Imagem: Reprodução/Jean-Baptiste Debret

Hoje é dia de muita gente comemorar a independência: a de não lavar os próprios pratos, a de não limpar a própria casa, a de almoçar fora aos domingos sem precisar cuidar dos filhos, a de não levar o próprio cachorro para fazer cocô. Dia de ir bravamente para as ruas faça chuva ou faça sol, com a certeza de que a roupa verde e amarela estará poucos dias depois cheirosa e bem passada na gaveta. Hoje é dia de pendurar a bandeira do Brasil na SUV e dar voltas pelas cidades gastando a gasolina de quase sete reais o litro. Aquele carro confortável, vistoso, onde cabem o marido do bem, a esposa do bem, os filhos do bem e a babá.

Para eles, exceto a última, hoje é mais um dia da independência.

Hoje também é mais um dia de milhares de mulheres buscarem, através de colegas, internet ou grupos de WhatApp, oportunidades de emprego como domésticas, diaristas, cozinheiras, faxineiras, babás, “faz-tudo”. São pessoas como Raiana Silva, 25 anos, recentemente espancada pela então empregadora Melina Esteves França em Salvador. Para se livrar da agressora, a moça pulou do terceiro andar do apartamento no qual trabalhava cuidando dos trigêmeos de Melina.

São pessoas como Cleonice Gonçalves, 63, que trabalhava como cozinheira há 20 anos para uma família no Leblon, zona sul carioca. Sua casa ficava a duas horas dali, em Miguel Pereira. Diabética e hipertensa, Cleonice morreu depois de contrair o coronavírus que a patroa trouxe das férias na Itália. São pessoas como Mirtes Renata, 35, que, como sabemos, perdeu o filho Miguel depois de se afastar dele para passear com a cadelinha da família de Sari Corte Real. Sari, que também empregava a avó de Miguel, Marta Alves, 61, estava fazendo as unhas quando o menino caiu do nono andar do apartamento dos Corte Real, em Recife. São pessoas como Madalena Gordiano, 47, que passou quatro décadas sem salário, sem folga e sem férias, trabalhando para a família de Maria das Graças Milagres, em Minas Gerais.

Para elas, hoje é dia de buscar um trabalho que pode significar, literalmente ou quase, a morte.

Segundo nos conta a realidade brasileira, estão hoje espalhados pelas ruas muitos patriotas que não perdem tempo se preocupando com a bandeira ultra vermelha da energia elétrica, o botijão de gás a mais de R$ 100 e o aumento de 103,79% no valor do óleo de soja ou de 76,01% no preço do arroz: são nostálgicos que querem um determinado Brasil de volta, um Brasil no qual havia mais “independência”. Nele havia, por exemplo, a maravilhosa oportunidade de “contratar” uma empregada de maneira informal, sem que isso pesasse no bolso, sem carteira assinada, sem INSS e sem jornada específica de trabalho. Mulheres que de preferência viessem do interior e pudessem dormir no emprego (como era o caso de Cleonice), ficando assim mais tempo à disposição dos patrões – ou seja, a liberdade era um presente de Deus para eles, não para elas. Mas a regulamentação do trabalho doméstico em 2015, entendem os curiosos patriotas, feriu de morte a independência de sair à noite para tomar um vinhozinho com os amigos sem precisar pagar adicional noturno por isso.

Permanece o forte sentimento escravocrata da propriedade da vida de alguém.

Há hoje, em lugares como a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e nas Avenidas Paulista, São Paulo, e Boa Viagem, Pernambuco, quem sinta nostalgia de um país ainda mais distante, como o Brasil de 1964, ano no qual aconteceu o golpe militar que retirou do poder o presidente eleito João Goulart. Naquele momento, um número até agora desconhecido de meninas desaparecia não exatamente por conta de questões políticas: eram sequestradas para trabalharem em casas de família no mesmo regime de escravidão vivido há pouco tempo por Madalena.

Uma delas foi Maria Eulália Rodrigues, sequestrada por homens a bordo de um jipe da PM em Caruaru na metade dos anos 60, quando tinha apenas 9 anos de idade. Foi enviada para o Sul do país para trabalhar como doméstica e babá. Quando falei com Eulália, ela contou que, ao chegar na casa da primeira família sequestradora, que intermediou sua ida para o Rio Grande do Sul, foi levada ao banheiro. Ali, foi lavada com a ajuda de um esfregão: acharam-na escura e “selvagem” demais. A menina foi estuprada em seu segundo dia na casa. Eulália nunca mais encontrou a mãe ou os irmãos.

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Maria Eulália, sequestrada nos anos 60 para trabalhar como babá.

Foto: Reprodução

No Brasil, que a cada 7 de setembro deveria olhar para si mesmo e observar para quem está reservado o luxo da independência e para quem está reservada a sina da morte, as formas de exploração conseguem mesclar, com diferentes pesos, estes passados recentes e não tão recentes. Permanece o forte sentimento escravocrata da propriedade da vida de alguém aliado agora a ideias aparentemente moderninhas como a “otimização” do trabalho e a redução de custos.

Há poucos dias, através do perfil @desin.fluencer no Instagram (mantido pela farmacêutica clínica Priscilla Rezende), conheci as dicas que a coach Fabi Donato vende para suas clientes. “Você repete sempre as mesmas coisas para sua empregada doméstica? Ou você fala e ela continua fazendo do jeito errado?”, lemos em um dos posts. A ideia, segundo a autointitulada “especialista em Alta Performance” é capacitar “com empatia” empregadas domésticas e mostrar a importância de um “trabalho diferenciado”.

Essa capacitação pode incluir o controle do telefone das funcionárias, como ela ensina no vídeo “Eu combinei isso com minha doméstica sobre o uso do celular e deu certo“. Nele, ouvimos Donato contando que pede para a empregada não levar o aparelho quando vai limpar “ali para dentro de casa”, e sim deixá-lo na lavanderia, à sua vista. “E aí, começou uma atividade, terminou aquela atividade, vai lá, toma uma água, quer dar uma olhada no telefone? Pode ir, mas é aquela olhada sem entrar em rede social e para ver se realmente tem uma coisa importante”.

Empatia, meus amores.

O revelador no perfil é que não é a profissional que limpa, passa e cozinha a sugerir as dicas, e sim a patroa que quer alto rendimento e nos brinda com aulas intituladas como “saiba o porque a empregada doméstica perde tempo na cozinha“, “aqui está o porque a sua empregada doméstica mensalista perde o foco nas tarefas“, “é isso o que acontece quando você não sabe falar com sua doméstica” e “eu não tenho tempo de fazer gestão com a minha doméstica mensalista“.

Fotos: Reprodução/Instagram

Reparem que as trabalhadoras são tratadas quase sempre no possessivo pela coach que, vejam só, cita Nelson Mandela em seus posts. Esse “minha empregada” (como “meu estagiário”) é um ato não falho muito comum no Brasil que só há pouco mais de 100 anos encerrou a escravidão e que se acostumou a terceirizar quase todas responsabilidades pagando muito pouco por isso.

Aliás, no post “como sua doméstica pode ser mais dedicada“, a coach elogia a organização de uma empregada que enrola perfeitamente as toalhas de banho no armário, algo que ela não fazia antes. É o reconhecimento dessa qualidade – cuidar bem da casa da patroa –, e não aumentos salariais, melhores condições de emprego, creche, etc. que, em tese, vão gerar mais dedicação da funcionária (!). Pelo argumento, fica claro que o foco não é a empregada, mas sim as novas e conectadas sinhás. Ou melhor: o foco é a independência e a liberdade das novas e conectadas sinhás.

Bolsonaro e boa parte de seus apoiadores não veem problema nenhum em ir para protesto levando, além de uma indignação de classe, a babá.

“As profissionais desse ramo não se valorizam e não encaram a profissão com seriedade, elas se acham meras fazedoras de bico!!! Triste realidade, querem muitos benefícios e não querem cumprir os compromissos (…) na esperança de um dia elas acordarem pra realidade”, diz um comentário de uma sinhá no perfil, mostrando sua insatisfação com as mensalistas/diaristas.

A fala diz tudo: são justamente os tais benefícios garantidos na chamada PEC das Domésticas (FGTS, jornada de trabalho fixada em oito horas diárias, pagamento de horas extras, etc.) aquilo o que dói nos corações acostumados a ser servidos com máxima presteza e mínimo custo. O então deputado federal Jair Bolsonaro, hoje nas ruas semeando o desejo de um país como o de 1964, foi uma das vozes contrárias às garantias trabalhistas das domésticas.

Bolsonaro e boa parte de seus apoiadores e apoiadoras, além da turma não bolsonarista mas neo-liberalíssima e que acha uma frescura esse negócio de direitos para empregada, não veem problema nenhum em ir para protesto levando, além de uma indignação de classe, a babá. Esse fenômeno não é novo. Em 2016, nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, vimos a família do advogado Claudio Pracownik à frente de um carrinho de bebê empurrado pela professora e babá Maria Angélica Lima, imagem que se tornou uma espécie de símbolo de nossa desigualdade de cor e classe.

Infelizmente, parte da imprensa iluminou muito mal o fato, como é o caso na matéria linkada aqui: levantou-se a bola de que, se Maria Angélica era a favor dos protestos, não havia nenhuma questão a ser problematizada ali. Normalíssimo então que duas pessoas brancas, adultas e bem alimentadas caminhem à frente de uma mulher preta que cuida de seus bebês. A independência está com os patrões – e Deus, igualmente feito por eles uma propriedade, também.

Lugar de mulher?

No Brasil, o serviço doméstico é justamente um dos campeões em empregabilidade de mulheres, a maioria negra. Somos o país com o maior número de domésticas no mundo: são mais de 6 milhões, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. Menos de 30% delas trabalham com carteira assinada e direitos trabalhistas como férias, 13º salário e jornada de trabalho regular.

Um levantamento sobre a participação feminina no mercado de trabalho (com vínculos registrados)  mostrou que os serviços de faxineira, babá, cozinheira e trabalhadora de serviços de limpeza estão entre as 20 profissões mais ocupadas por mulheres. São empregos mal remunerados exercidos por milhares de pessoas que tocam, muitas vezes sem ajuda de companheiros, os custos da própria casa. Atualmente, o piso salarial de uma empregada doméstica ou de uma babá é de um salário mínimo, abaixo da inflação. É entre as pessoas mais pobres, aliás, que a alta de 9% acumulada nos últimos 12 meses tem impacto ainda maior: segundo o Ipea, esta população sente quase o dobro da inflação em relação aos mais ricos. Soma-se a isso nosso recorde de desemprego e subemprego, maior entre as mulheres.

É por isso que, para aquelas que garantem a independência dos patrões, estes supostos proprietários de pessoas e de Deus, o aumento do gás e da energia, do óleo de soja e do arroz, importa – e muito. É por isso que, para elas, faxineiras, diaristas, “faz-tudo”, babás, mensalistas, a única saída é muitas vezes um emprego que pode levá-las a uma condição de constrangimento – como não ter o controle do próprio aparelho celular – ou ao ato radical de pular do terceiro andar para não ser espancada pela empregadora.

É subserviência – ou morte.

*Um adendo: as redes sociais sobrevivem e premiam o engajamento gerado por likes e comentários. Por isso, esta coluna não traz, propositalmente, o link para o perfil da coach citada.