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Foto: Giovanni Marrozzini

Minha avó Rosa lavava roupa em um rio lá em Sapé, na Paraíba. Não eram peças que ela, minha tia e meu pai usavam: as roupas pertenciam às famílias que viviam nas casas espaçosas da cidade. Passava horas, a semana toda, dentro d’água. Quando ela contou sobre esse período, me ofertou uma cena que de certa maneira me reinaugurou: toda vez que vovó saía do rio as suas pernas estavam repletas de sanguessugas.

Aquilo me apavorou.

“E a senhora voltava no outro dia pra água? Não tinha medo?”

“Ter medo de que, Fabiana? Eu tinha que criar o seu pai”.

Desde então, a imagem da minha avó entrando novamente no rio para lavar roupa, apesar do cansaço, apesar do sangue, apesar dos parasitas, é meu amuleto e minha fé.

“Ter medo de que, Fabiana?”

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Eu e o retrato de minha avó Rosa.

Foto: Arquivo Pessoal/Fabiana Moraes

A imersão contínua na água trouxe sérios prejuízos para suas pernas: os ossos se tornaram frágeis, e ela, depois de uma queda, precisou colocar pedaços de platina para continuar de pé. Assim esteve durante muito tempo. Aos sábados, montava uma barraca na feira livre da cidade e vendia sarapatel, comida feita com as vísceras do boi. Meu pai, criança, ajudava vendendo tapioca. Um dia, voltou chorando e contou que um homem havia batido nele. Vovó não pensou duas vezes: pegou uma faca e foi atrás do agressor.

Fico pensando nessa mulher, aquela indígena potiguara, com a faca na mão. Buscava sozinha algum reparo para um filho ferido no interior do Brasil de 1960. Rosa fez de tudo: foi camareira em um hotel, foi para o Rio trabalhar como empregada doméstica, fez meu pai estudar. Tinha uma vaca branca que adorava, a Cambraia. O meu avô, para tomar cachaça, vendeu Cambraia sem lhe avisar. Um dia, ela cansou e mandou ele embora.

“Ter medo de que, Fabiana?”

No mundo-Brasil repleto de estereótipos, esse texto pode rapidamente aprisionar vovó Rosa no que chamam de “mulher-macho”. Ou em uma espécie de heroína. Mas não: ela tinha, como você e eu, seus limites, seus erros e espaços borrados. Lembro que, às vezes, me mandava arrumar os cabelos e usar roupas mais delicadas, ficar mais “civilizada”. Parecer menos preta, me parece.

Vovó foi mulher-mulher. Alguém que entendia que ser doce não é ser dócil e que certos acordos são inegociáveis. Alguém que nunca teve medo de ser e de falar. Enquanto fui crescendo, pensei muito no que esse não calar custou à minha avó, pois entendi que o mundo é diferente para quem silencia e para quem fala. As consequências dessas escolhas são díspares: a primeira, teoricamente, pode te proteger. A segunda, no limite, pode te matar (Marielle, presente).

Percebi mais: pessoas negras com opinião assustam, soam inconvenientes, “atrevidas”. Pessoas negras que apenas sorriem e balançam a cabeça dizendo “sim, senhor” são entendidas como muito educadas e fáceis de conviver.

Assim, eu deveria escolher: para gente como eu, já estavam reservadas poucas roupas pré-fabricadas. Havia a fantasia da difícil, havia a fantasia da dócil. Assim como a minha vó, mulher-mulher, eu não me interessei por nenhuma. Preferi, muito carinhosamente, abrir outro caminho no mato. Para isso, precisei amolar minha faca.

Não conheço nenhuma pessoa que tenha tomado essa decisão e tenha se arrependido. Igualmente, não conheço nenhuma pessoa que tenha tomado essa decisão e não carregue muitos arranhões.

“Gente como eu”: buceta, pele escura, vinda do morro. Uma vez, para me elogiar em um grupo de amigos após a notícia de que eu ganhara um prêmio nacional, uma pessoa disse: “ninguém dava nada por ela”. Outra vez, estava perto de gente com muito dinheiro, investidores de arte e do mercado financeiro. Meio divertida, dei uma opinião que se contrapunha ao que um dos endinheirados dizia. Ele parou por um momento. Olhou não para mim, mas para meu companheiro, um homem branco. “Ela é danada, né?”. Quase todos riram. “Danada”, “atrevida”, “neguinha enxerida”. Me mandaram calar a boca diversas vezes.

Desde que compreendi o que as sanguessugas nas pernas da minha avó significavam, desde que entendi o que me cabia ao ver a minha mãe branca limpando hotéis e o meu pai negro vendendo fotografias sob o sol, eu quis entender mais o Brasil. Primeiro, saber sobre o que nos conformava à pobreza, que nos era vendida como “destino”. Depois, porque eu deveria me manter calada e por qual razão a opinião de outras pessoas – não gente como eu – era facilmente assimilada. Eu estava interessada, enfim, em entender o poder.

Aí, finalmente, conheci uma irmã da minha avó: o nome dela é Gloria Jean Watkins e ela nasceu em 1952 muito longe de Sapé, em Hopkinsville, Kentucky, sul dos Estados Unidos. Enquanto vovó lavava roupa, vendia sarapatel e defendia meu pai com uma faca, Gloria crescia e mudava o nome para bell hooks, uma homenagem à sua bisavó.

hooks me ajudou a entender que aquilo o que se poderia pensar como experiência pessoal era, na verdade, uma questão coletiva. Mulheres negras cujas opiniões são ouvidas somente após a autorização de outrem faziam (fazem) parte uma estrutura socialmente organizada – e organizadora.

Quando decidiu que não iria se calar, e mais, que iria ensinar outras mulheres a fazer o mesmo, hooks escreveu: “A fala intensa não era tão ameaçadora quanto o silêncio imposto”. A garota meteu o loko. Convidou os homens, brancos e pretos, a olharem para si: quase sempre, a fala reprimida delas resultava dos silenciamentos por eles impostos.

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A norte-americana bell hooks me ajudou a entender que minha experiência pessoal era, na verdade, uma questão coletiva.

Foto: Montikamoss / Wikimedia Commons

Afasta de mim esse cale-se, pai

Eu pensei muito em ambas, Rosa e bell, enquanto lia “Torto arado”, o livro fenômeno escrito por Itamar Vieira Júnior sobre a história de duas irmãs, Bibiana e Belonísia. Também fiquei me encontrando naquelas páginas pensando em como, para fugir do tal “destino” e das poucas roupas que me ofertaram, eu precisei articular um pouco de Bibiana, a que segura o livro; e um pouco de Belonísia, a que carrega o punhal (se você está passando uma temporada na lua e não ouviu falar sobre a elogiada obra, ganhadora de prêmios nacionais e internacionais, tem texto e entrevista a respeito dela aqui e aqui).

Tenho pensado mais ainda no livro, nas mulheres negras e no interdito desde que recebi no meu Facebook, há quatro semanas, uma mensagem privada do perfil de Itamar nessa rede.

Nela, ele sugere que sou racista – afirma que eu preferiria que um homem branco estivesse no lugar de sucesso dele – por conta de um breve comentário que fiz, publicamente, sobre seu livro.

Foi no meu Twitter. Lá, escrevi:

A mensagem de Itamar foi enviada há um mês. Demorei a escrever a respeito por dois motivos: o primeiro é que estou mais atenta sobre ser reativa, sobre me apressar na fala e na escrita. Se elas me salvaram tantas vezes, decidi que serei mais cuidadosa. Se elas, em poucos caracteres, provocaram uma mensagem tão virulenta e descuidada, então que agora haja tempo, espaço e reflexão.

O segundo motivo da minha demora na resposta – e aqui escrevo também olhando para você, Itamar – é a centralidade da discussão que tua mensagem provoca.

Eu acredito, vivendo em um país cujo presidente se refere a nós como animais (pesamos, os pretos, em “arrobas”), que seja hoje fundamental mantermos um horizonte comum, no qual as nossas desavenças não nos apartem ou enfraqueçam.

Continuamos sob ataque. Há semanas, boa parte do entretenimento brasileiro é ver, confinado em uma casa filmada pela Globo, um grupo de pessoas negras discutindo umas com as outras. Dedo na cara. Voz alta. Essas discussões vêm trazendo debates importantes, mas desconfio que o impacto negativo sobre nossa vida objetiva e subjetiva vá ser maior.

Decidi te responder publicamente, Itamar, porque minha mensagem para você ficou, diferentemente da sua mensagem para mim, no vácuo. Pensei muito se deveria falar a respeito. Não é fácil erguer a voz dentro de uma estrutura de relações de poder na qual estou em um lado mais frágil. Mas não houve retorno, e sim o aborto prematuro de um diálogo iniciado por você com o que pareceu uma cotovelada na minha cara. Respondi e não fui ouvida. Então quero refletir, aqui, sobre algo que me foi ofertado por você. Entendo que esses textos não são apenas sobre duas pessoas, mas sobre o estado atual das coisas. Sobre falar ou calar. Sobre interditar e não escutar. Sobre que estrutura se mantém firme enquanto pessoas negras estão se atacando.

Primeiro, te peço novamente desculpas, agora aqui, por ter, sem querer, te ofendido. Quando opinamos sobre algo, sobre o que é caro às pessoas, precisamos embasar melhor nossa fala. A pressa não pode mais servir de anteparo. Falei sobre algo importante e não tive o cuidado de apresentar melhor a discussão. Erro meu. Levarei esse aprendizado e te agradeço por isso.

Mas repare: eu te peço desculpas. Não te peço licença.

Existem dois diferentes tópicos no que escrevi no Twitter: um é o seu livro, o outro, o mercado editorial. Começo pelo primeiro.

Apesar de você não ter valorizado o que inicia o meu tweet, acho mesmo seu livro bom: passei dias abraçada a ele, emprestei a uma amiga, ofertei dois exemplares como presentes ano passado. Existem passagens preciosas, personagens que ficam íntimos. É bonito ler sobre Maria Cabocla e Belonísia; olhar as estrelas sobre os jarês de Zeca Chapéu Grande; estar na inauguração da escola na fazenda. Tem ainda umas delicadezas:

“Se ela tivesse visto minha cabeça, veria que ainda preservava as tranças que havia feito uma semana antes, e nos meus olhos tudo que advinha daquele gesto íntimo” (p. 149).

Li recentemente “Água funda”, de Ruth Guimarães, e a “A Autobiografia da minha mãe”, de Jamaica Kincaid. Seu livro se juntou a eles: mulheres, interiores, violência, silenciamentos, sobrevivência.

Mas, sim, outros trechos de “Torto Arado” me incomodam. Acho que há um excesso de descrição em alguns momentos, uma explicação exagerada. Senti isso em várias passagens. Aqui, para ilustrar, trago apenas duas: “Não podemos mais viver assim. Temos direito à terra. Somos quilombolas” (p. 187). Ou aqui: “Quando ele veio para cima para tentar me retirar dali à força meu coração estava aos pulos, sentia meu interior frio como a brisa da madrugada, mas permaneci firme como meus antepassados” (pg. 150).

Ambas me soam cerimoniosas demais, quase pomposas, artificiais. É como se precisassem reiterar temas e discussões que, àquela altura da leitura, já são íntimos para quem está lendo. É nesse sentido que vejo um didatismo desnecessário (e acho que didatismo pode ser bom). Acredito que parte do mercado editorial está interessada nisso neste momento de grande atenção à letra preta e voltarei a falar a respeito. Mas veja: essa é uma opinião pessoal. Ela não desmerece seu trabalho. E ela também merece legitimidade, faz parte de meu exercício crítico (me vem aqui Milton Santos).

Por isso me entristece, Itamar, quando você me escreve que a crítica é livre, mas depois emenda dizendo que, apesar da minha opinião, seu livro ganhou três prêmios importantes, dois internacionais, e passou pela leitura de 17 jurados diferentes. Parabéns, mesmo. Acho sensacional e quero que gente preta ganhe ainda mais projeção. Que te cheguem mais prêmios e elogios. Mas isso não muda minha relação com tua obra, Itamar. Desqualificar minha opinião por causa das premiações é uma postura colonial – afinal, quem seria eu para falar do livro se 17 pessoas mais preparadas não viram nenhum ponto sensível nele, não é mesmo?

Não, não sou uma jurada internacional e importante. Não, não sou do mercado editorial. Mas sou uma leitora, uma figura central – e autônoma – na literatura. Uma leitora que, parece, se atreveu demais ao fazer um comentário crítico ao conteúdo do teu livro, algo bem longe de fazer um ataque pessoal a você.

Me parece perverso que um autor que escreve sobre mulheres negras que se fazem ouvir se dirija de maneira tão agressiva e autoritária a uma delas justamente por um ato – público, diferente do seu – de fala.

Você não discordou de mim na mensagem que me enviou. Isso seria ótimo: argumentos, discussão, reflexão. Discordar de fato seria me chamar à conversa. Discordar seria ler minha resposta para você, que parece não ter perdido tempo procurando entender o que escrevo e o que me move.

Discordar seria abrir o diálogo. Mas você ignorou as desculpas. Não argumentou sobre minha opinião e preferiu sugerir que sou racista: disse, violentamente, que eu preferiria que o prêmio tivesse ido para as mãos de um homem branco de classe média falando sobre o próprio umbigo. Sim, você voltou a falar de prêmio, não entendi o porquê nem que prêmio seria esse, afinal você ganhou vários.

Você, enfim, enfiou um punhal na minha língua.

Tua mensagem segue e termina dizendo que as coisas estão mudando, e pessoas negras estão podendo mostrar sua arte, apesar de gente que torce pelo contrário, como eu. Vou fazer das suas palavras as minhas: é uma afirmação extremamente ofensiva comigo, com minha trajetória como mulher e intelectual negra. No que me torno a partir do momento que torço para que pessoas pretas continuem nas sombras? Que “gente” afinal sou eu, Itamar?

‘Sugerir em uma mensagem privada que sou racista é tentar produzir um interdito’.

Uma mulher sábia, Neon Cunha, uma vez falou: toda pessoa branca é potencialmente racista, assim como toda pessoa cisgênero é potencialmente cissexista e/ou transfóbica. Mas isso não faz com que todo branco seja racista ou toda pessoa cisgênero seja cissexista e/ou transfóbica. Ao simplesmente usar desses expedientes de maneira rasa, lançando-os inclusive para calar alguém, terminamos esvaziando o sentido de discussões que nos são muito caras. Não só esvaziando, mas provocando entre nós ainda mais feridas. E, eu sei que você sabe, nós não precisamos nos arranhar mais. Inclusive quando discordamos.

Sugerir em uma mensagem privada que sou racista, por que não gosto de alguns aspectos do teu livro é, na verdade, tentar produzir um interdito. É se sentir no direito de controlar a minha recepção do teu livro. E isso, Itamar, eu não posso aceitar.

“Ter medo de que, Fabiana?”

Quero terminar falando sobre a consciência branca e o mercado editorial que citei no meu tweet. Você sabe tanto quanto eu, Itamar, que nos últimos anos diversas pautas centrais na vida e morte de milhões de pessoas foram assimiladas enquanto produtos e expostas em prateleiras, sendo o feminismo e o racismo os mais candentes exemplos. O Black Lives Matters tornou-se, inacreditavelmente, até sugestão de tema de festa.

Esse interesse enorme do mercado e da mídia pela gente preta já foi mapeado e comentado por várias pessoas: Silvio Almeida chamou de “micareta racial” o interesse midiático sobre o Black Lives Matters; Levi Kaique Ferreira, do Mundo Negro, também escreveu sobre o tema. Abordando a propaganda, Carolina Campos criticou o que chama de “hype da diversidade”.

É aí que entra o “boom” dos negros no mercado editorial brasileiro, “entidade” que só há pouco descobriu que existíamos, apesar de sempre ter vendido livros em um país cuja população é majoritariamente formada por gente da sua cor e da minha. É claro que esse interesse em autoras e autores pretos é fundamental e, infelizmente, demorou muito para acontecer, tanto a ponto de fazer com que uma maravilha como Ruth Guimarães, a quem já citei, permanecesse durante anos como ilustre desconhecida. Em 2017, Conceição Evaristo me disse que só perto dos 70 anos havia começado a se sustentar somente da literatura. Hoje, ela tem 74. Onde estava esse mercado que agora nos venera?

Celebro as presenças delas e celebro a sua. Chamo a atenção, no entanto, desse mercado para dizer: nós não somos um hype. Chamo ainda atenção para que todas e todos nós, pretos, fiquemos atentos e não deixemos, novamente, a narrativa da boa ação branca “nos salvar” (criança, achei que devia minha vida à princesa Isabel). O jornalista e professor Pedro Almeida escreveu em novembro do ano passado um ótimo artigo no qual aponta justamente ser preciso estarmos de olhos abertos para que um direito legítimo não seja trabalhado como uma moda. Sintetizou ali o que eu levantei como ponto: “muitas vezes uma ‘reparação’ pode ser um meio de manter tudo exatamente onde estava”.

Ou seja, a “reparação” pode ser um modo de silenciar.

Quando vejo pessoas brancas postando no Instagram as capas de livros de autoras/es negras/os, me pergunto em que medida elas estão de fato interessadas em uma luta antirracista. Se, ao postarem “vidas negras importam”, elas pensam, por exemplo, no sistema carcerário brasileiro. Sei de uma mulher, branca, que leu somente autoras negras no ano passado. Ela não dispensou sua empregada doméstica, preta, durante a pandemia.

No ensaio “Um estranho na aldeia”, James Baldwin (citado lá no meu tweet) reflete sobre sua presença em um povoado suíço que, tudo indicava, nunca havia sido pisado por pés negros. Ali, a cor de sua pele e a textura do seu cabelo se tornaram atrações. No início, ele apenas sorria – sim, porque, como eu e como tanta gente de nossa cor, o escritor sorria para pessoas brancas imaginando que, assim, elas gostariam mais dele. “Mas se eu rosnasse, elas não perceberiam a diferença”, escreve. Ele diz mais:

“O negro insiste, por qualquer meio a sua disposição, que o branco deixe de considerá-lo como uma raridade exótica e o reconheça enquanto ser humano. Esse é um momento muito tenso e difícil pois há muita vontade de poder envolvida na ingenuidade do branco”. (pg. 191)

Não tenho dúvida de que, nesse interesse pela “literatura negra” está incutida também essa vontade aparentemente ingênua de poder. Não tenho dúvida de que uma hashtag como #SomosTodosAmarildo, assim como livros de pessoas pretas postados nas redes, sejam, também, anteparos para aplacar a má consciência branca e o peso, imagino, de ter ficado tanto tempo em silêncio enquanto Agatha ou Miguel e milhares de nós morriam vítimas do racismo e do classismo. Ela, veja só, é baseada na “boa consciência” iluminista que adora dizer “somos todos iguais” (obrigada, Muniz Sodré). Somos?

Já conversei muito sobre isso com autoras/es negras/os e foi um deles, Allan da Rosa, escritor pelo qual nutro profunda admiração e respeito, que trouxe Baldwin para a conversa. Allan já percebeu, por exemplo, como o selo “decolonial”, hoje usado por muitos brancos que mantém exclusões e chiquezas, virou espécie de escudo protetor. Deles, não nosso. Chama atenção para que nós, pretos, não nos deixemos levar por um pseudo-protagonismo presente em um capitalismo que consegue assimilar facilmente nossas pautas. “Ele mostra o limite de nossas reivindicações, que não contemplam nossas aspirações”.

O uso indiscriminado da chamada “representatividade” é exemplo disso. Há anos sou chamada por pessoas brancas para participar de debates porque “precisam de uma mulher negra à mesa”. Me dizem isso, e a cara nem treme. Abandonei uma entidade nacional de jornalismo quase 100% branca depois de compreender que, lá, minha opinião, na verdade, não valia muito. Mas era legal ter “diversidade” na diretoria. Chama aí uma mulher negra do Nordeste. É muito cansativo lutar contra sua própria instrumentalização. Eu imagino que, em algum momento, você também já tenha vivido ou sentido isso, Itamar.

São formas bem mais sutis e insidiosas de fazer calar não só uma pessoa ou grupo, mas toda uma população.

Este texto (que ficou enorme, eu sei) foi escrito como ponte, não como interdito. Este texto não serve para que ataquem a mim ou a você. Serve ao diálogo e não convoca ao cancelamento. Este texto não tem o tempo das redes ou de um tweet. Este texto é fala e é escuta. Precisava escrevê-lo para não deixar um arado torto e velho lacerar a minha carne.

Termino vendo a minha avó voltando para o rio.

Enquanto ela caminha, cito outro trecho do teu livro, Itamar. Está na página 128:

“Não me furtava a dizer o que faria muitos correrem, temendo a virulência de uma língua”.