Marmitex-17.08.20

Muito arroz, algum feijão, acompanhamentos escassos e nenhuma hortaliça fresca. Essa é a dieta que a USP oferece aos residentes do Crusp, alguns de seus alunos mais pobres.

Foto: Arquivo Pessoal

A Universidade de São Paulo, a USP, paralisou suas atividades presenciais em março, ainda no início da pandemia de covid-19 no Brasil. Salas de aulas e laboratórios foram fechados, e a maioria dos alunos passou a se relacionar com o ambiente acadêmico de casa. Mas um pequeno grupo deles não teve outra opção além de ficar na cidade universitária: os moradores do Conjunto Residencial da USP, o Crusp.

Trata-se de um grupo de 350 pessoas – entre estudantes de graduação e pós-graduação, às vezes com filhos – que passou a depender do serviço da Superintendência de Assistência Social da USP para tudo. Inclusive comer. É aí que está o problema: parte desses estudantes, que vive em situação de vulnerabilidade social e não teve para onde ir durante a pandemia, está passando fome.

Uma pesquisa feita com os estudantes que seguiram morando no Crusp com a universidade fechada revela que metade dos que responderam disse fazer apenas duas refeições diárias, e 25% disseram ter passado ao menos um dia inteiro com apenas uma refeição – ou sem comer nada.

Nada menos que 85% dos que responderam à pesquisa estão em situação de insegurança alimentar. O risco é medido pelo questionário da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, que avalia, por exemplo, se nos últimos 90 dias alguém ficou sem comida em casa antes de ter dinheiro para comprar mais ou se algum adulto da casa passou a comer menos ou a pular refeições por falta de dinheiro para os mantimentos.

A pesquisa foi respondida por 84 pessoas, o equivalente a 24% dos alunos que atravessam a pandemia no Crusp. A maior parte de quem respondeu se identificou como mulher (56%), preto ou pardo (52%) e tem entre 19 e 29 anos (61%). Os resultados foram entregues ao Intercept após os pesquisadores terem tentado, sem sucesso, reuniões com o alto escalão da USP para tratar do problema.

A pesquisa foi organizada por Tânia Araujo, doutora em saúde pública e ex-moradora do Conjunto Residencial da USP, e Daniel Vasconcelos, doutorando em Geografia na universidade e ainda morador do Crusp.

Com a pandemia, a dinâmica da alimentação dentro da USP mudou. Os restaurantes universitários, em que uma refeição custa no máximo R$ 2, foram fechados para cumprir as demandas de isolamento social. Para suprir a falta dos RUs, como são chamados pelos estudantes, a Universidade de São Paulo passou a distribuir marmitas para os moradores do Crusp.

“A fome é o último ponto da insegurança alimentar”, me explicou Araujo. Até chegar nela, a vítima já passou por uma série de vulnerabilidades, que podem ser medidas por instrumentos como a pesquisa feita por ela e Vasconcelos.

Tem cozinha, mas não fogão

O Crusp é um conjunto de oito prédios de seis andares e arquitetura modernista típica dos anos 1960 localizados no maior campus da USP, no Butantã, sudoeste de São Paulo. Para ter direito a morar no ali, os estudantes passam por uma análise socioeconômica em que quem é mais pobre e vulnerável tem preferência na disputa pelas vagas disponíveis. Ao todo, são 1.600 moradores no conjunto, mas nem todas as vagas são abertas todo ano.

Os apartamentos, de 40 metros quadrados em média, não possuem cozinhas. Em vez disso, os prédios foram projetados com cozinhas comunitárias, imaginadas para que os estudantes pudessem preparar as próprias refeições coletivamente.

Mas, na prática, a falta de manutenção fez com que não restasse cozinha comunitária alguma. Os espaços sofrem com goteiras, infiltrações e fogões que raramente funcionam. Assim, ao menos desde 2019 usá-los não é uma opção para quem vive no Crusp. A universidade foi questionada sobre isso, mas se esquivou. Afirmou simplesmente que “por recomendação dos agentes de saúde municipais, as cozinhas comunitárias, como o próprio nome diz, são lugares de aglomeração e, portanto, de insegurança em saúde durante a pandemia”.

Uma das cozinhas comunitárias do Crusp: fogão inutilizável e pias sem encanamento.Fotos: Arquivo Pessoal/Moradores CRUSP

Sem RU e sem cozinhas comunitárias, restou aos alunos mais vulneráveis da USP confiarem nas marmitas que a Assistência Social da USP se comprometeu a distribuir. Mas a má qualidade da comida que vem nelas é tamanha que alguns preferem abrir mão.

“A qualidade das marmitas que estão distribuindo é péssima, no geral prefiro me alimentar em casa, mesmo que em menor frequência, do que buscar as marmitas”, relatou um dos moradores que respondeu à pesquisa.

As quentinhas de alumínio chegam aos estudantes recheadas invariavelmente com arroz, feijão e uma opção de acompanhamento. Vegetarianos e veganos reclamam dela ser sempre a mesma: proteína texturizada de soja. “Sou vegetariana e fico limitada ao pvt, que me faz mal. Não consigo comprar variedade de alimentos por motivos financeiros e de [falta de espaço para] armazenamento adequado [no Crusp]”, respondeu outra aluna.

Diferente dos restaurantes universitários, que funcionam em sistema de bufê em que os alunos podem escolher a quantidade de cada alimento que irão comer, nas marmitas essa opção não existe. Em grupos de moradores do Crusp em redes sociais, sobram críticas sobre o excesso de arroz, bem como receitas para aproveitar as sobras e evitar o desperdício.

Outros alimentos, ao contrário, são servidos em pouca quantidade. Além disso, hortaliças frescas nunca aparecem no cardápio, ao contrário do que recomendam nutricionistas. “Minha alimentação mudou porque as marmitas fornecidas tiveram a quantidade de salada muito reduzida, além de não ter mais a opção de arroz integral”, apontou outro aluno que respondeu à pesquisa.

Em resposta ao Intercept, a USP disse que “a empresa responsável pelo fornecimento de refeições prepara o café da manhã, o almoço e o jantar sob um controle de qualidade altíssimo”. “As nutricionistas são profissionais qualificadas e competentes, de modo que o cardápio é formulado e balanceado segundo critérios normativos rigorosos”, e “o controle de qualidade segue rigorosas normas vigentes”, afirmou. A instituição não respondeu, porém, sobre a falta de variedade e de hortaliças frescas reclamada pelos estudantes.

Há ainda outro problema: a fila no horário de entrega das marmitas, concentrada em apenas um dos três restaurantes universitários da USP (o único cuja administração é terceirizada). O esquema desrespeita as orientações do governo de São Paulo (a quem a USP é vinculada) para isolamento durante a pandemia.

A situação é tão delicada que as dezenas de alunas e alunos que vivem no Crusp com os filhos acabaram por conseguir um acordo com a universidade para receber a marmita em casa – o que é uma espécie de recibo assinado pela USP de que a fila de entrega não obedece aos cuidados necessários contra o coronavírus.

Embora a capital esteja na fase verde do plano de retomada às atividades não-essenciais, o governador João Dória segue a pedir “cuidado, cautela e zelo” para que se evitem novas infecções – tudo que a USP não teve.

Confrontada, a USP disse que tomou medidas para evitar riscos na distribuição de marmitas, como demarcação do piso para orientar os estudantes em fila. Garantiu, ainda, que atualmente as pessoas não esperam por mais de cinco minutos pela comida.

Risco de incêndios

Sem opção diante da má qualidade das marmitas da USP e da falta de estrutura das cozinhas comunitárias, alguns alunos conseguiram economizar para comprar pequenos fogões elétricos para improvisar cozinhas em seus apartamentos.

Um aluno de pós-graduação que falou conosco, mas cujo nome preservamos para evitar que ele sofra retaliação, é um desses. Apesar do improviso, ele considera que está se alimentando melhor até mesmo do que nos tempos de RU aberto. “Comprei o fogão no começo da quarentena e tenho cozinhado em casa. A USP não melhorou a estrutura das cozinhas do Crusp como prometeram, então ele tem me salvado”, ele relatou.

Não é o único caso. Nos formulários da pesquisa de Araujo e Vasconcelos, outros estudantes contaram ter recorrido aos fogões elétricos.

“Tivemos que comprar um fogão elétrico para conseguir cozinhar em casa, visto que a comida do bandejão não supre minhas necessidades nutricionais (minha alimentação é vegana) e as cozinhas [comunitárias] não funcionam como deveriam”, afirmou um dos alunos. “De vez em quando preparo minha refeição em casa usando o fogão elétrico que tive que comprar, já que no meu prédio nenhum fogão da cozinha comunitária está funcionando”, explicou outro.

Os fogões elétricos, no entanto, são também um problema. Além de obrigar os alunos a comprarem os ingredientes que irão cozinhar em meio a uma crise que elevou o valor de alimentos básicos como o arroz, os fogões elétricos aumentam um risco já conhecido no Crusp: o de incêndios.

Com pontos sem manutenção há mais de 20 anos, os apartamentos do Crusp podem não aguentar a carga elétrica demandada pelos fogões dos alunos, especialmente se muitos forem usados ao mesmo tempo. Sobrecarregada, a rede elétrica pode entrar pegar fogo. Em setembro de 2017, um incêndio atingiu um apartamento no quarto andar do Bloco G do conjunto. O alarme de incêndio, segundo relatos dos moradores, demorou para tocar e, quando finalmente funcionou, soou baixo. Por sorte, os próprios alunos avisaram uns aos outros a tempo de evacuarem o prédio, e ninguém se feriu. À época, um morador do apartamento em que o fogo começou disse que não havia velas, incenso ou nada que pudesse ocasionar o incêndio.

Perguntada sobre quando foi feita a última reforma ou revisão das instalações elétricas do conjunto residencial, a USP não respondeu. Disse, apenas, que a Superintendência de Espaço Físico da universidade “está com processo adiantado para realizar obras de reformas no Crusp”.

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O Crusp, na cidade universitária: construídos na década de 1960, prédios estão com manutenção defasada Questionada, USP não respondeu quando houve a última reforma ali.

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A reitoria finge que não vê

Os pesquisadores Araujo e Vasconcelos são cientistas formados pela USP. Antes de aplicar a pesquisa aos moradores do Crusp, obtiveram o aval do Comitê de Ética da Faculdade de Saúde Pública da instituição.

Ainda assim, a reitoria da USP preferiu ignorar o problema apontado pela pesquisa de seus próprios pesquisadores e a má qualidade de vida que vem proporcionando a seus alunos. E-mais trocados entre os pesquisadores a Superintendência de Assistência Social, ligada à estrutura administrativa da reitoria da universidade, foram compartilhados na íntegra com o Intercept.

A primeira troca de e-mails entre os pesquisadores e a Superintendência de Assistência Social tratava de um pedido de acesso aos endereços eletrônicos dos residentes do Crusp. Era um pedido usual: diversas divisões da USP costumam enviar e-mails aos alunos. Neste caso, porém, o pedido foi negado – os dados dos moradores não foram cedidos aos pesquisadores.

Após aplicados os questionários, os pesquisadores contataram a Superintendência de Assistência Social com a intenção de marcar uma conversa virtual para tratar dos resultados.

A USP sequer se deu ao trabalho de responder o pedido de conversa enviado por pesquisadores da própria universidade. Passados 15 dias, os pesquisadores tentaram novo contato – dessa vez, avisando que, se seguissem a ser ignorados, acionariam a ouvidoria da universidade e a imprensa.

Foram, então, prontamente respondidos pela nutricionista responsável pela divisão de alimentação da Superintendência de Assistência Social. Mas a resposta não foi satisfatória. “O conteúdo da pesquisa, abordado nos e-mails anteriores, não trata somente da oferta de refeições pelos restaurantes universitários”, argumentou Vasconcelos. A nutricionista-chefe pediu acesso completo à pesquisa e, diante da negativa dos pesquisadores, solicitou que eles encaminhassem uma denúncia por escrito.

Em resposta ao Intercept, a USP diz que segue aberta a conversar com os pesquisadores, contanto que eles encaminhem antecipadamente o projeto da pesquisa. Desde o primeiro contato os pesquisadores já haviam disponibilizado à universidade dados preliminares e a aprovação do Comitê de Ética da Faculdade de Saúde Pública da USP. Para a SAS, não é o suficiente.

“Esse pedido [da íntegra da pesquisa] foi feito porque a interpretação de resultados de uma pesquisa científica é feita à luz da metodologia empregada. Assim sendo, para discutirmos os resultados, é fundamental conhecermos os detalhes metodológicos, que os pesquisadores recusaram-se a apresentar”, argumentou a USP, na resposta.

Confrontada por mim com a posição da universidade, Araujo rebateu. “Somos pesquisadores formados pela USP, conhecemos todas as etapas do processo científico e nos baseamos nelas para chegar aos resultados. Mas, para além disso, nos preocupamos com as pessoas que relataram [passar] fome, ao contrário da SAS, que em nenhum momento quis saber quem são esses estudantes”, disse ela. A cientista lembrou, ainda, que a pesquisa teve aval do Comitê de Ética em Pesquisa da USP.

Dois meses após a pesquisa de Araujo e Vasconcelos ser finalizada, a USP encaminhou e-mail aos alunos pedindo a participação deles numa pesquisa sobre hábitos e insegurança alimentar na comunidade acadêmica. Todos os alunos matriculados na universidade foram encorajados a participar.

Apoiada pela reitoria, esta nova pesquisa foi conduzida pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Em Vasconcelos e Araujo, ficou a impressão de que o novo levantamento surgiu para minimizar os resultados auferidos no deles, uma vez que os moradores da Crusp são pouco mais de 2% do total de alunos da USP.

Vahan Agopyan, reitor da USP, culpa estudantes pela falta de manutenção do Crusp. Sem apresentar provas.

O descaso da Universidade de São Paulo com o Crusp ficou evidente com a pandemia de covid-19, mas está longe de ser uma novidade. Numa reunião do Conselho Universitário, em março de 2019, Vasconcelos, que ocupava à época o assento de representante dos alunos de pós-graduação, apresentou o estado do alojamento estudantil ao reitor Vahan Agopyan.

As fotos e vídeos exibidos na apresentação de slides mostravam casos de infiltração dentro dos apartamentos e nas demais instalações do Crusp, além de faltas de equipamentos necessários à manutenção digna da estadia dos estudantes – fogões que não funcionam, pias sem torneiras e máquinas de lavar quebradas.

Em resposta ao que acabara de ver, Agopyan preferiu culpar os estudantes. O reitor disse que eram eles que impediam a Superintendência de Assistência Social de fazer as reformas necessárias.

Perguntamos à universidade o que exatamente Agopyan quis dizer e quais reformas foram impedidas pelos moradores do Crusp. A USP respondeu dizendo que “um dos maiores problemas enfrentados pela equipe de zeladoria e manutenção do Crusp são os atos de vandalismo, depredação e furto em relação às instalações e equipamentos do Crusp”. Ou seja, a instituição se esquivou de tratar das acusações do reitor à comunidade estudantil.

Na mesma reunião em que Vasconcelos mostrou imagens do estado das áreas comuns do Crusp, o Conselho aprovou a venda de imóveis da USP cujo valor é estimado em mais de R$ 10 milhões. Mas dinheiro não era o problema, segundo Agopyan. “Nós estamos com recursos que recolhemos ano passado, esse ano vamos continuar recolhendo recursos, reservando recursos para manutenção”, disse o reitor à época.

Passados um ano e sete meses, nenhuma reforma foi feita.