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Ilustração: Fine Art Images/Heritage Images via Getty Images

Você também deve ter ficado impressionado com cenas da atual edição do BBB 21 em que um jovem se assume bissexual e sofre séria violência psicológica de, veja bem, uma psicóloga que trabalha com populações vulneráveis. No mesmo programa, celebridades que estão engajadas em pautas como o combate ao racismo e o empoderamento feminino protagonizam cenas de cancelamento contra pessoas que fazem parte dos grupos que elas parecem defender. Para além do programa de TV, essas questões têm pautado o debate público sobre o funcionamento de alguns movimentos progressistas que eventualmente adotam os mesmos expedientes que tanto criticam. Por que isso acontece?

Pelo menos dois conjuntos de pesquisas ajudam a pensar sobre essas situações. O primeiro diz respeito aos impactos psicológicos de simplesmente estar em um grupo, a chamada desindividuação, ou a forma como perdemos algo da nossa identidade individual para nos conformar às expectativas coletivas.

Já no século 19, o pensador Gustave Le Bon observava que, em uma multidão, os indivíduos agem com racionalidade limitada, se deixando levar pelo comportamento coletivo. São situações de protestos públicos, por exemplo, em que os participantes não conseguem explicar como conseguiram tomar uma atitude que, para alguém olhando desde fora, era obviamente heroica ou violenta. Nesses casos, a capacidade de tomada de decisão de quem assiste e julga é muito diferente daquela de quem faz parte de um grupo e precisa levar em conta qual preço a pagar para se contrapor com os demais.

O mesmo acontece no ambiente virtual, onde o anonimato da identidade offline e o sentimento de pertença a um coletivo organizado exacerbam ainda mais a perda da autonomia. É a situação do cancelador da rede social, que pode ser bastante agressivo, mediado pela tela do celular cercado dos seus pares, e, pessoalmente, ser, literalmente, outra pessoa. A recíproca também é verdadeira: a celebridade que é rodeada por quem controla o que pode ser dito, quando está sozinha, sem supervisão, deixa vir à tona suas outras “virtudes”.

Ao longo do século 20, diversos experimentos em psicologia demonstraram outras faces desse fenômeno. Um dos mais famosos foi o conduzido por Stanley Milgran, na Universidade de Yale, na década de 1960. Consistia em um instrutor que solicitava a vários participantes que operassem uma máquina para dar choques em um outra pessoa conectada a eletrodos. O instrutor incentivava que o participante aumentasse a intensidade do choque, que obedecia mesmo ouvindo os gritos de dor do seu colega. Na verdade, era uma simulação, a máquina era falsa, e o segundo participante era um ator fingindo sentir dor. Esse tipo de estudo mostrou a facilidade com que alguém é levado a obedecer autoridades, mesmo quando a integridade de outra pessoa está em risco (os painéis que disparavam os choques fictícios anunciavam voltagens superiores a 400v!). Imagine agora estar em um programa de TV com celebridades com milhões de seguidores nas redes sociais, será que você não concordaria em fazer o que ela está pedindo que você faça, mesmo parecendo errado?

Em 1951, o psicólogo polonês radicado nos Estados Unidos Solomon Asch conduziu uma pesquisa para investigar uma situação como essa. Grupos de oito estudantes universitários deveriam identificar corretamente o tamanho de uma linha desenhada em um cartão entre três alternativas muito parecidas. Em uma das situações, os estudantes podiam responder livremente, quase todos acertavam. Na outra situação, sete estudantes eram orientados a dar uma resposta errada – nesse caso, mais da metade dos participantes que não sabiam da encenação concordavam com o coletivo, e respondiam de maneira errada! A moral da história é a facilidade com que perdemos a razão em uma situação de grupo, inclusive com alguma dose de violência e assédio, sem consciência ou com capacidade muito limitada para agir diferente.

Experimento de Zimbardo e Asch mostrou como grupos alteram o comportamento dos indivíduos.

E quem é testemunha de uma injustiça não deveria tomar partido? Muitos estranham o fato de que participantes do BBB 21, em diversas situações de hostilidade, se mantiveram neutros. Situações desse tipo estão sujeitas ao efeito do espectador, ou da difusão de responsabilidade. Esse fenômeno foi descrito pela primeira vez em 1968 por dois psicólogos norte-americanos. No experimento, participantes eram convidados a responder a um teste fictício em uma sala, informados de que outro grupo estava fazendo a mesma prova na sala ao lado. De repente, ouviam gritos e eram informados que uma pessoa na outra sala estava passando mal.

Infelizmente, a tendência a ajudar o possível moribundo diminuía na medida em que os participantes da pesquisa eram comunicados de que havia mais outras pessoas ali. Ou seja, estando em grupo, quanto maior o número de espectadores da desgraça alheia, menor a chance de cada indivíduo tomar partido. Possivelmente isso ocorre na expectativa de que alguém tomará a iniciativa ou no receio de receber um julgamento negativo. Em situações de bullying, espectadores podem evitar intervir com medo de se tornarem as próximas vítimas.

O segundo conjunto de pesquisa, que me parece muito relevante para o momento atual que o Brasil e o mundo estão vivendo, são as teorias contemporâneas sobre preconceito e  tolerância.

Historicamente, acreditava-se que a ausência de preconceito, ou seja, a disposição a avaliar negativamente um grupo ou seus membros, implicava automaticamente em maior tolerância, ou capacidade de aceitarmos a diferença. Hoje, sabemos que não é exatamente assim, preconceito e tolerância não são faces de uma mesma moeda.

‘Em grupo, quanto maior o número de espectadores da desgraça alheia, menor a chance de cada indivíduo tomar partido’.

Por exemplo, parece ser possível ter algum grau de preconceito contra um grupo específico e, mesmo assim, apoiar a sua existência, mobilização política e convivência no espaço público. Por exemplo, grupos religiosos que não aprovam a homossexualidade em seus dogmas, mas endossam o casamento entre pessoas do mesmo sexo, indicando uma separação entre a esfera privada (dos preconceitos) da pública (onde a diferença deve coexistir pacificamente).

Outras pesquisas mostram que pessoas com baixíssimos graus de preconceito podem ter comportamentos discriminatórios. São pessoas que não manifestam um preconceito explícito (consciente), mas que possuem tendências automáticas (inconscientes) a tomar decisões enviesadas. É o caso de médicos dos Estados Unidos, que nos diriam com todas as letras que não são racistas, mas que apresentaram um viés racial implícito alto e tinham a tendência de prescrever tratamentos piores para pacientes negros. Talvez chamem mais atenção as situações em que pessoas que são membros de grupos minoritários, onde se esperaria uma maior empatia e conhecimento sobre opressão, manifestem preconceito com outros grupos historicamente excluídos. Por exemplo, sexismo e racismo entre LGBTQIA+.

Outras pesquisas mostram ainda como pessoas com baixíssimo grau de preconceito contra um grupo são capazes de tomar atitudes discriminatórias – sugerindo até o banimento do país – de quem pensa diferente. Esse fenômeno tem sido chamado de liberalismo iliberal (no sentido político), ou seja, a tendência de alguns grupos ditos progressistas de cristalizar as suas agendas de tal forma que passam a aderir ao funcionamento de grupos conservadores reacionários, com o apelo cego a uma autoridade, à interdição do debate e à negação da pluralidade de ideias (muitas vezes, sob a bandeira da diversidade). Se você deseja banir quem pensa diferente, é capaz de ser violento para terminar um debate e não aceita quem não concorda integralmente com a sua agenda, você ainda pode ser chamado de progressista ou liberal? Neste caso, é sempre oportuno lembrar dos movimentos que pregam, por exemplo, armas pela vida.

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No Brasil, movimento pró-armas defende liberação de armamentos com o argumento de defesa da vida.

Foto: Reprodução/Facebook

Episódios como esses parecem levar a crer que a agenda em prol da diversidade, não discriminação e tolerância é uma canoa furada. Como se, numa inversão completa de polos, os grupos progressistas fossem os dogmáticos; e os conservadores, os tolerantes! Essa impressão não é descabida quando se observa partidos conservadores articulando alianças impensáveis entre grupos pró-vida, com grupos armamentistas, ao mesmo tempo em que grupos organizados em torno das pautas da diversidade expulsam membros que pensam diferente.

As pesquisas mostram dois caminhos para remediar o preconceito e a intolerância, que passam por entender os diversos motivos que fazem com que as pessoas não ajam de maneira discriminatória e tolerem o que desaprovam.

Reduzir o preconceito requer intervenções que, no fim das contas, criam um ambiente onde as pessoas sintam-se culpadas e com vergonha de agirem e pensarem de forma enviesada, e, portanto, passem a monitorar a si mesmo e os outros, como as  campanhas que têm modificado a histórica conivência com as situações de racismo nos estádios de futebol, por exemplo.

No entanto, mesmo que você se considere uma pessoa iluminada por não ter qualquer tipo de preconceito, as coisas podem ser mais complicadas. As estratégias que reduzem o preconceito mais explícito, aquele que sobre os quais temos consciência, podem mascarar para o indivíduo a presença de um preconceito mais automático, que requer vigilância constante. Além disso, as pessoas tendem a buscar justificativas ideológicas para legitimar algumas formas de exclusão social.

‘A discórdia não implica o fim da conversa, implica o começo’.

Grupos historicamente marginalizados, dado o efeito traumático da constante exposição à violência, também podem ter grande sensibilidade para ameaça, às vezes acima de um limite saudável. Nesses casos, a sensação de estar sendo ameaçado, mesmo que imaginariamente, pode levá-los a aceitar momentaneamente algumas formas de discriminação (“estou te expulsando daqui, pois me senti ameaçado”). Com o crescente consenso sobre as formas como determinados discursos preconceituosos se manifestam, cresce também a evocação da liberdade de expressão como argumento para justificar a manutenção destes discursos (não há limites para o humor e sempre acham graça das piadas deste tipo).

Já as estratégias para fomentar a tolerância envolvem o equilíbrio entre valores que são muito importantes para uma comunidade (a diversidade, o direito à identidade, à liberdade), com valores individuais que podem ser conflitantes (não gosto do grupo X, gostaria de me manifestar sem limites sobre o grupo Y). A tolerância nesses casos implica pensarmos nas nossas ações levando em conta os danos que elas podem infligir aos outros, considerado um valor mais importante do que a liberdade de agir sem limites. O fomento à tolerância desse tipo também tem seus limites: não é recomendável ter tolerância contra aqueles que não estão dispostos a concordar com as regras do jogo. Foi o filósofo austríaco Karl Popper quem mostrou com maestria que a tolerância aos intolerantes evolui facilmente para uma situação que colocaria em risco o próprio princípio da tolerância.

A arquitetura da tolerância em sociedades diversas como a nossa demanda resolver impasses como esses que se manifestam em todos os lugares, na política, nas redes e no BBB 21. Como reconstruir um ambiente de debate de ideias – inclusive daquelas que a gente detesta – democrático e, principalmente, não violento? Isso requer a difícil lição de que a discórdia não implica o fim da conversa, implica o começo. Lembre-se: o inferno da intolerância anda cheio de boas intenções.