O Governador do Estado de São Paulo João Doria durante entrevista ao Grupo A Tribuna de Santos. Dia: 17/01/2020 Local: São Paulo/SP Foto: Governo do Estado de São Paulo

Foto: Sergio Andrade/Governo do Estado de São Paulo

João Doria vestiu a fantasia de gestor para se eleger prefeito de São Paulo. Eleito, vestiu diversas fantasias, literalmente. Logo nos primeiros dias à frente da prefeitura, ele usou uniforme de guardinha da CET para anunciar o aumento do limite de velocidade das marginais. Ao lançar o programa Cidade Linda, se vestiu de gari, de pedreiro e de trabalhador da limpeza urbana. Agora, governador de São Paulo e visando as próximas eleições, Doria vestiu uma nova criação: a do político defensor da ciência.

Mas a nova fantasia já está rasgando. Justo no momento em que a ciência nos alerta sobre uma inevitável explosão da infecção da variante Delta a partir do mês que vem — como já houve nos EUA —, o governador decidiu flexibilizar quase todas as medidas de contenção à pandemia. Além disso, desidratou o Comitê Científico criado por ele para orientar o governo no combate à pandemia.

O homem que defende a ciência reduziu de 21 para sete os médicos e cientistas do comitê. Oficialmente, o motivo para a diminuição é a melhoria dos indicadores da pandemia e dificuldades com a agenda dos participantes. Mas ex-integrantes ouvidos pelo UOL apontaram outros motivos. As divergências entre as recomendações do comitê e as ações do governo foram se tornando insustentáveis.

Em fevereiro, por exemplo, o comitê orientou o governo a fazer um lockdown no estado a partir das 22h para frear a piora nos números da pandemia, o que foi rejeitado pelo governo. Essa foi apenas uma das inúmeras recomendações ignoradas pelo governador, o que acabou por tornar o conselho inútil. Integrantes do grupo afirmaram que a “pressão econômica” influenciou no não cumprimento das orientações científicas. O comitê recomendava uma coisa, o governador fazia outra. Essa é a lógica que ditou e continua ditando os rumos do combate à pandemia da gestão Doria.

Gonzalo Vecina Neto, médico sanitarista e ex-presidente da Anvisa, criticou a decisão de Doria e afirmou que os integrantes que permaneceram no comitê são “puxa-sacos”: “É uma péssima notícia. É um péssimo exemplo que o governador dá para o Brasil ao deixar de escutar vozes dissonantes. Essa é uma questão dos homens que estão no poder. Eles gostam de pessoas que dizem ‘sim’. O que Doria está fazendo é se cercar de seus puxa-sacos. Não há outro nome para isso. Os que sobraram são puxa-sacos”.

Vecina tem razão. Os sete médicos e cientistas que restaram foram escolhidos a dedo pelo governador e são justamente os que mais toleram o reiterado não cumprimento das recomendações feitas pelo comitê.

O governo havia garantido que eventos públicos só seriam liberados no estado após o resultado de testes controlados, conforme orientação do comitê. Mas voltou atrás e liberou eventos sociais, culturais e as feiras corporativas com controle de público.

Um dos médicos que foram tirados do grupo, Marcos Boulos, disse que essas decisões foram tomadas à revelia das orientações dos especialistas. O infectologista afirmou que já esperava a dissolução do comitê “há algum tempo”: “nós vínhamos sendo pouco ouvidos. Com frequência, nossas sugestões não eram aceitas. Estavam flexibilizando mais do que a gente gostaria”. Segundo Boulos, Doria afirmou que era necessário “um maior alinhamento com as demandas e necessidades do governo”. O médico criticou a postura do governador: “isso é uma afronta, porque as necessidades são da população, não do governo (…) Doria não vai mais poder dizer que está seguindo a ciência”.

Mas os membros do conselho não vão sair sem um afago cheio de pompa. Eles ganharam um prêmio de consolação pelos serviços prestados (e ignorados): receberão uma cerimônia de agradecimento na semana que vem no Palácio dos Bandeirantes — mais uma ótima oportunidade para o governador fazer seu tradicional marketing eleitoral.

Contrariando todas as projeções científicas, que preveem um aumento nos casos de infecção no estado e no país, Doria tem agido como se a pandemia tivesse acabado. Na última quarta-feira, promoveu uma festa para celebrar a filiação do filho de Bruno Covas, de 16 anos, ao PSDB. Apesar de manter o distanciamento e usar máscaras, ao final houve aglomeração dos tucanos, e Doria chegou a segurar uma criança no colo, como costuma fazer Bolsonaro em suas aglomerações públicas.

Mas para Doria o excesso de pessoas no evento não foi um problema, porque, segundo ele, a quarentena em São Paulo já acabou: “Não estamos mais em quarentena em São Paulo. Estamos em um período de obediência ao uso de máscara e ao distanciamento, mas já não estamos em quarentena”, afirmou ignorando mais uma vez as orientações dos seus cientistas. Em outro momento, também festejou o fim da quarentena: “Estou feliz pois já não temos mais quarentena em São Paulo. Isso porque a nossa opção foi a opção pela vida, pela ciência, pela medicina, pelo respeito às pessoas”, mentiu. Diante disso, fica a pergunta: para que serviu o Comitê Científico senão ser usada como um trunfo eleitoral pelo tucano que almeja a presidência?

O Comitê Científico era apresentado como a menina dos olhos da sua gestão. Sempre foi um orgulho ostentado pelo governador, que gostava de destacar a sua independência. Mas o comitê passou a não ser mais interessante do ponto de vista das suas projeções eleitorais. Foi descartado assim como a imagem “Bolsodoria” depois que esta deixou de ser uma boa carta eleitoral.

Durante as coletivas que anunciaram a liberação de grandes eventos, Doria tem usado repetidamente a expressão “um novo tempo”. Virou sua grande frase de efeito, que agora usa a hashtag com a frase em púlpitos das coletivas, encerradas ao som da música de Ivan Lins que tem o mesmo nome. É um show de marketing enquanto a variante Delta bate à porta.

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Foto: Governo do Estado de SP

O tucano se vangloria a todo momento de ser um político defensor da ciência, buscando reforçar o antagonismo com Bolsonaro no combate à pandemia. A chegada das vacinas do Butantã, em contraste com o boicote do governo federal, contribuíram para alçá-lo à condição de governador defensor da ciência. Mas Bolsonaro é um ponto fora da curva, um genocida, e suas monstruosidades não deveriam ser usadas como referência ao se avaliar outros políticos. Quantos chefes do Executivo na história do país mobilizaram suas forças políticas para promover negacionismo científico? Nenhum. Doria, portanto, ao trabalhar para trazer vacinas para a população está cumprindo uma obrigação básica que todos os governadores, os prefeitos e os presidentes anteriores cumpriram. O negacionismo não deixa de ser negacionismo apenas por vestir um terno Armani.

Apesar da melhora nos indicadores de saúde como internações, casos e mortes, os números ainda são altos. A queda nesses indicadores foi estancada na semana passada, acendendo um sinal amarelo solenemente ignorado por Doria, cujas ações invariavelmente são pautadas pelo marketing pessoal. De todas as fantasias que ele vestiu durante sua vida política, nenhuma foi tão eficiente quanto a de defensor da ciência. O seu negacionismo maquiado virou referência para os outros estados e alavancou sua imagem em nível nacional como o anti-Bolsonaro.