Ilustração: The Intercept Brasil; Getty Images

Causou frisson a revelação da Folha de S.Paulo de que o ex-juiz e ex-ministro bolsonarista Sergio Moro e o apresentador global Luciano Huck almoçaram juntos em 30 de outubro passado na varanda do duplex de Moro no Bacacheri, bucólico bairro de classe média de Curitiba.

Mas a relação íntima entre ambos é bem mais antiga. Vem, ao menos, desde abril de 2018. Huck e Moro tiveram um outro convescote privado há dois anos e meio, revelou numa breve nota o repórter Roberto José da Silva, o Zé Beto, ex-correspondente da revista Placar (em seus anos áureos) em Curitiba e atualmente titular de um blog sobre política local em Curitiba.

Eu fui atrás de mais detalhes e procurei Moro e Huck. O ex-ministro bolsonarista confirmou o almoço; o global preferiu não fazer comentários, mas não se atreveu a negar o encontro que se deu numa sexta-feira, 27 de abril de 2018. Naquela manhã, o apresentador tinha gravações de um quadro de seu programa de televisão em Colombo, região metropolitana de Curitiba.

Aproveitou para pedir uma conversa privada com Moro. A pedido de Huck, foi agendada mesa numa sala reservada, longe da vista dos demais comensais, no Vindouro, um misto de loja de vinhos finos e bistrô elegante que ocupa uma casa discreta no Juvevê, bairro de classe média alta da capital.

O local não foi escolhido por acaso. O Vindouro tem salas privativas e está localizado a pouco menos de 1,5 quilômetro de distância da sede da Justiça Federal em Curitiba. Àquela época, Moro era juiz da Lava Jato.

A provinciana cidade fervia com a recente chegada do preso mais ilustre de sua história: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em 5 de abril, 22 minutos após o Tribunal Regional Federal da 4ª Região autorizar a execução provisória da pena de Lula, Moro mandou prendê-lo. O petista se entregou na noite de 7 de abril. Vinte dias depois, Huck e Moro estavam frente à frente no Vindouro.

Sobre a mesa, um lombo de bacalhau escoltado por batatas ao murro. A mim, Moro jurou que o almoço foi um pedido de Huck e “encontro meramente social”. Mas, a menos que Huck estivesse curioso para saber quais as favoritas do magistrado na discografia do Capital Inicial ou segredar-lhe os últimos bafos do Projac, é difícil acreditar. Por um motivo: faltavam três dias para que Huck se confrontasse com o Dia D de sua candidatura presidencial.

É claro, portanto, que o prato principal foi a conjuntura político-eleitoral, de que Moro era ator principal. O apresentador ensaiava disputar o Planalto desde o início de 2017. Foi encorajado por figuras como Fernando Henrique Cardoso e o economista Armínio Fraga. Mas, num artigo em que se comparou ao Ulisses, da “Odisséia” de Homero, recuou – os vultosos contratos dele e da esposa, Angélica, com a Globo, falaram mais alto.

Só que a condenação de Lula na segunda instância em fins de janeiro recolocou o nome de Huck na mira de dirigentes partidários. Cabe lembrar que na sentença os juízes não divergiram sequer sobre a duração da pena a ser aplicada, eliminando um possível recurso do petista e, na prática, tirando-o da disputa presidencial devido à lei da ficha limpa. Em fevereiro, o apresentador voltou a negar a disposição de concorrer, mas a decisão estava longe de ser definitiva. Só seria no fim da noite de 30 de abril, última data do calendário eleitoral para que pré-candidatos se filiem às legendas pelas quais pretendem figurar nas urnas.

O almoço no Vindouro se deu no último dia útil antes do 30 de abril. A sexta-feira tornava a data estratégica: seja lá o que ouvisse do (e confidenciasse e prometesse ao) então juiz, Huck teria o fim de semana para ruminar a respeito em casa com a família e, caso assim decidisse, a segunda-feira para se filiar a algum partido e anunciar a candidatura. Tudo a tempo de causar uma reviravolta na eleição que alçou a extrema direita ao poder no Brasil.

Refestelados após o bacalhau e a conversa, Moro e Huck ainda tiveram tempo para ouvir pedidos de fotos de funcionários do restaurante. O juiz, que à época fingia não agir sempre com um olho na política, preferiu se manter oculto, mas o apresentador não se fez de rogado. A foto de uma das funcionárias com Huck (que enverga o mesmo casaco corta-vento e a camiseta clara da selfie que tirou em Colombo) está no site da casa.

Após o almoço, Huck posou para foto com funcionária do restaurante. Moro preferiu ficar de fora, para não deixar pistas do encontro.

Foto: Reprodução

Não deixa de ser curioso que Moro tenha se recusado a deixar surgirem provas do “encontro meramente social” com Huck. Há quem ache que Moro merece o benefício da dúvida. A esses, lembro que até os fãs de carteirinha Deltan Dallagnol e Roberson Pozzobon já acharam difícil acreditar no ex-juiz.

Como se sabe, Huck não mudou de ideia sobre concorrer à Presidência em 2018. Moro, se ficou desapontado com o apresentador, não precisou esperar muito para alçar voo rumo a Brasília. Aceitou o convite para ser ministro de Jair Bolsonaro em 1º de novembro, exatos 30 dias após levantar o sigilo da controversa delação de Antonio Palocci  às portas do primeiro turno da eleição.

Huck também cerrou fileiras com Bolsonaro. Afirmou ver no ex-militar de extrema direita alguém capaz de ressignificar a política no Brasil. Um dos braços direitos da natimorta campanha do global foi parar no governo – o ministro da Economia Paulo Guedes.

Se Guedes ainda se sustenta no governo mesmo sem entregar nada do que promete, Moro e Huck, traídos pelo capitão, voltaram à mesa em 2020 e, entre uma garfada e outra, tentam se reembalar como centristas. Um centro algo terraplanista, em que há espaço até para o vice-presidente Hamilton Mourão, de verve golpista e fã confesso do torturador condenado Brilhante Ustra. Numa descrição mais precisa, trata-se mesmo de uma extrema direita refinada, que arrota vinhos caros e gosta de exibir à mesa guardanapos de pano presos com elásticos dourados.

Mas o almoço de 2018 não deixa de ser mais uma evidência de que Huck aventou sua candidatura presidencial em 2018 até a última hora – ou seja, de que a decisão de ficar no Caldeirão lhe foi custosa. E de que Moro já fazia política muito antes de despir a toga, curvar a espinha e se tornar cão de guarda de Bolsonaro.

Curiosidade: o Vindouro pertence à esposa de um político tucano que à época já estava na mira da Lava Jato – seria preso ainda em 2018. Na resposta que me enviou, o ex-juiz e ex-ministro afirma que “não tinha conhecimento sobre quem era o proprietário do estabelecimento, que depois foi preso pela Lava Jato por ordem do próprio magistrado”.