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Ilustração: The Intercept Brasil

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No mês passado, a rede de youtubers de extrema direita que inflama a base bolsonarista tomou um duro golpe no bolso. O Tribunal Superior Eleitoral determinou que o YouTube suspendesse a monetização de 14 canais que divulgaram desinformação sobre urnas eletrônicas. O pedido foi feito pela Polícia Federal, que investiga a rede no inquérito das fake news que corre no Supremo Tribunal Federal.

A rede de youtubers extremistas, no entanto, não esmoreceu: ela continua a convocar seguidores para o ato golpista de 7 de setembro.

A investigação da PF, feita primeiro para o inquérito dos atos antidemocráticos e depois para o das fake news, revelou indícios de “uma organização criminosa voltada a promover diversas condutas para desestabilizar a democracia”, segundo o ministro do STF Alexandre de Moraes.

As investigações revelaram que os 12 canais investigados receberam do Google mais de R$ 6 milhões em dois anos em anúncios no YouTube. O pedido da delegada Denisse Ribeiro, responsável pelas investigações, foi o de bloquear os repasses do YouTube aos donos dos canais – uma forma de fechar a torneira do financiamento golpista. O corregedor-geral do TSE, ministro Luis Felipe Salomão, aceitou o pedido no dia 16.

O Google, que até então mantinha os canais no ar sem nenhum incômodo – apesar de ter políticas que, teoricamente, proíbem que vídeos com desinformação ficassem no ar e fossem monetizados – foi finalmente obrigado a agir.

Folha Política, Universo, Ravox, Oswaldo Eustáquio, Vlog do Lisboa, Emerson Teixeira e Universo então entre os afetados pela medida. Na decisão, o valor que seria repassado aos canais pelo YouTube ficará em uma conta bancária atrelada à Justiça Federal. Uma estimativa do Estadão revelou que, juntos, esses canais podem faturar até R$ 15 milhões por ano.

Apesar da sanção, no entanto, eles permanecem em plena atividade, postando dezenas de vídeos com convocações para os atos golpistas de 7 de setembro – quase todos ainda precedidos por anúncios.

O site Folha Política, por exemplo, que teve a maior arrecadação com anúncios entre os investigados (quase R$ 3 milhões entre 2018 e 2021), postou dez vídeos só na terça-feira, 31 de agosto. “Bolsonaro alerta para importância de 7 de setembro, garante que agirá dentro das ‘4 linhas’ e adverte para inimigos ‘internos e externos'” era o título de um deles. Uma narração com voz robótica que reproduzia declarações do presidente foi precedida por um anúncio da empresa 1, 2, 3 Milhas, exibido de acordo com o perfil do visitante.

Os comentários deixados pelos espectadores em cada vídeo, com ataques ao STF e evocações religiosas, ecoavam o tom do dos conteúdos. “Salve esse Brasil presidente o povo não aguenta ser oprimido mais e obrigados a Tomar essa vacina”, diz um deles, com 55 likes.

Segundo estimativas feitas com calculadoras que consideram o preço pago pelo YouTube conforme o tamanho dos canais, o Folha Política faturava, em média, mil dólares por vídeo – ou R$ 5,1 mil, na cotação atual. Por mês, os ganhos variam de R$ 100 mil, em uma estimativa conservadora, a R$ 849 mil.

O valor total pago pelos anunciantes é dividido entre o YouTube e os donos dos canais. A porcentagem do dinheiro de anúncios que vai para a gigante não é pública, mas estima-se que gire em torno de 55%. Então, para cada milhão que seria embolsado pelos canais golpistas, saiba que o Google recebe mais do que isso. Não é à toa que os negócios estão prósperos, e só o YouTube tenha faturado mais de 6 bilhões de dólares em anúncios no último quarto do ano passado. E os números só aumentam.

Perguntei ao YouTube se a empresa continua recebendo a sua parte da publicidade após a suspensão dos repasses aos canais investigados. A assessoria de imprensa não respondeu. Disse apenas que o processo corre em sigilo e que “o YouTube já suspendeu o acesso à receita atribuída aos responsáveis pelos 14 canais indicados pelo TSE”. Ou seja: parece que o que está suspenso é apenas o repasse aos canais, não a (gorda) fatia que fica com o Google.

‘Censurados pelo STF’

Quase todos os canais dedicaram muitos vídeos ao desfile de moto de Bolsonaro por Uberlândia na terça-feira, 31 de agosto. Dos dez vídeos publicados pelo Folha Política, seis eram desdobramentos da exibição do presidente em Minas Gerais. Outro canal, o Nação Patriota, também fez exibições ao vivo do ato, enquanto o apresentador bradava contra o “autoritarismo de toga”, dando eco às manifestações de Bolsonaro contra os ministros Alexandre de Moraes e Luis Barroso.

O canal Ravox foi além, e dedicou uma live inteira para reclamar do STF e do TSE. “Vamos invadir o STF e congresso vamos ucranizar povo brasileiro vamos agir vamos”, concordava um comentarista. A ameaça é um crime tipificado em lei. Já o youtuber Emerson Teixeira chegou a postar um vídeo em que dizia “chega de conversinha”. Para ele, que se define como “mestre em Matemática pela Universidade de Brasília, direitista, católico, armamentista, patriota e atleticano” em seu canal com 13 milhões de visualizações, o “STF chegou no limite da aberração, assim como o Congresso”. O vídeo foi apagado por ele mesmo horas depois. A estratégia é conhecida: enquanto esteve no ar, foi assistido milhares de vezes e espalhado pelas redes. O estrago já estava feito.

Camila Abdo, do canal Direto aos Fatos, ia direto ao ponto: “vocês estão preparados para 7 de setembro?”, perguntou em um vídeo em que diz que o clima está esquentando e critica José Dirceu – que chama de “líder do Foro de São Paulo”, delírio olavista sobre uma suposta articulação globalista de esquerda ligada a facções criminosas.

Até mesmo o canal de Oswaldo Eustáquio, que chegou a ser preso por descumprir medidas restritivas impostas por Moraes por causa do inquérito dos atos antidemocráticos, está movimentado com a proximidade do 7 de setembro. Eustáquio havia sido proibido de acessar redes sociais, espalhar fake news e manter contato com outros membros da rede de blogueiros de extrema direita investigados pelo STF. Por ter descumprido a medida, acabou preso – pena que foi transformada em domiciliar no começo deste ano.

Mas, protegido pelo arquivamento do inquérito, suas redes voltaram a todo vapor. Só no YouTube, ele recebia por mês entre R$ 5 mil e R$ 20 mil com seu canal de 398 mil seguidores, segundo as calculadoras que estimam ganhos de canais.

Nesta semana, Eustáquio fez uma live com o líder dos caminhoneiros Zé Trovão, proibido pelo Supremo de se manifestar sobre os atos no novo inquérito aberto por Moraes. “Censurado pelo STF, Zé Trovão rompe o silêncio e diz que o Brasil vai parar” é o título do vídeo, que acumulou mais de 101 mil visualizações em dois dias.

Lucro expressivo

A investigação da Polícia Federal, sistematizada pelo Ministério Público Federal e incluída no inquérito dos atos antidemocráticos, mostrou que, entre 2018 e 2020, os 12 canais investigados receberam, no total, R$ 6,873 milhões do Google.

“Os números apresentados pelo Google sugerem que a monetização de conteúdo antidemocrático na sua plataforma de streaming, o YouTube, gerou um lucro expressivo para os respectivos ‘criadores’ e certamente muito mais para o provedor de internet que os remuneraram com centenas de milhares de dólares”, disse a Procuradoria-Geral da República, a PGR, na época. “A despeito da existência de indícios concretos de que a plataforma tinha conhecimento de que esses produtores estavam em desconformidade com as políticas e diretrizes do seu programa de parcerias”.

No inquérito, a Polícia Federal pediu que novas investigações fossem feitas para apurar o financiamento da rede de blogueiros, mas a PGR pediu o arquivamento do caso. O ministro Alexandre de Moraes acabou arquivando o inquérito dos atos antidemocráticos, mas abriu outro para aprofundar as investigações da rede de canais e blogueiros que atacam a democracia – o que se desdobrou na decisão do TSE de suspender a monetização dos canais.

Segundo ele, as investigações “apontaram fortes indícios da existência de uma organização criminosa voltada a promover diversas condutas para desestabilizar e, por que não, destruir os Poderes Legislativo e Judiciário a partir de uma insana lógica de prevalência absoluta de um único poder nas decisões do Estado, sem qualquer possibilidade de controle ou fiscalização, nos moldes constitucionais; pregando-se, portanto, a imposição de uma ditadura, em desrespeito total à ordem constitucional vigente, que consagra a Democracia e o Estado de Direito”.

Apesar das investidas de Moraes e das fartas evidências sobre conteúdo mentiroso e golpista, os canais permaneceram no ar. As regras de comunidade do YouTube vetam monetização a vídeos com desinformação, discurso de ódio, assédio e bullying virtual. Mas basta assistir a alguns minutos para dar check em algumas dessas categorias, seja nas falas dos próprios youtubers ou nos comentaristas. O Google, no entanto, parece avaliar que as regras não se aplicam a esses canais: o YouTube apagou por iniciativa própria apenas só 47 vídeos de 27 canais de extrema direita no Brasil.

Nem mesmo o inquérito do STF, que desenhou as ligações dos grupos, fez a rede social mudar sua abordagem: só o canal da extremista Sara Winter foi removido – uma das razões foi o show de horrores que ela protagonizou ao expor uma menina de 10 anos, vítima de violência sexual. Outro, o de Marcelo Frazão, precisou de uma reportagem do Intercept que revelou estratégias da extrema-direita para burlar regras para ser varrido do YouTube.

Foi só com a determinação do TSE que a monetização dos canais foi suspensa. Procurado, o YouTube se limitou a enviar uma nota protocolar. Perguntei se a rede social removeu ou desmonetizou vídeos que continham conteúdo relacionado aos atos de 7 de setembro, se removeu ou desmonetizou canais ou vídeos mencionados nos inquéritos do STF e se tem alguma política que proíbe conteúdo com ameaças à democracia.

“O YouTube é uma plataforma de vídeo aberta e remove conteúdo que esteja em desacordo com suas diretrizes da comunidade“, disse a rede social, sem responder às minhas perguntas diretamente. “Todo o conteúdo disponível no YouTube está sujeito às nossas regras, que definem tanto o que aceitamos na plataforma como que tipo de conteúdo está apto a gerar receita“.