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Foto: Marco Antonio Rezende/Brazil Photos/LightRocket via Getty Images

O Brasil é aquele país que tem horror à fome, à ideia da fome, à possibilidade da fome. Não suporta pensar na sua proximidade: sabe que ela devasta o corpo, a dignidade, a vida. Mas o Brasil é também o país que está totalmente acostumado à sua presença, seja de forma real ou mediada: ela está no rapaz circulando perto dos carros e segurando um cartaz pedindo comida; na criança magra vista na matéria da revista; na campanha de arrecadação de alimento que mostra a família, de preferência nordestina, em frente a um casebre.

Os sentimentos circulam entre a revolta e uma desmobilizadora resignação: repetimos que aquilo precisa ser combatido, que é “uma vergonha”, que “o governo devia dar um jeito”, que “esse é o Brasil”. Todo esse horror geralmente tem um destino: no fim, a fome dos outros é um problema dos outros – a não ser que ela sirva para nos entreter, para respaldar reportagem especial ou para apresentador da Globo mostrar “a miséria” em rede nacional e assim posar de salvador da pátria. Falo já a respeito.

O fato é que depois de passar algum tempo meio fora de moda, a falta de comida no prato voltou bombando ao noticiário e à vida nacional. Os motivos são diversos, mas aqui podemos sintetizá-los: chegamos a mais de 39,9 milhões de pessoas vivendo na miséria (renda de até R$ 89 por mês) e mais de 11 milhões em situação de insegurança alimentar, segundo o  IBGE e Ministério da Cidadania. É um aumento de três milhões de pessoas com fome nos últimos cinco anos. Esses números estão desatualizados: neles não está incluída a população de rua nem os últimos impactos da covid-19 no país. Consequentemente, voltamos ao Mapa da Fome do qual saímos somente em 2014, durante o governo Dilma. A região Nordeste concentra quase metade (47%) da pobreza brasileira.

Um último e não menos importante motivo: a fome e a pobreza como tópicos relacionados ao retorno de Lula à corrida presidencial em 2022.

Quero tratar desse último caso, já que ele está diretamente relacionado aos anteriores: falar nos governos petistas é evocar o Bolsa Família, o maior programa de transferência condicionada de renda do mundo (em número absoluto de pessoas assistidas). E falar no Bolsa Família é, também, uma boa oportunidade para nós, os não famintos, analisarmos a nossa relação tantas vezes cínica com a pobreza e a fome, tratadas como se fossem entidades sobre as quais falamos, lemos e nos entretemos, mas sobre as quais não nos responsabilizamos efetivamente.

A fome como espécie de Netflix não confessado.

Admito que foi com verdadeiro fascínio que ouvi a jornalista Thaís Oyama, no canal My News, falar da elegibilidade do ex-presidente. Ao analisar que as classes D e E seriam disputadas por Bolsonaro e Lula em 2022, a profissional automaticamente trouxe o Nordeste como o endereço óbvio dessa pobreza. Ali, ainda arrematou que, na região, “Lula é tido e havido como o pai dos pobres”, afirmação que escuto bem mais na imprensa sul/sudestina do que aqui em Pernambuco. A coisa avançou e galgou, eu diria, para o poético: em determinado momento, Oyama afirma que o ex-presidente é forte nestas terras porque trouxe “um tempo de fartura, um tempo de pujança, as pessoas têm essa nostalgia”.

Até então, “nostalgia”, para mim, remetia à saudade de um domingo na praia com a família, à lembrança do primeiro ano na universidade, à memória do filho recém-nascido dormindo no berço. Nunca associei “nostalgia” à extrema pobreza ou à miséria, tampouco às palavras “fome”, “urgência”, “desespero”, “necessidade” ou “morte”. Fiquei pensando se isso é por conta de algum ponto muito pouco sofisticado da minha cognição ou se é apenas mais uma prova do distanciamento absurdo que as classes médias e altas – e a maioria da imprensa – mantêm com uma pobreza sobre a qual se sentem tão à vontade para falar.

Ao mobilizar no seu argumento o conceito de “nostalgia” – reintroduzido no debate político pelo norte-americano Mark Lilla –, Oyama inverte percepções e fatos. Situa o entendimento que os pobres brasileiros têm dos governos Lula no que o cientista político chama de comportamento “reacionário”, ou seja, no campo de quem se opõe às transformações supostamente “progressistas” (neoliberalismo, desregulamentação, etc.) em nome de um passado idilicamente imaginado.

Se os pobres/nordestinos ainda são base de apoio do ex-presidente, não é por qualquer associação messiânica à sua figura política, como se ele tivesse sido um provedor familiar ideal em um passado mítico de fartura (“pai dos pobres”). Mas por ainda guardarem na memória que, durante poucos anos, algumas de suas demandas (básicas) foram reconhecidas e levadas a sério politicamente. Não se trata de recuperar um paraíso perdido, mas um momento no qual foi possível articular um arco de alianças em que as enormes e congênitas desigualdades sociais do Brasil foram desafiadas. Em vez de nostalgia por um Messias, o que essas preferências expressam é vontade de combater, sem subterfúgios, a pobreza.

Se a fome é professora, como escreveu Carolina Maria de Jesus, talvez devêssemos, de uma vez por todas, aprender a ouvi-la.

Aqui, Maria de Fátima Bezerra da Silva, 58 anos, agricultora aposentada, conta sobre o dia do nascimento de seu filho Fernando José da Silva, 40, em 1981. Foi o ano mais crítico de uma grande estiagem no Nordeste (de 1979 a 1985). Naquele momento, Maria de Fátima vivia na Fazenda São Gonçalo, zona rural do município de Betânia, sertão do Moxotó, em Pernambuco. Hoje, ela mora em Sítio dos Nunes, distrito da cidade de Flores, também no sertão.

“Eu tinha 18 anos, já tinha Edjane e Edivânio. O pai deles já tinha sumido mais uma vez. Vivia sumindo, depois voltava. Até sumir e não voltar mais. Aí era madrugada de 8 de janeiro de 81. Eu já estava doente de Fernando. Já sentia as dores. Tava tudo escuro, não tinha gás pra acender o candeeiro. Achei que ia pegá-lo sozinha, mas mãe [Raimunda, 80] percebeu e veio ver. Mandou chamar vó Licó pra pegar o menino. Ela chegou e mandou meu irmão Celso ir buscar óleo de um trator da fazenda, pra colocar no candeeiro e ter luz pra facilitar. Quando ele voltou, o menino já tinha nascido. Não tinha nada pra ele. Nada. Nem roupa, nem manta. Nada. Mãe trouxe um pano de prato e enrolou o corpo dele. Depois foi que eu peguei uns panos que a gente tinha lá e fiz umas mantas. Eu sei que amanheceu o dia e não tinha nada dentro de casa pra comer. Só água no pote. Uma gastura, que eu já não comia bem há dias e, no último dia de gravidez, foi que não comi nada mesmo. A minha alegria foi uma vizinha nossa, Dona Santana, que viu que Fernando tinha nascido e ofereceu um pinto pra gente matar e fazer um caldo. Era um frango magro, novinho, não tinha nem pena direito. Pesava nem meio quilo. Mas era o que ela tinha e podia oferecer. Mãe pegou, matou e fez o caldo. Mas se foi ligeiro, aquele pouquinho pra 10 pessoas? Porque era eu, Edjane, Edivânio, Mãe, Celso, Laelson, Gerson, Aelson, Sônia e Zé. Qualquer coisa que aparecia, assim, a gente dava logo às crianças. Tomei só um pouco daquele caldo, mesmo. Fernando ainda mamou por dois meses. Depois, eu dava garapa (água com açúcar), chá. Quando podia, pegava meio litro de leite no curral da fazenda e misturava com meio litro de água, pra ir alimentando ele. Meu leite secou rápido. A seca braba, em 81. As roças não davam nada. Papai [José Belarmino], com duas famílias, já não tinha nada. Ele ficava na casa da outra mulher e a gente vivia numa daquelas casas de São Gonçalo, com um quarto, uma sala, um banheiro e uma cozinha. Eu não tinha esperança. Às vezes, eu me sentava num canto e me sentia como uma folha de papel voando sem destino. Era como se eu não tivesse ninguém no mundo, não tivesse com quem me apegar. Era uma coisa vazia. Tinha dia que eu sentia tanta fome, que dormia pro dia passar logo. Enrolava um lençol e colocava embaixo da barriga, pra aliviar a dor da fome”.

É bem impressionante que nós tenhamos transformado tantas vezes essa agricultora em uma figura amorfa, sem desejo e sem história. Que ela e toda sua família que ali também passava fome (três filhos e mais seis irmãos) entrem como personagens homogêneos, sem rosto, sem vontade e sem pensamento, nas colunas e comentários jornalísticos, nas bravatas políticas das redes sociais.

Ninguém é somente uma agricultora.

Ninguém é somente um desempregado.

Ninguém é somente “um miserável”.

Durante anos, mesmo após o nascimento de Fernando, Maria e sua família se alimentavam do milho seco e moído usado na ração dos porcos da Fazenda São Gonçalo. Sim, isso mudou. E essa mudança não deve ser lida como “heroica”: ela é obrigação de qualquer estado minimamente responsável por sua população. Até pouco tempo, Maria de Fátima era cadastrada no Bolsa Família – deixou o programa depois que se aposentou. Hoje, tem casa própria e alimenta bem a si mesma e à sua família, a galinha com xerém como um destaque das refeições.

É óbvio que a lembrança do passado lhe dói e é óbvio que uma mãe de família que ia dormir para não sentir fome vai desejar a volta ou a manutenção de qualquer programa que lhe garanta dignidade – venha ele de qualquer governo que a respeite como cidadã. A memória riscada por um “tempo de pujança” que ela viu ser afetado por toda crise econômica e sanitária que passamos agora é tudo, menos “nostalgia”. É, principalmente, medo. Um medo real de que o horror da fome, pelo qual nenhuma pessoa no mundo deveria passar, retorne. E ela, para milhões de pessoas, retornou.

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Casa onde Maria de Fátima Bezerra da Silva, 58, nasceu na Fazenda São Gonçalo, no município de Betânia, Pernambuco.

Foto: Géssica Amorim/UFPE

A agricultora, sua família e um Nordeste alquebrado também surgiriam embutidos como os sem-rosto incivilizados em outras manifestações preconceituosas após Fachin declarar nulas as ações contra Lula na 13ª Vara de Curitiba. O editorial assinado por Antonio Carlos Pereira no Estadão, uma peça retrógrada não exatamente por sua “ideologia”, mas pelo tamanho de seu racismo de classe, localiza Lula como “o demiurgo de Garanhuns” e afirma que ele “pode até subir nos palanques dos grotões miseráveis onde ainda é rei para pedir votos, e, eventualmente, voltar ao poder”.

Nesse ponto cabe observar como os tais “grotões miseráveis” são trabalhados de maneira dual pela imprensa em geral: ora são habitados por uns coitados que precisam da tutela de um pai, ora por uns pulhas pobretões que merecem a cusparada do Estadão. O impacto social desses enquadramentos pertinentes não só a uma região, mas à pobreza e à fome de todo o Brasil, repercute profundamente entre o público. Um exemplo? A matéria cujo título diz “No coração lulista, Haddad é só um número de nome Adraike, Radarde ou Alade, publicada em 2018 na Folha de S.Paulo, antes das eleições presidenciais. Trago alguns comentários dos leitores sobre o texto cujo título terrível, jocoso, merece ser sempre lembrado:

“Vejo a mais triste miséria nessas declarações de eleitores desses grotões esquecidos. é triste ver as declarações de voto sem a menor consciência do que estão declarando. Deixam o estômago e a ignorância falar. Fico imaginando: a maior violência que se pode cometer contra um povo é sepultar-lhe o direito à educação. Esses coitados permanecerão nessa miséria de conhecimento enquanto tiver político demagogo que só pensa em manter-se no poder.”

“Enquanto a miséria e a ignorância sustentarem um mito de pés de barro, nada vai mudar. Ganha-se uma esmola e se vai tocando a vida.”

“Ignorância, analfabetismo, subserviência, desemprego, pobreza, principalmente de espírito. Perfeita massa de manobra.”

Tá tudo aí: galera pobre, não pensante, massa de manobra. Culpam-se os políticos, entregam a Deus, lamentam muito a vida desse povo sofrido. Mas, no fim, eles que lutem. Sempre é importante lembrar aos ilustrados de plantão que foram as famílias com renda acima de R$ 9,5 mil ao mês e com curso superior completo que primeiro declararam seu apoio ao então candidato Jair Bolsonaro. Muitas delas vivem nos grotões de Higienópolis, em São Paulo, Leblon, no Rio, Avenida Boa Viagem, Pernambuco.

A questão é que pobreza e fome possuem um valor precioso não só para os jornais, sempre ávidos por matérias dramáticas sobre o “Brasil profundo”. Elas também são importantes para os quase famosos que oferecem cestas básicas no Sertão e divulgam tudo em suas redes sociais e para que personalidades como o apresentador Luciano Huck, da TV Globo, levem “água e esperança” até povoados empobrecidos. Este, aliás, volta o tempo todo ao sertão nordestino para ali ungir sua imagem enquanto “pessoa do bem”, ou enquanto presidenciável. Luciano Huck enquanto Bolsa Família.

Talvez por isso, para manter esse lugar que precisa ser eternamente salvo, preferiu-se não mostrar como em uma das últimas grandes secas enfrentadas no Nordeste (2012-2018) não foram registradas pela primeira vez mortes humanas, saques ou migração em massa para outras regiões. Essa realidade pouco midiatizada foi fruto de uma boa reportagem na Marco Zero Conteúdo. Lá, o autor do clássico livro “A invenção do Nordeste, Durval Muniz de Albuquerque, explica que as razões para esse cenário inédito podem ser encontradas em mudanças implementadas nos governos Lula: “fortalecimento da economia local, gerada pelo Bolsa Família e pelo fortalecimento do salário mínimo, [que] reduziu a importância da pecuária e das culturas de subsistência inadequadas para a região. E as tecnologias apropriadas (…)  garantiram água e alimentos para as famílias”.

‘Mas pessoas não são invisíveis: elas são, através de diversos recursos, apagadas’.

Talvez também seja por isso que seja tão comum ouvir que as famílias bolsistas “vão ter mais filhos para continuar ganhando o benefício”, afirmação preconceituosa que esconde como, entre 2003 e 2013, a taxa de natalidade caiu 26% entre as famílias 20% mais pobres do Nordeste – quase o triplo da queda de 10% observada para a média brasileira. E é justamente naquele extrato populacional que se encontram os bolsistas do Bolsa Família, como revelou no mesmo ano o IBGE.

Como dar conta do paradoxo de se escandalizar com a fome e ao mesmo tempo mantê-la pulsante? O movimento é simples: ela é transformada em “personagem”, em entidade, uma espécie de vilã que não confessadamente adoramos acompanhar. É algo que aflige, que mata e destrói, mas que não tem pai nem mãe, não tem origem. Assim, é impossível findá-la. A fome é uma dádiva ao contrário, é um destino pelo qual, infelizmente, alguns escolhidos passam. Celebremos então esse povo “simples e sincero”, cheio de fé e tradições.

Mas o que parece elogio é, na verdade, abandono. É uma maneira de instrumentalizar o sofrimento do outro ao mesmo tempo em que se simula uma consciência social. Aliás, é o que explica em parte o amor pelo termo “invisíveis”, tão comum em produções jornalísticas e em discursos governamentais para se referir aos muito pobres. É como se essa “invisibilidade” fosse uma característica própria e não algo imputado por nós mesmos. Mas pessoas não são invisíveis: elas são, através de diversos recursos, apagadas.

Hoje, quase 15 milhões de famílias estão cadastradas no BF, que obriga as e os bolsistas a manterem filhos na escola, a vaciná-los e a buscar acompanhamento gestacional. Os obriga a serem menos “miseráveis”, o que deve soar meio cabuloso para os donos do Estadão. Antes mesmo de o programa ser implementado, em 2003, o jornalista Gilberto Dimenstein (que morreu em maio de 2020) já usava o termo pejorativo “esmola” para se referir ao BF. Naquele ano, Dimenstein escreveu: “É esse o grande risco, como se vê em várias partes do mundo, desse tipo de programa. As pessoas se acomodarem com aquela ajuda e, pela falta de estímulo econômico, não encararem aquele dinheiro como algo provisório, mas uma esmola”. Não deixa de ser bastante sintomático que, em um dos países campeões em desigualdade social, um novo programa que visa atenuar essa marca seja inicialmente não analisado por seu potencial positivo, mas o contrário.

Só que o BF, que reuniu programas como Bolsa Escola e Auxílio Gás, vindo do governo FHC, sempre exigiu contrapartidas dos bolsistas (como o citado acompanhamento gestacional). É uma maneira de garantir mobilidade e quebrar a estrutura que alimenta a pobreza. No livro “Vozes do Bolsa Família: autonomia, dinheiro e cidadania”, Walquiria G. Domingues Leão Rego e Alessandro Pinzani falam da importância desses condicionantes: “as políticas sociais não devem ser acompanhadas a meros atos de caridade pública. Elas são antes instrumentos para promover autonomia individual e criar um senso de comunidade: em uma palavra, elas são instrumentos de cidadania”.

Os problemas reais de um programa de enorme capilaridade como o Bolsa Família (no qual já foram encontradas diversas fraudes, assim como aconteceu recentemente com o auxílio emergencial) devem antes ser sanados, não usados para minar sua potência. No meio de uma enorme crise sanitária marcada pela administração historicamente incompetente do governo federal, é preciso fortalecer não somente o SUS, mas a transferência de renda. Não dá mais para fingir que desigualdade social é papo de movimento estudantil, nenéns.

O jogo de se aproveitar do “pobre ignorante” – para ser herói, para ser presidente, para fazer reportagem premiada – enquanto minam políticas públicas que o favorecem já está claro. O grotão miserável que habita em mim está ligadíssimo no grotão miserável que habita em você.

Carcará pega, mata e come.

Caracará não vai morrer de fome.

Texto com colaboração de Géssica Amorim, da UFPE.

— A Coalizão Negra por Direitos, Anistia Internacional, Redes da Maré, Oxfam e outras entidades lançaram a campanha nacional Tem gente com fome. As doações começam a partir de R$ 10 e beneficiam quase 223 mil famílias em todo o país. Site Oficial

— No artigo “A deliberação a longo prazo no espaço de visibilidade mediada – O Bolsa Família na mídia impressa e televisiva”, Ângela Cristina Salgueiro Marques mostra como Folha de S.Paulo e Rede Globo publicizaram o programa.