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Fábio Rocha e a mulher, Andrea Cabral, se revezam pedindo ajuda para alimentar os filhos. Foto: Fabiana Moraes

É bem comum, entre jornalistas, publicizar o esforço empreendido na realização das suas matérias e reportagens. Informar, por exemplo, que percorreram milhares de quilômetros para encontrar pessoas e cidades ou que passaram meses, até anos, para concluir uma investigação. Muitas vezes, a ideia é passar a sensação de que o diferente, o não visto, o “exótico”, está muito longe, que é preciso atravessar muitas léguas para fazer esse oculto emergir.

Na apuração deste texto, eu não cheguei a deixar a rua de minha casa. Saí apenas duas vezes e, em ambas, andei alguns minutos, no máximo uns 700 metros. Na primeira vez, encontrei Fábio e Ricardo. Na segunda, Mateus, Adriano e Ronald.

Todos eles, que passam o dia por perto, mas não são meus vizinhos, seguram espécies de placas (na verdade, tampas de caixas de isopor ou pedaços de papelão) e circulam com elas sobre o peito ou acima da cabeça entre os sinais de trânsito. Ali, podemos ler:

“Meu filho precisa de alimento” (Fábio)

“Tenho dois filhos preciso de ajuda alimento” (Ricardo e Adriano)

“Estou com fome” (Mateus e Ronald)

Eles fazem parte de um enorme contingente da população brasileira que, desde o início da pandemia, vem sobrevivendo graças à utilização desse recurso quase publicitário para se fazer ver. É uma forma de falar mais alto, de colocar o corpo em letra maiúscula. Em várias cidades do país, desde março, eles se multiplicaram pelas ruas: aqui, vejo constantemente seus corpos, geralmente muito magros e geralmente muito pretos, ziguezagueando trajetórias entre carros, motos, bicicletas, vendedores de frutas, de água, de doces, limpadores de para-brisas, de flanelas.

Três deles – Fábio, Ricardo e Adriano – têm filhos. Mateus e Ronald são os mais jovens e filhos de alguém. Os primeiros precisam pagar aluguel de precárias casas de alvenaria ou tábuas, todas em lugares insalubres, mas que representam a rentabilidade de quem as construiu: custam R$ 200 (Fábio), R$ 150 (Ricardo), R$ 180 (Adriano) por mês. É o dinheiro mais guardado para evitar que eles, como tantos que conhecem, terminem dormindo pelas ruas.

Os aluguéis das casas dos três pais de família – falarei breve sobre elas – custam mais barato do que um botijão de gás completo em uma revendedora do produto: cerca de R$ 248, incluindo a entrega, aqui no Recife.

Assim, na casa de todos, menos de Fábio, cozinha-se com álcool. Um fogareiro feito com tijolos, uns pedaços de madeira. No Hospital da Restauração, um dos maiores do Nordeste, a conhecida “ala dos queimados” é ocupada em sua maioria justamente por pessoas que se acidentaram usando o produto para preparar alimentos.

Outros, para baratear os custos, compram botijões clandestinos, que não seguem padrões de segurança e são mais baratos. Muitos já explodiram. É uma questão gravíssima, antiga e que se aprofundou após a covid-19. Já destruiu a vida de muitas famílias, mas, como geralmente são muito magras, como geralmente são muito pretas, como geralmente são muito pobres, entrou no que é considerado normal.

Foi para tentar escapar dessa “normalidade” – no limite, ela significa apagamento e morte – que Fábio Rocha, 26 anos, passou a ir com a esposa Andrea Cabral, 37, para os sinais de trânsito usando a tampa de caixa de isopor. Fizeram-se maiúsculos. Ele segura uma placa, ela outra – no momento em que fui conversar com o casal, Andrea tinha ido para casa, a cerca de 4 quilômetros dali, para almoçar.  Sua placa estava encostada no muro de um prédio, na encruzilhada de ruas.

Fábio catava papelão para vender, seguindo os passos do pai, carroceiro. “Mataram ele”, me conta, mostrando os braços com o nome “Rivaldo” tatuado, uma homenagem póstuma. No seu corpo, ainda lemos “Walison”, “Laura” e “Vitória” (seu filho e suas filhas);  Andréa (seu amor); “Fábio” (sua necessária autoestima); e, nas mãos, Jesus Cristo (seu refúgio).

É a segunda placa que Fábio usa. Começou a lançar mão do recurso há cinco meses, quando o isolamento tornou o negócio da reciclagem impossível de ser mantido. Na primeira, escreveu “preciso de trabalho”. Dias depois, percebeu, olhando outras pessoas que também circulavam pedindo ajuda nos sinais de trânsito, que falar sobre os filhos e filhas garantia uma ajuda maior. “Te dão mais roupas, mais comida, mais trocados. Sabendo que a gente tem filho, mais gente nos olha.”

(Fábio continua precisando de trabalho).

Nesses dias, o carroceiro deu sorte: ganhou um fogão e um botijão e assim deixou de usar, ao menos temporariamente, o perigoso álcool para fazer almoço, café. “A gente não podia comprar. O dinheiro que conseguimos é para comida e para aluguel”. Na casa, só ele conseguiu o auxílio emergencial – inicialmente R$ 600, depois R$ 300. Andrea, por falta de documentação, conta ele, ficou de fora.

Enquanto perguntava mais sobre sua família, percebi que Fábio estava ansioso para voltar ao sinal e garantir seus trocados. Encerrei a conversa. Assim, como ia interferir na renda de cada pessoa aqui entrevistada, uma vez que precisariam sair dos pontos para conceder entrevista, decidi contribuir com R$ 10 ou R$ 20 no fim de cada conversa. Nenhum deles, a não ser Ronald, me pediu qualquer valor.  Não é uma questão confortável, como quase nada é nesse país.

Assim que me despedi do carroceiro, encontrei Ricardo Lira, 49, que tossia e respirava com dificuldade. Usava uma máscara azul e uma camiseta amarela e verde na qual líamos “Brasil”. Assim, materializando uma nação, ele trazia nas mãos uma placa com as palavras que nos últimos dias lhe garantem a sobrevivência.

Às vezes, sobrevive com R$ 30; às vezes sobrevive com R$ 20; em um bom dia, sobrevive com R$ 40.

O “tenho dois filhos preciso de ajuda alimento” que ele carrega é na verdade impreciso: Ricardo tem três filhos e um neto que já já vai nascer. A esposa dele, Prazeres, 37, faz faxinas e assim ambos garantem os
R$ 150 do aluguel. Ele também catava papelão, mas a carroça que usava não lhe pertencia: era parte de um depósito de reciclados que fechou durante a pandemia.

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Ricardo Lira, 49 anos, ganha R$ 20 por dia. Tem três filhos e um neto a caminho.

Foto: Fabiana Moraes

Ricardo parece muito cansado, tem algumas escoriações. Pergunto se ele está doente. Diz que não, que havia tomado uma chuva forte três dias atrás e, depois disso, começou a tossir. Os machucados do corpo foram resultado de uma queda. A placa imprecisa que usa, assegura, é uma forma melhor de sobreviver do que catar o papelão. “Na reciclagem você trabalha muito e ganha dez centavos, cinquenta centavos, passa o dia todo revirando lixo. A placa é melhor. Uma vez me deram R$ 100. Eu guardei logo para o aluguel.”

– O senhor já escutou coisas ruins, aqui na rua?

– Já, já.

– O que, por exemplo?

– Eu prefiro não falar.

– O senhor reagiu?

– Não, eu não posso. É o lugar onde eu sempre trabalho, né?

O estado alquebrado de Ricardo não me permitiu uma conversa mais longa. Agradeci a ele, cuja respiração pesada dava para ouvir mesmo quando ele se afastou. Cinco dias depois, eu reencontraria não ele, mas a sua placa. Ela estava pendurada na carroça enfeitada com bonecas e carregada de papelão que Adriano Gomes, 38, puxava pelas ruas dos bairros da zona norte recifense. Bingo, um cachorro branco, o acompanha durante todo o trajeto. Ele passou enquanto eu conversava com Mateus Martins, 15.

Eu e o adolescente estávamos encostados em uma loja chique de berços, roupas e outros objetos para bebês e crianças. A história de Mateus seguia um bocado o que eu ouvira antes dos homens naqueles sinais: deixou escola, a pandemia tornou tudo mais difícil, a placa foi uma forma de chamar atenção para uma fome que não se resume apenas à de alimentos. São cinco irmãos e todos estão mendigando. O pai faz trabalhos pouco prestigiados como limpar fossas. A mãe trabalha muito e tenta cuidar da família que vive essa vida roída.

A carroça de Adriano, muito enfeitada com brinquedos e temas natalinos, passou. Vi nela a placa usada dias antes por Ricardo.

“Você sabe quem é ele?”, perguntei. Mateus disse que sim e o chamamos.

Percebi, nesses dois dias de encontros, que quase todas aquelas pessoas que circulam pelos sinais ao redor da vizinhança se conhecem, se ajudam, inclusive compartilhando placas, como é o caso daquela que Adriano e Ricardo dividem. O “tenho dois filhos preciso de ajuda alimento”, no caso do primeiro, é preciso: o texto refere-se a Jaiane, de um ano e sete meses, e Jamile, sete, as duas filhas que o ajudam a decorar a carroça com pelúcias e felizes caras de plástico.

Ao contrário dos outros colegas, Adriano não deixou de catar papelão: tem tentado unir o dinheiro da reciclagem e a renda vinda do texto que o torna maiúsculo. Passa pelas ruas das Graças, Rosarinho, Espinheiro, nos dias de coleta de lixo, quando os prédios de classe média alta disponibilizam seus descartes nas ruas e antes de os carros de lixo recolherem tudo. A cada cem quilos de papelão, ele ganha R$ 10.

Agora tem mais gente disputando o lixo. Por isso, em dias de pouco papelão, Adriano encosta a carroça enfeitada de Mickeys e Teletubbies e pega a placa na qual também estão impressas, de alguma forma, Jaiane e Jamile. “Tem muita placa agora nos sinais porque a fome e o desemprego são grandes.  Hoje é primeiramente, Jesus no céu. Segundo, é a gente ter inventado esse negócio aqui na terra. É o que tem salvado a gente.”

Lá na casa da família de Adriano, uma casa feita de tábuas, as coisas estão um pouco mais confortáveis: a primeira parcela do auxílio emergencial, que ficou represada para ele nos primeiros meses da pandemia, saiu de uma vez só. Assim, a família viu, pela primeira vez, o valor R$ 1.600 em uma conta bancária. Com ele, compraram o que lhes era básico: telhas. “Quando chovia era uma agonia. Tinha que tirar tudo, colocar em outro canto. O dinheiro deu para ajeitar umas coisas, compramos uma geladeira, uma TV”.

(Lembrei de Ricardo, que vê televisão na casa dos vizinhos).

O fim do auxílio entristece o homem que já trabalhou na Defesa Civil da prefeitura do Recife. Ele falava comigo muito sério enquanto chorava, sem mudar o tom da voz. Talvez emoção de lembrar do emprego que perdeu e raiva que sente agora: a possibilidade de um novo isolamento, a demora da vacina, a falta de perspectiva.

Adriano pergunta se eu acho que vai melhorar, e eu gostaria de ter dito que sim.  “Ele tá todo errado, tá dizendo que se a vacina não der certo, ele não tem culpa. E quem é que tem culpa? Sou eu, é a senhora? Ele que é o presidente.”

Me despeço de Adriano, que ficará até depois das 22h catando papelão, e vou voltando para minha casa, a menos de cinco minutos dali.

Ronald, encostado na loja chique de crianças, estava nos observando. Ele é amigo de Mateus e levava consigo uma placa falando da sua fome. “Tia, me arruma um trocado?”. Eu digo que sim e pergunto se podemos caminhar e irmos conversando. Ele aceita e seguimos.

Há muito a falar sobre Ronald e sua família. Em breve, eles estarão aqui.