem maior do que Biden, mesmo que um aumento semelhante no salário mínimo tenha vencido na época por 71% a 29%.

Os democratas não conseguiram tornar essa política básica e incrivelmente popular uma parte de sua marca, mesmo quando confrontados com Trump.

Uma década de trabalho de ativistas forçou Biden a incluir um salário mínimo federal de US$ 15 por hora em sua plataforma. Mas muitos eleitores, na Flórida e em outros lugares, não sabiam disso. Muitos outros sabiam disso, mas não acreditavam que os democratas lutariam genuinamente por isso. Os democratas não conseguiram tornar essa política básica e incrivelmente popular uma parte de sua marca, mesmo quando confrontados com Trump, cuja convicção central é que os bilionários americanos não são ricos o suficiente.

A razão para isso é simples: os democratas não representam, em sua maioria, os 90% mais pobres dos americanos. Em vez disso, os partidos Republicano e Democrata são dirigidos por e para diferentes seções das elites dos EUA. Os democratas, portanto, não podem defender de forma clara e poderosa políticas que prejudicariam suas elites. Isso os incentiva a vagar por becos sem saída bizarros como o Russiagate, onde a proporção do esforço despendido em relação à significância do tema se aproxima do infinito.

A mídia corporativa falhou

A mídia corporativa não existe para dizer a verdade às pessoas, assim como motosserras não existem para escovar os dentes. Você pode limpar seus dentes com uma motosserra, mas só se for extremamente cuidadoso. Se você simplesmente enfiá-la na boca todas as manhãs, ficará desapontado com o resultado.

O mesmo nível de cuidado é necessário para obter algo da mídia corporativa. Seu objetivo é ter o máximo de lucro possível, e dizer a verdade geralmente não apenas não é lucrativo, como ativamente anti-lucro.

A imprensa corporativa normal viu a eleição de Trump como um tremendo choque para o seu sistema. Acontece que muitas, muitas pessoas detestam a mídia — por algumas razões legítimas e também por muitas razões ilegítimas. A imprensa corporativa poderia ter aproveitado a ocasião para repensar tudo sobre como ela funciona. O jornalista William Greider, já falecido, certa vez imaginou uma mídia transformada com “editores com diferentes tipos de habilidades (talvez mais como um organizador político ou um padre) e repórteres equipados para fazer um tipo diferente de notícias — histórias que começam respeitosamente com o que as pessoas precisam entender e se concentrar como cidadãos, não com a agenda governamental das autoridades superiores.”

Mas a motivação do lucro significa que isso nunca acontecerá. Em vez disso, a imprensa corporativa viu Trump na Casa Branca e decidiu fazer exatamente o que fazia antes — ou seja, tentar obter o máximo de lucro possível — mas agora com hipocrisia extra.

Alguns consolos

Nem tudo visto nos últimos quatro anos foi sombrio. A resistência imediata a Trump nas ruas — aparentemente espontânea, mas na verdade construída com base na organização política de longo prazo fora dos dois partidos — ajudou a bloquear ações ainda mais flagrantes de seu governo. O ressurgimento do #BlackLivesMatter fez dele, como Noam Chomsky o chamou, “o maior movimento social da história americana, com apoio muito além de qualquer coisa já registrada no passado”.

Enquanto isso, as deputadas Alexandria Ocasio-Cortez, Ilham Omar, Rashida Tlaib e outros demonstraram que há mais fendas na armadura da política formal do que as pessoas de dentro querem que você acredite. Na verdade, o Squad e companhia realizaram tanto com recursos tão escassos que isso sugere que o sistema é incrivelmente decrépito e podre — tanto que um bom empurrão pode causar o colapso de grande parte dele.

Mas, embora as possibilidades diante de nós sejam reais, não devemos nos enganar sobre o que aprendemos a respeito desse país durante o pesadelo do Tempo de Trump. Não há adultos benevolentes no comando. Qualquer coisa pode acontecer. A hora de começar a lutar para prevenir um Trump futuro e ainda mais assustador é agora.

Tradução: Maíra Santos