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Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Em abril deste ano, Ciro Nogueira, o principal cacique do Centrão, mandou um recado: “Paulo Guedes não é insubstituível”. No mês seguinte, Bolsonaro passou a lotear cargos do segundo escalão para o Centrão, visando a garantia da governabilidade. Nesta semana, a relação de Bolsonaro com o Centrão mudou para um novo patamar com a entrega do comando da Casa Civil, que o presidente chamou de “a alma do governo“, para Ciro Nogueira. O diabo vendeu a alma ao Centrão.

Essa aliança já havia se iniciado no fim do ano passado, quando o presidente montou um esquema para aumentar sua base de apoio no Congresso criando um orçamento paralelo de R$ 3 bilhões em emendas — boa parte destinada a atender os interesses do grupo. Além de ganhar a Casa Civil, o Centrão conseguiu também a recriação do Ministério do Trabalho, que foi batizado de Emprego e Previdência.

A nova cobrança de Ciro Nogueira e cia é para ter maior controle do orçamento. Mas após bater no Centrão durante tanto tempo, o custo da aliança ficou bem mais alto. O grupo já sinalizou que só a Casa Civil não saciará o seu apetite. Eles querem ganhar mais espaço na Secretaria de Orçamento Federal e pressionam pela recriação do antigo Ministério do Planejamento para acomodar suas lideranças. A recente aprovação do aumento dos recursos do Fundo Eleitoral paraR$ 5,7 bilhões teve também o propósito de agradar essa turma. Além disso, falta pouco mais de um mês para o envio do projeto do orçamento de 2022, ano eleitoral, época em que a sede do Centrão aumenta.

A moral que Paulo Guedes tinha dentro do bolsonarismo murchou. Antes considerado o fiador do governo, agora ele caminha para ser apenas mais um colaborador do fascismo bolsonarista. Entrou prestigiado como superministro e agora teve que ceder um bom espaço para a direita fisiológica — aquela que Bolsonaro tanto criticou durante a campanha e durante boa parte do seu mandato.

A economia patinou, o desemprego aumentou, o endividamento das famílias bateu recorde e os salários perderam poder de compra. O fracasso da gestão Paulo Guedes somado à trágica condução da pandemia pelo governo foram o principal motivo que fizeram a popularidade de Bolsonaro despencar. A nova super aliança com o Centrão tira o governo das cordas e renova o fôlego e as esperanças para o embate eleitoral do ano que vem. O fato é que o governo agora tem um fiador muito melhor. Ciro Nogueira e o Centrão garantem governabilidade e afastam do horizonte qualquer possibilidade de impeachment. Pode-se dizer que o Brasil agora está sob nova gerência. O novo posto Ipiranga de Bolsonaro chama-se Centrão.

Jair Bolsonaro durante audiência com Onyx e o senador Ciro Nogueira, que assumiu a Casa Civil.

Foto: Marcos Correa/PR

Mas a nova gerência, na verdade, é a velha gerência de sempre. O Centrão sempre esteve presente nos governos anteriores e teve papel central nos últimos grandes acontecimentos políticos do país. Ajudou a eleger Dilma e depois a derrubou. No governo seguinte garantiu a governabilidade de Temer e barrou qualquer possibilidade de impeachment. O grupo, que de “centro” só tem o nome, é composta majoritariamente por políticos de direita do baixo clero e hoje conta com aproximadamente 200 dos 513 parlamentares do país.

Ainda não inventaram na democracia brasileira uma fórmula de governabilidade que dispense o Centrão. Bolsonaro conseguiu a façanha de se vender como alguém que teria essa fórmula mesmo sendo um legítimo filhote do… Centrão, como ele próprio agora assume. O presidente se elegeu demonizando o grupo do qual fazia parte e agora, como se nada tivesse acontecido, passa a lotear cargos importantes do governo para esse mesmo grupo. Esse talvez tenha sido o estelionato eleitoral mais bem-sucedido da história do país.

E como explicar essa mudança drástica de postura do governo à base eleitoral de Bolsonaro? Para boa parte dela não precisa explicar nada. O gado enfeitiçado continuará caminhando na direção que o seu mito apontar sem fazer grandes questionamentos. Mas algumas cabeças do rebanho passaram a questionar o novo relacionamento depois que ele foi escancarado. Os ataques ao Centrão e à “velha política” formaram a espinha dorsal da candidatura Bolsonaro e a nova postura pode decepcionar parte daqueles que caíram no conto do vigário. A hashtag #BolsonaroTraidor passou a pipocar no Twitter.

Nos grupos de WhatsApp bolsonaristas aos quais tenho acesso, algumas pessoas passaram a publicar o vídeo em que Ciro Nogueira chamou Lula de “melhor presidente da história do país” logo após ter chamado Bolsonaro de “incapaz” e “fascista”. Ainda que esses questionamentos sejam tímidos, é inegável o chacoalhão que o episódio causou na base eleitoral do presidente.

Bolsonaro enxerga nessa entrega da Casa Civil e outros nacos de poder ao Centrão a possibilidade de destravar os projetos do governo, estancar a queda da sua popularidade e renovar as esperanças para a reeleição, que vinham minguando. O principal propósito dessa aliança não é a implementação de programas do governo, como ocorreu em gestões anteriores, mas uma tentativa de deter o estrago que os escândalos da vacina e a condução negacionista do combate à pandemia impõem. à popularidade do presidente.

Ciro Nogueira agora parece disposto a apoiar todas as insanidades de Bolsonaro. Foi ele o porta-voz da mais recente ameaça golpista enviada por Braga Netto ao presidente da Câmara Arthur Lira, que também faz parte do Centrão.

Se antes o Centrão garantia aos governos o apoio para suas políticas públicas, agora ele também atua como mediador das ameaças de golpe de Bolsonaro. O Centrão será o fiador de uma possível tentativa de golpe do presidente e dos militares? Pela atuação de Ciro Nogueira como pombo-correio do golpe, tudo indica que a possibilidade existe.

A nova coalizão dá fôlego e esperanças ao bolsonarismo, mas é bom lembrar que o Centrão é volátil e pode mudar de lado a depender da direção dos ventos.