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Foto: Arquivo pessoal/Mirtes Souza

Miguel adorava o período de festas de Natal e ano-novo. Ver a casa decorada para ele era encantador, ficava ansioso esperando o Papai Noel trazer o presente dele. Algumas vizinhas se juntavam aqui na rua para fazer uma festa para as crianças.

Desde que eu e o Paulo, pai de Miguel, nos separamos, alternávamos as festas. Por isso, em 2019 Miguel passou o Natal com o pai, e o Réveillon comigo. Fomos à praia ver a queima de fogos e ele amou tudo aquilo. Foi um momento mágico. Neste ano de 2020, Miguel ia passar o Natal comigo. Mas, diante do crime que ocorreu com meu filho, passei o Natal sem ele.

Todos os dias eu sofro. A saudade do meu filho aperta de uma forma que penso que vou morrer. Esse Natal e Réveillon são os primeiros de muitos que passarei sem ele. O que me restou foi essa dor imensa por sua partida cruel, a saudade, as lembranças dos momentos lindos que vivemos juntos.

Não é fácil relembrar o caso, mas é necessário. Miguel foi abandonado no elevador por minha ex-patroa Sarí Mariana Costa Gaspar Côrte Real, enquanto eu havia saído para levar a cadela da família para fazer dela necessidades na rua. Quando retornei, fui à portaria social pegar uma encomenda. Ao me dirigir ao elevador, encontrei o zelador, que me disse que alguém havia caído do prédio. Naquele momento, senti uma dor muito forte no peito e algo me dizendo para ir ao encontro dessa pessoa. Chegando ao andar “L”, encontrei meu filho no chão. Levamos Miguel para o Hospital da Restauração, mas infelizmente ele não resistiu.

Ainda no hospital, Sarí me disse que Miguel havia fugido do apartamento, havia dado “um drible” nela, entrado no elevador, e ela não conseguiu segurar a porta. Quando eu estava na delegacia dando o depoimento, chegaram as imagens das câmeras e eu não tive condições emocionais de assistir. O delegado e a equipe dele ficaram abalados com as imagens. A escrivã saiu correndo e chorando com o que viu. Eu apenas perguntei de qual andar meu filho havia caído, e o delegado disse: do 9° andar.

Ainda na delegacia o delegado chamou o marido de Sarí, Sérgio Hacker, para assistir às imagens. Quando ele saiu, chamou Sarí no canto do corredor e conversou com ela. Logo depois, Sarí veio até mim e disse: “amo muito você e Martinha, eu só disse a Miguel ‘vai que depois tua mãe te encontra’”. O delegado a acusou de homicídio culposo e determinou uma fiança de R$ 20 mil, o que a permitiria responder em liberdade.

Eu estava muito abalada naquele momento, e não consegui entender o que tudo aquilo significava. No dia seguinte, Sarí e Sérgio foram ao velório e foram expulsos por pessoas revoltadas com o que havia sido mostrado na televisão. Depois do enterro me mandaram as imagens.

Fiquei chocada com o que vi. Sarí mentiu para mim no hospital, quando descreveu o que havia acontecido. Por falta de paciência, maldade, falta de amor ao próximo e preconceito, eu perdi meu filho.

Sarí deixou Miguel no elevador e acionou o botão da cobertura. Miguel parou no 9° andar, porque ele apertou outros botões. Ela não quis tocar na pele negra do meu filho, para tirá-lo do elevador, e se justifica dizendo que isso não era da alçada dela, que ela não tinha responsabilidade sobre ele.

O monstro que abandonou meu filho no elevador não sentiu um pingo de arrependimento por ser a causadora da morte de uma criança de 5 anos. Na delegacia, me tratou com frieza e ironia, demostrando que pouco lhe importava o que aconteceu com meu filho ou com a minha família, que ela destruiu. Ela acredita que por ter dinheiro, status e nome poderoso, não vai lhe acontecer nada. Sarí Côrte Real acredita que vai sair impune!

No fim da investigação, ao concluir o inquérito, o delegado Ramon Teixeira mudou a tipificação de homicídio culposo para abandono de incapaz com resultado morte, o que para nós foi um primeiro passo importante. O inquérito foi enviado ao Ministério Público, e a Promotoria aceitou a denúncia e acrescentou dois agravantes, um por ser criança e outro por ter acontecido durante o período em estado de calamidade pública (pandemia) e exigiu a pena máxima prevista para esse crime.

Logo depois, o caso foi encaminhado ao juiz, que o aceitou integralmente. Depois de alguns meses, com muita pressão de minha parte, de meu advogado e com apoio de movimentos sociais, foi marcada a primeira audiência de instrução. Essa audiência foi realizada em 3 de dezembro, na Vara de Crimes contra a Criança e Adolescente, que foi mais um capítulo doloroso para mim. Os advogados de Sarí atuaram para atrasar o andamento do caso do meu filho, pois faltaram quatro testemunhas – sendo três delas do interior de Pernambuco e uma da Paraíba. Essas quatro pessoas não estavam no momento do crime, portanto, pouco têm a colaborar com o julgamento.

Entretanto, para mim a pior dor foi tomar ciência da linha de defesa que os advogados de Sarí estão operando: o discurso deles busca nitidamente adultizar Miguel e infantilizar Sarí. É uma barbaridade, de uma crueldade imensa, retratar meu filho como uma criança incontrolável, mal-educada e grosseira, apresentando Miguel como culpado da própria morte. Sim! Os advogados estão afirmando isso, quando infantilizam Sarí, argumentando que ela “fez tudo o que podia”, mas não teve condições de impedir Miguel de usar o elevador.

Miguel era uma criança de 5 anos, saudável, estudioso, generoso, cheio de sonhos. E, independentemente de qualquer aspecto de sua personalidade, toda e qualquer criança tem o direito de ser protegida de possíveis riscos a sua integridade física. Como qualquer criança dessa idade, meu filho não tinha noção dos vários perigos a que se expunha quando entrou naquele elevador. Cabia à Sarí, a pessoa adulta que estava com ele, evitar que ele se expusesse a esses riscos.

Sarí Corte Real é uma mulher de 31 anos, empresária, mãe de dois filhos. Uma pessoa adulta, que agiu guiada por discriminação e demonstrou explicitamente com suas atitudes que a segurança de Miguel não lhe importava. A estratégia da defesa só aumenta ainda mais minha indignação e revolta, pois para proteger a criminosa querem sujar a imagem do meu filho.

Quero aqui destacar que não estou sozinha nesta luta por justiça. Ao longo de todo o desenrolar do caso, tenho recebido muito apoio do movimento negro de Pernambuco, de organizações como a Rede de Mulheres Negras, a Articulação Negra de Pernambuco, o Coletivo de Negritude do Audiovisual e, em nível nacional, da Coalizão Negra por Direitos e a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, o Cojira-DF.

Tenho também contado com o apoio do Gabinete de Assessoria Jurídica a Organizações Populares, o Gajop, do Instituto Menino Miguel (que foi criado em homenagem ao meu filho). Recebo também desde o início um grande apoio da artista transdisciplinar Mana Bernardes, do Rio, que vem me ajudando a dar visibilidade ao caso, com campanhas, cards, vídeos, entre outras ações. Conto também com apoio de coletivos de fora do Brasil, como o Kilomba Collective e o AfroResistance, dos Estados Unidos, que vem ajudando a ecoar pelo mundo o meu pedido de justiça.

Eu não vou cessar esta luta até que a Justiça seja feita para o meu filho. Espero poder contar com toda a sociedade brasileira para se somar ao meu grito de #JustiçaPorMiguel!