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Foto: Evaristo Sá/AFP via Getty Images

Quem tem 158 anos como eu deve lembrar de um programa chamado “Domingo no Parque”, comandado por Silvio Santos ali em meados dos anos 80. Nele, uma brincadeira provocava em nós, à época pirralhas, uma certa comoção: uma criança ficava dentro de um foguete equipado com uma lâmpada vermelha cercado tanto por prêmios (bicicleta, geladeira, boneca, máquina de lavar roupa) quanto por objetos sem muito valor (como uma lancheira velha, um saco de pipoca ou um espelhinho). O apresentador ia perguntando se a criança lá dentro queria ou não determinado objeto e, sem ver o que ele escolhia, ela podia dizer apenas “sim” ou “não”. Várias vezes, é claro, deu ruim: teve gente trocando a então sonhada TV a cores por uma figurinha rasgada, uma bicicleta por uma meia suja.

Às vezes tenho a impressão de que uma parte significativa da imprensa brasileira é a criancinha dentro do foguete, berrando às cegas para o público sem ver o que se passa ao seu redor. É o que justificaria, por exemplo, o seu comportamento quando o presidente Jair Bolsonaro apareceu em cena antes de assumir o máximo posto do Executivo. Naquele momento, a pergunta era muito clara: “Caros veículos de comunicação, vocês querem trocar uma promissora senhora de 35 anos chamada Democracia por um fã incondicional de tortura e com uma passagem pífia de quase três décadas no Congresso Nacional?”.

A luz vermelha acendeu e parte da imprensa soltou um sonoro “siiiiiim” lá da cabine.

Com uma a cada cinco famílias brasileiras cozinhando com lenha e carvão por falta de dinheiro para comprar gás; com cortes nas combalidas Saúde e Educação e investimento na Defesa; com a imensa militarização do governo; com mais de 260 mil de mortos por covid-19 ao nosso redor, está claro que escolhemos a figurinha rasgada.

E o que faz, lá dentro do seu foguete, a menina Imprensa?

Continua, a seu modo, berrando “sim” para Bolsonaro, apesar de saber – como na verdade sempre soube – o que se passa ao seu redor.

É verdade que são muitas as matérias críticas, os editoriais falando em impeachment, as manifestações públicas de horror vindas de jornalistas em suas redes sociais. É também verdade que temos muita gente e veículos valorosos que estão há muito tratando Bolsonaro pelo que ele é e sempre representou.

Mas não se enganem: nessa dança, ainda há quase tanta atração quanto repulsa. São muitas as estratégias que atenuam, na grande imprensa brasileira, a figura lamentável e indesculpável do presidente da República – estratégias quase sempre escondidas sob discursos de pluralidade, objetividade e defesa da democracia.

Desde 2018, temos exemplos destas práticas que perduram mesmo agora, quando o Brasil foi alçado ao posto de maior país menor do mundo. Não dizem respeito, muitas vezes, à figura do presidente em si, mas ao bolsonarismo que está enraizado em nossas instituições e na sociedade civil, uma “filosofia” forjada na boçalidade, na violência, na destruição e no escárnio pela vida.

Nas últimas semanas, nós vimos: 1) nossos veículos de comunicação publicando um anúncio de médicos apoiadores do presidente falando em tratamento precoce (e sobre isso João Filho já falou aqui); 2) novas equalizações entre governos Lula e Dilma ao de Bolsonaro por conta da Petrobras; 3) também a equalização da prisão de um jovem mineiro à prisão do deputado federal Daniel Silveira. O primeiro, desconhecido, sem cargo eletivo e máquina pública na mão. O segundo, um contumaz agressor verbal do STF eleito deputado federal.

Tem mais: como apontou criticamente a ombudsman da Folha de S. Paulo, Flávia Lima, lá e cá gotejam notícias que colocam em dúvida a ação das vacinas contra o novo coronavírus. “Médico do Corinthians recém-vacinado está no grupo de contaminados em surto de Covid-19 no clube”, publicada na própria Folha, era uma delas.

É estarrecedor que, a esta altura do campeonato, o jornalismo que se denomina democrático ainda forneça munição – para usarmos termos caros à filosofia da destruição e do escárnio – ao negacionismo. É estarrecedor que os veículos que, em uma iniciativa importantíssima, tenham formado um consórcio para divulgar os dados da covid-19, depois referendem, através do aceite de um anúncio pago, o discurso negacionista que procuram combater.

‘Qualquer escolha que evitasse a eleição do atual chefe do executivo não era, minimamente, difícil’.

É mesquinha, é pequena, é irresponsável e é atestado de certa canalhice a comparação entre qualquer um dos governos eleitos após a redemocratização com a administração de Jair Bolsonaro. Sermos, nós jornalistas, inclinados a esta ou aquela orientação político-ideológica, o que é normal, não pode nos impedir de admitir o óbvio: estamos na maior das enrascadas políticas dos últimos 35 anos e qualquer escolha que evitasse a eleição do atual chefe do executivo não era, minimamente, difícil.

Não tenho nenhuma simpatia pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mas não sinto nenhum mal-estar em apontar boas e democráticas iniciativas em seu governo. Nele, por exemplo, a questão racial passou a ser finalmente tratada com mais apreço no âmbito do governo federal. Isso se deu graças à pressão dos movimentos negros e ações como a Marcha Zumbi de Palmares contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida, em 1995, que culminou no Programa de Superação do Racismo e da Desigualdade Racial, documento entregue a FHC. No mesmo dia, foi criado no seu governo o Grupo de Trabalho Interministerial para Valorização da População Negra (GTI).

Quando o jornalismo tenta demolir aquilo o que governos anteriores produziram para sermos, de fato, uma democracia, termina comungando da mesma hóstia destruidora do bolsonarismo. A urgente frente ampla que tanto desejamos não depende apenas de partidos, ela também deve ser constituída pela própria imprensa, cuja existência plena depende da manutenção da vida democrática.

Neste exato momento, através na máquina institucional, tenta-se novamente sufocar o trabalho jornalístico: o deputado federal bolsonarista Hélio Lopes apresentou três projetos de lei com claro propósito de minar esse campo. Um criminaliza erros de jornalistas, outro quer impedir que as empresas jornalísticas adotem o Simples, o último propõe o aumento de 15% para 32%  na alíquota do Imposto de Renda para estas empresas.

Dá para sentir um certo mal-estar, meus caros colegas?

Bolsonaro não é louco, não é folclórico, não é um “Sergio Mallandro”, como já escrevi. É um político profissional que está armando a população e tomando as polícias para si. O governo Bolsonaro não tem “ala técnica” e “ala ideológica”: o governo Bolsonaro é de extrema direita e ponto final.

Foi justamente atenuando sua toxicidade que nós da imprensa ajudamos a criar o vírus-presidente. A pílula foi dourada por meio de velhos bastiões jornalísticos, como as ilibadas “neutralidade” e “imparcialidade”. Nesse sentido, é comum ver análises, inclusive acadêmicas, apontando programas populares como Superpop ou CQC como responsáveis pela popularização de Bolsonaro para além das fronteiras do Rio de Janeiro e Brasília. De fato, a contribuição foi grande: ali forjava-se o cara “sem papas na língua” e “autêntico”. Bom para garantir audiência. Mas quem “higienizou” JB para o mercado e para boa parte da população não foi  Luciana Gimenez e cia. (Escrevi sobre isso em um artigo científico sobre a celebrificação de Bolsonaro).

‘Se não vamos interpretar o que reportamos, deixemos que a inteligência artificial produza’.

A adoção de práticas como o irresponsável jornalismo declaratório (quando jornalistas usam no texto uma declaração qualquer e se isentam, através das aspas, do que foi publicado), trouxe, por exemplo, JB do “populacho” televisivo para os cadernos de política e economia. É claro que, sendo uma figura pública e tendo cargo eletivo, JB deveria e deve ter suas frases publicizadas. Mas usar esse recurso como forma primeira de adquirir engajamento e sem qualquer análise crítica, lavando as mãos pelo o que está sendo publicado, não é compatível com o trabalho de um jornalista ou empresa que estejam comprometidos com as implicações do que estas frases fazem reverberar junto a seus leitores. Se não vamos interpretar o que reportamos, deixemos que a inteligência artificial produza o noticiário, algo já comum em várias empresas (no site da Forbes, robôs escrevem notícias desde 2010).

Essa postura falsamente “isenta” revela, em parte, uma imprensa classista, racista e desconectada de um Brasil de violência e desigualdade. Já entrou para a história do jornalismo nacional, por exemplo, a indesculpável hesitação em usar o termo “extrema direita” para definir o presidente. Chegou-se a defender tecnicamente a restrição de seu uso: na citada Folha de S.Paulo, o Manual de Redação conforma o uso de “extrema” para direita ou para esquerda apenas para designar facções que praticam ou pregam violência como método político (o mesmo valendo para o termo “radical”).

O que isso significa? Significa que, no entendimento de um dos mais importantes jornais do país, declarações públicas do tipo “vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”, “Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar, porque não merece” ou “o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas” não se configuravam em violências. A então ombudsman do jornal, Paula Cesarino da Costa sabia disso e, na campanha eleitoral de 2018, escreveu:

“A candidatura do PSL representa corrente política militarista com demonstrações explícitas de defesa da violação dos direitos humanos, de questionamento dos direitos das minorias, que nega a ditadura militar e a ocorrência comprovada de torturas e que mantém reiterados flertes à quebra da normalidade democrática. Esses pontos factuais somados parecem mais do que suficientes para definir uma candidatura como sendo de extrema direita, aquela que opta por estratégia extrema, além do eixo construído no consenso democrático por direita e esquerda. Órgãos de imprensa do mundo todo — dos economicamente liberais de direita aos abertamente progressistas de esquerda — concordaram com essa apreciação. A meu ver, a Folha e os principais órgãos da imprensa brasileira se equivocam em não fazê-lo e não parecem preocupados com a dimensão histórica desse entendimento”.

A excelente contribuição crítica de Paula, no entanto, não foi ouvida naquele momento e parece que ainda encontra resistência nos dias atuais apesar de nosso triste cenário (afinal, Paulo Guedes, pilar do bolsonarismo, continua tchutchuco em vários corações).

Mas e agora, 2021, quando estamos todos e todas aqui, cercados por figurinhas rasgadas, lancheiras velhas e meias sujas? Cercados por pilhas de mortos, destruição de biomas e calculada incompetência?

A manutenção das estratégias de atenuar o governo Bolsonaro significa cumplicidade com o seu projeto de morte e autoritarismo, e não tem BTG Pactual e Empiricus que escondam isso. Passou da hora dos veículos de comunicação que precisam do ambiente democrático para sobreviver, sairem do foguetinho dourado e tentar, com menos cinismo e mais responsabilidade, recuperar o Brasil da filosofia da destruição.

Para quem se interessa em saber mais sobre discussões a respeito do jornalismo:

Farol Jornalismo

Cajueira (curadoria de notícias produzidas no Nordeste)