O presidente eleito dos EUA Joe Biden fala sobre o movimento do governo Trump para anular o Affordable Care Act, em 10 de novembro de 2020, no Queen Theatre, Wilmington, Delaware.

O presidente eleito dos EUA Joe Biden fala sobre o movimento do governo Trump para anular o Affordable Care Act, em 10 de novembro de 2020, no Queen Theatre, Wilmington, Delaware.

Foto: Angela Weiss/AFP via Getty Images

Enquanto Joe Biden comemorava o resultado da eleição presidencial dos EUA no sábado, as pessoas de centro ou de esquerda que enfrentam regimes autoritários pelo mundo afora comemoravam junto. Será que fazer uma campanha moderada ajudou o vice-presidente e o Partido Democrata a encontrar uma fórmula que poderia ser usada para derrotar o fascismo crescente no Brasil? O caminho para derrubar autocratas como Jair Bolsonaro é apostar que os esquerdistas vão se acomodar sob uma plataforma centrista? Os objetivos progressistas de lidar com as crises da mudança climática, da injustiça racial, da falta de assistência de saúde, devem ser deixados de lado em prol da união?

Os dados dizem que as coisas são bem mais complicadas. Biden, embora tenha concorrido com uma plataforma descrita como a mais progressista de todos os candidatos democratas da modernidade, em regra se posicionou como moderado – alguém que poderia cruzar a ponte e negociar com os republicanos. A mídia já vem noticiando o posicionamento inédito de Biden para chegar a acordos com o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, e outros membros do Partido Republicano, a despeito dos alertas da esquerda sobre as consequências que essa estratégia pode ter para os democratas em 2022. No entanto, o movimento que ajudou a moldar a plataforma de Biden – e que o colocou na liderança em estados cruciais – tem princípios mais radicais.

Enquanto comentaristas e analistas se debruçam sobre os dados dos eleitores, os democratas centristas já se voltaram para a ala à esquerda do Partido como bode expiatório para fracassos maiores nas urnas. Mas a luta dos progressistas contra a ameaça do fascismo é um dos grandes motivos pelos quais Biden obteve vitórias decisivas em grandes cidades e subúrbios. E eles ainda estão nas ruas, pressionando o atual governo para se responsabilizar e permitir que os estados terminem a contagem de votos em segurança.

Dados iniciais mostram que os movimentos em prol das vidas negras (Black Lives Matter) estiveram relacionados a um pico no registro de eleitores durante o mesmo período. Esses protestos tiveram um intenso foco na violência policial, mas reuniram um conjunto maior de alianças de esquerda na luta para dar às pessoas mais poder sobre seus representantes eleitos em questões ambientais e de assistência à saúde.

A campanha de Biden abandonou rapidamente a atuação de porta em porta, e só retomou essa tática no começo de outubro. Já as campanhas de Ilhan Omar e Rashida Tlaib ao Congresso percorreram muito chão no Centro Oeste, e os sindicatos e organizadores progressistas da Filadélfia capitanearam iniciativas de última hora para convencer as pessoas a votaram no ex-vice-presidente. Grupos como Unite HERE [Unidos AQUI], Sindicato Internacional de Trabalhadores de Serviços, e Pennsylvania Stands up [Pensilvânia de Pé], assim como campanhas de representantes progressistas estaduais e municipais, bateram em centenas de milhares de portas e se responsabilizaram por milhões de ligações e mensagens na reta final do dia das eleições. Muitos eleitores que apoiavam o senador de Vermont, Bernie Sanders, saíram de porta em porta em prol de Biden, e encorajaram as pessoas próximas a fazerem o mesmo. Os grupos organizadores, sindicatos e campanhas políticas com tendências à esquerda que fizeram esse trabalho também ocuparam as ruas tão logo ficou claro que Trump tentaria semear dúvidas sobre os resultados da eleição.

Lideranças do partido e alguns membros da Democratic Congressional Campaign Committee’s Frontline [Linha de Frente do Comitê de Campanha Democrata no Congresso], um grupo de legisladores de distritos vulneráveis, não desperdiçaram tempo para se voltar contra a esquerda no rescaldo da vitória de Biden e da perda de nove assentos do Partido na Câmara até agora – 16 disputas permanecem em aberto, 12 delas atualmente favoráveis aos republicanos. Na situação atual, a confortável margem de 35 assentos dos democratas encolheu para 17, e provavelmente vai continuar a sofrer com a contagem dos votos remanescentes.

A ala centrista do partido estaria reforçando a estratégia dos republicanos, que chamam de “racismo de dividir para conquistar”.

Os membros da ala de esquerda do Partido, porém, não estão aceitando passivamente o bombardeio. “Os moradores da minha área passaram por lares arruinados e escolas fechadas, e respiraram ar poluído para votarem no presidente eleito @JoeBiden e na vice eleita @KamalaHarris. Eles não merecem ser silenciados. Precisamos honrar as comunidades que compareceram. #AbraceaBase“, tuitou Rashida Tlaib, deputada de Michigan, na noite desta terça-feira. Tlaib, juntamente com a deputada de Minnesota Ilhan Omar e grupos progressistas e de base em outros estados-chave, ajudou a tocar a campainha em mais de 160 mil casas e a envolver eleitores em cidades como Detroit e Minneapolis, em estados decisivos onde eleitores urbanos e suburbanos levaram Biden ao topo. Tlaib e os principais grupos progressistas soltaram uma nota no começo da semana, como noticiado pelo site Politico, afirmando que, ao culpar a esquerda pelas derrotas, a ala centrista do partido estaria reforçando a estratégia dos republicanos, que chamam de “racismo de dividir para conquistar”.

Os centristas parecem decididos a ignorar as possíveis consequências dessa estratégia. Jim Clyburn, líder da bancada minoritária na Câmara, afirmou que “a frase ‘defund the police’ [cortar recursos da polícia] custou caríssimo para Jamie Harrison” na disputa pelo Senado da Carolina do Sul contra o republicano Lindsey Graham, e que “a moda dos slogans mata pessoas”, segundo noticiou na terça o site Axios. Clyburn deixou de observar que Harrison perdeu para Graham por uma margem menor do que os últimos concorrentes do senador em exercício, ou que as pressões “progressistas” que denunciou na verdade ajudaram diversos candidatos a defenderem cadeiras importantes. Os parlamentares democratas Katie Porter, Mike Levin, e Tom Malinowski, todos membros da Frontline e defensores do Medicare for All, mantiveram suas cadeiras em distritos com tendências republicanas. Na realidade, todos os democratas que apoiaram o Medicare for All foram reeleitos na semana passada, um detalhe que os críticos da esquerda convenientemente ocultaram em suas análises post mortem até agora.

Dias antes dos comentários de Clyburn, durante uma chamada com os democratas da Câmara para avaliar os resultados, a ex-agente da CIA e deputada da Virgínia, Abigail Spanberger, e o deputado da Pensilvânia, Conor Lamb, ambos membros da Frontline, disseram coisas semelhantes. Culparam o movimento “defund the police” por custar ao partido importantes derrotas em todas as disputas eleitorais. Lamb acusou de “pouco profissional” a postura dos colegas que defendiam essa pauta e outras prioridades advindas dos movimentos de base que ajudaram a eleger o chamado Squad, o Esquadrão de membros progressistas nas últimas eleições, e a expandi-lo este ano.

 

As congressistas dos EUA Alexandria Ocasio-Cortez, Ayanna Pressley, Ilhan Omar e Rashida Tlaib falam durante coletiva de imprensa no Capitólio, em 15 de julho de 2019, em Washington, D.C.

As congressistas dos EUA Alexandria Ocasio-Cortez, Ayanna Pressley, Ilhan Omar e Rashida Tlaib falam durante coletiva de imprensa no Capitólio, em 15 de julho de 2019, em Washington, D.C.

Foto: Alex Wroblewski via Getty Images

Para esses democratas centristas, a ala de esquerda do partido é responsável por suas derrotas de forma geral. Mas essa teoria só funciona se os dados forem ignorados. Plebiscitos com propostas progressistas aprovaram em vários estados, vermelhos e azuis, a legalização da maconha e a descriminalização de outras drogas, além de outros que aprovaram um salário mínimo de US$15 por hora, licença médica paga para famílias, e expansão do programa Medicaid. Os defensores ativos do Medicare for All não só mantiveram seus assentos em distritos disputados; este ano, desde as eleições primárias até a semana passada, os eleitores mostraram apoio aos programas de saúde pública em estados tradicionalmente republicanos como Arizona, Oklahoma e Missouri.

É mais fácil para o partido culpar os grupos que ajudaram a eleger Biden do que resolver o que só pode ser uma crescente desconexão.

Em vez de aproveitar a oportunidade de atender aos anseios dos eleitores em questões de saúde, meio ambiente e policiamento, como têm feito os membros do Squad desde que assumiram seus cargos em 2018, com crescente sucesso, os Democratas estão lançando fogo amigo. O argumento é o seguinte: o que teria custado assentos aos democratas e empurrado os eleitores para o Partido Republicano seria acatar as demandas dos movimentos de base pelo corte de recursos da polícia, renovar a pressão por um sistema público de saúde depois que milhões de pessoas perderam seus empregos e benefícios em meio à atual pandemia, e cultivar um expressivo movimento entre os jovens em apoio ao Green New Deal e às ações contundentes sobre a crise climática.

O que realmente aconteceu é um pouco mais complicado do que isso, e coloca os democratas na difícil posição de precisar reajustar seriamente sua estratégia eleitoral se quiserem sobreviver. Mas, ao que parece, é mais fácil para o partido culpar os grupos que ajudaram a eleger Biden do que resolver o que só pode ser uma crescente desconexão entre o que as consultorias dizem que os eleitores querem, e o que eles realmente escolhem nas urnas.

A deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez, um dos nomes mais importantes do tal Squad, esclareceu o quanto as mensagens democratas se tornaram despropositadas em uma entrevista ao New York Times na semana passada.  “Acho muito importante a forma como o partido vai lidar com isso internamente, e se o partido vai ser capaz de fazer uma análise post mortem honesta e realmente investigar as razões por trás das derrotas. Porque antes mesmo de termos dados sobre muitas dessas disputas, já havia gente apontando dedos e dizendo que isso era culpa dos progressistas, que isso era culpa do Movimento pelas Vidas Negras”, disse Ocasio-Cortez. “A liderança e certos elementos do partido — francamente, pessoas em algumas das posições mais importantes do partido – estão ficando tão cegos por esse sentimento antiativismo que não estão enxergando as vantagens que eles têm a oferecer.”

Enquanto os democratas enfrentam a perspectiva de mais dois anos de um Senado controlado pelos republicanos, com poder para continuar vetando toda e qualquer prioridade democrática, duas opções se apresentam.

O partido pode continuar a aplicar a antiga estratégia política de jogar pelo centro e esperar que moderados e republicanos eventualmente venham para o seu lado, como fez a campanha de Biden. Ou eles podem abraçar a crescente aliança de eleitores que compõem a classe trabalhadora, os jovens, e grande parte da população negra e latina que ajudou a colocar Biden no topo em estados decisivos como a Pensilvânia, Michigan e Geórgia.

A esquerda compareceu por um motivo essencial: tirar Donald Trump do poder e viabilizar uma vitória decisiva que impediria o país de seguir o caminho do “fascismo”, mesmo que em alguns meios haja certa hesitação em usar essa palavra para descrever o estado da política dos EUA. Os organizadores citaram a ameaça do fascismo nos apelos à base do partido antes das eleições de novembro. O grupo político “Refuse Fascism” [“Recuse o Fascismo”] ajudou a mobilizar protestos nas principais cidades dos Estados Unidos. “2020 é o ano de lutar contra o fascismo”, disse em agosto Alexandria Ocasio-Cortez, em uma tentativa de resgatar a base progressista do partido depois que Sanders, seu candidato de preferência, perdeu para Biden nas primárias democratas do começo do ano.

Como o presidente não só se recusa a aceitar os resultados eleitorais, mas também tenta ativamente distorcê-los usando a máquina do governo federal, ficou claro que esses avisos foram premonitórios – e políticos autoritários em todo o mundo estão tomando nota. Jair Bolsonaro, no Brasil, candidato à reeleição em 2022, e Xi Jinping, na China, ainda não reconheceram a derrota de Trump, mesmo após  Boris Johnson, do Reino Unido, Emmanuel Macron, da França, Moon Jae-In, da Coreia do Sul, e Justin Trudeau, do Canadá, terem todos parabenizado Biden por sua vitória. Na terça-feira (10), Recep Tayyip Erdogan, o autoritário presidente da Turquia, juntou-se a eles.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, Trump demitiu na segunda-feira (9) o secretário de Defesa Mark Esper, que se opôs ao uso de tropas federais para responder aos protestos do meio do ano. No dia seguinte, uma série de funcionários de alto escalão foram demitidos ou se demitiram, sendo rapidamente substituídos por partidários de Trump.

Tradução: Deborah Leão