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Foto: Luis Alvarenga/Getty Images

Antes de mais nada, gostaria de deixar claro duas ou três coisas a meu respeito. Sou um homem negro pai de um menino negro de um ano e seis meses. Pratico esporte como diversão, especialmente a corrida de rua. Gosto particularmente de correr à noite quando o clima do Nordeste é menos quente. Por vezes, terminando meus treinos na praça, volto caminhando para a casa com uma garrafa de água mineral. Pois, semana passada, voltando para casa, decidi colocar a garrafinha de água em um dos bolsos do short que uso para correr. Só que durante alguns segundos uma ideia macabra atravessou minha mente: “E se nesse horário da noite, um policial confundir a garrafa no meu bolso com uma arma de fogo?” Nesse exato momento, me lembrei que eu era negro e que esse gesto simples de colocar a garrafa no bolso poderia ter consequências imensuráveis. Mudei de ideia e continuei com a garrafa na mão.

Contei esse episódio para deixar claro aos leitores negros e brancos que falo a partir de uma posição, que é a de um cidadão negro no Brasil. Não vivo numa torre de marfim, como se costuma dizer dos acadêmicos. Conheço a realidade – ou pelo menos parte dela – e todos os dias penso em como meu filho crescerá num país racista. Em outras palavras, falo na posição de alguém que tem algo a perder.

Dito isso, quero analisar brevemente os diferentes repertórios de ações adotados por diversos representantes dos movimentos negros após o trágico assassinato de João Alberto Freitas num supermercado do grupo Carrefour, em Porto Alegre. Com manifestações individuais e coletivas, o ativismo negro abraçou essa luta com a consequência inevitável de produzir opiniões divergentes em relação às medidas mais adequadas a serem tomadas em casos dessa magnitude e dessa gravidade como foi a morte de João Beto.

Quero analisar precisamente a repercussão nacional e internacional que a mobilização e os protestos contra a morte de João Alberto tiveram ao longo das últimas semanas. Me interessou entender por que o assassinato de um negro no Brasil ganhou essa relevância internacional. Como esse fato se inscreveu na dinâmica global?

Em primeiro lugar, vale destacar que as manifestações e as articulações online adotaram medidas e linguagens que tinham o potencial de mobilizar as pessoas além dos limites do Brasil. Logo no início das articulações nas redes sociais, os ativistas negros brasileiros começaram a direcionar suas críticas à sede internacional do grupo Carrefour, na França.

Apesar da nota de esclarecimento ter sido publicada pelo Carrefour Brasil, a filial brasileira não conseguiu se posicionar como um interlocutor relevante naquele momento. O presidente internacional do grupo Carrefour foi diretamente responsabilizado e cobrado, de modo que horas depois ele teve que se manifestar publicamente em português e em francês, oferecendo um princípio de resposta ao crime cometido no supermercado de Porto Alegre.

O ativismo negro brasileiro claramente adotou estratégias que visavam tornar esse debate internacional, como se pode notar nos tweets em francês e inglês.

Mas o sucesso em pautar o debate internacional foi obtido quando o movimento negro brasileiro colocou a morte de João Alberto em relação aos protestos do Black Lives Matter. Duas estratégias estavam em disputa: focar no Carrefour ou apontar para a violência policial e das forças de segurança.

Entendia-se que “focar no Carrefour” significava apontar falhas institucionais internas referentes ao modo como a rede de supermercados orienta os seus seguranças terceirizados a tratar clientes negros. Em outras palavras, as correções seriam de ordem institucional. A outra perspectiva, que visava a atuação em geral das forças policiais e forças de segurança, independentemente de atuarem ou não no Carrefour, era de ordem estrutural. Ou seja, o remédio consistiria em atacar o racismo estrutural.

Naqueles dois dias que sucederam ao assassinato de João Beto, apontar o Carrefour – principalmente o grupo internacional – como alvo das críticas foi a ação mais inteligente.

Em um primeiro momento, julguei que apontar o Carrefour nos levaria a um impasse. Uma crítica direcionada direta e exclusivamente ao Carrefour teria que apresentar o problema da violência dos agentes de segurança como uma questão unicamente do Carrefour, limitando, portanto, o alcance das políticas necessárias para reverter esse quadro de violência. Com isso, corria-se o risco de olharmos o problema apenas do ponto de vista institucional e não estrutural. E minha previsão era que essa abordagem acabaria dividindo a militância. Eu pensava no longo prazo e talvez não estivesse errado.

O fato é que, no imediato, naqueles dois dias que sucederam ao assassinato de João Beto, apontar o Carrefour – principalmente o grupo internacional – como alvo das críticas foi a ação mais inteligente. Por duas razões: 1) identificava claramente o alvo dos protestos, isto é, uma empresa privada como responsável e não apenas um conceito como seria o caso de se concentrar nas violências policiais, e 2) fez o assunto ganhar uma visibilidade muito maior porque o Carrefour é uma multinacional.

Essa estratégia acabou servindo depois para que movimentos como Black Lives Matter se manifestassem publicamente em apoio ao movimento negro no Brasil. E, desta vez, o debate já não era apenas sobre o Carrefour, mas tinha crescido a tal ponto que naquele momento girava em torno do problema maior da violência das forças de segurança e o extermínio dos negros no Brasil.

A segunda fase daquilo que observei quanto aos desdobramentos das mobilizações também operou em duas tendências opostas. Como o ativismo negro no Brasil ia dar sequência às ações?

Por um lado, parte dos movimentos negros decidiu dar prosseguimento às ações com confrontos e críticas. Esses são os repertórios que costumam gerar adesão do público nas ruas e nas redes sociais. Essa mobilização é o que estamos vendo acontecer ao nível local, em Porto Alegre. Por outro lado, setores dos movimentos negros decidiram atuar institucionalmente. Esse grupo é simbolizado pela atuação e as articulações políticas envolvendo a Central Única de Favelas, a Cufa.

Do meu ponto de vista, os dois tipos de ações, tanto institucional quanto de confronto, são interessantes e não excludentes. A maior divergência observada até agora se dá entre a recém-criada Frente Nacional Antirracista e a Coalizão Negra por Direitos. A primeira pretende atuar como uma plataforma de mediação, oferecendo expertise e conselhos às empresas privadas para que adotem uma agenda antirracista e reduzam ou suprimam a terceirização das suas formas recrutamentos. A entidade pretende estender essa estratégia a dezenas de empresas privadas que atuam no Brasil.

Já a Coalizão Negra por Direitos tem atuado nessa crise com o objetivo mais imediato de obter sanções contra o grupo Carrefour  em Porto Alegre. De modo concreto, ela descarta desempenhar qualquer função de mediação junto ao Carrefour.

Mas tentemos olhar um pouco além dessas divergências, só aparentemente inconciliáveis. Muitas vezes, exigimos que os movimentos negros sejam sempre unidos. Ora, basta olharmos para o passado para ver que, em todos os lugares onde as lutas sociais se deram, diversas compreensões sobre as ditas lutas emergiram simultaneamente.

Foi o caso, por exemplo, do Apartheid na África do Sul, onde Nelson Mandela não era unanimidade nem era a única liderança contra o regime racista do país. Outras figuras da resistência existiam, mais radicais ou mais moderadas que a de Mandela. A luta contra o regime segregacionista não tinha uma única voz nem no princípio, nem em seu ocaso, quando foram definidos os rumos da democracia.

As lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos são outro exemplo. Lá se destacaram figuras e personalidades tão contraditórias quanto complementares como Martin Luther King, Malcom X, James Baldwin ou Huey Newton.

É necessário que as comunidades locais recebam mensagens claras de que matar negros não se resolve com tapa nas costas e um comunicado institucional.

O mais importante nesse momento é perceber que essas diferentes maneiras de atuar no caso trazem avanços às lutas antirracistas. O trabalho de mediação junto às empresas privadas tem o potencial de modificar sua cultura organizacional melhorando, por exemplo, aspectos relacionados ao planos de carreira para negros, salários ou regime trabalhista. Por outro lado, a mobilização e a firmeza da Coalizão Negra por Direitos criam um estado de vigilância a respeito do problema da violência policial e das forças de segurança, além de trazer respostas claras para as comunidades locais.

Embora a atuação da Frente Nacional Antirracista cause certa estranheza, vale lembrar que esse tipo de articulação não é inédita. Em livro lançado em fevereiro “Afro-Latinos em movimento”, o cientista político Cristiano Rodrigues, da Universidade Federal de Minas Gerais, mostra que o movimento negro no Brasil sempre atuou institucionalmente.

A última dimensão das mobilizações que chama a atenção remete à estratégia de tornar o movimento mais local, onde os coletivos negros de Porto Alegre acertam em suas exigências de respostas por parte do município. É necessário que as comunidades locais recebam mensagens claras de que matar negros não se resolve com tapa nas costas e um comunicado institucional. Respostas duras e fortes são necessárias. Não estou capacitado para dizer quais. Caberia considerar vários fatores antes de aderir a um boicote ou de exigir a cassação de alvará do Carrefour. Seria necessário analisar se essas medidas não afetariam gravemente as próprias comunidades negras em tempo de pandemia.

O desafio para o ativismo negro agora é saber conciliar estratégias institucionais com ações diretas de confronto, combinando enquadramentos discursivos a caráter local com uma dimensão mais global, que situe o caso João Beto ao lado das dinâmicas de movimentos similares como o Black Lives Matters.

Para os militantes negros, é importante lembrar que não existe uma forma correta de atuar contra o racismo, uma estratégia ou um repertório melhor que outro. Ativistas que usaram a não violência foram assassinados, os que escolheram a luta armada foram mortos, os que usaram a poesia, o esporte ou a arte também foram perseguidos e, por vezes, mortos. É com a combinação dessas ações e no esforço em diferentes fronts que conseguimos avançar ao longo da história.