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Alexis Fonteyne, Marcel van Hattem, Gilson Marques, Adriana Ventura, Vinicius Poit, Paulo Ganime, Tiago Mitraud e Lucas Gonzalez, os deputados federais do Novo, o único partido contra convenção antirracista da OEA.

Foto: Talles Kunzler/Novo

Na última quarta-feira, jogadores de PSG e Istambul abandonaram o campo em protesto contra um ato racista de um dos árbitros. João Amoêdo, o principal nome do partido Novo, escreveu um tweet exaltando a atitude dos jogadores. Logo no dia seguinte, o seu partido demonstrou que, na prática, a teoria é outra. A Câmara aprovou um projeto que ratifica o texto da Convenção Interamericana contra o Racismo.

É um tratado da OEA que define obrigações dos países membros no combate, prevenção, proibição e punição de atos de racismo, discriminação e intolerância. O único partido a se opor à ratificação foi justamente o Novo que, vejam que beleza, é o que tem mais brancos e menos pretos do Brasil. A sigla foi a única que orientou seus deputados a votarem contra o tratado. Nem o PSL, partido que deu vida à extrema direita que assombra o país, teve coragem de fazer o mesmo.

Acusado nas redes de ser um partido racista, o Novo se defendeu com justificativas aparentemente técnicas, mas racistas na essência. Os deputados do partido questionaram a obrigatoriedade de o estado brasileiro adotar políticas afirmativas que, segundo eles, são inúteis para o combate da desigualdade. Ora, está comprovado pelos números que as cotas raciais implantadas há 16 anos foram fundamentais para a entrada de pretos nas universidades — segundo o IBGE, atingimos pela primeira vez um percentual de 50,3% de alunos que se declaram pretos ou pardos. Ainda é um passo pequeno para a diminuição da desigualdade racial, mas o sucesso da medida é inegável. Articulistas de direita como Reinaldo Azevedo e Joel Pinheiro, que antes eram contra as cotas, mudaram de opinião ao atestarem a sua eficácia na prática. Não é preciso ser de esquerda para verificar a eficiência das cotas na promoção da igualdade racial. Basta ser intelectualmente honesto.

O sucesso das cotas é tão inequívoco que há que ser muito ingênuo para não enxergar o caráter racista daqueles que se recusaram a não ratificar o tratado. O fato é que o partido mais branco do país se colocou frontalmente contra uma medida que possibilita a entrada de pretos em espaços de poder na qual brancos são absoluta maioria. Se isso não são as forças do racismo estrutural operando para garantir a hegemonia dos brancos, o que mais poderia ser?

Marcel Van Hattem, um conhecido combatente do “racismo contra brancos”, foi um dos deputados mais aguerridos contra a ratificação do tratado. Loiro dos olhos verdes e filho de holandês, ele tem largo histórico na luta em defesa da branquitude.

Em 2010, quando ainda não era político, Van Hattem protagonizou um bate-boca com uma estudante negra da UNB em uma audiência pública sobre as cotas raciais na Câmara. Ignorando a existência do sistema de cotas sociais, o rapaz afirmou: “Por que o branco pobre não tem o direito de usar as cotas? A nós, brancos, não pode ser imputada uma dívida que é histórica. Temos de olhar para a frente.”

Quatro anos depois, já como deputado estadual do Rio Grande do Sul, Van Hattem ainda se mostrava assíduo nas questões raciais. Num debate no Facebook, o deputado foi xingado entre outras coisas de “branquelo de merda”, o que considerou um “xingamento racista” e o levou a abrir um B.O. Van Hattem acredita na existência do racismo contra brancos no Brasil, o chamado racismo reverso, essa peça de ficção criada por brancos que querem justificar o boicote à luta antirracista.

Nenhuma das razões apresentadas para impedir a ratificação param de pé. Uma delas é o fato de que países como EUA não assinaram o tratado. O deputado foi às redes perguntar se Obama, um apoiador e beneficiário das cotas raciais, seria racista por não ter ratificado o tratado. Apesar de ser formado em relações internacionais, Van Hattem recebeu essa aula grátis de um professor de Direito da USP:

O líder do Novo na Câmara, Paulo Ganime, contestou as críticas do professor de direito internacional Thiago Amparo em relação aos deputados que não assinaram a ratificação. Amparo escreveu um fio no Twitter — não deixe de ler —, rebatendo ponto a ponto todas as justificativas estapafúrdias apresentadas pelos deputados do Novo. Não houve tréplica dos deputados brancos.

Novo, um partido de homens brancos ricos

Depois do surpreendente desempenho nas urnas em 2018, o Novo fracassou nas últimas eleições municipais. Um dos motivos foi a dificuldade que a legenda teve em lançar um bom número de candidatos. Foram apenas 30 concorrentes, tendo sido eleito apenas um. Isso se deve ao fato do partido se recusar a fazer coligações, abrir mão do fundo eleitoral e fazer processo seletivo para escolher candidatos. “A estratégia de crescimento é sustentável”, afirmou o presidente do partido para dourar o fracasso.

Graças a essas limitações impostas por ele mesmo, o Novo continua se mantendo como um partido de homens brancos ricos do sul e sudeste do Brasil. Segundo a revista Veja, entre os seus candidatos da última eleição, 21% eram empresários, 83,9% tinham ensino superior completo e 80,8% eram brancos. Dos 30 candidatos a prefeito, 29 eram homens, 24 eram de sul e sudeste e 20 têm patrimônios superiores a 1 milhão de reais. Nem parece um partido, mas um clubinho de homens brancos ricos que quer fazer política sem se misturar com a “gentalha”. O boicote à ratificação do tratado internacional contra o racismo está, portanto, dentro do que se espera do Novo. É um partido que abriga políticos reacionários que fazem esse tipo de piada racista:

O tweet foi apagado, mas o pensamento do Novo no debate em torno das questões raciais permanece intacto.

Os pretos estão subrepresentados em todos os partidos brasileiros. Não é uma exclusividade do partido dos ricos. A diferença é que o Novo não só ostenta a maior porcentagem de brancos em seus quadros, como se tornou a sigla que mais se opõe à luta antirracista. O Novo vai se consolidando como um dos partidos mais reacionários do país, disputando com partidos bolsonaristas com os quais é alinhado.

Para os brancos muito ricos da estirpe de João Amoêdo, o racismo se resume a ofensas raciais. Eles se indignam com ofensas raciais contra um jogador na Europa, mas não são capazes de apoiar medidas antirracistas. Registre-se que Amoêdo não se arrependeu por ter votado no candidato que fez a seguinte afirmação após visita feita a um quilombo: “O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que ele nem serve mais para procriar”.

O Novo acredita que o racismo estrutural é uma grande balela, uma ideologia esquerdista que atravanca o bom andamento do setor produtivo do país. O partido rejeita o rótulo de racista, mas qual seria o nome adequado para classificar um clubinho de brancos que sistematicamente se opõe às demandas políticas e sociais dos pretos?