Por trás dos cantos gregorianos que enaltecem os monges beneditinos do rico Mosteiro de São Bento, localizado no coração de São Paulo, se escondem denúncias de assédios e abusos sexuais, humilhações e perseguições a jovens seminaristas. Dois deles se uniram e, após terem deixado a instituição, denunciaram à polícia, em maio de 2019, quatro pessoas do mosteiro pelos abusos sofridos.

Ao longo de um ano e meio de apuração, o Intercept contatou as vítimas, falou com advogados, procuradores e testemunhas e localizou outras três pessoas que também teriam sofrido abusos no mosteiro quando eram menores de idade, mas que preferiram não se manifestar.

O inquérito, ao qual tivemos acesso, resultou em uma denúncia do Ministério Público de São Paulo apresentada em junho de 2020 e apreciada pela justiça em abril. Entre os acusados estão dois noviços e dois monges do mosteiro. Um deles é João Baptista Barbosa Neto, um monge “pop” e instagramer conhecido na igreja como Dom João Baptista, autor de diversos livros em vendas em livrarias católicas, entre eles, “Cozinhe com os monges: as tradicionais receitas do Mosteiro de São Bento” e “As peripécias de Jennifer”.

Também conversamos com três monges do mosteiro sob a condição de anonimato. Segundo os religiosos, o então abade Mathias Tolentino Braga, conhecido como Dom Mathias, teria sido informado sobre os abusos, mas preferiu acobertá-los. À época das situações descritas pelos jovens, ele era o principal responsável pela instituição. Desde 2019, um decreto assinado pelo Papa Francisco como uma resposta aos constantes escândalos de abusos na Igreja Católica obriga padres e religiosos a denunciarem às autoridades eclesiásticas qualquer suspeita de crimes sexuais.

Em primeira instância, a justiça impediu o prosseguimento da ação sem analisar o mérito do caso por considerar que houve “decadência”. Ou seja, havia expirado o prazo legal para que as vítimas comunicassem os fatos às autoridades. Mas, como os abusos teriam acontecido quando as vítimas eram menores de idade, o MP diz que essa interpretação não se aplica. Os promotores recorreram e aguardam decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo.

“Pop” e instagramer, o monge Dom João Baptista é sucesso de vendas nas livrarias católicas do país.

Fotos: Reprodução

 O início do fim

Em fevereiro de 2020, dias antes que começasse a pandemia do coronavírus no Brasil, Rodrigo, hoje com 22 anos, recebeu a reportagem do Intercept acompanhado pelos pais no pequeno apartamento onde mora, no centro de São Paulo. Os fatos narrados por ele fazem parte da denúncia criminal do MP e teriam acontecido entre os anos de 2016 e 2018 – enquanto ele trabalhava na biblioteca e estudava filosofia na Faculdade São Bento, ligada ao mosteiro.

“Para um garoto pobre, de família simples, a religião às vezes te faz sentir muito especial”. É assim que Rodrigo começou a falar da relação que nutria pelo catolicismo antes de tomar uma das decisões mais importantes de sua vida: estudar no Mosteiro de São Bento para tornar-se monge e dedicar sua vida à tradição “ora e trabalha” (do latim ora et labora), dos religiosos que tanto admirava.

Ele conta que tinha 16 anos quando se matriculou no curso gratuito de canto gregoriano oferecido pelo mosteiro e começou a frequentar o local.  Seu interesse pelas artes o levou a visitar, nos intervalos das aulas, as alas da instituição repletas de obras de arte restauradas. Foi nessa época que ele relata ter sofrido o primeiro assédio sexual. A investida teria partido de Rafael Bartoletti, que no mosteiro é chamado pelo seu nome religioso, Irmão Hugo, um dos quatro denunciados pelo MP. Hugo também aparece como algoz dos assédios sexuais sofridos pelo jovem Felipe, cuja história contaremos mais adiante.

“O Hugo era quem me guiava nessas visitas às dependências do mosteiro. Um dia, ele me levou à sala de música, entrei e fiquei olhando as pinturas. Ele trancou a porta, veio na minha direção e me empurrou para baixo, com a mão nos meus ombros. Nesse momento eu levantei e ameacei contar pro monge que era mestre de noviços na época. Foi a primeira vez que ele me assediou”.  A sua primeira reação, contou, foi de susto e confusão, porém, com medo, resolveu não contar nada a ninguém.

‘Errado seria não satisfazer as próprias vontades carnais.’

Ainda tímido e constrangido pelo que acabara de revelar na presença dos pais, que até aquele momento não sabiam detalhes dos abusos sofridos pelo filho, Rodrigo precisou da ajuda da mãe para dar prosseguimento à entrevista. Foram quatro horas e meia de conversa, que gerou diversas crises de pânico no rapaz, que ainda vive à base de remédios controlados e acompanhamento psiquiátrico.

Quando terminou o ensino médio, Rodrigo recebeu uma bolsa de estudos para cursar filosofia na faculdade do mosteiro: ele iria trabalhar na biblioteca em troca da formação. E, segundo ele, os abusos continuaram durante esse período. Ao todo, ele passou quatro anos no São Bento. O jovem precisou pegar um papel e caneta para traçar uma linha do tempo e conseguir contar, em ordem cronológica, como e quando aconteceram os abusos que o levaram a duas tentativas de suicídio – uma, inclusive, dentro do próprio mosteiro.

SÃO PAULO, SP, BRASIL 24.02.2018 Mosteiro São Bento, no Largo São Bento (Foto: Rubens Chaves/Folhapress)

Com mais de 400 de idade, o Mosteiro de São Bento fica no coração de São Paulo, próximo a praça da Sé.

Foto: Rubens Chaves/Folhapress

Assédios sexuais na ordem do dia

O instagrammer Dom João Baptista era o monge responsável pela biblioteca na época em que Rodrigo trabalhava no local. O jovem conta que, quando o questionava sobre o comportamento inadequado de alguns seminaristas e religiosos, ele afirmava que o errado era não satisfazer as próprias vontades carnais.

“Na biblioteca, ele tinha a mania de fazer brincadeiras [de cunho sexual]. Quando chegava, sempre me dava um tapinha [na bunda] ou então me abraçava por trás, essas coisas”. Rodrigo relata que, por diversas vezes, disse a Dom João que não gostava de ser tratado daquela maneira, e o monge dizia que tudo não passava de brincadeiras e que não se tratava de assédio. Segundo Rodrigo, Dom João Baptista também se comportava dessa forma com outros meninos da faculdade.

Em uma ocasião, conta, o próprio Dom João Baptista, ao cumprimentá-lo, o teria beijado na boca. Rodrigo também diz ter sido abusado por um outro noviço chamado Josiel Amaral. Assim como Hugo e João Baptista, ele consta entre os acusados na denúncia feita pelo MP. Em um dos vários episódios de abuso que teriam ocorrido entre as muralhas do Mosteiro, Rodrigo diz que num dia de festividade na instituição, foi obrigado a fazer sexo oral em Amaral, que o levou para a hospedaria e disse que se iria se matar caso o rapaz não fizesse o que ele pedia. “O Josiel tinha a mania de usar o psicológico e quando me pedia essas coisas, também dizia que ia se matar. E aí teve um dia que ele me pressionando dessa maneira, eu fui e cedi. Ele disse que ia se matar, eu não sabia o que fazer e fiz…” desabafou.

Após esse ciclo de violência, sem saber como agir, Rodrigo conta que passou a se isolar e a manter distância de quase todos os companheiros de estudo e, principalmente, de seus superiores na instituição. Ele diz ter desenvolvido uma depressão profunda, além de ter começado a questionar a sua própria fé na religião e no catolicismo.

‘Quando você não corresponde às investidas de um irmão, padre ou frei, aí que eles resolvem te perseguir de outros jeitos’.

Quando completou 18 anos, diz que, em vez de celebrar a maioridade com alegria, passou a ter cada vez mais medo e pânico dos assédios, que neste período teriam passado a ser ainda mais intensos e declarados.  “Os padres e freis, quando foram me parabenizar, chegaram a dizer que, a partir daquele momento, poderiam abusar de mim à vontade sem correr o risco de irem parar na cadeia”, lembra o ex-seminarista.

Rodrigo diz que os assédios, além de sexuais, também aconteciam paralelamente em forma de perseguição. “Quando você não corresponde às investidas de um irmão, padre ou frei, aí que eles resolvem te perseguir de outros jeitos: inventando histórias mentirosas sobre você dentro do mosteiro, criando intrigas entre colegas seminaristas,  espalhando fofocas, te excluindo dos grupos, ou seja, criam um ambiente de total hostilidade para quem não cede aos assédios cotidianos”, relembrou.

O jovem relata também ter sofrido inúmeros assédios sexuais por parte de religiosos de outros locais que com frequência visitavam o mosteiro. Ele cita uma ocasião em que, durante um evento na instituição, um padre de outra congregação teria ido ao seu dormitório com uma desculpa qualquer e tentado beijá-lo.“Não entendia o porquê disso, já que eu ficava sempre na minha. Mas eles chegavam insinuando coisas, dando em cima de mim. Depois fiquei sabendo que quem incentivava aquele comportamento era o próprio João Baptista, que espalhava aos quatro cantos que eu era perigoso e gostava de dar em cima das pessoas”.

Ele diz que tentou buscar ajuda duas vezes. A primeira, quando confidenciou os abusos a dois amigos que fez na faculdade de Filosofia e, a segunda, quando tentou fazer uma denúncia interna ao abade Dom Mathias. O abade é como o presidente do mosteiro. É ele quem comanda e convoca os monges para os capítulos, reuniões em que se determinam decisões a serem tomadas para o funcionamento da instituição.

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Dom João Baptista era o monge responsável pela biblioteca na época em que Rodrigo trabalhava no local.

Foto: Divulgação

O ex-seminarista conta que o abade era totalmente grosseiro e inacessível e, por isso, Rodrigo não conseguiu chegar até a ele para formalizar a denúncia. Diante disso, resolveu contar ao prior Camilo de Jesus Dantas, segundo responsável pelo mosteiro, sobre os constantes assédios que vinha sofrendo. Porém, não foi levado a sério: “como eu não entendia direito como funcionava o esquema de denúncias nas dioceses, eu falei com o prior, já que o abade não escutava a gente. Quando eu contei a ele e a outros irmãos, eles fizeram cara de chocados e disseram que não sabiam que tudo aquilo acontecia, porém, a maioria sabia, sim. Eles disseram que levariam o tema para o capítulo, mas isso nunca aconteceu”.

Rodrigo diz que o quadro de terror que encontrou durante os anos em que estudou e trabalhou no mosteiro o levou a acreditar que a única saída para seus problemas seria a morte.

Ele conta que começou a ter outras alucinações, com vozes lhe dizendo para se matar, além de imaginar cenários de suicídio recorrentemente. Ele também lembra que, na época, passou a praticar várias formas de automutilação. “Era como se a dor me ajudasse a esquecer tudo que me atormentava dentro do Mosteiro de São Bento. O meu lado psicológico estava tão afetado que a dor física começou a ser uma espécie de prazer”, explica o rapaz. “Na verdade, acho que eu tentava descontar em alguma coisa, e descontava no meu corpo. Na minha cabeça, eu era o culpado por tudo aquilo ter acontecido, então, a forma que eu tinha de me punir era aquela”.

Aos 17 anos, ele tentou pela primeira vez cometer  suicídio. O jovem conta que “enquanto girava em volta da fonte, pensava em tudo o que aconteceu, em tudo que havia passado e aguentado nos últimos anos, enfim, tudo que sofri. Enquanto estava naquele looping, vi minha vida inteira até aquele momento e não senti que existia alguma solução”. Então, já “totalmente enfraquecido”, ele tentou se matar na biblioteca em que trabalhava. “Acreditava que aquele momento seria o fim”.

Em 2018, após a segunda tentativa de suicídio, ele deixou definitivamente o mosteiro.

“Essa é uma das coisas que tenho muita dificuldade de contar. Teve um dia que cheguei a ouvir vozes, tipo alucinações, me dizendo que eu não tinha mais para onde ir, que a minha vida não tinha mais sentido e que a única solução para aquilo tudo seria me matar. Até que tive a última tentativa de suicídio. Não lembro exatamente o motivo, só lembro que algum deles [dos monges] disse algo que foi a gota d’água para aquele meu momento de desespero”.

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Ilustração: Nicholas Steinmetz para o Intercept Brasil

O noviço assediador

Felipe, católico praticante desde criança, tinha 17 anos quando começou a frequentar o curso de liturgia do mosteiro. As aulas ensinam a preparação dos rituais católicos e servem como uma prévia para aqueles que querem se tornar seminaristas. Irmão Hugo, o noviço que, segundo Rodrigo, o havia assediado, era o responsável. Ele teria se tornado também o primeiro assediador de Felipe na instituição, como nos contou em São Paulo em uma conversa acompanhada pelo seu advogado, também realizada antes do início da pandemia.

Os primeiros contatos, lembra Felipe, hoje com 22 anos, pareciam inofensivos. Mas, com o passar do tempo, as mensagens enviadas pelo noviço para o seu Facebook e WhatsApp se tornaram mais explícitas. Perguntas como “Se importa se te chamar de lindo?”, “Vamos ao cinema comigo?” e “Deixa eu morder sua orelha…” eram acompanhadas por fotos de Hugo sem camiseta. Incomodado com a insistência do noviço, Felipe deixou o curso. Posteriormente, as aulas acabaram sendo interrompidas devido ao comportamento inadequado de Hugo com os seminaristas, fato que gerou a sua primeira expulsão do mosteiro.

A notícia da saída de Hugo se espalhou rapidamente pelos corredores. Sem a presença do seu assediador, Felipe diz que se sentiu seguro para voltar a frequentar a missa tridentina, uma das tradições do São Bento, celebrada em latim com canto gregoriano. O que ele não esperava era encontrar Hugo na sacristia, durante a consagração de uma dessas missas. Ele não só tinha voltado para o mosteiro, como havia professado votos dia 29 de março de 2016 para se tornar monge. “Na hora eu fiquei muito perturbado e me perguntando: ‘o que ele estava fazendo ali?’”, diz o jovem.

“No final da missa, perguntei: ‘você não tinha saído do mosteiro? O que houve? Por que voltou?’ Ele desconversou e falou que me explicaria depois”, conta. Nesse dia, Hugo o apresentou ao monge Pio Teixeira Duarte, que procurava alguém para trabalhar na alfaiataria do mosteiro. “Ainda fiquei pensando se aceitava ou não o trabalho, mas precisava, então, aceitei”.

Assim como quando entrou no curso de liturgia, Felipe diz que, a princípio, Hugo era inofensivo, mas logo passou a frequentar com assiduidade a alfaiataria e, segundo ele, o assediar novamente. “Ele chegava perto, me abraçava desnecessariamente, se aproximava por trás e ficava bem próximo da minha bunda. Aquilo tudo me incomodava, eu tentava me afastar, fingir que não havia nada demais, que era coisa da minha cabeça”, conta.

‘O meu sonho era ser padre, sabe? A partir daí, foi só ladeira abaixo’.

Felipe diz que foi aguentando a situação até conhecer Marcilio Proença, cujo nome religioso era Dom Francisco, e se sentir confortável para denunciar os abusos. O monge, também denunciado pelo MP, faleceu vítima de covid-19 em dezembro de 2020. Segundo o jovem, após contar sobre os assédios que vinha sofrendo, em vez de ajudá-lo, Dom Francisco tentou convencê-lo de que tudo era coisa de sua cabeça. Ele ainda o teria ameaçado, dizendo que se contasse para alguém aquela conversa, iria “tirar tudo” de Felipe, lembrando ao jovem que “o mosteiro tem bons advogados”.

O que Felipe não esperava, conta, era que, depois de ter confidenciado os abusos, o próprio Dom Francisco o assediasse também. “Uma vez, na alfaiataria, ele esbarrou em mim e levantou a minha camiseta. No dia seguinte, me perguntou: ‘por que você raspa o pelo do pau?’. Chocado, respondi: ‘como assim?’. ‘É que ontem vi que sua virilha está raspada’. Eu disse que fazia isso por uma questão de higiene, e ele continuou com essa conversa, dizendo ‘bom, eu tenho sangue europeu e não tenho pelos, sou lisinho, quer ver?’. E eu, obviamente, respondi que não queria”.

Nesse meio tempo, Hugo acabou saindo definitivamente do mosteiro. “Descobri que a primeira expulsão dele havia sido por conta dos assédios, então resolvi reler as mensagens que me mandava e comecei a pensar: ‘como não percebi isso antes para poder denunciá-lo?’”, diz. “Comecei a pensar que, se tivesse feito a denúncia, outros meninos não teriam passado por isso. Desenvolvi uma espécie de culpa por não ter feito nada e me sentia pior ainda por estar passando por uma série de assédios por parte do Dom Francisco, que foi a pessoa em quem eu confiei para contar sobre os assédios do Hugo”.

A rotina de assédios, diz, o levou a um quadro depressivo profundo. Em meio às frequentes crises de esquecimento desencadeadas pela doença, atrasou o pagamento da faculdade de direito que frequentava e, por conta disso, perdeu sua bolsa de estudos. Em maio de 2017, nove meses após ter iniciado o curso de liturgia no mosteiro, com dificuldade de respirar e a cabeça formigando, foi parar no Hospital São Paulo. A médica diagnosticou uma crise de pânico. Foi afastado do trabalho por 14 dias e começou um acompanhamento psicológico semanal. “Eu cheguei a esse ponto depois de meses sofrendo assédios sexuais e morais dentro do mosteiro. Tudo isso me decepcionou demais, me deixou no chão. O meu sonho era ser padre, sabe? A partir daí, foi só ladeira abaixo”, diz.

Por conta do trauma que viveu no mosteiro até julho de 2017, época em que abandonou a instituição, hoje Felipe vive sob efeitos de remédios tarja preta, tem problemas crônicos de insônia, desenvolveu mania de perseguição e tentou o suicídio mais de dez vezes. “Fiquei internado numa clínica psiquiátrica três vezes. A primeira vez fui forçado, as outras duas fui de forma voluntária”, conta.

O Irmão Hugo acabou sendo expulso da instituição pela primeira vez por um dos únicos religiosos que, segundo Rodrigo e Felipe, não fechava os olhos para as obscuridades que ocorriam dentro das muralhas do mosteiro. Conversamos com esse monge sob a condição de anonimato. Ele confirmou os relatos e declarou ainda que, após ter expulsado o noviço, o abade Dom Mathias acabou agilizando sua transferência para outro país.

‘Aquele que fala muito é cortado e não entra em nenhum lugar’.

No dia da expulsão, o abade não se encontrava no mosteiro, e o monge tomou as providências de iniciativa própria, fato que foi questionado  pela Tradição, Família e Propriedade, grupo do qual Hugo era proveniente. Após essa intervenção, o noviço foi readmitido no mosteiro pelo abade. Essa informação foi confirmada por outro monge que compõe o quadro dos beneditinos de São Paulo, também com a condição de anonimato, já que os dois temem retaliações dentro da congregação.

Dom Mathias nos respondeu, por meio da assessoria de imprensa do mosteiro, que “Hugo foi chamado de volta após a expulsão porque o monge que o mandou embora não tinha competência para tomar tal decisão”. Segundo ele, de acordo com as constituições da Congregação Beneditina do Brasil e do Direito Canônico, somente o abade [isto é, ele mesmo], após ouvir o conselho, poderia deliberar sobre isso.

Alguns meses após ter voltado ao mosteiro, o Hugo foi pego em flagrante enquanto tentava abusar de outro seminarista que, diante da violência, começou a gritar e pedir socorro. A vítima, que na época tinha 16 anos, foi contatada pela reportagem, mas preferiu não se manifestar. Dom Mathias afirmou que pediu explicações ao noviço, e sem questionar seus argumentos, o mandou embora.

Rodrigo contou ainda que ele e outros seminaristas que tentaram denunciar Dom João Baptista e seus companheiros abusadores chegaram a ser ameaçados de forma velada dentro do mosteiro. Alguns monges mais antigos, relembra, diziam coisas como “aquele que fala muito é cortado e não entra em nenhum lugar”, se referindo às demais congregações e instituições católicas além do Mosteiro de São Bento.

Fachada do Mosteiro e Igreja de São Bento, no centro de São Paulo, SP. (São Paulo, SP, 03.08.2012. Foto de Alf Ribeiro/Folhapress)

Ao tentar denunciar os religiosos abusadores, os jovens relatam que passaram a receber ameaças veladas dentro do mosteiro.

Foto: Alf Ribeiro/Folhapress)

A solidão do abuso

As coincidências que marcaram o início da trajetória de Rodrigo e Felipe no Mosteiro de São Bento vão muito além da fé que nutriam pelo catolicismo. Isso porque o primeiro assédio sexual que ambos sofreram dentro da instituição teria partido da mesma pessoa: Hugo. Os dois rapazes só descobriram a coincidência quando já haviam deixado o mosteiro. E foi então que resolveram se juntar para denunciar formalmente à justiça os abusos que sofreram na instituição e evitar que outros seminaristas passassem pela mesma situação.

Felipe conta que só soube que Rodrigo também foi assediado por Hugo quando resolveu visitá-lo no seu novo trabalho, em uma livraria católica no centro de São Paulo. “Eu soube do caso dele em 2018. Entrei na Loyola e perguntei como ele estava. Ele disse que estava meio depressivo. Aí eu resolvi jogar um verde, perguntei se tinha a ver com algum tipo de assédio ocorrido no mosteiro, ele disse que sim”.

Da conversa com o amigo, soube que outros colegas além dos dois também eram assediados. Ele diz que quase surtou: “aquilo me gerou um gatilho enorme, porque constatei que não acontecia só comigo, muitos de nós, seminaristas, estudantes ou empregados do mosteiro sofríamos com os assédios sexuais da parte dos monges que estavam ali para nos formar religiosamente”, diz. “Até então, o que me ‘confortava’ era o ‘azar’ de ter sido o único assediado ali dentro, só que depois descobri que não. E isso não me conformou, pelo contrário, essa constatação me deixou muito pior. Porque, se para mim, que sempre acreditei piamente no catolicismo, já é difícil passar por tudo isso – sofrer assédios, tentar suicídio, ter sido internado etc –, imagina para uma pessoa que não tem forte formação católica, mas que tem uma imagem de que todos na igreja são bons e, chegando lá, acontece isso? A pessoa não aguenta”.

Após conversar com Rodrigo e com a intenção de fazer uma denúncia interna sobre os assédios, Felipe também procurou o abade Dom Mathias. “Expus tudo a ele, inclusive mostrei as conversas de Josiel com o Rodrigo”, mas, segundo o jovem, o abade, assim como no caso de Rodrigo, se omitiu. “Ele viu e falou: ‘o quê? O Josiel não vai professar votos’. O Josiel professou votos logo depois e está no mosteiro até hoje. O abade acobertou mais um caso”,  diz Rodrigo.

Ao que parece, em 2010, o abade Dom Mathias tinha uma postura diferente. Pelo menos foi o que disse em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em 12 de abril daquele ano, quando foi categórico ao afirmar que os casos de pedofilia na Igreja Católica eram escandalosos e precisavam ser esclarecidos. “Tem de haver cobranças, esclarecer o que está acontecendo. Pois trata-se de pessoas que pregam valores. Então, é escandaloso. Defendo que se torne isso transparente”.

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O abade Dom Mathias foi afastado do comando do mosteiro pelo Vaticano em abril.

Foto: Diocese de Santo Andre?

Diante da omissão do abade, Felipe escreveu uma carta que foi entregue ao Vaticano por intermédio de um frei. A Santa Sé, que já havia instaurado uma investigação interna para apurar suspeitas de improbidade administrativa e abuso de poder do abade, decretou, em abril deste ano, a deposição de Dom Mathias do cargo. O Vaticano também suspendeu temporariamente a eleição para a escolha de um novo responsável pelo mosteiro. Dom Mathias foi mandado para o Mosteiro São Bento da Bahia, onde se encontra atualmente.

“Dom Mathias ocupou o cargo de abade por quase 15 anos, mas nos últimos oito ele passou a adotar um comportamento autoritário”, explicou um dos monges beneditinos que aceitou conversar conosco anonimamente. Segundo o monge, Dom Mathias não os ouvia e gritava o tempo todo. “Tinha gente aqui que estava abalada psicologicamente, oprimida, com depressão, que vivia trancado em seu quarto. Monges que estavam adoecendo por causa dessa situação”, disse.

O beneditino relata que era comum um monge ser mandado para o exterior quando batia de frente com o abade Mathias: “Não deixa de ser um exílio. Além do irmão que expulsou o Hugo e que foi mandado para Europa, temos outros dois casos. Um que foi estudar na França e decidiu não voltar mais para o Brasil e um outro que foi mandado para Roma e ficou por lá”.

Segundo o monge, com o início da pandemia a situação piorou. Além das reuniões que deixaram de ser feitas, eles tinham que lidar com a postura negacionista do abade. “Costumo dizer que o Brasil tem Bolsonaro, e nós [tínhamos] o Abade Mathias”, disse. “Há cerca de dois anos, ele passou a repetir todos os absurdos e bobagens ditas pela extrema direita. Ele propagava um discurso de extrema virulência contra pessoas de esquerda e era contrário à linha de pensamento do Papa Francisco”.

Procurada pela reportagem, a defesa dos quatro acusados, representados pelo Escritório Paz Mendes Sociedade de Advogados, limitou-se a dizer que “eles foram absolvidos sumariamente” e informou que não seria possível comentar o caso “em razão do sigilo profissional, bem como, visando preservar a intimidade de seu constituinte”. Esqueceram de citar que seus clientes não foram absolvidos. Apenas não foram julgados.