Uma rede de profissionais de saúde embolsou milhões de dólares com consultas online e vendas de hidroxicloroquina e ivermectina, de acordo com dados vazados enviados ao Intercept. Os dados mostram que vultosas somas estão sendo extraídas de pessoas preocupadas ou infectadas com a covid-19, mas que resistem às vacinas ou às demais recomendações das autoridades de saúde pública.

O grupo de direita America’s Frontline Doctors (“Médicos na Linha de Frente da América”) foi criado no ano passado para promover médicos pró-Trump durante a pandemia do coronavírus. Eles estão atuando em conjunto com uma pequena rede de empresas de saúde para semear a desconfiança em relação à vacina contra a covid-19, ludibriar milhares de pessoas com tratamentos ineficazes para a doença, e então vender consultas e milhões de dólares desses remédios. Os dados mostram que os pacientes gastaram pelo menos 15 milhões de dólares – e possivelmente muito mais – entre consultas e medicamentos.

O Intercept obteve centenas de milhares de registros de duas empresas, CadenceHealth.us e Ravkoo, mostrando como funciona a lucrativa operação. A America’s Frontline Doctors, AFLDS, vem espalhando desinformação altamente politizada sobre a covid-19 desde meados de 2020, e encaminha seus seguidores para a parceira de telemedicina SpeakWithAnMD.com, que usa a plataforma Cadence Health. As pessoas que se inscrevem pagam 90 dólares por uma consulta telefônica com “médicos treinados pela AFLDS”, que prescrevem tratamentos como hidroxicloroquina e ivermectina para prevenir e tratar a covid-19. Os remédios são entregues pela Ravkoo, um serviço que aciona as farmácias locais para enviar medicamentos diretamente aos pacientes. E claro, isso quando os pacientes sequer chegam a fazer a consulta; muitos clientes contaram à revista Time que nunca receberam a ligação depois de pagar.

Os dados dos sites Cadence Health e Ravkoo foram fornecidos ao Intercept por um hacker anônimo. Ele declarou ter sido “ridiculamente fácil” invadi-los, a despeito das promessas de respeito à privacidade dos pacientes. Os dados foram corroborados por meio de comparação com informações disponíveis ao público. O Intercept não está divulgando dados individuais de nenhum paciente, e tomou medidas para proteger esses dados. Na sequência do contato feito pelo Intercept, Roque Espinal-Valdez, da Cadence Health, declarou ter fechado a plataforma, por não querer qualquer envolvimento com lucros decorrentes de “charlatanismo” com a covid-19.

A America’s Frontline Doctors, que surgiu em meados de 2020, tem vínculos estreitos com uma rede de direita dedicada a sabotar a saúde pública durante a pandemia, na qual se incluem os Tea Party Patriots (“Patriotas do Tea Party”). A médica Simone Gold, fundadora da AFLDS, foi presa e denunciada depois do violento ataque ao Capitólio dos EUA em 6 de janeiro. Ela e outros médicos aparecem em vídeos amplamente compartilhados, defendendo que os remédios hidroxicloroquina e ivermectina – usados, respectivamente, para tratar malária em seres humanos e parasitas em rebanhos – seriam tratamentos efetivos contra a covid-19, a despeito dos alertas da Organização Mundial de Saúde, a OMS, e do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, o CDC, contra esse uso.

O grupo extremamente partidário também engana o público em relação às vacinas contra covid-19, às quais se referem como “agentes biológicos experimentais”, e se opõe às medidas de saúde pública como vacinação obrigatória, uso de máscaras, distanciamento social e restrições às empresas. Em um vídeo intitulado “A verdade sobre as vacinas contra covid-19″, que recebeu mais de 1,3 milhão de visualizações, Gold argumenta falsamente que a covid-19 não é muito letal e que as vacinas seriam mais perigosas que o próprio vírus. Mais de 690 mil americanos já morreram do vírus, e as pessoas não vacinadas representam atualmente 99% das mortes recentes por covid-19.

“A desinformação pode ser muito poderosa para fazer as pessoas comprarem produtos.”

“A desinformação pode ser muito poderosa para fazer as pessoas comprarem produtos”, explicou ao Intercept a Dra. Kolina Koltai, do Center for an Informed Public (Centro para um Público Informado) da Universidade de Washington, que pesquisa a desinformação sobre vacinas em comunidades digitais. “A America’s Frontline Doctors conseguiu potencializar isso em grande escala”.

Os dados hackeados incluem informações sobre 281 mil pacientes, criadas no banco de dados da Cadence Health entre 16 de julho e 12 de setembro de 2021 — 90% desses pacientes foram indicados pela AFLDS. Apenas nesses dois meses, os pacientes pagaram cerca de 6,7 milhões de dólares em consultas. Os dados também incluem anotações sobre as consultas telefônicas dos pacientes, que algumas vezes contêm históricos médicos e informações sobre prescrições.

O CEO da Cadence Health, Roque Espinal, declarou ao Intercept que não tinha ciência do esquema, e que a Cadence Health apenas fornecia uma plataforma de teleconsultas para a SpeakWithAnMD.com, seus pacientes e médicos. “Fiquei totalmente estupefato. Tive que pesquisar exatamente quem eram essas pessoas”, disse ele. “Estou completamente vacinado. Meus filhos estão completamente vacinados. Estou agora tentando entender alguma coisa disso.” Depois de conversar com o Intercept em 27 de setembro, Espinal declarou ter rescindido os serviços da SpeakWithAnMD. Ele acrescentou: “Eu não quero estar associado a nenhuma porcaria dessas. Nada desse charlatanismo que está acontecendo.” A plataforma de telemedicina da SpeakWithAnMD, que depende da Cadence Health, está atualmente fora do ar.

“[A SpeakWithAnMD] não faz parte do movimento antivacina, e não nos opomos à vacinação”, declarou ao Intercept Jim Flinn, um agente de relações públicas da Encore Telemedicina, controladora do site.

“A American Frontline Doctor’s [sic] leva essas questões muito a sério”, declarou em comunicado ao Intercept um dos advogados da America’s Frontline Doctors, Thomas Gennaro. “Para a AFLDS, a confidencialidade e os resultados positivos da relação médico-paciente são fundamentais. É do nosso conhecimento que as informações sobre isso foram repassadas ao FBI, e a AFLDS iniciou uma auditoria independente e está respondendo à questão com a máxima atenção.”

O hacker também forneceu registros de 340 mil receitas médicas processadas pela Ravkoo para fornecimento entre 3 de novembro de 2020 e 11 de setembro de 2021 – num total estimado de 8,5 milhões de dólares em custo de medicamentos. A maior parte das prescrições nas receitas, na ordem de 46%, são de hidroxicloroquina ou ivermectina, e outros 30% são de zinco ou azitromicina, os outros dois medicamentos ineficazes que os médicos da SpeakWithAnMD, supostamente treinados pela America’s Frontline Doctors, prescrevem em suas consultas de covid-19.

“Levamos muito a sério os vazamentos de dados”, disse ao Intercept o CEO da Ravkoo, Alpesh Patel. Patel alega que a Ravkoo teria deixado de fazer negócios com a SpeakWithAnMD e a AFLDS no final de agosto, porque “o volume ali foi uma loucura, e não nos sentíamos confortáveis. Além disso, não temos capacidade para fornecer medicamentos prescritos em tantas receitas.” Os dados vazados mostram que eles processaram centenas de outras receitas para a AFLDS nas primeiras semanas de setembro. “Podem ter sido renovações ou receitas que ficaram retidas e foi preciso honrar o fornecimento dos medicamentos”, alega Patel.

A OMS tem recomendação contrária ao uso de hidroxicloroquina no tratamento da covid-19 por se tratar de medicamento ineficaz com possíveis efeitos adversos. Os cardiologistas alertam que a hidroxicloroquina, tomada em conjunto com a azitromicina, uma combinação que o ex-presidente Donald Trump defendia abertamente, aumenta os riscos de arritmia cardíaca e pode ser fatal. O CDC aconselhou as pessoas a não tomarem ivermectina, alegando que o medicamento pode causar “doenças graves”. A Food and Drug Administration, FDA, agência regulatória de medicamentos e alimentos nos EUA, emitiu alertas semelhantes, e ainda tweetou: “Você não é um cavalo. Você não é uma vaca. Sério, pessoal. Parem com isso”, com um link para um artigo explicando por que tomar ivermectina para covid-19 pode causar problemas sérios de saúde.

Pelo menos um dos prescritores tem ciência de que os especialistas médicos são contrários ao uso desses medicamentos para prevenir ou tratar a covid-19, e mesmo assim os prescreveram, segundo os prontuários médicos. Um médico incluiu em suas anotações no prontuário de diversos pacientes o seguinte aviso: “Eu, [nome do médico], tenho plena ciência do recente comunicado da OMS, do FDA, do CDC e do NIH, de 5 de março de 2021, no que concerne ao uso e à prescrição de hidroxicloroquina e ivermectina. Entendo que esses dois medicamentos foram considerados ‘Altamente Não Recomendados’ pelos mencionados órgãos de supervisão médica, mas não é ilegal prescrevê-los. (…) Expliquei que não serei responsabilizado em âmbito médico ou judicial por reações adversas caso o paciente opte por fazer uso desses remédios, e que não poderei ser acusado de negligência ou erro médico, nem processado civil ou criminalmente.”

Desde a semana passada, o receituário passou a mostrar um aviso semelhante para todos os pacientes. “Como paciente em potencial, reconheço e compreendo que a Hidroxicloroquina (HCQ) e a Ivermectina foram consideradas ‘Altamente Não Recomendadas’ pelos órgãos OMS, FDA, CDC e NIH”, diz o aviso. “Caso um paciente decida não informar adequadamente seu histórico médico, o clínico não poderá ser responsabilizado, nem as licenças médicas em qualquer estado poderão ser revistas ou cassadas.” Para prosseguir, os pacientes devem marcar uma caixa com os dizeres “Estou ciente”.

“Na promoção da relação médico/paciente, nossos profissionais estão plenamente registrados e atuam dentro das normas e regulamentos da profissão médica”, declarou Flinn, o representante da controladora do SpeakWithAnMD. “Caso um telemédico no programa Speak decida que uma medicação aprovada pelo FDA é adequada, ele poderá prescrevê-la ‘off-label’ para qualquer condição médica que julgue adequada.”

Gráfico: Soohee Cho/The Intercept

Médicos “Extremamente Pró-Trump”

As bases para a America’s Frontline Doctors foram lançadas em 11 de maio de 2020, em uma teleconferência entre um alto funcionário da campanha de reeleição de Trump e o grupo ativista Republicano CNP Action. Eles teriam discutido a busca por médicos “extremamente pró-Trump” que pudessem aparecer na TV e defender o plano de Trump de reabrir rapidamente a economia, a despeito das orientações de segurança mais cautelosas emitidas pelo CDC.

Então, em 24 de junho do ano passado, Gold criou no Arizona uma organização sem fins lucrativos, chamada Free Speech Foundation (Fundação pela Liberdade de Expressão), com um orçamento anual de um milhão de dólares e patrocínio fiscal da Tea Party Patriots Foundation (Fundação dos Patriotas do Tea Party). A America’s Frontline Doctors, um projeto dessa organização, foi lançada em 27 de julho de 2020. Gold, que a NPR confirmou ter um registro médico na Califórnia, juntamente com outros médicos vestindo jalecos brancos, organizou uma coletiva de imprensa na escadaria do prédio da Suprema Corte, onde alegou falsamente que um coquetel de hidroxicloroquina, azitromicina e zinco poderia “curar” a covid-19. Stella Immanuel foi uma outra médica do grupo que deu a coletiva na escadaria do tribunal, afirmando que o uso de máscaras era desnecessário. Immanuel ganhou fama viral com a divulgação de que ela teria alegado em outros tempos que a endometriose, uma doença do útero, seria causada por sexo com demônios durante os sonhos. O evento foi transmitido ao vivo pelo site de direita Breitbart, e os vídeos, compartilhados no Twitter pelo então presidente Trump, tiveram milhões de visualizações nas redes sociais, antes de serem removidos pelas empresas de tecnologia por violarem as regras contra desinformação na pandemia. Mais recentemente, o grupo vem promovendo a ivermectina como uma cura milagrosa para a covid-19.

“[A AFLDS] é muito boa em manipular os dados científicos para fazer parecer que a vacina não é segura, ou não foi testada, ou não é necessária, e por isso eles tiveram especial impacto no último ano ou mais”, disse Koltai.

Mas não foi até o começo de 2021, depois que 345 mil norte-americanos já haviam morrido na pandemia, que a America’s Frontline Doctors começou a fazer propaganda em seu site das consultas de telemedicina, por 90 dólares, para receber prescrições de tratamentos alternativos para covid-19.

Em 3 de janeiro, Gold declarou a um grupo de fiéis aglomerados e sem máscara de uma igreja em Tampa, na Flórida, que a America’s Frontline Doctors teria “disponibilizado a hidroxicloroquina para o país inteiro por meio do acesso ao nosso website”. Um vídeo da palestra, “A verdade sobre a vacina contra covid-19″, teve 1,3 milhão de visualizações no Rumble, um site de hospedagem de vídeos, depois de ser removido pelo YouTube. “Então você pode se consultar com um médico de telemedicina. E se você tiver ou não covid, ou se só estiver preocupado em não pegar covid, pode obter uma receita que será enviada a você pelo correio.” Ela acrescentou, então, “que a grande luta não é contra o vírus, mas contra o medo”.

Simultaneamente, a America’s Frontline Doctors começou a encaminhar seus seguidores para consultas de telemedicina. O site conduz os possíveis clientes por uma série de perguntas preliminares antes de direcioná-los para o site SpeakWithAnMD.com. “Descubra como obter receitas de medicamentos contra covid-19 com nossos médicos treinados pela AFLDS em apenas três passos simples”, está escrito no site, logo acima de um botão em destaque com “Obter Medicamentos”.

Cadastro para uma consulta de covid-19 com a America's Frontline Doctors. Capturas de tela obtidas em 20 de setembro de 2021.Imagens: The Intercept

A AFLDS atinge seu público por meio de diversas plataformas de mídia social. Gold, a fundadora do grupo, tem mais de 340 mil seguidores no Twitter e regularmente publica conteúdo antivacina, como este vídeo do podcaster Joe Rogan com alegações falsas de que teria sido curado da covid-19 usando ivermectina e outras drogas comprovadamente ineficazes contra o vírus.

Em 25 de setembro, Gold criou uma conta no Gab, uma rede social muito difundida entre extremistas de direita, e já tem mais de 36 mil seguidores e milhares de comentários em sua página. A página da AFLDS no Facebook tem 112 mil seguidores, o canal de Telegram tem 184 mil assinantes, e 28 mil pessoas estão inscritas no canal do grupo no Rumble.

Sua propaganda antivacina também aparece em newsletters de conteúdo religioso, como esta, de um grupo chamado Bridge Connection Ministries, onde um anúncio da AFLDS pergunta: “Você foi exposto à covid por alguém que foi recentemente VACINADO?”

Newsletter do grupo Bridge Connection Ministries. Captura de tela: The Intercept

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Newsletter do grupo Bridge Connection Ministries.

Captura de tela: The Intercept

Cadence Health

Os dois meses de registros de pacientes a que o Intercept teve acesso mostram que a AFLDS encaminhou mais de 255 mil pessoas para terem acesso a médicos e obterem supostos tratamentos contra covid-19. Dessas pessoas, 72 mil pagaram 90 dólares por consultas telefônicas, e muitas delas tiveram consultas de retorno ao custo de 59,99 dólares cada uma. Os dados vazados da Cadence Health não incluem os dados de pagamento, mas fazendo as contas, apenas nesse período de dois meses os pacientes teriam desembolsado mais de 6,7 milhões de dólares só por consultas telefônicas. Esses dados não incluem todas as consultas telefônicas de 90 dólares que foram feitas entre janeiro e julho, quando a SpeakWithAnMD aparentemente lidava diretamente com os formulários dessas consultas, segundo versões arquivadas do site. O site de telemedicina aparentemente estaria cobrando diretamente dos pacientes, e não das empresas de seguro-saúde.

Espinal alega que a Cadence Health não coletava dados de pagamento por cartão de crédito, e que as cobranças de 90 dólares pela telemedicina usavam o processamento de pagamentos da SpeakWithAnMD. Espinal informou ao Intercept que cobrava da SpeakWithAnMD um total de 17.500 dólares pelo uso da plataforma, e que a SpeakWithAnMD teria sido seu primeiro e único cliente.

Depois que o Intercept entrou em contato com as empresas em 27 de setembro, a controladora do SpeakWithAnMD, Encore Telemedicina, teve uma reunião de emergência com advogados da AFLDS, como informado por Espinal, que participou rapidamente da reunião pelo Zoom. “Havia 16 advogados”, disse ele ao Intercept, embora Gold não estivesse presente. Espinal contou que teria dito aos advogados “estou encerrando imediatamente o contrato com vocês”, e saído. Em seguida, ele tirou do ar o serviço da Cadence Health, impedindo a SpeakWithAnMD de operar.

Os dados vazados da Cadence Health dão informações sobre os próprios pacientes. Dos 72 mil pacientes naquele período de dois meses, 58% eram mulheres, 28% eram homens, e 4% escolheram não responder essa pergunta. Embora pessoas de todas as idades tenham se consultado com os profissionais de saúde da AFLDS, isso era mais comum entre as de 50-60 anos que entre outros grupos etários. Segundo dados fornecidos pelo CDC, os pacientes de covid-19 com idades entre 50 e 64 anos têm quatro vezes mais chances de serem hospitalizados e trinta vezes mais chances de morrer que aqueles entre 18 e 29 anos. Os pacientes com idades entre 65 e 74 anos têm cinco vezes mais chances de serem hospitalizados e noventa vezes mais chances de morrer.

Pessoas de todos os estados nos EUA, incluindo Washington, D.C., buscaram os tratamentos ineficazes contra covid-19. Cerca de 8.600 pessoas da Califórnia pagaram pelas consultas de 90 dólares, bem como 8 mil da Flórida e 7.400 do Texas. Mais de mil pessoas em cada um dos outros 21 estados consultaram profissionais de saúde por meio do serviço. Os únicos estados com menos de mil pacientes foram Delaware e Vermont. As cidades de Houston, Las Vegas, Phoenix e Jacksonville todas tiveram mais de 300 pacientes.

Este mapa, com base nos dados vazados, mostra quantas pessoas procuraram tratamentos ineficazes contra covid-19 em cada cidade, para cidades com pelo menos 10 usuários. Cada ponto está mapeado sobre o centro geográfico da cidade. Nenhum endereço residencial individual está representado no mapa.

Ravkoo

A Ravkoo processou sua primeira receita de hidroxicloroquina pela AFLDS apenas dez dias depois do discurso de Gold, “A verdade sobre a vacina contra covid-19″, em 13 de janeiro. Nos dados da receita, no campo “observações” consta “AMERICAS FRONT LINE DOCTORS – ENCORE”.

Nos dados vazados, cada uma das receitas que a Ravkoo processou para fornecimento entre 3 de novembro de 2020 e 11 de setembro de 2021 traz um valor. Ao somar os valores de cada tipo de medicamento, constata-se que a farmácia online teria cobrado dos clientes um total de 4,7 milhões de dólares em ivermectina; 2,4 milhões em azitromicina; 1,2 milhão em hidroxicloroquina; 175 mil em zinco; e 52 mil em vitamina C. Aparentemente, a maior parte desses medicamentos teria sido paga individualmente, e não por meio de seguradoras. Apenas 500 dólares desse total teriam sido pagos por meio de seguro saúde. Patel disse ao Intercept que a Ravkoo não desconta um percentual sobre as vendas, e que a plataforma entrega as receitas para farmácias locais – “exatamente como o Uber”, segundo ele – mas não esclareceu maiores dúvidas sobre o modelo de negócios da Ravkoo.

O Better Business Bureau, uma organização americana de proteção ao mercado, avisa que existem “alertas atuais” contra a Ravkoo, que tem apenas uma estrela de cinco possíveis. Clientes reclamam que a farmácia teria ignorado ligações e e-mails sobre receitas da AFLDS de medicamentos contra covid-19.

Em 2 de setembro, a farmácia respondeu às reclamações feitas ao Better Business Bureau, alegando que “não somos mais afiliados à AFLD [sic] ou ao speakwithanmd.com. Estamos trabalhando diligentemente para resolver esse problema.” Os dados vazados, porém, incluem 268 receitas que mencionam a AFLDS entre 2 e 11 de setembro, a data em que a Ravkoo foi hackeada.

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Gráfico: Soohee Cho/The Intercept

Indagado sobre as razões para a maior parte das receitas processadas pela Ravkoo para fornecimento aparentemente se referirem a tratamentos ineficazes contra covid-19, Patel explicou: “não controlamos quem nos envia negócios. Digamos assim: não temos contratos formais com nenhuma empresa em particular. Os pacientes podem nos enviar negócios.” A Ravkoo poderia “encontrar para os nossos pacientes farmácias que conseguem fornecer ivermectina a um custo mais baixo. Então os pacientes conversam entre si, e é assim que o negócio pode ter – que a America’s Frontline pode ter nos conhecido e começado a mandar clientes para nós.”

Patel também alegou que teria recebido “uma carta de ameaça de um dos médicos dizendo ‘ei, se você não fornecer os medicamentos da receita, vou processar você’. Então os farmacêuticos ficam numa posição muito difícil nisso.”

“Ridiculamente fácil” de invadir

“O espaço inteiro de medicina online e telemedicina é meio Velho Oeste, pela forma como a pandemia forçou todo mundo a lidar com a telemedicina de uma vez só”, disse ao Intercept um experiente advogado da Electronic Frontier Foundation, Lee Tien.

Os sites envolvidos nessa operação de telemedicina foram todos criados durante a pandemia para se beneficiar desse Velho Oeste. Os registros de transparência de certificados, que listam quais certificados SSL são criados, e quando, mostram que o domínio speakwihanmd.com foi configurado pela primeira vez em março do ano passado, ravkoo.com, em setembro do ano passado, e cadencehealth.us, em fevereiro deste ano.

Embora a pandemia tenha popularizado a telemedicina, “os pacientes ainda precisavam ir à farmácia buscar os medicamentos prescritos, e foi daí que tivemos a ideia de criar uma plataforma de entrega de medicamentos, oferecendo entrega no mesmo dia no país inteiro”, disse Patel ao descrever suas motivações para fundar a empresa.

O hacker contou ao Intercept que os sites da Cadence Health e da Ravkoo foram “ridiculamente fáceis” de invadir. Os sites de ambas as empresas tinham controles de acesso quebrados, um dos erros mais comuns de segurança em aplicativos web.

O site Cadence Health só validava as entradas de dados do lado do cliente, não do lado do servidor, de acordo com o hacker. Isso significa que, quando um usuário acessa o site de telemedicina da forma normal, carregando o site em seu navegador, só consegue acessar seus próprios dados, mas se ele escrever um programa que tente acessar outros dados no servidor, o servidor responderá com esses dados. O hacker simplesmente pediu ao servidor todos os dados de pacientes.

O site da Cadence Health se descreve como a “Plataforma VirtualCare mais segura com certificação PCI e em conformidade com a HIPAA”. “Nosso site ainda está em desenvolvimento”, disse Espinal ao Intercept. “Ainda nem sequer temos conteúdo. Isso não deveria estar no ar.”

O site da Ravkoo tinha um “painel de administração oculto em que todos os usuários podiam fazer login e ver os dados”, de acordo com o hacker. Usando esse painel de administração, o hacker conseguiu extrair todos os dados de receitas na farmácia online. A vulnerabilidade no site da Ravkoo parece ter sido resolvida, segundo o hacker, que procurou novamente o Intercept depois de verificar.

“É bem possível que [as empresas] tenham violado a HIPAA por terem uma segurança tão frágil”, entende Tien. A HIPAA, Health Insurance Portability and Accountability Act, ou Lei de Portabilidade e Responsabilidade de Seguros de Saúde, é uma lei federal que determina que os prestadores de serviços de saúde impeçam a divulgação de “informações de saúde dos pacientes” consideradas sensíveis, sem ciência ou consentimento deles. A atual regra de segurança definida pela HIPAA exige que os prestadores “implementem políticas e procedimentos técnicos que permitam acesso apenas de pessoas autorizadas a informações eletrônicas de saúde protegidas”.

A HIPAA também define a violação à regra de notificação, e exige que os prestadores de serviços de saúde “notifiquem os indivíduos atingidos tão logo descoberta uma violação”, em até dois meses depois da descoberta. Os prestadores devem notificar individualmente os pacientes atingidos, por correio prioritário ou e-mail, e se as informações de contato de um número expressivo de pacientes estiverem desatualizadas, precisam publicar um comunicado em seu próprio site ou em “mídias impressas ou de radiodifusão onde os indivíduos atingidos possivelmente residam”. Caso a violação tenha atingido mais de 500 pessoas, como no caso da Cadence Health e da Ravkoo, também é exigido que elas “notifiquem os principais veículos de mídia” que atendem à jurisdição onde os pacientes vivem.

Embora as regras da HIPAA tenham sido flexibilizadas durante a pandemia para acomodar a telemedicina, os prestadores de serviços de saúde ainda precisam proteger as informações sensíveis que coletam sobre a saúde dos pacientes.

As empresas seguem apontando dedos entre si. Espinal, CEO da Cadence Health, disse ao Intercept que o banco de dados de pacientes está hospedado na conta da Amazon Web Services (AWS) que pertence à Encore Telemedicina, e que sua empresa não tem acesso a esses dados. Flinn, o agente de relações públicas que atende à Encore, insiste que o banco de dados está na conta AWS da Cadence, não na da Encore.

“Seguir o dinheiro é muito importante”, destacou Koltai, do Centro para um Público Informado.

Tradução: Deborah Leão