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Ilustração: The Intercept Brasil; Getty Images

Lembro bem da cena: estava fazendo uma entrevista com uma senhora cuja neta fora raptada pelo próprio companheiro. Era um relato muito sofrido, e eu dedicava toda minha atenção a ela – até que uma voz grave, dramática, se atravessou entre nós duas. O desenho animado que passava antes havia acabado e dera lugar a um programa policial no qual o apresentador narrava escandalosamente o assassinato de dois homens.

Amanda, três anos, e Aquiles, sete, neta e neto da entrevistada, almoçavam enquanto viam os corpos na TV. Sangue, uma mulher gritando, a luz vermelha do carro da polícia, um dos mortos com olhos arregalados. Era pouco mais de meio-dia.

Misto de jornal, delegacia, mercadinho e emergência de hospital, os programas policiais oferecem estupro, tiro, porrada e bomba no início da tarde ou da noite há décadas para milhões de crianças em todo o Brasil. Mas, você sabe, não é a mãe gritando sobre o corpo baleado do filho e o uso da violência como tática para vender plano de saúde o que ameaçam nossas crianças: é a população LGBTQIA+ quem realmente está destruindo a família brasileira. Não preciso mostrar aqui os horrores cometidos pela turma, tá aí a Secretaria Especial de Cultura e suas cruzadas “moralizantes” contra a chamada linguagem neutra ou escolas como a Ecco Prime para falar sobre as tais terríveis ameaças para você.

Enquanto todos, todas e todes se espantam com as dinâmicas comuns existentes em qualquer linguagem ou um casal gay convivendo com menores de idade, o baile do sangue ao meio-dia segue: além de oferecer buraco de bala logo após a Peppa Pig, os programas policiais também ensinam, há gerações, como se trata preto, como se trata pobre, como se trata travesti, como se trata puta. A depender da luz e a desenvoltura dos repórteres, todas essas pessoas também se transformam em “divertimento”.

É uma pedagogia midiática muito eficiente, e não tenha medo de perder as aulas. Apesar das diversas chamadas ao nível de absurdos e violações, as agências regulatórias governamentais não se importam se o seu filho ou filha estão vendo um corpo estirado no chão na tela da TV ou do celular. As entidades de jornalismo tampouco costumam perder muito tempo se preocupando com essa produção feita para o populacho – afinal, o classismo, ainda que muito bem disfarçado sob o manto da neutralidade, também faz parte do beabá dos jornalistas.

No último levantamento realizado pela pesquisadora Janaíne Aires, estudiosa do tema, existiam 110 programas policiais no Brasil em 2014. De lá para cá, o aumento da concorrência na TV aberta por conta de serviços de streaming, YouTube e TV fechada fez com que a disputa entre esses produtos se acirrasse e ganhasse ainda mais concorrentes fora do meio. O citado YouTube, aliás, é outro canal no qual a lógica tiro-porrada-bomba também faz enorme sucesso, ou seja: temos mais uma plataforma para ensinar, logo depois dos anúncios do TikTok e do Kwai, como se trata preto, como se trata pobre, como se trata travesti, como se trata puta.

É o caso do Repórter Puliça, como é conhecido o maranhense Gladston Costa e Silva. Em um dos vídeos no seu canal no YouTube, ele fala diretamente de uma delegacia de polícia, a 1º DP de Caxias, com um rapaz acusado de roubar xampu de um supermercado. O jovem negro, de boné, tenta virar o rosto e se esconder, mas é impossível: apesar das respostas evasivas, o Puliça – outro homem preto – insiste em conversar, até que o detido diz “tá bom, tá bom, deixa eu quieto”.

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Gladston questiona um rapaz acusado de roubar xampu numa delegacia.

Imagem: Reprodução/Youtube

O dublê de jornalista continua e tenta engatar mais conversa, bem-humorado. “Tá bom, tá bom”, diz novamente o rapaz. Perto dele, uma sacola de supermercado com dois xampus, o grande crime cometido. É tudo muito bem organizado pela polícia, verdadeira co-parceira do apresentador, que faz da delegacia não só palco, mas plataforma para se lançar na política: no ano passado, Gladstone tentou um cargo na Câmara de Vereadores pelo Republicanos. Obteve 170 votos.

As semelhanças entre o conforto que o Puliça demonstra em uma DP e aquele visto no caso da repórter Mirella Cunha ao entrevistar outro jovem negro são enormes. A jornalista protagoniza um já clássico exemplo do pega-mata-queima que os programas policiais dispensam majoritariamente a pretos e pobres. Exibido pelo programa Brasil Urgente (TV Band Bahia) em 2012, o vídeo mostra, durante longos minutos, a repórter, branca, se divertindo às custas do rapaz de 18 anos, visivelmente amedrontado pela acusação de estupro. Ele nega várias vezes que tentou molestar uma mulher, chora e diz que já roubou e foi preso, mas que nunca estuprou ninguém.

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Jornalista Mirella Cunha, do Brasil Urgente, acusou e humilhou jovem de 18 anos no ar.

Imagem: Reprodução/Youtube

–  ‘Não estuprou, mas queria estuprar!’ – diz Mirella.

O diversionismo não só da repórter, mas do apresentador Uziel Bueno foi tão acima dos já escandalosos racismo e classismo vistos comumente nestes programas que produziu uma rara reação social: o Ministério Público ajuizou ação, e o Ministério das Comunicações multou a emissora em R$ 12.794,08. Um grupo de profissionais do jornalismo produziu uma carta aberta ao então governador Jaques Wagner falando dos abusos dos programas policialescos na Bahia. Na época, a jornalista Eliane Brum também escreveu a respeito e publicou a descrição que a Defensoria Pública fez do rapaz:

‘A mescla mal resolvida entre jornalismo e entretenimento que os caracteriza’.

“É réu primário, vive nas ruas desde criança, apesar de ter residência em Cajazeiras. Tem seis irmãos, é analfabeto e já vendeu doces e balas dentro de ônibus. Ao ser questionado sobre como se sentiu durante a entrevista, ele diz: ‘Eu me senti humilhado, porque ela ficou rindo de mim o tempo todo. Eu chorei porque sabia que eu iria pagar por algo que não fiz, e que minha mãe, meus parentes e amigos iriam me ver na TV como estuprador, e eu sou inocente’”.

Em 2015, a Band foi finalmente multada em R$ 60 mil por danos morais coletivos pelo juiz Rodrigo Brito Pereira, da 11ª Vara Federal em Salvador. Vale assim a pergunta: se a TV foi multada pelo vídeo, por qual razão ele continua disponível? Alguma resposta, pessoal do YouTube Brasil?

A alta rentabilidade que as emissoras (ou youtubers) obtêm fazendo piada de gente negra pobre – ou as mostrando mortas, agora bem comportadas para o “cidadão de bem” – é garantida pelo estado. De acordo com a pesquisa “Fiscalização estatal sobre o conteúdo televisivo: violação de direitos em programas policiais na televisão”, de Ticiane Perdigão Cabral, da Universidade Federal de Pernambuco, de 2011 a 2018 apenas cinco processos de apuração de infração foram instaurados contra emissoras de televisão que transmitiram conteúdo expondo as pessoas ao constrangimento ou promovendo algum tipo de discriminação.

Para se ter ideia, somente em 2015, a Andi Comunicação e Direitos localizou quase 8 mil violações após monitorar 29 programas de rádio e televisão em todo país. Das seis emissoras, quatro ficam no Nordeste. Os quatro casos sancionados pelo Ministério das Comunicações no Nordeste partiram de uma repercussão social e não de atos de rotina do ministério.

Segundo Ticiane, uma das dificuldades de enquadrar esses produtos é a mescla mal resolvida entre jornalismo e entretenimento que os caracteriza. “É uma questão polêmica: há autores que consideram que são, sim, programas jornalísticos, ainda que sejam ruins. Há outros que consideram que esses programas agem em nome do jornalismo, capturam o ethos de credibilidade, mas distorcem essas funções. Sikêra Jr. possui um show de calouros entre uma notícia e outra. Tendo em vista esse cenário de ausência de fiscalização do governo sobre o que é transmitido e o nível de violação de direitos humanos que eles veiculam, eu defendo que eles não devem ser enquadrados como jornalísticos”.

A razão para a defesa da pesquisadora é técnica: no Ministério da Justiça, uma portaria entende que os programas jornalísticos ou noticiosos não participam de classificação indicativa – e os policialescos estão inseridos aí. “Se eles forem considerados como entretenimento, o estado pelo menos poderia recomendar classificação indicativa”, defende Ticiane. É uma sugestão interessante – ainda que ela não necessariamente leve a um conteúdo não racista, não homofóbico, não classista.

A pressão pela desmonetização, uma ação que vem se popularizando em frentes várias e que recentemente chegou ao citado Sikêra Jr., é outra estratégia vista como importante por Ticiane. O apresentador, gritando como uma galinha esganada, fez em julho vários ataques homofóbicos em seu programa enquanto usava a velha e boa concessão pública.

Após uma campanha liderada pelo Sleeping Giants Brasil, ele terminou perdendo 43 patrocinadores, entre eles BMW, Ford, Tim, TLC, Casas Bahia, Samsung, Renault e Caixa Econômica Federal. Mais uma vez, o dia foi salvo não pelo Ministério das Comunicações (que tem Fábio Faria, genro de Silvio Santos, à frente da pasta), mas por pressão da sociedade civil. Cobrindo dez cidades (Belém, Belo Horizonte, Brasília, Campo Grande, Curitiba, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo), o Instituto Alana e a Andi realizaram um bom estudo sobre quem financia estes programas.

Antes de terminar, e para não ser injusta com as entidades governamentais, há, sim, fiscalização pública na comunicação no Brasil. O governo que é tchutchuco com conteúdo racista, é tigrão quando se trata de rádios comunitárias: fiscalizadas pela Anatel, possuem sete vezes mais processos do que as TVs. Isso a Globo – e a Band, e o SBT, e a Record, etc. – não mostra.