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Ilustração: The Intercept Brasil, Getty Images

Há um ditado alemão que – sinal dos tempos – vem sendo repetido com frequência nas redes, a ponto de se aproximar da exaustão: “Se um nazista se senta à mesa com 10 pessoas e ninguém se levanta, então há 11 nazistas.”

O que é uma ilustração no dito popular se materializa em realidade nessa nossa terra com cada vez menos palmeiras e canto de sabiás: somos, neste exato momento, milhões compartilhando a mesa não somente com nazistas, mas com toda sorte de pessoas que enxergam o outro como inimigo caso este não siga suas crenças ou modos de vida. E com o inimigo, vocês sabem, não há conversa: precisamos apenas exterminá-lo.

Essa grande mesa vem recebendo cada vez mais intolerantes e criminosos, seja segurando um copo de leite, uma Bíblia ou uma mandala. Nela se ouvem a piada racista, o comentário homofóbico, a decisão misógina ou transfóbica, todas muitas vezes cobertas com os inocentes títulos de “opinião” ou “brincadeira”. É justamente aqui que o cano do revólver brilha: nessa grande nação recalcada que somos, adoramos nos ver como o povo manso desse Brasil que canta e é feliz, feliz, feliz. Assim, deixamos de confrontar – seja no nível pessoal, coletivo ou institucional – essa violência escancarada que vai se galvanizando mais e mais na língua e na alma. Escolhemos um cínico “tem que ver os dois lados”, um “ele está só brincando” e assim continuamos à mesa, muito simpáticos, sorrindo para o nazista. Agora, eles estão se espalhando sobre as palmeiras e comendo os sabiás.

– Você quer uma banana?

Segurando a fruta na mão, um rapaz identificado como Aristides Mathias Flach Braga, pergunta, em inglês, se uma menina negra gostaria de comer a fruta. Ela não compreende bem o que está acontecendo, e o jovem começa a imitar um macaco. Enquanto isso, ouvimos algumas pessoas sorrindo.

Aristides é filho de Alexandre Braga, comissário aposentado da Polícia Civil do Rio Grande do Sul. O vídeo foi divulgado pelo arquiteto Antônio Isupério que, dias antes, havia recebido ameaças através de mensagens privadas vindas de uma conta com o nome de Aristides: “a gente vai te achar e o que a gente vai fazer contigo é do tamanho do patamar de aqueles vídeos dos chilenos cortando a cabeça dos caras”. O perfil ainda o chama de “macaco” e “preto fedido”. As ameaças e ofensas aconteceram depois que Isuperio postou sobre Israel Soares, homem que surge nas redes divulgando “recebidos” de objetos nazistas e fazendo saudações nazi (é isso mesmo, o cara se chama ISRAEL e é anti-semita).

Isso aqui, ô-ô, é um pouquinho de Brasil, iá-iá.

O caso de Isuperio, que abriu boletim de ocorrência digital na Polícia Civil do Rio Grande do Sul e uma representação no Ministério Público do estado, é só uma pequena mostra de quem está sentado hoje à nossa mesa, na maioria das vezes com o silêncio e/ou a passividade da Justiça e da imprensa. Atualmente, existem mais de 300 células de supremacistas identificadas no país, um número recorde que se expande graças também à ajuda do presidente Jair Bolsonaro (ele nunca escondeu sua simpatia por esses grupos, como já mostramos aqui no Intercept).

Na receita desse caldo, também é cada vez maior a dose de monstrificação de mulheres que buscam diminuir qualquer desigualdade entre elas e os homens: perfis anti-feministas, boa parte se intitulando cristãos, investem em palavras como “assassinas”, “cadelas”, “promíscuas”, “degeneradas”.

Um exemplo desse processo de construção da inimiga que deve ser eliminada pode ser vista no Instagram do chamado Clube Anti-feminista criado pela deputada estadual bolsonarista Ana Campagnolo, de Santa Catarina (imagens abaixo). Ali, uma ilustração mostra uma garota de cabelos coloridos vestindo apenas shorts, que parece representar uma feminista. Ela está ao lado de uma mulher esguia, com um crachá da ONU, e de George Soros, o maior filantropo do mundo. Os três seguram a cabeça decepada de Jesus Cristo, colocada sobre um tecido branco empapado de sangue.

Deputada bolsonarista Ana Campagnolo criou um perfil onde destila ódio contra feministas e população LGBTQIA+.Fotos: Reprodução/Instagram

“Atenção: essa publicação denuncia violência, não faz apologia a ela”, diz a legenda mais que cínica: o texto que se segue não traz nenhuma informação sobre atos violentos de feministas, mas sim uma propaganda do curso ministrado por Campagnolo, que se monetiza propagando ódio contra pessoas que já são alguns dos alvos preferenciais da violência no país. Ela provavelmente acha pouco: é clássica a sua foto com um porrete no qual está escrito “direitos humanos”. É puro ódio em um país no qual se fala mais em comunismo e perigo LGBTQIA+ do que em alternativas à fome e ao desemprego recordes.

Estes discursos não podem ser entendidos como casos isolados e de importância pequena: a menos de um ano das eleições, é nítido o investimento de grupos diversos na desumanização daqueles que consideram “dissidentes”. Para citar apenas um único e terrível caso, o compositor Moa do Katendê foi assassinado com 12 facadas por Paulo Sérgio Ferreira de Santana, de 36 anos, após dizer que havia votado em Fernando Haddad (PT) nas eleições de 2018, como concluiu o inquérito policial.

“Não estávamos preparados para essa avalanche de ódio”, diz o promotor de justiça Maxwell Vignoli, do Ministério Público de Pernambuco. Integrante do núcleo LGBT do MPPE, ele e diversas outras pessoas da instituição sofreram um ataque nazista durante um webinário sobre população idosa realizado ano passado: Vignoli estava abrindo a primeira mesa, que tratava sobre direitos voltados para pessoas idosas LGBT, quando começou a tocar o hino da Alemanha nazista (1933-1945). “Começaram então as ofensas: disseram que eu não ia falar, chamaram as mulheres de puta, piranha. O webinário foi suspenso e não voltou a acontecer. Fiquei muito atemorizado não só por mim, mas por minha família.”

Um ponto crucial para que as ações da Justiça sejam mais efetivas, diz Vignoli, é a coletivização dos ataques, muitas vezes entendidos apenas como injúria qualificada (quando se ofende a dignidade do outro utilizando elementos referentes a raça, cor, etnia, religião, condição de pessoa idosa ou com deficiência. A pena é de um a três anos de reclusão e multa). “É preciso entender a gravidade geral dessa prática, verificar o prejuízo para toda democracia, não apenas para uma pessoa, para casos isolados. É angustiante repetir isso.”

Pude experimentar um pouco dessa raiva há exatas duas semanas, quando escrevi sobre mulheres e grupos que se intitulam como femininas em contraponto às feministas. No texto, preferi não mostrar as tantas imagens de monstrificação das mulheres que havia encontrado dado o grau de toxidade. Minhas redes passaram a receber comentários que iam desde a já comum superioridade moral de quem entende Cristo como propriedade privada (“não existe feminista cristã”) a ofensas como “burra”, “nojenta”, “podre”, “mentirosa”.  Mesmo mulheres evangélicas ou católicas que testemunharam no meu post sobre experiências machistas no interior de suas igrejas ou congregações foram atacadas. Era o caldo do ódio escorrendo na tela do celular.

Um fenômeno claro que observei ali era justamente a vasta incapacidade para estabelecer diálogos também através da discordância. Um texto balizado com pesquisa, escutas e argumentos – que podem, claro, ser refutados – é logo classificado como “ataque” caso ele vá contra crenças pessoais. Mas, definitivamente, não é o silêncio que vai nos proteger – muito pelo contrário.

Perguntei a uma “feminina cristã” se os altos índices de violência contra a mulher não eram uma questão pública (ela acredita que o problema pode ser resolvido com “mais amor” nos lares) e ela respondeu que as políticas públicas brasileiras eram enviesadas ideologicamente, pois não seguiam a Bíblia. Eu lembrei que o Estado é laico e que havia milhões de pessoas que seguiam outras religiões no Brasil. Ela disse que não gostaria de continuar a conversar sobre aquilo.

Horas depois, conclamou suas mais de 10 mil seguidoras a visitar meu perfil no Instagram. Um olavista com mais de 80 mil seguidores na mesma rede compartilhou o post da “feminina”. Foi quando o “podre” e “nojenta” começaram a pipocar. Li dias depois o texto de Eliane Brum falando como a apreensão religiosa da realidade está destruindo a linguagem e a humanidade e lembrei imediatamente dessa conversa.

É preciso dizer que ali, no meio do caldo, algumas mulheres cristãs que não concordavam com meu texto abriram um diálogo salvador, sem lançar mão da ironia e da ofensa. Foram poucas, mas estavam lá. Agradeço a todas.

É também o pouco de uma raça – que não tem medo de fumaça.

Um abraço para Sueli

Quero retomar nossa docilidade com os nazistas, racistas e demais outrofóbicos à mesa lembrando como não só os toleramos como lhes cedemos espaço. Há poucos dias, invocando a proteção da pluralidade, um dos maiores jornais do país abriu espaço para que um homem branco pudesse dizer que mulheres negras deveriam parar de olhar nosso passado escravocrata com tanto peso e se inspirar nas sinhás pretas e ricas existentes ali.

Na sua percepção parca, completamente carregada do dualismo que ele critica, não nos abraçamos à beleza, à música, ao saber e ao celebrar se também estamos conscientes da geringonça de matar gente que foi a escravidão. Não nós, que não somente estamos cientes da história, mas que ainda vivemos o saldo de séculos de trabalho cativo (impresso, por exemplo, na cara e no gênero de quem mais trabalha no serviço doméstico no Brasil). Não foi a primeira vez que a outrofobia do rapaz foi disseminada no ar: ano passado, ele conseguiu em um só comentário na CNN unir homens gays a HIV e promiscuidade. Foi demitido da emissora, mas, é claro, já encontrou guarida.

“A gente não teve uma legislação segregativa em relação ao negro no Brasil, o nosso racismo é por aproximação, diferente dos EUA e da África do Sul. Aqui há uma simulação de afeto entre ambas as partes, tanto com racista quanto com pessoas negras. Temos essa tolerância grande com racistas. Ninguém entende que o país tem uma ‘democracia racial’ feita em cima da violência”, diz Antônio Isuperio sobre o jeitinho brasileiro de tratar o assunto.

Sueli Carneiro, que há pouco tempo entrara no novo e “mais diverso” conselho editorial da Folha, pediu para sair.

Me pergunto até que ponto a fala do colunista é pessoal ou o quanto ela está difundida no próprio ethos do periódico: vocês conseguem imaginar, por exemplo, uma mulher negra ou qualquer outra pessoa escrevendo ali que judeus deveriam “superar” o horror do Holocausto e focar nas tantas histórias de sucesso após os eventos terríveis que toda aquela população sofreu? Seria um escândalo, e com razão.

Mas a distinção e hierarquização entre estes crimes contra a humanidade foi outra coisa que também aprendemos a fazer bem: basta, recalcados, repetir que não somos racistas e que vivemos em uma só nação democrática e miscigenada. Basta nos auto-conferirmos a pecha de iluministas abertos à diversidade. Assim, continuamos à mesa celebrando com os nazistas, os misóginos, os racistas. “Ei, cadela abortista!”, “ei, preto que pesa arroba!“, “ei, viadinho de merda!” (…)

– Ah, mas que é isso, gente, deixa quieto. Eles estão só brincando.

 

  • O podcast Roteirices traz dois excelentes episódios nos quais o jornalista Carlos Alberto Júnior entrevista o pesquisador Michel Gherman, da UFRJ, sobre o nazismo à brasileira. O caso de Isuperio está sendo investigado pela Polícia Civil.