Chamam atenção desde semana passada as declarações de entidades da segurança pública contra o presidente Jair Bolsonaro. Na imprensa, foram notícia os depoimentos de agentes, que tacharam o capitão reformado de ‘traidor’, até as ameaças de paralisações da União dos Policiais do Brasil, entidade que reúne 24 carreiras da segurança, contra o governo federal.

Os episódios parecem ser pontuais, mas revelam sintomas de um desconforto constante e progressivo entre Jair Bolsonaro e uma de suas bases eleitorais mais importantes, os policiais militares.

Segundo projeções da Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares Estaduais, a Feneme, os PMs brasileiros conseguiram alavancar cerca de 14 milhões de votos para o presidente da República nas eleições de 2018. O número, para se ter ideia, representa um patrimônio eleitoral que é quase a soma do total de votos que o governador de São Paulo, João Doria, do PSDB, e o ex-governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, do PSC, receberam em 2018. O tucano foi eleito com cerca de 10,9 milhões de votos e, Witzel, com aproximadamente 4,6 milhões votos.

Os PMs e agentes da segurança são público-alvo de Bolsonaro desde quando ele era deputado federal pelo Rio de Janeiro – o presidente era considerado membro do conglomerado de deputados que fazem lobby na área da segurança pública e foram eleitos pela plataforma de combate ao crime, a “bancada da bala”, no Congresso. Assim que virou uma figura nacional, abarcou o apoio de PMs de outros estados.

Mas o casamento entre policiais militares e o bolsonarismo está conturbado desde outubro de 2019, quando teve início a briga interna entre os dois grupos pelo poder do PSL, então partido do presidente.

A crise foi pública. O senador Major Olímpio e o vereador Carlos Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, protagonizaram um barraco digital. No Twitter, a troca de xingamentos foi de “moleque” a “cadela no cio” e marcou a ruptura entre o clã Bolsonaro e os policiais.

Discussão entre Major Olimpio e Carlos Bolsonaro.

Agora, de norte a sul do país, o sentimento que prevalece nas tropas, internamente, é de “frustração” com o presidente. Pela primeira vez, começa a crescer o sentimento de decepção das bases das PMs — representadas pelos agentes de patente baixa — com Bolsonaro.

O Intercept conversou com oito praças e oficiais das polícias militares de São Paulo, Minas Gerais, Alagoas, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, entre eles, líderes de associações nacionais de PMs responsáveis por representar a categoria em Brasília, para entender as razões do possível rompimento com Bolsonaro.

O que encantava as bases, analisam os policiais, era o discurso do presidente de não ser político tradicional, de não vender ministérios ao centrão, de lutar “contra tudo isso aí”, uma espécie de “Davi contra Golias” – para usar o termo lembrado por um coronel –, mas que caiu em contradição com o passar do tempo.

Apesar de serem diversificadas e com realidades distintas, as PMs brasileiras têm semelhanças: entre os praças (agentes de baixa patente, como cabos, soldados e subtenentes), o apoio ao presidente sempre foi mais por identificação ideológica e militar do que por estratégia, como é o atual caso dos oficiais (tenentes-coronéis, coronéis, etc.).

Ao longo dos últimos dois anos, episódios pontuais deram início ao processo de desencanto dos oficiais. Dois capítulos marcantes foram a sanção da lei de abuso de autoridade, em que os PMs se sentiram “achacados” pelas novas regras e viram nelas um dificultador do combate à corrupção; e a aproximação de Bolsonaro dos inimigos que ele jurou em campanha combater: os partidos do centrão. Mas “deu pra engolir”, me disse um coronel.

A gota d’água para os agentes de alta patente foi a aprovação da Reforma da Previdência, sancionada com pontos vistos como prejudiciais aos PMs, como, por exemplo, o aumento no tempo de serviço para aposentadoria e na alíquota de contribuição à previdência e a falta de apoio para tirar os militares do balaio da PEC Emergencial, aprovada na Câmara e enviada ao Senado na última semana.

A proposta original impedia a categoria de ter reajuste salarial, promoção ou progressão de carreira. Nem um final de semana inteiro de pressão de policiais fez o Palácio do Planalto remover o dispositivo antes de ele ser votado na Câmara, no dia 12 de março. Foi o partido arquirrival do presidente, o PT, que propôs um destaque amenizando os prejuízos aos policiais.

BRASILIA, BRAZIL - JANUARY 17: A police officer watches a large puppet representing Brazil's President Jair Bolsonaro as a killer raised by demonstrators during a protest in favor of Bolsonaro's impeachment in front of the headquarters of Brazil's health agency ANVISA (National Health Surveillance Agency) amidst the Coronavirus (COVID - 19) pandemic on January 17, 2021 in Brasilia. Brazil has over 8.455,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 209,296 deaths. (Photo by Andre Borges/Getty Images)

Boneco inflável gigante de Bolsonaro em protesto contra o presidente.

Foto: André Borges/Getty Images

Mesmo frustrados, os cabos, os soldados e os subtenentes acabam “passando pano” para o capitão por uma “identidade militar”, me disse um influente coronel de São Paulo. “Eu ouço dos policiais até um conformismo, que não tem jeito, que deve ser um sacrifício”, contou. “No fundo, o apoio vem de uma identidade militar. Eles veem o Bolsonaro como camarada, um companheiro de caserna. Mas, se ele não adotar nenhuma medida de imediato, vai chegar desgastado em 2022. A tendência é o desgaste aumentar cada vez mais”.

Presidente da Federação Nacional de Entidades de Oficiais Militares Estaduais, o coronel Marlon Jorge Teza também vê o início desse movimento. “A base conhece muito pouco, vai muito com o momento. Nosso pessoal, tirando a euforia inicial da eleição, achava que iam mudar tudo, mas quando veem que não é assim, gera uma frustração”, ponderou. “Há um trabalho para que o Executivo não nos detone. Nossa luta é ali. Os últimos acontecimentos, como a PEC Emergencial, deram uma baqueada na turma. Não vejo como um desembarque, mas evidentemente há um estremecimento”.

O tenente-coronel Olegário Marques Paes Júnior, de Alagoas, seguiu na mesma linha em suas considerações. “O que está nos incomodando são as sucessivas situações que o próprio governo federal proporciona. Nós, militares, fomos cabos eleitorais nos rincões mais longínquos do Brasil, apoiando a candidatura de Bolsonaro. A gota d’água que está transbordando o copo é a PEC”, comentou o presidente da Associação dos Oficiais Militares de Alagoas, a Assomal.

“Em Alagoas, a parcela crítica ainda é pequena. A maioria, mesmo com as insatisfações, ainda vê um grande aliado no governo federal. Mas garanto: com certeza estão começando a acordar. Hoje a politização da tropa é surpreendente e muito bem aceita”, continou Paes Júnior. “Você não tem uma tranquilidade em nível de governo. Está sempre na posição de apagar incêndio. Sempre reativo, não proativo”, completou.

Mesmo assim, ainda há uma parcela considerável nas bases que defende com unhas e dentes o capitão reformado. “Isto é fumaça dos infiltrados de esquerda. Mentira! Na verdade, não só os praças das PMs, como das Forças Armadas Brasileiras, que gostam do Bolsonaro. O fato é que todos sabem que, quando ele sair, o Brasil vai falir!”, me escreveu um praça.

Os oficiais ressaltam que o sentimento de decepção também reverbera em outras categorias, como policiais federais, policiais rodoviários federais, policiais civis e agentes penitenciários – esses, responsáveis pelo lobby intenso para incluir a categoria como grupo prioritário na vacinação contra a covid-19. Antes, os presos teriam preferência aos agentes, mas, após uma chuva de críticas das forças de segurança pública, o Ministério da Saúde alterou a regra no Plano Nacional de Imunização.

Com Lula, só um ‘milagre’

Fundador da Feneme e presidente da Defenda PM, a principal associação representante de oficiais de São Paulo, o coronel Elias Miler analisa que o ex-juiz e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, é um dos únicos que podem conseguir roubar do presidente os milhões de votos encabeçados pelas PMs.

“Eu vejo que se o Moro fosse candidato, não só a população, como muitos policiais votariam nele pela operação Lava Jato. Teria de ser um nome assim. Agora, [João] Doria, jamais. [Luciano] Huck e [Luiz Henrique] Mandetta, sem chance. Mas, com Moro, há uma grande chance de dançar”.

O coronel Marlon Teza corrobora, porém, ainda acha cedo para falar em 2022. “Eu acho prematura essa análise, mas eu não discordo. Se aparecer alguém moderado, eu acho possível. Não há amor extremo ao Bolsonaro, mas não há ódio extremo”.

Um coronel afirma que o nome de Bolsonaro é candidato certo dos PMs apenas se for ao segundo turno contra Lula e o PT. O ex-presidente chegou a acenar à categoria durante seu discurso após ter suas condenações da operação Lava Jato anuladas em 8 de março. Mas para fazer os agentes apertarem 13 na urna, dizem os coronéis, o ex-presidente terá de ‘fazer um milagre’.

“Ninguém acredita [no aceno]. Até pelo conhecimento que as pessoas têm [de acusações de casos de corrupção], dentro do nosso seio, eu acho muito difícil alterar a cabeça delas. Não estou falando em candidatos de esquerda ou direita, estou falando de Lula, especificamente. Mas, hoje, é difícil prever, né? Pode ser que isso mude”, concluiu um tenente-coronel.